
Governo assume limites fiscais e institucionais, mas determinado em manter uma trajectória de transformação estrutural, diversificação produtiva e resiliência face a choques climáticos cada vez mais frequentes – Salim Valá
Governo admite pressão climática sobre metas económicas e reforça aposta em financiamento local, juventude e diversificação produtiva
- Salim Valá faz balanço do PESOE 2025, detalha instrumentos de empoderamento económico e admite possível revisão das perspectivas para 2026;
- Financiamento da economia local, através do FDEL, ganha centralidade, com uma dotação prevista de 1,5 mil milhões de meticais em 2026, apesar de uma procura largamente superior aos recursos disponíveis;
- A juventude é assumida como activo económico estratégico, num país em que 66% da população tem menos de 35 anos;
- A industrialização, o conteúdo local e a substituição de importações são apontadas como eixos-chave para reduzir vulnerabilidades externas e criar emprego sustentável;
- As perdas preliminares provocadas pelas cheias, estimadas em cerca de 600 milhões de dólares, reforçam a necessidade de um plano de reconstrução pós-cheias e de uma economia mais resiliente.
O Governo moçambicano reconhece que os choques climáticos registados no início de 2026 alteraram significativamente os pressupostos macroeconómicos subjacentes ao Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE), podendo implicar ajustamentos às perspectivas de crescimento económico inicialmente projectadas. A posição foi assumida pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, em entrevista à Rádio Moçambique, no âmbito do balanço da execução do PESOE 2025 e das perspectivas para 2026.
Segundo o governante, embora os instrumentos de planificação e monitoria indiquem um desempenho global “satisfatório” em vários domínios, os eventos climáticos extremos ocorridos logo no primeiro mês do ano introduziram novas pressões sobre a economia. “Todos os pressupostos foram afectados logo no primeiro mês com este advento climático extremo”, afirmou Salim Valá, sublinhando que as cheias provocaram danos infra-estruturais e perdas económicas relevantes, particularmente nas províncias de Gaza, Maputo e zonas do centro do país.
Execução desigual dos pilares revela limites de capacidade financeira e institucional
No balanço do PESOE 2025, o Ministro explicou que o desempenho foi mais visível nos pilares da unidade nacional, paz, segurança e governação, da transformação social e demográfica e da sustentabilidade ambiental, enquanto os pilares da transformação estrutural da economia e das infra-estruturas registaram níveis de execução relativamente mais baixos.
A razão, segundo Salim Valá, reside essencialmente em dois factores: “A primeira tem a ver com a disponibilidade atempada de recursos e a segunda com o ciclo de procurement das infra-estruturas, que nem sempre acompanha a dinâmica de execução prevista num único ano”. O governante reconheceu que estes constrangimentos podem gerar atrasos, mas assegurou que o Executivo está a reforçar o subsistema de monitoria e avaliação para acelerar a execução onde for possível.
Estabilidade política como pré-condição económica
Do ponto de vista económico, o Ministro destacou que uma das prioridades de 2025 foi assegurar a estabilidade política e social num contexto de tensões pós-eleitorais. “Dedicou-se muito tempo à operacionalização do compromisso político para o diálogo nacional inclusivo, porque a estabilidade e a segurança são pressupostos fundamentais para o desenvolvimento”, afirmou.
Este enquadramento revela uma leitura governamental segundo a qual a confiança institucional e a estabilidade política são variáveis críticas para a recuperação económica e para a atracção de investimento, sobretudo num país com elevada exposição a choques externos e climáticos.
Financiamento local ganha centralidade na estratégia económica
Um dos eixos centrais da intervenção de Salim Valá incidiu sobre o reforço dos instrumentos de financiamento à economia local, com destaque para o Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL). Em 2025, o fundo permitiu a alocação de 824,6 milhões de meticais, dos quais cerca de 60% destinados a jovens, tendo sido submetidos mais de 300 mil projectos a nível nacional.
