
Uganda Entra Na Era Do Petróleo Com Produção Projectada Em 230 Mil Barris Por Dia
• Kingfisher e Tilenga representam o núcleo de um investimento petrolífero de grande escala, apoiado pelo oleoduto de US$ 5 mil milhões que ligará os campos ao porto tanzaniano de Tanga.
- O Uganda pretende iniciar a produção comercial de petróleo até ao final de 2026, duas décadas após a descoberta das reservas;
- O país dispõe de aproximadamente 1,65 mil milhões de barris de petróleo recuperável na Bacia Albertina;
- O projecto Kingfisher, operado pela CNOOC, deverá atingir uma produção de até 40 mil barris por dia;
- O projecto Tilenga, liderado pela TotalEnergies, terá uma capacidade máxima próxima de 190 mil barris diários;
- A produção conjunta dos dois projectos poderá alcançar cerca de 230 mil barris por dia quando atingirem a capacidade máxima;
- O petróleo ugandês recebeu a designação comercial “Pearl Sweet”, como parte da preparação para as negociações com refinarias e compradores;
- O EACOP terá 1.443 quilómetros de extensão, capacidade próxima de 216 mil barris por dia e um investimento estimado em US$ 5 mil milhões;
- O Governo prevê arrecadar cerca de US$ 587 milhões em receitas petrolíferas no exercício financeiro de 2026/2027.
O Uganda prepara-se para iniciar a produção comercial de petróleo até ao final de 2026, entrando no grupo dos produtores africanos com uma capacidade projectada de 230 mil barris por dia através dos campos Kingfisher e Tilenga.
A entrada em produção ocorre cerca de duas décadas depois da descoberta de reservas comerciais na Bacia Albertina, localizada no oeste do país, junto à fronteira com a República Democrática do Congo.
O desenvolvimento está assente no projecto Kingfisher, operado pela China National Offshore Oil Corporation, e no Tilenga, liderado pela francesa TotalEnergies. A estatal Uganda National Oil Company (UNOC) participa igualmente nos empreendimentos.
O petróleo produzido pelos dois projectos será misturado e comercializado sob a designação “Pearl Sweet”, nome anunciado pelo Presidente Yoweri Museveni para posicionar o novo crude junto das refinarias e dos compradores internacionais.
A maior parte da produção será transportada através do East African Crude Oil Pipeline, um oleoduto aquecido de 1.443 quilómetros que ligará os campos ugandeses ao Porto de Tanga, na costa da Tanzânia.
Reservas Recuperáveis Atingem 1,65 Mil Milhões De Barris
O Uganda possui aproximadamente 1,65 mil milhões de barris de petróleo considerado recuperável.
As estimativas dos recursos existentes na Bacia Albertina são superiores, podendo aproximar-se de 6,5 mil milhões de barris. No entanto, apenas parte deste volume pode ser extraída nas condições técnicas e económicas actuais.
As reservas comerciais foram identificadas em 2006, mas o início da produção foi sucessivamente adiado devido a divergências entre o Governo e as companhias petrolíferas sobre o modelo de desenvolvimento, tributação, construção da refinaria e rota de exportação.
A inexistência de infra-estruturas para transportar o petróleo de um país sem acesso ao mar constituiu outro obstáculo. A solução encontrada envolve a produção nos campos Kingfisher e Tilenga, o transporte interno para a região de Hoima e a exportação através da Tanzânia.
Segundo a Reuters, o Governo mantém a previsão de iniciar a produção comercial até ao final de 2026. O calendário dependerá da conclusão e entrada em funcionamento das instalações de produção e do oleoduto de exportação.
Kingfisher Deve Produzir 40 Mil Barris Por Dia
O campo Kingfisher está localizado no distrito de Kikuube, junto ao Lago Alberto, e é operado pela CNOOC.
O projecto representa um investimento estimado entre US$ 2 mil milhões e US$ 2,5 mil milhões, considerando as instalações de produção, poços, sistemas de processamento, oleodutos de ligação e infra-estruturas de apoio.
