Entre O Gás, A Agricultura E O Digital: A Estratégia De Moçambique Para Transformar Parcerias Em Desenvolvimento

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Na Reunião Ministerial Coreia-África, Salim Valá apresentou uma visão que vai além da cooperação tradicional. A aposta passa por converter investimento, tecnologia e conhecimento em industrialização, modernização agrícola e transformação digital, alinhando a parceria com a Coreia às prioridades da Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044.

Questões-Chave:
  • Moçambique pretende aprofundar a cooperação com a Coreia em três eixos estratégicos: agricultura, transformação digital e exploração sustentável de hidrocarbonetos;
  • Governo procura posicionar a parceria Coreia-Moçambique como instrumento de industrialização e transformação estrutural da economia;
  • Projectos de LNG, fertilizantes, digitalização e electrificação são apontados como áreas prioritárias de colaboração;
  • Experiência coreana em inovação tecnológica e transformação económica é vista como referência para os países africanos;
  • Financiamento concessional e transferência de conhecimento assumem papel central na nova fase da cooperação bilateral.

A intervenção do Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, na Reunião Ministerial Coreia-África 2026, realizada em Seul, oferece uma leitura interessante sobre a forma como Moçambique pretende posicionar as suas parcerias internacionais na próxima fase do seu desenvolvimento económico. Mais do que um discurso diplomático, a intervenção apresentou uma visão estratégica sobre o papel que a cooperação internacional poderá desempenhar na concretização das prioridades nacionais de longo prazo.

Num contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, desaceleração económica, alterações climáticas, insegurança alimentar e rápida transformação tecnológica, o governante defendeu que nenhum país conseguirá enfrentar isoladamente os desafios globais, justificando a necessidade de aprofundar mecanismos de cooperação orientados para resultados concretos.

Contudo, a mensagem mais relevante da intervenção não reside apenas na defesa da solidariedade internacional. O elemento central é a forma como Moçambique procura alinhar essa cooperação às prioridades definidas pela Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044.

Agricultura, Digitalização E Hidrocarbonetos Como Pilares Da Transformação

Ao apresentar as prioridades nacionais, Salim Valá identificou três sectores considerados determinantes para a transformação estrutural da economia: a modernização da agricultura, a promoção da transformação digital e a exploração sustentável dos recursos minerais e hidrocarbonetos.

Esta escolha não é casual.

A agricultura continua a representar a principal fonte de subsistência para grande parte da população moçambicana, mas mantém níveis de produtividade relativamente baixos quando comparados com o seu potencial. A modernização do sector é vista pelo Governo como condição indispensável para melhorar a segurança alimentar, aumentar os rendimentos rurais e impulsionar a industrialização agro-alimentar.

Neste contexto, a parceria com a Coreia através da Iniciativa de Cooperação Alimentar Agrícola Coreia-África (KAFACI) surge como um exemplo concreto de cooperação orientada para o aumento da produtividade e para a transferência de conhecimento técnico.

A Economia Digital Como Nova Fronteira Do Desenvolvimento

A segunda prioridade destacada pelo ministro foi a transformação digital.

A referência à digitalização surge num momento em que Moçambique procura acelerar a modernização da Administração Pública, expandir serviços digitais, promover a inclusão financeira e aumentar a competitividade empresarial.

A experiência da Coreia do Sul, frequentemente apontada como um dos exemplos mais bem-sucedidos de transformação tecnológica e digital do mundo, é vista como particularmente relevante para apoiar este processo.

Ao destacar a cooperação existente em projectos de transformação digital, o Governo sinaliza que o desenvolvimento tecnológico deixou de ser um tema sectorial para assumir um papel transversal na agenda económica nacional.

A digitalização é encarada como instrumento de eficiência económica, melhoria dos serviços públicos, atracção de investimento e integração nas cadeias globais de valor.

Gás Natural Como Plataforma De Industrialização

O terceiro eixo da estratégia apresentada em Seul centra-se nos hidrocarbonetos, particularmente no gás natural.

O ministro destacou a participação de empresas coreanas como KOGAS, Daewoo e Samsung nos projectos de gás natural liquefeito da Bacia do Rovuma, sublinhando a importância desta colaboração para o desenvolvimento económico do país.

Contudo, o aspecto mais interessante da intervenção foi a forma como o gás foi enquadrado.

Ao invés de apresentar o LNG apenas como uma fonte de receitas de exportação, o discurso procurou associá-lo à industrialização, à criação de emprego e à transformação produtiva.

O exemplo da intenção manifestada pela Daewoo de investir numa fábrica de fertilizantes ilustra precisamente essa lógica. A proposta combina processamento de gás natural, desenvolvimento industrial, aumento da produtividade agrícola e potencial exportador, constituindo uma das expressões mais concretas da estratégia de criação de valor local defendida pelo Governo.

Da Cooperação Tradicional À Cooperação Transformadora

Um dos elementos mais relevantes da intervenção é a tentativa de reposicionar a relação entre África e a Coreia.

Ao referir-se à experiência coreana de transformação económica e inovação tecnológica como uma fonte de inspiração para os países africanos, Salim Valá procurou destacar uma visão de cooperação baseada não apenas em financiamento, mas também em conhecimento, tecnologia, inovação e desenvolvimento institucional.

Esta abordagem reflecte uma tendência crescente nas relações internacionais contemporâneas, em que os países procuram estabelecer parcerias mais orientadas para a construção de capacidades produtivas e para a transformação estrutural das economias.

Neste modelo, o financiamento continua a ser importante, mas deixa de ser o único elemento da equação.

Um Bilião De Dólares E A Nova Agenda De Investimento

A referência ao Acordo-Quadro de Financiamento 2024-2028, assinado com o Korean Exim Bank, no valor de mil milhões de dólares norte-americanos, constitui outro indicador da ambição associada à cooperação bilateral.

Mais do que o montante em si, o significado estratégico reside na possibilidade de canalizar esses recursos para projectos alinhados com as prioridades nacionais de desenvolvimento.

Infra-estruturas, energia, agricultura, transformação digital e desenvolvimento industrial surgem como áreas naturais para a aplicação deste instrumento financeiro.

Uma Parceria Para A Próxima Fase Do Desenvolvimento

A intervenção de Salim Valá em Seul permite perceber que Moçambique procura entrar numa nova fase da sua estratégia de cooperação internacional.

A aposta já não se limita à mobilização de ajuda externa ou ao financiamento de projectos isolados. O objectivo passa por utilizar as parcerias internacionais como instrumentos de transformação económica, industrialização e desenvolvimento sustentável.

Neste contexto, a República da Coreia surge como um parceiro particularmente relevante. Não apenas pelo capital e financiamento que pode disponibilizar, mas sobretudo pela experiência acumulada na transformação económica, na inovação tecnológica, na industrialização e na construção de uma economia baseada no conhecimento.

Para Moçambique, o desafio passa agora por converter essa convergência estratégica em projectos concretos capazes de acelerar a modernização da agricultura, expandir a economia digital e transformar os recursos energéticos em motores efectivos de crescimento inclusivo e sustentável.