Sustentabilidade Deixa De Ser Agenda Ambiental E Passa A Condicionar Crescimento, Finanças E Competitividade

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  • Uma colectânea dirigida pelo economista Péter Halmai propõe a sustentabilidade como novo paradigma da ciência económica. Crescimento potencial, equilíbrio fiscal, demografia, cadeias de abastecimento, sistema monetário internacional e financiamento verde passam a integrar uma mesma equação de estabilidade económica de longo prazo.
Questões-Chave:
  • Sustentabilidade económica exige compatibilizar crescimento, estabilidade macroeconómica, inclusão social e preservação do capital natural;
  • Crescimento acima da capacidade produtiva pode gerar inflação e desequilíbrios, enquanto expansão persistentemente inferior ao potencial conduz à estagnação;
  • Alterações demográficas afectam a força de trabalho, as despesas sociais, as receitas fiscais e a trajectória da dívida pública;
  • Competitividade sustentável depende do desenvolvimento equilibrado de instituições, infra-estruturas, educação, tecnologia e mercados financeiros;
  • Cadeias de abastecimento, redes logísticas e relações geopolíticas passaram a determinar a resiliência das economias;
  • Bancos centrais, bancos comerciais e seguradoras enfrentam novos riscos relacionados com o clima e a transição energética;
  • Para Moçambique, sustentabilidade económica pressupõe transformar recursos naturais em capacidade produtiva, capital humano e diversificação;

A sustentabilidade está a deixar de ser tratada apenas como uma agenda de protecção ambiental para assumir uma posição central na análise do crescimento, da estabilidade macroeconómica, da competitividade e do funcionamento do sistema financeiro.

Esta evolução é examinada na obra Sustainability in Economics: Theoretical Foundations, Applications, uma colectânea de 532 páginas dirigida pelo economista Péter Halmai e publicada pela Akadémiai Kiadó, Universidade Metropolitana de Budapeste e Banco Nacional da Hungria.

A obra reúne estudos de mais de 30 especialistas e organiza a sustentabilidade em três grandes dimensões: questões macroeconómicas, relações económicas internacionais e financiamento verde.

Numa recensão publicada na edição de Junho de 2026 da Financial and Economic Review, Bettina Balázs considera que a principal contribuição do livro está na apresentação da sustentabilidade como um novo paradigma económico, dentro do qual as limitações naturais, económicas e sociais passam a fazer parte das decisões sobre crescimento e desenvolvimento.

A abordagem rompe com a ideia de que uma economia é sustentável apenas porque reduz emissões ou adopta fontes renováveis. Sustentabilidade significa também manter contas públicas equilibradas, elevar a produtividade, adaptar-se às mudanças demográficas, construir instituições credíveis, proteger o sistema financeiro e reduzir a exposição a choques externos.

Crescimento Sustentável Não É Apenas Crescer Mais

Um dos principais contributos da obra é a distinção entre crescimento efectivo e crescimento potencial.

O produto potencial representa o nível de produção que uma economia pode alcançar utilizando os seus factores produtivos sem gerar desequilíbrios persistentes. Quando a produção cresce acima dessa capacidade durante um período prolongado, podem surgir inflação, aumento excessivo do crédito, défices externos e valorização artificial de activos.

Quando a produção permanece abaixo do potencial, a economia perde investimento, emprego, receitas fiscais e capacidade de convergência.

O estudo de Péter Halmai sobre crescimento sustentável defende que a avaliação da economia não deve limitar-se à taxa anual de expansão do Produto Interno Bruto. É necessário compreender se esse crescimento resulta de produtividade, investimento, qualificação do trabalho e inovação ou se depende essencialmente de consumo, endividamento, exploração intensiva de recursos e condições externas temporariamente favoráveis.

Esta distinção é particularmente relevante para economias exportadoras de matérias-primas. Uma subida dos preços internacionais pode aumentar o PIB e as receitas públicas sem necessariamente elevar a capacidade produtiva de longo prazo.

Para converter um ciclo favorável em desenvolvimento sustentável, as receitas extraordinárias precisam de financiar infra-estruturas, educação, saúde, tecnologia, diversificação empresarial e instituições capazes de sobreviver ao período de abundância.

Capital Natural Passa A Integrar A Riqueza Económica

A colectânea recupera algumas das principais referências que transformaram o pensamento económico sobre sustentabilidade, desde o relatório Os Limites do Crescimento, publicado pelo Clube de Roma em 1972, até ao Relatório Brundtland, ao Stern Review, ao modelo DICE de William Nordhaus e à abordagem do capital natural desenvolvida no Dasgupta Review.

Em conjunto, estes trabalhos questionam a medição da prosperidade exclusivamente através do fluxo de bens e serviços produzidos num determinado ano.

Uma economia pode apresentar crescimento do PIB enquanto reduz o seu stock de florestas, degrada os solos, esgota recursos hídricos ou aumenta a exposição das populações a desastres climáticos. A produção corrente cresce, mas a base de riqueza que sustentará a actividade futura diminui.

