Resiliência Se Constrói Antes Das Crises E Não Durante As Emergências – Salim Valá

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  • Ministro da Planificação e Desenvolvimento afirma que antecipação, instituições fortes e parcerias alinhadas com prioridades nacionais são fundamentais para proteger os ganhos de desenvolvimento em contextos de fragilidade.
Questões-Chave:
  • Moçambique defende uma abordagem integrada para antecipar riscos climáticos, económicos e de segurança;
  • Governo considera que a prevenção deve receber mais financiamento do que a resposta às crises;
  • Salim Valá alerta para os limites das intervenções fragmentadas e de curto prazo;
  • Confiança das comunidades e presença do Estado são apontadas como factores decisivos para a resiliência;
  • Fórum do Banco Mundial debateu novas abordagens para prevenir conflitos e proteger ganhos de desenvolvimento.

Moçambique defendeu esta semana, em Washington, uma mudança de paradigma na forma como os países e os seus parceiros internacionais abordam a fragilidade, os conflitos e os riscos ao desenvolvimento, sustentando que a construção da resiliência deve começar antes da eclosão das crises e não apenas quando estas já produzem impactos económicos e sociais significativos.

A posição foi apresentada pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, durante o Fragility Forum 2026, iniciativa promovida pelo Banco Mundial que reúne decisores políticos, instituições multilaterais, académicos e organizações internacionais para discutir estratégias de prevenção de conflitos e fortalecimento da resiliência em contextos frágeis.

No painel subordinado ao tema “Na Vanguarda: Parcerias Para Abordar Riscos De Conflito E Proteger Os Ganhos Do Desenvolvimento”, o governante moçambicano partilhou a experiência do país na gestão simultânea de choques climáticos, desafios de segurança e vulnerabilidades económicas.

Uma Nova Visão Sobre A Antecipação Dos Riscos

Segundo Salim Valá, antecipar riscos não significa apenas melhorar sistemas de previsão ou produzir mais estudos técnicos. O verdadeiro desafio consiste em construir instituições capazes de agir antes que as vulnerabilidades se transformem em crises de grande dimensão.

O Ministro recordou que Moçambique tem enfrentado, nos últimos anos, uma combinação particularmente complexa de choques, incluindo ciclones, secas, cheias, crises económicas e a insurgência em Cabo Delgado, situações que frequentemente ocorrem em simultâneo e afectam as mesmas populações.

Neste contexto, defendeu que a análise dos riscos deve deixar de ser sectorial e passar a ser integrada, reconhecendo que factores climáticos, económicos, sociais e de segurança estão cada vez mais interligados.

“As mesmas comunidades afectadas por secas, cheias ou ciclones são frequentemente aquelas que enfrentam pobreza, fome, deslocamento populacional e fragilidade”, observou o governante durante o debate.

Confiança E Presença Do Estado Como Activos Estratégicos

Outro aspecto destacado por Salim Valá foi a necessidade de fortalecer a relação entre o Estado e as comunidades.

Na sua perspectiva, sistemas de alerta precoce, mecanismos de prevenção e programas de desenvolvimento apenas produzem resultados duradouros quando existe confiança entre cidadãos e instituições públicas.

A experiência de Cabo Delgado demonstra, segundo o Ministro, que a coesão social e a legitimidade institucional são activos tão importantes quanto os investimentos em infra-estruturas, tecnologia ou recolha de dados.

Esta visão converge com uma tendência crescente nos organismos multilaterais de desenvolvimento, que passaram a reconhecer que a prevenção de conflitos exige intervenções simultâneas nas áreas económica, social e institucional.

Mais Recursos Para A Prevenção

Um dos pontos centrais da intervenção incidiu sobre a necessidade de rever os mecanismos de financiamento internacional.

Salim Valá observou que, em muitos casos, os governos conseguem identificar atempadamente os sinais de deterioração da situação económica ou social, mas os recursos financeiros tendem a chegar apenas quando a crise já se encontra instalada.

Por essa razão, defendeu instrumentos mais flexíveis que permitam investir na prevenção, na criação de oportunidades económicas, no emprego e na resiliência das comunidades antes da materialização dos riscos.

A posição ganha particular relevância num contexto em que instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e vários bancos multilaterais de desenvolvimento procuram reforçar as suas abordagens preventivas em países afectados por fragilidade, conflito e violência.

Parcerias Mais Alinhadas Com As Prioridades Nacionais

O Ministro também lançou um apelo aos parceiros internacionais para que abandonem abordagens excessivamente fragmentadas e assentes em ciclos curtos de projectos.

Na sua intervenção, argumentou que a fragilidade não pode ser tratada como um sector isolado, uma vez que afecta simultaneamente a segurança, os meios de subsistência, a governação, as infra-estruturas e as oportunidades económicas.

Defendeu igualmente uma maior valorização da apropriação nacional dos processos de desenvolvimento, sustentando que soluções duradouras devem ser construídas em conjunto com as instituições nacionais, governos locais, sector privado, mulheres, jovens e lideranças comunitárias.

“Soluções sustentáveis não podem ser importadas”, afirmou, acrescentando que os resultados mais sólidos surgem quando as respostas são concebidas e implementadas com base nas realidades locais.

Uma Mensagem Com Alcance Global

A participação de Moçambique no Fragility Forum 2026 ocorre num momento em que os organismos internacionais alertam para o aumento global dos factores de fragilidade e conflito.

Segundo o Banco Mundial, mais de metade da população mundial que vive em pobreza extrema encontra-se actualmente em países afectados por fragilidade, conflito ou violência, reforçando a necessidade de novas abordagens que privilegiem a prevenção e a resiliência.

Foi precisamente essa a principal mensagem transmitida por Salim Valá em Washington: proteger os ganhos do desenvolvimento exige capacidade para antecipar riscos, actuar precocemente e construir instituições capazes de responder aos desafios antes que estes se transformem em crises de larga escala.

Para Moçambique, a resiliência deixou de ser apenas uma questão de resposta às emergências. Passou a ser uma estratégia central de desenvolvimento.