A capacidade projectada é de aproximadamente 40 mil barris por dia quando a operação alcançar o seu máximo.
O desenvolvimento inclui poços de produção e injecção destinados a extrair o petróleo e manter a pressão dos reservatórios, assim como uma unidade central de processamento.
A localização próxima do Lago Alberto coloca exigências adicionais de engenharia e protecção ambiental. A execução deverá conciliar a produção com a preservação dos recursos hídricos, ecossistemas e actividades económicas das comunidades locais.
Kingfisher deverá constituir uma fonte importante de volumes para o arranque da produção, mas o Tilenga responderá pela maior parte da capacidade petrolífera do Uganda.
Tilenga Acrescentará 190 Mil Barris Diários
O projecto Tilenga, operado pela TotalEnergies, deverá produzir até 190 mil barris por dia.
A combinação com os 40 mil barris previstos para Kingfisher permitirá ao Uganda alcançar uma capacidade máxima aproximada de 230 mil barris diários.
A TotalEnergies possui uma participação agregada de 56,67% nos interesses relacionados com os campos petrolíferos, enquanto a CNOOC detém 28,33%. A UNOC controla os restantes 15%.
A produção de 230 mil barris por dia colocaria o Uganda entre os produtores de dimensão intermédia em África e aumentaria o peso da África Oriental na geografia petrolífera do continente.
A materialização deste nível não ocorrerá imediatamente após o início das operações. A produção deverá crescer progressivamente à medida que os poços, instalações de processamento e sistema de transporte entram em funcionamento.
“Pearl Sweet” Prepara Comercialização Do Petróleo
O Presidente Yoweri Museveni anunciou “Pearl Sweet” como a designação comercial da mistura de petróleo produzida pelos campos Kingfisher e Tilenga.
“Pearl” deriva da expressão “Pérola de África”, historicamente utilizada para descrever o Uganda, enquanto “Sweet” identifica o baixo teor de enxofre do crude.
A designação é simultaneamente nacional e comercial. Um nome reconhecível permite apresentar as características do petróleo às refinarias, comparar o produto com outros tipos de crude e estabelecer preços de referência nas negociações.
A UNOC indicou que, após a definição do nome, as empresas iniciarão contactos com refinarias, estudos sobre os mercados potenciais e negociações comerciais com compradores.
O Pearl Sweet apresenta características semelhantes às de determinados petróleos produzidos no Chade, Sudão do Sul e Sudão. Além do baixo teor de enxofre, possui uma composição cerosa que exige aquecimento durante o transporte.
Oleoduto De US$ 5 Mil Milhões Liga Uganda Ao Oceano Índico
A ausência de acesso directo ao mar obrigou o Uganda a desenvolver uma solução logística transfronteiriça.
O East African Crude Oil Pipeline terá 1.443 quilómetros, partindo da região de Hoima, no Uganda, até ao Porto de Tanga, na costa do Oceano Índico, na Tanzânia.
O investimento está estimado em cerca de US$ 5 mil milhões e a capacidade de transporte deverá situar-se em aproximadamente 216 mil barris por dia.
A diferença entre a capacidade máxima de produção de 230 mil barris e a capacidade do oleoduto reflecte o facto de parte do petróleo poder ser destinada ao processamento interno.
O EACOP será o maior oleoduto electricamente aquecido do mundo. O sistema de aquecimento permitirá manter o crude fluido ao longo do percurso, devido à sua composição cerosa e elevada viscosidade à temperatura ambiente.
A TotalEnergies possui 62% da sociedade do oleoduto. A UNOC e a Tanzania Petroleum Development Corporation detêm 15% cada, enquanto a CNOOC controla os restantes 8%.
Em Março de 2026, o Governo ugandês indicou que a construção tinha atingido cerca de 80%. A conclusão do oleoduto será determinante para o início das exportações.
Receitas Petrolíferas Podem Atingir US$ 587 Milhões
O Governo ugandês prevê arrecadar 2,2 biliões de xelins, equivalentes a aproximadamente US$ 587 milhões, em receitas das exportações petrolíferas durante o exercício financeiro de 2026/2027.