A abordagem baseada em activos defende que o desenvolvimento deve ser avaliado considerando o conjunto de capitais disponíveis: físico, humano, financeiro, institucional e natural.

Esta leitura tem implicações directas para países ricos em recursos. A extracção de gás, carvão, minerais ou madeira só representa criação sustentável de riqueza quando parte do valor obtido é convertida em outros activos produtivos capazes de gerar rendimento depois do esgotamento ou redução da procura por esses recursos.

Energia E Alimentos Concentram Riscos Climáticos

A análise económica das alterações climáticas apresentada no livro atribui particular atenção aos sistemas energético e alimentar.

A energia está no centro da transição porque sustenta a produção, o transporte, a urbanização e o funcionamento das empresas. Ao mesmo tempo, permanece entre as principais fontes de emissões.

A transformação do sector exige expansão das energias renováveis, redes eléctricas mais eficientes, armazenamento, redução das emissões e políticas capazes de assegurar que a transição não comprometa o acesso à energia nem produza aumentos insustentáveis de custos.

Na agricultura, os riscos decorrem da alteração dos padrões de precipitação, aumento das temperaturas, degradação dos solos e ocorrência mais frequente de eventos extremos.

Os efeitos não serão uniformes. Regiões e sectores com menor capacidade de adaptação poderão enfrentar perdas mais intensas, mesmo quando a sua contribuição histórica para as emissões tenha sido relativamente reduzida.

Para economias africanas dependentes da agricultura, o investimento em regadio, sementes adaptadas, armazenamento, informação meteorológica e seguros agrícolas deixa de ser apenas política social. Torna-se parte da estratégia de estabilidade macroeconómica, segurança alimentar e protecção das contas externas.

Demografia Altera A Equação Fiscal

A sustentabilidade também possui uma dimensão demográfica. O estudo de Ádám Marton analisa os efeitos da redução da natalidade, do aumento da esperança de vida e do envelhecimento da população sobre o crescimento e as finanças públicas.

Uma população mais envelhecida pode reduzir a proporção de trabalhadores activos, limitar a expansão da oferta de mão-de-obra e aumentar as despesas com pensões, saúde e assistência social.

Nos países com populações jovens, o problema apresenta outra configuração. O aumento da população em idade activa pode constituir um dividendo demográfico se for acompanhado por educação, formação, emprego e investimento produtivo.

Sem estas condições, a expansão demográfica aumenta a pressão sobre escolas, hospitais, habitação, transportes e emprego, sem produzir um aumento proporcional da produtividade e das receitas públicas.

A sustentabilidade demográfica depende, portanto, da capacidade de converter crescimento populacional em capital humano e participação económica.

Para Moçambique, esta relação coloca a criação de emprego produtivo no centro da política de desenvolvimento. A sustentabilidade não será alcançada apenas pelo crescimento dos grandes projectos, mas pela capacidade de ligar esses investimentos à formação, às pequenas e médias empresas e às cadeias nacionais de valor.

Competitividade Requer Equilíbrio Entre Factores

A relação entre competitividade e crescimento é examinada através de indicadores do Fórum Económico Mundial e do International Institute for Management Development.

As conclusões apontam para a importância do desenvolvimento equilibrado das diferentes dimensões da competitividade. Uma economia pode possuir recursos naturais ou custos laborais competitivos e, ainda assim, crescer abaixo do seu potencial devido à fragilidade das instituições, infra-estruturas deficientes, baixa qualificação ou reduzida profundidade financeira.

Nos países menos desenvolvidos, os maiores ganhos tendem a resultar da melhoria das infra-estruturas e instituições públicas. Nas economias mais avançadas, educação, inovação e mercados financeiros tornam-se factores relativamente mais importantes.

A implicação para a política económica é que os recursos devem ser dirigidos para os constrangimentos que mais limitam a produtividade. Construir infra-estruturas sem melhorar a governação, ou formar trabalhadores sem expandir empresas capazes de os empregar, produz resultados inferiores ao potencial.

Sustentabilidade e competitividade convergem precisamente nesta necessidade de coordenação. O crescimento duradouro resulta de um sistema no qual infra-estruturas, instituições, capital humano, financiamento e inovação evoluem de forma complementar.

Economia Mundial Funciona Como Uma Rede

A colectânea também interpreta a economia global como um conjunto de redes interligadas. São identificados cinco subsistemas principais: empresarial, logístico e de transporte, tecnológico e de recursos, geopolítico e de consumo.

Uma interrupção num destes subsistemas pode propagar-se rapidamente aos restantes. Um conflito numa rota marítima aumenta custos de transporte; a escassez de um componente tecnológico interrompe fábricas; uma sanção altera fluxos financeiros; e uma mudança no consumo modifica cadeias de produção distribuídas por vários países.

A sustentabilidade económica passa, assim, a incluir a capacidade de resistir, adaptar-se e recuperar de choques.

Esta visão ajuda a explicar por que razão eficiência e resiliência nem sempre coincidem. Cadeias extremamente concentradas podem minimizar custos em condições normais, mas tornam-se vulneráveis quando um único fornecedor, porto ou corredor logístico é interrompido.

