Acordo assinado para permitir que as exportações de cereais sejam retomadas por via marítima

A Ucrânia e a Rússia assinaram acordos “paralelos” que permitirão a Kyiv retomar as exportações de cereais através do Mar Negro.

O acordo permitirá que milhões de toneladas de cereais, actualmente retidos na Ucrânia em sequência da guerra, sejam exportados.

A escassez mundial de grãos ucranianos, desde a invasão russa, de 24 de Fevereiro, deixou milhões em todo mundo em risco de fome.

No entanto, Kyiv recusou-se a assinar um acordo directo com Moscovo, e avisou que as “provocações” seriam alvo de “uma resposta militar imediata”.

Ambas as partes assistiram à cerimónia de assinatura em Istambul, mas, não se sentaram à mesma mesa. O Ministro da Defesa russo Sergei Shoigu assinou primeiro o acordo de Moscovo, seguido pelo Ministro das Infra-estruturas ucraniano, Oleksandr Kubrakov, que assinou o acordo idêntico de Kyiv.

O acordo, que levou dois meses a ser alcançado, tem uma duração prevista de 120 dias, com um centro de coordenação e monitorização a ser estabelecido em Istambul, composto por funcionários da ONU, turcos, russos e ucranianos. O acordo pode ser renovado se ambas as partes estiverem de acordo. O bloqueio dos cereais da Ucrânia causou uma crise alimentar global, com produtos à base de trigo como pão e massa a ficarem mais caros, e óleos alimentares e fertilizantes também a aumentarem de preço.

Os EUA exortaram a Rússia a agir rapidamente, com o porta-voz da Casa Branca, John Kirby, a dizer que era necessário “impedir que os mais vulneráveis do mundo deslizassem para uma insegurança e subnutrição mais profundas”.

Sergey Shoygu – Ministro da Defesa russo

O Sr. Shoigu disse, numa conferência de imprensa mais cedo, que o acordo poderia permitir “as soluções para iniciar este processo nos próximos dias”. “Estou a falar não só de iniciar a exportação de produtos agrícolas a partir de portos ucranianos, mas também, claramente, de trabalhar nesta direcção na exportação de produtos agrícolas e fertilizantes a partir de portos russos”, acrescentou ele.

De acordo com os diplomatas, nos termos do acordo:

– A Turquia – apoiada pelas Nações Unidas – inspeccionará navios, para acalmar os receios russos de contrabando de armas;

– As exportações russas de cereais e fertilizantes através do Mar Negro serão facilitadas.

António Guterres – Secretário-Geral da ONU

O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, disse à Orla Guerin, da BBC, que era provavelmente a coisa mais importante que ele tinha feito no seu tempo à frente do organismo internacional.

“Hoje, há um farol no Mar Negro”, disse ele à audiência reunida em Istambul. “Um farol de esperança”.

– Os estrangulamentos nas rotas de exportação de cereais da Ucrânia

– As fotografias fornecem provas de roubo de cereais russos

– Que quantidade de grãos está retida na Ucrânia?

Apenas a perspectiva de desbloquear mais de 20 milhões de toneladas de cereais ucraniano levou a uma queda de 2% nos preços do trigo na sexta-feira.

No seu discurso de sexta-feira à noite, o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, confirmou que o país tinha cerca de 10 mil milhões de dólares (£8,3bh) de cereais para vender.

No entanto, advertiu também Moscovo de que “poderia envolver-se em provocações, tentativas de desacreditar os esforços ucranianos e internacionais. Mas confiamos nas Nações Unidas”, afirmando que cabia à ONU garantir o acordo.

Mas o Sr. Guterres admitiu à BBC que a ONU não tinha meios de punir a Rússia caso violasse o acordo, mas acrescentou que seria “um escândalo absolutamente inaceitável e que toda a comunidade internacional reagiria de uma forma muito forte”. O Sr. Shoigu garantiu aos repórteres, após assinar o acordo, que a Rússia tinha “assumido as obrigações” ao abrigo do acordo, e que “não tirariam partido do facto de que os portos serão desobstruídos e abertos”.

A Rússia sempre negou bloquear os portos da Ucrânia, mas culpa a Ucrânia por colocar minas no mar e as sanções ocidentais por atrasar as exportações da própria Rússia. Num artigo destinado aos jornais em África, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, culpou o Ocidente e a Ucrânia pelas acusações “absolutamente infundadas”. Elogiou a “posição equilibrada dos africanos em relação ao que está a acontecer na Ucrânia e à sua volta”. A Ucrânia, contudo, diz que a marinha russa a impede de expedir cereais e outras exportações e acusa as forças de ocupação russas de roubar cereais das quintas ucranianas.

Alívio para África

O negócio da exportação de cereais também virá como um grande alívio para o Corno de África, diz Anne Soy da BBC, de Nairobi, Quénia. A região enfrenta, actualmente, graves carências alimentares causadas pela seca, e exacerbadas pela pandemia de Covid-19, uma rara invasão de gafanhotos e a guerra na Ucrânia.

…. Enquanto isso escalada de preços de alimentos prossegue

Uma das principais consequências da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, a par da crise energética e das pressões inflacionárias, está na escalada de preços dos alimentos. A confirmar este quadro, o Índice de preços de alimentos da FAO voltou a cair em Junho. Efectivamente, o indicador de preços globais dos
alimentos (FFPI) da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) somou 154,2 pontos em junho, queda de 2,3% face a Maio, marcando o terceiro mês consecutivo de declínio, embora ainda 29 pontos (23,1%) acima do valor do mês correspondente do mês passado.

Segundo a FAO, a queda em junho refletiu recuos nos sub índices dos óleos vegetais, junto com um declínio nos preços dos cereais e do açúcar. Enquanto isso, os preços dos produtos lácteos e da carne bovina subiram.

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