“O FDEL é uma espécie de fundo de capital semente, que deve ser revolvente, sustentável e baseado no reembolso, para beneficiar outros moçambicanos”, explicou o Ministro, acrescentando que, para 2026, está prevista uma dotação de 1,5 mil milhões de meticais, quase o dobro do valor inicial. O governante reconheceu, no entanto, que a procura excede largamente os recursos disponíveis: “Neste momento, as propostas submetidas são mais de 40 vezes superiores ao montante disponível”.
Juventude e demografia como activos económicos estratégicos
Salim Valá destacou ainda a dimensão demográfica como um dos maiores desafios e oportunidades da economia moçambicana. Com 66% da população entre os 0 e os 35 anos, o Governo procura transformar este capital humano num activo produtivo. “Nem todos os países têm este dividendo demográfico; o desafio é colocá-lo no circuito económico”, afirmou.
Neste quadro, o financiamento é complementado por programas de capacitação, emprego juvenil e empreendedorismo, como o Acredita Emprega, o Meu Kit Meu Emprego e iniciativas de extensão agrícola e piscícola, que em 2025 beneficiaram dezenas de milhares de jovens e pequenos produtores.
Industrialização, conteúdo local e substituição de importações
O Ministro da Planificacao e Desenvolvimento, realçou igualmente aposta “estratégica” na industrialização e agregação de valor, associada à promoção do conteúdo local. Salim Valá foi peremptorio afirmando que“quando exportamos matérias-primas em bruto, estamos a exportar empregos”, defendendo uma economia mais endógena, capaz de transformar recursos naturais localmente.
O Ministro citou projectos recentes como a Fábrica de Processamento Integrado (IPF), do Acordo de Partilha de Produção (PSA), localizada no distrito de Inhassoro, província de Inhambane, destinada ao abastecimento do mercado nacional, considerada uma das unidades mais modernas do género em África, possui capacidade para produzir até 30 mil toneladas de GPL por ano, contribuindo para reduzir, em cerca de 70%, as importações deste produto e assegurando um fornecimento mais estável e previsível ao mercado interno e, mais recentemente, a fábrica de processamento de grafite no distrito de Nipepe, província do Niassa, um investimento estimado em cerca de 200 milhões de dólares que reforça a industrialização do sector mineiro que eleva o país na cadeia global de valor dos minerais críticos. A fabrica marca a transição de Moçambique de exportador de grafite bruto para processador industrial, com capacidade para processar 200 mil toneladas de grafite por ano, posicionando-se entre as maiores operações de processamento do continente africano, com impactos no emprego e empregabilidade, com cerca de 890 trabalhadores directos, número que poderá atingir 2.000 postos de trabalho numa segunda fase de expansão, tudo isto numa província historicamente marcada por limitações de investimento industrial. “este impacto no emprego é considerado estruturalmente relevante”. Sublinhou, acrescentando ainda a dimensão fiscal, mais concretamente, no alargamento da base tributária.
Perspectivas para 2026 sob revisão após cheias
Relativamente a 2026, o Governo tinha inicialmente projectado um crescimento do PIB de 2,8%, inflação em um dígito e reservas internacionais capazes de cobrir quatro a cinco meses de importações. Contudo, Salim Valá admitiu que estes pressupostos estão agora sob análise. “Os pressupostos foram abalados e teremos de fazer uma análise profunda e multissectorial antes de nos pronunciarmos”, afirmou.
As perdas preliminares causadas pelas cheias já ascendem a cerca de 600 milhões de dólares, segundo estimativas ainda provisórias, e poderão exigir um plano de reconstrução pós-cheias e eventual reprogramação das prioridades económicas.
Recuperar melhor para uma economia mais resiliente
Apesar do choque climático, o Ministro defendeu que a recuperação deve ser encarada como uma oportunidade para reforçar a resiliência económica. “A nossa ideia é que a recuperação não seja apenas para repor o que foi perdido, mas para melhorar, diversificar e tornar a economia mais forte”, afirmou, sublinhando reformas em curso nos sectores da saúde, água, energia, digitalização e habitação para jovens.
O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, enfatizou que o Governo está consciente dos limites fiscais e institucionais, mas determinado em manter uma trajectória de transformação estrutural, assente na economia local, na juventude, na diversificação produtiva e na resiliência face a choques climáticos cada vez mais frequentes.
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