
Turismo de rastos, COVID-19 no trono
O encerramento de hotéis, a suspensão e cancelamento da maioria dos voos, a interrupção de linhas de cruzeiro e o aumento das proibições globais de viagens devido a pandemia do COVID-19 estão a ter um efeito dominó catastrófico que afecta um grande número de prestadores de serviços turísticos em todo o mundo, estimando-se que cerca de um milhão de empregos são perdidos diariamente.
À semelhança do que sucede pelo mundo, o sector do turismo em Moçambique está sendo um dos mais afectados por esta pandemia. Os dados deste sector sugerem que num cenário optimista o desempenho do turismo poderá cair em cerca de 80% no primeiro semestre de 2020, o que se traduziria numa perda de aproximadamente 3.4 mil milhões de meticais. Já num cenário pessimista, para o mesmo período, poderá cair em cerca de 95%, o que se traduziria numa perda de negócio estimada em 4.6 mil milhões de meticais.
Uma das principais implicações do COVID-19 é a restrição do movimento de pessoas, uma medida que se deve, essencialmente, ao receio de novas contaminações e constitui um método de prevenção recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Todavia, embora a prioridade dos governos seja manter as pessoas seguras, a restrição à movimentação torna o sector do turismo um dos mais vulneráveis aos impactos desastrosos da pandemia, facto que pode ser observado a partir dos dados do Conselho Mundial das Viagens e Turismo (WTTC, sigla em inglês), os quais demonstram que cerca de um milhão de pessoas por dia perdem emprego na indústria de viagens e turismo.
A mesma entidade estima, ainda, que durante esta crise, o sector de viagens e turismo venha a perder cerca de 50 milhões de postos de trabalho, enquanto outros 320 milhões estão a ser claramente ameaçados.
Por outro lado, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês) estima que as perdas globais de receita do sector devem ficar entre 63 bilhões de dólares e 113 bilhões de dólares.
À semelhança do que sucede pelo mundo, o sector do turismo em Moçambique, que contribui com cerca de 5% no PIB, será o mais afectado por esta pandemia, sendo o seu impacto mais dramático por este ser um país, essencialmente, dependente do turismo internacional e de negócios.
Com um crescimento anual estimado em 10%, o turismo em Moçambique registou, de acordo com os últimos dados de 2018, do Instituto Nacional de Estatística (INE), 2.7 milhões de entradas de turistas estrangeiros. Este fluxo resultou em receitas na ordem de 5.08 mil milhões de meticais em 2018, representando um crescimento de 2.6% face ao igual período de 2017, um desempenho que será quebrado devido a esta catástrofe global de saúde.
De acorco com Rui Monteiro, representante da CTA, a área do turismo está a sofrer uma crise como nunca antes tivemos. “Nem no 11 de Setembro tivemos estas ocupações porque as pessoas embora tenham deixado de viajar em certos países naquela altura o turismo continuou noutros sítios. Hoje em dia é global mesmo. Portanto, deixou de existir turismo neste momento”, lamentou.
No entender de João das Neves, Secretário-geral da Associação das Agências de Viagem e Operadores Turísticos de Moçambique (AVITUM), tendo em conta que o desenvolvimento do turismo cria um efeito multiplicador em outras indústrias, esta crise tem um impacto significativo na economia. “Temos uma situação de risco de, pelo menos, 30 mil empregos que estão neste momento em situação vulnerável e depois há todas outras colaterais que não é possível neste momento prever o impacto directo”, explicou das Neves.
É difícil saber quando é que o processo de recuperação será iniciado. Porém, ciente de que momentos excepcionais exigem medidas excepcionais, governos e empresas privadas a nível internacional estão a implementar medidas de crise para proteger o sector turístico o máximo possível.
A nível do sector privado, sustenta das Neves, não há ainda uma clareza sobre isto. Pesa apenas uma enorme preocupação do dia-a-dia e de cada uma das empresas não saber como é que vai lidar, a curto prazo, com esta situação.
Para Rui Monteiro, por outro lado, só medidas robustas podem resolver o problema após o caos.
“Toda a cadeia de valor que implica o turismo vai sofrer bastante. É por isso que é preciso medidas bastantes fortes para mitigar toda esta cadeia de valor de forma que possamos sair e ter uma luz ao fundo do túnel quando isto acabar”, frisou Rui Monteiro.
João das Neves, entretanto, não tem dúvidas: “o turismo está de rastos. Esta é a situação real, crua e directa”.
É interessante notar, no entanto, que a crise decorrente desta pandemia, apesar de arruinar o sector turístico pode servir de aprendizagem para que os homens de negócios encontrem novas fórmulas para superar o problema.


