Para países que procuram integrar-se nas cadeias globais, a oportunidade não consiste apenas em oferecer mão-de-obra ou matérias-primas. Consiste em construir infra-estruturas, capacidade logística, padrões de qualidade e instituições que permitam assumir funções de maior valor dentro dessas redes.

Domínio Do Dólar Entra Na Discussão

Outro estudo da colectânea analisa a sustentabilidade do sistema financeiro internacional dominado pelo dólar norte-americano.

O dólar continua a beneficiar da dimensão dos mercados financeiros dos EUA, da liquidez dos activos denominados na moeda e da sua utilização no comércio, nas reservas internacionais e nos contratos financeiros.

Entretanto, o crescimento da dívida, as tensões geopolíticas, a utilização de sanções e a procura de alternativas por algumas economias estão a estimular mudanças no sistema monetário internacional.

Os autores não antecipam uma substituição simples ou imediata do dólar. Apontam para uma evolução dinâmica, possivelmente marcada por maior utilização de outras moedas em determinadas regiões e transacções.

Para economias com moedas de reduzida utilização internacional, a questão central está na gestão do risco cambial. Dívida externa, importações de energia e contratos de matérias-primas denominados em dólares podem transmitir choques internacionais para os preços internos, as reservas e as contas públicas.

A sustentabilidade externa exige diversificação das exportações, reservas adequadas, gestão prudente da dívida e capacidade de gerar divisas através de actividades produtivas.

Bancos Centrais Passam A Medir Riscos Climáticos

A terceira parte da obra é dedicada ao financiamento verde e ao papel do sistema financeiro na transição.

Os estudos defendem que a transformação ambiental será difícil sem alterações na forma como bancos, investidores, seguradoras e bancos centrais avaliam e financiam os riscos.

As alterações climáticas produzem riscos físicos, associados a ciclones, cheias, secas e outros eventos, e riscos de transição, relacionados com mudanças tecnológicas, regulatórias e de mercado.

Uma empresa intensiva em carbono pode manter-se financeiramente viável nas condições actuais, mas perder valor se forem introduzidos impostos sobre emissões, novos padrões ambientais ou tecnologias concorrentes mais eficientes.

Os testes de esforço climático desenvolvidos pelo Banco Nacional da Hungria procuram estimar a forma como diferentes cenários afectariam a probabilidade de incumprimento das empresas e a qualidade dos activos bancários.

A integração destes riscos na supervisão deve, contudo, preservar os objectivos fundamentais dos bancos centrais, incluindo estabilidade de preços e solidez do sistema financeiro.

A credibilidade institucional é decisiva. Se as políticas verdes forem percebidas como inconsistentes, os investidores podem adiar decisões ou direccionar recursos para activos apenas formalmente sustentáveis.

Financiamento Verde Precisa De Resultados Verificáveis

A expansão do crédito verde, das obrigações sustentáveis e de outros instrumentos financeiros pode mobilizar recursos para energia renovável, eficiência, agricultura resiliente e infra-estruturas adaptadas ao clima.

O crescimento deste mercado também cria riscos de classificação inadequada e greenwashing, quando investimentos são apresentados como sustentáveis sem produzirem benefícios verificáveis.

A qualidade do financiamento verde depende de taxonomias claras, informação comparável, verificação independente e avaliação efectiva dos resultados.

Nos países em desenvolvimento, existe ainda o desafio do custo do capital. Muitas economias com maiores necessidades de adaptação enfrentam taxas de juro elevadas, mercados financeiros pouco profundos e limitada capacidade de preparar projectos financiáveis.

Transformar necessidades ambientais em investimentos exige estudos de viabilidade, modelos de receitas, mecanismos de partilha de riscos e instituições capazes de acompanhar a execução.

Sustentabilidade Exige Transformação Da Política Económica

A principal contribuição da obra dirigida por Péter Halmai consiste em mostrar que sustentabilidade não é um sector separado da economia.

Ela atravessa a política fiscal, monetária, comercial, industrial, energética, demográfica e financeira. Também modifica a forma de avaliar crescimento, risco, competitividade e riqueza.

Para Moçambique, esta abordagem oferece uma leitura particularmente relevante. O País dispõe de recursos naturais, potencial energético e uma população jovem, mas enfrenta limitações de infra-estruturas, produtividade, financiamento, exposição climática e dependência de produtos primários.

Uma estratégia sustentável deverá converter a exploração dos recursos em capital humano, capacidade produtiva, empresas nacionais, infra-estruturas resilientes e receitas públicas duradouras.

Isso significa avaliar os investimentos não apenas pelo volume financeiro anunciado ou pelo crescimento imediato que produzem, mas pela sua capacidade de expandir o produto potencial, diversificar a economia e preservar os activos necessários às gerações futuras.

A sustentabilidade torna-se, deste modo, uma disciplina de afectação eficiente dos recursos ao longo do tempo. O seu objectivo económico não é impedir o crescimento, mas assegurar que a expansão actual não destrua as condições institucionais, sociais, financeiras e naturais das quais dependerá o crescimento futuro.

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