Prejuízos do Banco de Moçambique Triplicam Para 13,3 Mil Milhões De Meticais E Exposição Ao Estado Atinge Novos Máximos

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Demonstrações financeiras revelam deterioração da margem financeira, aumento expressivo do financiamento ao Estado e forte expansão dos instrumentos monetários emitidos pelo Tesouro

Questões-Chave:
  • Prejuízo líquido do Banco de Moçambique agravou-se para 13,34 mil milhões de meticais em 2025, mais do triplo do registado no ano anterior;
  • Margem financeira passou de um saldo positivo de 3,4 mil milhões para um resultado negativo superior a 1,2 mil milhões de meticais;
  • Créditos e adiantamentos ao Estado cresceram 35,9%, atingindo 137,7 mil milhões de meticais;
  • Bilhetes do Tesouro e outros instrumentos monetários emitidos em nome do Estado aumentaram 75,2%, ultrapassando os 530,9 mil milhões de meticais;
  • Activo total do banco central aproximou-se de um bilião de meticais, crescendo 26,5% num único exercício.

O Banco de Moçambique encerrou o exercício de 2025 com um prejuízo líquido de 13,34 mil milhões de meticais, um resultado que representa um agravamento superior a três vezes face às perdas de 4,15 mil milhões de meticais registadas em 2024. Os números constam das Demonstrações Financeiras de 2025 e revelam uma combinação de factores que pressionaram significativamente a situação financeira da instituição.

Mais do que a magnitude do prejuízo, os dados mostram uma transformação relevante da estrutura financeira do banco central, marcada por uma maior intervenção nas operações associadas ao financiamento do Estado, pela expansão dos instrumentos de política monetária e pelo aumento dos custos financeiros decorrentes da gestão da liquidez.

A deterioração da margem financeira surge como um dos elementos centrais para explicar o resultado negativo. Depois de apresentar um saldo positivo de 3,4 mil milhões de meticais em 2024, esta rubrica passou para um resultado negativo de 1,27 mil milhões de meticais em 2025. O movimento resultou do facto de os gastos com juros terem crescido significativamente mais do que os rendimentos gerados pelos activos financeiros do banco central. Os juros e rendimentos equiparados ascenderam a 19,75 mil milhões de meticais, mas os juros e gastos equiparados atingiram 21,02 mil milhões de meticais, invertendo a situação observada no exercício anterior.

Custos Operacionais Crescem A Ritmo Superior Ao Das Receitas

Ao mesmo tempo, os gastos operacionais continuaram a aumentar. Segundo as demonstrações financeiras, os custos operacionais cresceram 29,4%, alcançando 17,86 mil milhões de meticais, impulsionados sobretudo pelas despesas com pessoal e pelos encargos associados ao funcionamento da instituição.

Do lado das receitas, o comportamento foi exactamente o inverso. Os rendimentos totais caíram 53,2%, passando de 9,65 mil milhões para 4,52 mil milhões de meticais. Esta redução reflecte a diminuição dos ganhos provenientes da actividade financeira do banco central, num contexto em que os custos associados às operações monetárias se tornaram significativamente mais elevados.

O resultado é uma pressão crescente sobre a rentabilidade operacional da instituição, que viu o seu capital próprio reduzir-se para 15,37 mil milhões de meticais, contra 17,82 mil milhões registados no final de 2024.

Financiamento Ao Estado Continua A Ganhar Peso

Um dos aspectos mais relevantes das demonstrações financeiras é o crescimento da exposição directa do banco central ao Estado.

Os créditos e adiantamentos concedidos ao Governo aumentaram de 101,3 mil milhões para 137,7 mil milhões de meticais, um crescimento de 35,9% em apenas um ano.

Deste montante, mais de 121 mil milhões de meticais correspondem a financiamento enquadrado pelo artigo 18 da Lei Orgânica do Banco de Moçambique, mecanismo que permite ao banco central conceder crédito ao Estado dentro de limites legalmente estabelecidos.

Os números significam que aproximadamente 14% de todos os activos do Banco de Moçambique correspondem actualmente a créditos concedidos ao Governo, evidenciando uma ligação cada vez mais estreita entre a posição financeira do banco central e as necessidades de financiamento do sector público.

Instrumentos Do Tesouro Tornam-Se A Principal Rubrica Do Passivo

Se do lado do activo se observa um aumento dos créditos ao Estado, do lado do passivo destaca-se o crescimento dos instrumentos monetários emitidos em nome do Tesouro.

A rubrica “Bilhetes do Tesouro emitidos em nome do Estado e outros instrumentos monetários” aumentou de 303,1 mil milhões para 530,9 mil milhões de meticais, um crescimento de 75,2% em apenas doze meses.

Este montante passou a representar mais de metade do passivo financeiro da instituição, tornando-se o principal elemento do balanço do banco central. A evolução sugere uma intensificação das operações de esterilização monetária e de gestão de liquidez, instrumentos frequentemente utilizados para conter pressões inflacionárias e absorver excesso de liquidez no sistema financeiro.

O crescimento desta rubrica ajuda igualmente a explicar o aumento dos encargos financeiros registados pelo banco central, uma vez que a remuneração destes instrumentos representa um custo directo para a instituição.

Activos Aproximam-Se De Um Bilião De Meticais

Apesar dos prejuízos, a dimensão do balanço do Banco de Moçambique continuou a expandir-se.

O activo total cresceu 26,5%, passando de 771,9 mil milhões para 976,7 mil milhões de meticais. Trata-se do valor mais elevado já registado pela instituição e aproxima o banco central da marca simbólica de um bilião de meticais em activos.

A expansão foi impulsionada sobretudo pelo aumento dos activos financeiros ao custo amortizado, dos títulos públicos e das operações associadas à condução da política monetária. As demonstrações financeiras mostram que os activos financeiros classificados ao custo amortizado ascenderam a cerca de 492,2 mil milhões de meticais, consolidando-se como uma das principais componentes do balanço.

Um Banco Central Mais Exposto À Gestão Fiscal E Monetária

As contas de 2025 revelam um banco central cada vez mais envolvido na gestão simultânea dos desafios monetários e fiscais da economia moçambicana.

Por um lado, o aumento dos créditos ao Estado reflecte maiores necessidades de financiamento público. Por outro, a expansão dos instrumentos monetários demonstra um esforço acrescido para gerir a liquidez do sistema financeiro e preservar a estabilidade macroeconómica.

Contudo, esta combinação teve custos financeiros significativos para a instituição. A deterioração da margem financeira, o crescimento dos encargos operacionais e a necessidade de suportar uma estrutura de passivos mais onerosa contribuíram para que os prejuízos atingissem o nível mais elevado dos últimos anos.

O desafio para os próximos exercícios será determinar até que ponto a normalização das condições monetárias, a evolução das taxas de juro e a trajectória das finanças públicas permitirão inverter esta tendência e reduzir a pressão financeira sobre o banco central, sem comprometer os objectivos de estabilidade monetária e financeira do país.