Questões-Chave:
• Défice de financiamento ao comércio em África situou-se entre 74 e 92 mil milhões de dólares em 2024;
• Banco Africano de Desenvolvimento alerta que tensões geopolíticas podem elevar a lacuna acima de 100 mil milhões USD até 2027;
• Bancos africanos financiaram apenas 23% do comércio total do continente entre 2020 e 2024;
• Comércio intra-africano financiado pelos bancos aumentou 89% face ao período pré-pandemia;
• Escassez de divisas tornou-se principal obstáculo ao financiamento do comércio;
• Apenas 28% dos bancos africanos adoptaram soluções digitais para trade finance.

O défice de financiamento ao comércio em África diminuiu nos últimos anos, mas o agravamento das tensões geopolíticas globais, a persistente escassez de divisas e as limitações estruturais do sistema bancário africano continuam a ameaçar os avanços registados após a pandemia da Covid-19.

A conclusão consta do relatório Trade Finance Supply in Africa: Post-COVID Trends and Emerging Opportunities, divulgado esta semana pelo Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), durante as Reuniões Anuais de 2026 da instituição, realizadas em Brazzaville, República do Congo.

Segundo o relatório, a procura não satisfeita de financiamento ao comércio em África situou-se entre 74 mil milhões e 92 mil milhões de dólares em 2024, sendo que o valor-base estimado de 74 mil milhões representa cerca de 5,4% do comércio total de mercadorias do continente.

As informações foram igualmente retomadas pela Agência Lusa, que destacou os alertas do AfDB sobre os riscos crescentes associados à deterioração do ambiente geoeconómico internacional.

Tensões Geopolíticas Podem Anular Uma Década De Progressos

O relatório alerta que os recentes conflitos no Médio Oriente e as perturbações nas cadeias globais de abastecimento poderão inverter parte significativa dos progressos alcançados desde a pandemia.

Segundo o AFDB, um cenário de agravamento moderado a severo das tensões poderá elevar novamente o défice africano de financiamento comercial para níveis entre 86,6 mil milhões e 102,6 mil milhões de dólares até 2027.

Anthony Simpasa, Director do Departamento de Política Macroeconómica, Previsão e Investigação do AfDB, advertiu que “o endurecimento do apetite ao risco por parte dos bancos correspondentes poderá apagar uma década de ganhos”.

O documento refere que o eventual encerramento prolongado do Estreito de Ormuz e o aumento dos preços do petróleo, fertilizantes, seguros e fretes marítimos poderão gerar forte pressão sobre reservas cambiais africanas, inflação e estabilidade financeira.

Bancos Africanos Continuam A Financiar Apenas Uma Parcela Limitada Do Comércio

Apesar da redução gradual da lacuna financeira, o relatório evidencia que o comércio africano continua estruturalmente subfinanciado pelos bancos comerciais.

Entre 2020 e 2024, os bancos comerciais africanos intermediaram apenas 23% do comércio total do continente, uma queda expressiva face aos 40% registados no período entre 2011 e 2019.

O AfDB estima que o volume médio anual de financiamento comercial intermediado pelos bancos africanos tenha sido de cerca de 278 mil milhões de dólares durante o período analisado.

O relatório observa que a pandemia provocou forte retracção do financiamento comercial em 2020, mas intervenções rápidas de bancos multilaterais, governos e agências de crédito à exportação ajudaram posteriormente a estabilizar o mercado.

Comércio Intra-Africano Regista Expansão Significativa

Um dos principais sinais positivos identificados pelo AFDB prende-se com a evolução do financiamento ao comércio intra-africano.

Entre 2020 e 2024, o comércio intra-africano passou a representar 34% do total do financiamento comercial intermediado pelos bancos africanos, correspondendo a um aumento de 89% face ao período pré-pandemia.

O relatório associa esta evolução ao reforço das iniciativas regionais ligadas à Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), bem como ao crescimento de mecanismos financeiros regionais como o PAPSS — sistema pan-africano de pagamentos e liquidações.

Segundo o AfDB, o PAPSS poderá reduzir custos de transacção, diminuir dependência do dólar e facilitar pagamentos transfronteiriços em moedas locais.

Escassez De Divisas Agrava Pressão Sobre Os Bancos

A escassez de liquidez em moeda estrangeira emergiu como o principal constrangimento ao crescimento do financiamento comercial em África.

Cerca de 36% dos bancos inquiridos identificaram a falta de divisas como principal barreira à expansão do trade finance entre 2020 e 2024, contra apenas 18% no período anterior.

O AfDB explica que a pandemia reduziu receitas externas provenientes do turismo e das exportações, provocando forte pressão sobre reservas internacionais e acesso a moeda forte.

Ao mesmo tempo, regulamentações internacionais mais exigentes em matéria de compliance, KYC e AML elevaram custos operacionais e reduziram o apetite de bancos internacionais para operações em mercados africanos.

Digitalização Continua Lenta No Sistema Bancário Africano

O relatório mostra igualmente que a digitalização do financiamento comercial em África permanece limitada.

Apenas 28% dos bancos africanos inquiridos declararam utilizar plataformas digitais ou ferramentas tecnológicas nas operações de financiamento comercial.

Segundo o AfDB, os principais entraves continuam a ser os elevados custos de implementação tecnológica, insuficiência de infra-estruturas digitais e limitações técnicas internas dos bancos.

Ainda assim, entre os bancos que adoptaram soluções digitais, 56% reportaram melhorias significativas na eficiência operacional e 47% indicaram maior satisfação dos clientes.

Instituições Financeiras De Desenvolvimento Ganham Peso Estratégico

O AFDB sublinha que as Instituições Financeiras de Desenvolvimento (DFIs) desempenharam papel decisivo para evitar deterioração mais profunda do mercado africano de financiamento comercial.

Segundo o relatório, estas instituições mobilizaram cerca de 32 mil milhões de dólares anuais em financiamento comercial entre 2020 e 2024, correspondendo a aproximadamente 3% do comércio africano.

Sem esse apoio, o défice africano de financiamento comercial poderia ter ultrapassado os 100 mil milhões de dólares anuais no período pós-pandemia.

Didier Acouetey, conselheiro sénior do presidente do AFDB para o sector privado, afirmou que a nova Arquitectura Financeira Africana para o Desenvolvimento (NAFAD) poderá representar uma mudança estrutural importante.

“Pela primeira vez temos uma estrutura continental coerente para fechar o défice de financiamento comercial não projecto a projecto, mas sistemicamente”, afirmou Acouetey.

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