A entrada em produção deverá aumentar as exportações, a disponibilidade de moeda externa e as receitas fiscais do país.
O impacto já é parcialmente visível através dos investimentos na construção dos campos, oleoduto, estradas, unidades de processamento, instalações de armazenamento e outras infra-estruturas.
A economia ugandesa cresceu 8,5% no trimestre terminado em Dezembro de 2025, comparativamente a 5,4% no período homólogo, beneficiando do consumo e da intensa actividade de construção.
O início da produção poderá aumentar temporariamente o crescimento para níveis de dois dígitos, sobretudo através do acréscimo do sector extractivo ao Produto Interno Bruto.
O efeito sobre o desenvolvimento será influenciado pela utilização das receitas. Investimentos em educação, saúde, agricultura, energia e infra-estruturas poderão ampliar os benefícios para além da indústria petrolífera.
Uma gestão pouco transparente ou excessivamente concentrada nas despesas correntes poderá, pelo contrário, aumentar a dependência do petróleo e expor as finanças públicas às oscilações dos preços internacionais.
Refinaria Procura Reter Parte Do Valor No País
O Uganda não pretende exportar toda a produção em bruto. O Governo mantém o plano de construir uma refinaria na região de Hoima para abastecer o mercado doméstico e os países vizinhos.
A infra-estrutura deverá permitir a produção local de gasolina, gasóleo, combustível de aviação e outros derivados actualmente importados.
A refinação doméstica pode reduzir a factura de importação de combustíveis, aumentar o valor acrescentado nacional e criar ligações com os sectores dos transportes, petroquímica, logística e distribuição.
O projecto também explica por que razão a capacidade do EACOP é inferior ao potencial máximo dos campos. Parte da produção deverá permanecer no país para processamento.
A viabilidade da refinaria dependerá do investimento, da dimensão do mercado regional, dos custos de produção e da competitividade dos derivados perante as importações.
Projecto Enfrenta Contestação Ambiental E Social
O desenvolvimento petrolífero do Uganda tornou-se um dos projectos energéticos mais contestados em África.
Organizações ambientais alertam para os riscos associados à passagem do oleoduto por áreas ecologicamente sensíveis, cursos de água, zonas agrícolas e proximidades de reservas naturais.
O projecto enfrenta também críticas devido às emissões que poderão resultar da produção, transporte e consumo do petróleo num contexto internacional de transição energética.
Cerca de 13 mil pessoas no Uganda e na Tanzânia terão sido afectadas pelos processos de aquisição de terras e reassentamento. Organizações da sociedade civil questionam os valores das compensações, a reposição dos meios de subsistência e as condições oferecidas às famílias.
A TotalEnergies e os promotores afirmam que aplicam padrões internacionais de protecção ambiental, compensação e reassentamento. As controvérsias levaram, contudo, vários bancos e investidores internacionais a afastarem-se do financiamento.
Uganda Procura Evitar A Armadilha Dos Recursos
A entrada do Uganda na produção petrolífera acontece num momento de preços internacionais superiores a US$ 100 por barril, aumentando o valor potencial das exportações e das receitas fiscais.
A conjuntura favorável também amplia a exposição às oscilações futuras do mercado. A dependência excessiva pode transmitir aos orçamentos públicos os ciclos de valorização e queda do petróleo.
A experiência de outros produtores africanos mostra que grandes reservas não se convertem automaticamente em industrialização, emprego e melhoria generalizada das condições de vida.
O Uganda terá de assegurar transparência na gestão das receitas, disciplina orçamental, conteúdo local, desenvolvimento de competências e investimento nos sectores não petrolíferos.
O início da produção representa uma alteração estrutural para a economia ugandesa. A dimensão dessa transformação será determinada menos pelo número máximo de barris extraídos e mais pela capacidade de converter o Pearl Sweet em capital produtivo, infra-estruturas e diversificação económica
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