Aviação Comercial Enfrenta Crise de Competitividade e Sustentabilidade em Moçambique

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  • Quebra no transporte aéreo expõe fragilidades estruturais do sector, aumenta custos económicos e condiciona dinâmica do turismo, investimento e integração territorial.
Questões-Chave:
  • Transporte aéreo movimentou menos 9,3% de passageiros em 2025 em Moçambique;
  • Constrangimentos operacionais da LAM continuam a afectar ligações domésticas e regionais;
  • Custos operacionais elevados e instabilidade social agravaram fragilidade do sector;
  • Queda do tráfego aéreo levanta preocupações sobre competitividade económica e turística;
  • Entrada da Solenta poderá alterar dinâmica concorrencial do mercado doméstico.

A aviação comercial moçambicana enfrenta um dos momentos mais delicados dos últimos anos, numa conjuntura em que os desafios de sustentabilidade operacional, competitividade económica e fiabilidade logística começam a produzir impactos transversais sobre outros sectores estratégicos da economia nacional, particularmente o turismo, o comércio, os investimentos e a mobilidade empresarial.

Dados divulgados pela Autoridade de Aviação Civil de Moçambique (IACM) revelam que o transporte aéreo movimentou em 2025 cerca de 1,86 milhão de passageiros, representando uma redução de 9,3% face aos aproximadamente 2,05 milhões registados em 2024.

Mais do que uma simples desaceleração conjuntural, os números evidenciam vulnerabilidades estruturais persistentes num sector que continua excessivamente dependente da transportadora estatal Linhas Aéreas de Moçambique, ao mesmo tempo que enfrenta pressões operacionais, financeiras e regulatórias cada vez mais complexas.

Fragilidade da Aviação Agrava Desafios da Economia Real

O desempenho do sector aéreo possui implicações directas sobre a competitividade económica do país. Em Moçambique, onde grandes distâncias geográficas, limitações rodoviárias e dispersão dos centros económicos tornam o transporte aéreo particularmente relevante, a redução da conectividade traduz-se em custos acrescidos para empresas, investidores e operadores turísticos.

O próprio relatório do IACM associa a queda da actividade à suspensão e cancelamento de voos, bem como à elevada sensibilidade do sector a factores externos e políticos, numa referência directa à instabilidade social que se seguiu às eleições gerais de Outubro de 2024.

Além disso, a instituição reconhece que os constrangimentos operacionais enfrentados pela Linhas Aéreas de Moçambique tiveram impacto directo sobre várias rotas estratégicas, incluindo Maputo–Lisboa, Maputo–Harare e Maputo–Lusaka, devido à indisponibilidade da frota e à redução de frequências.

A situação é particularmente sensível para o turismo, sector cuja recuperação continua dependente da previsibilidade e acessibilidade das ligações aéreas. Operadores turísticos têm vindo a alertar, nos últimos anos, para os impactos negativos associados à irregularidade dos voos domésticos, custos elevados das tarifas e limitada oferta de assentos em destinos estratégicos.

Queda do Tráfego Doméstico Expõe Pressão Sobre Mobilidade Interna

O segmento doméstico foi o mais afectado. Segundo o IACM, os voos internos registaram uma redução de 14% no número de passageiros transportados em 2025, recuando para pouco mais de 1,06 milhão de passageiros.

O movimento de aeronaves domésticas também caiu cerca de 12%, num contexto marcado por atrasos, cancelamentos e suspensão de rotas. O relatório acrescenta que o aumento dos custos de combustível, manutenção de aeronaves e demais custos operacionais tornou o transporte aéreo menos viável economicamente ao longo do ano.

Este cenário levanta preocupações adicionais sobre a integração territorial e económica do país, sobretudo para regiões dependentes da aviação para circulação de pessoas, mercadorias e serviços especializados.

Transporte de Carga Sofre Forte Retracção

O transporte de carga aérea registou igualmente uma deterioração expressiva. O volume manuseado caiu 28,4%, para cerca de 7,8 mil toneladas, contra mais de 10,9 mil toneladas em 2024.

Segundo o IACM, o declínio está associado, em grande medida, à introdução da taxa de segurança, que encareceu significativamente o manuseamento de carga e desincentivou operações neste segmento.

A redução da carga aérea constitui um indicador particularmente relevante para análise da dinâmica económica, uma vez que este segmento está frequentemente associado ao transporte de produtos de maior valor agregado, cadeias logísticas rápidas e actividades empresariais de maior intensidade comercial.

Entrada da Solenta Pode Alterar Estrutura do Mercado

Num ambiente marcado por dificuldades persistentes da Linhas Aéreas de Moçambique, o Governo avançou com medidas de reestruturação da companhia estatal e abriu espaço para maior concorrência no mercado doméstico.

A companhia privada Solenta Aviation recebeu licença para operar rotas domésticas em Moçambique e prepara o início das operações ainda este ano, com base operacional na Beira.

O Instituto de Aviação Civil de Moçambique indicou que o processo de certificação da empresa exigiu inclusive actualizações na legislação aeronáutica nacional, consideradas necessárias para acomodar uma “concorrência saudável” no sector.

A entrada de novos operadores poderá introduzir maior eficiência e previsibilidade operacional no mercado, embora persistam dúvidas sobre a sustentabilidade económica das rotas domésticas num contexto de custos elevados e procura ainda fragilizada.

Sector Continua Estratégico Para Metas de Crescimento

Apesar das dificuldades actuais, o IACM mantém projecções optimistas para o médio prazo, estimando que o transporte aéreo possa ultrapassar 2,9 milhões de passageiros em 2027 e atingir cerca de 3,1 milhões no ano seguinte.

No entanto, a concretização destas metas dependerá não apenas da recuperação operacional da transportadora nacional, mas também da capacidade do país em construir um ecossistema aeronáutico mais competitivo, financeiramente sustentável e alinhado às exigências modernas do turismo, comércio e investimento internacional.

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