
Empresários Defendem Nova Relação Com A China Assente Na Produção E Transferência De Tecnologia
- Com o comércio bilateral acima de US$ 5,4 mil milhões, o sector privado moçambicano considera que a próxima etapa da cooperação deve ultrapassar a exportação de matérias-primas e a importação de equipamentos. A prioridade passa pela produção conjunta, certificação empresarial, industrialização e integração efectiva das PME nas cadeias de investimento chinesas.
- O comércio entre Moçambique e China atingiu US$ 5,41 mil milhões em 2025, mas continua marcado por uma forte assimetria;
- A CTA defende que a cooperação avance para sociedades produtivas, transformação local e transferência de conhecimento;
- A certificação, o financiamento e a escala de produção limitam o acesso das empresas nacionais aos grandes contratos;
- A isenção de tarifas concedida pela China cria uma oportunidade de mercado, mas não substitui a capacidade de produzir com qualidade e regularidade.
Os empresários moçambicanos defendem uma evolução das relações económicas com a China, passando de uma ligação predominantemente assente no comércio de mercadorias, financiamento de infra-estruturas e exploração de recursos para um modelo orientado para a produção conjunta, industrialização e transferência de tecnologia.
A posição foi apresentada, em Maputo, pelo vice-presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique, Amâncio Gume, durante a recepção de uma delegação empresarial chinesa integrada no Encontro de Empresários para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa.
Para a CTA, o aumento das trocas comerciais não deverá constituir a única medida de sucesso da cooperação. A relação precisa de assegurar que uma parcela crescente do valor gerado a partir dos recursos, mercados e oportunidades existentes em Moçambique seja criada dentro do País e conte com maior participação das empresas nacionais.
A proposta introduz uma mudança importante no debate económico bilateral. Em vez de avaliar a relação apenas pelo volume de importações, exportações, crédito ou número de projectos, o sector privado pretende colocar no centro indicadores como capacidade industrial instalada, contratos atribuídos a empresas moçambicanas, empregos qualificados, conhecimento transferido e produtos transformados localmente.
Uma Relação Comercial De Grande Escala, Mas Assimétrica
A China tornou-se um dos parceiros económicos mais relevantes de Moçambique.
Dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês indicam que o comércio bilateral atingiu US$ 5,41 mil milhões em 2025. Desse montante, as exportações chinesas para Moçambique totalizaram US$ 3,81 mil milhões, enquanto as importações chinesas de produtos moçambicanos se situaram em US$ 1,6 mil milhões.
A diferença equivale a cerca de US$ 2,21 mil milhões a favor da China. Embora os dados aduaneiros dos dois países possam apresentar diferenças metodológicas, a estrutura mostra uma relação em que Moçambique compra substancialmente mais produtos chineses do que vende para aquele mercado.
As exportações chinesas incluem máquinas, equipamentos, veículos, materiais de construção, produtos industriais, tecnologias, bens de consumo e factores de produção utilizados por diferentes sectores da economia moçambicana.
Do lado moçambicano, as vendas tendem a concentrar-se em recursos naturais e produtos com menor grau de transformação, característica reconhecida pela própria liderança empresarial no documento de base.
Dados do Banco de Moçambique relativos a 2024 mostram que a China foi a origem de aproximadamente 17% das importações nacionais de bens, avaliadas em cerca de US$ 1,36 mil milhões. Entre os produtos de maior destaque encontravam-se tractores, veículos de transporte de mercadorias, máquinas pesadas e pesticidas.
Os números de 2024 do Banco de Moçambique e os dados chineses de 2025 não devem ser comparados directamente, por abrangerem anos, critérios e registos distintos. Ambos confirmam, contudo, o peso da China no fornecimento de equipamentos e produtos essenciais para a economia nacional.
Da Complementaridade À Criação Conjunta De Valor
A CTA considera que existe uma complementaridade económica evidente entre os dois países.
Moçambique dispõe de recursos naturais, terra, localização estratégica no Oceano Índico, acesso aos mercados da África Austral e oportunidades em infra-estruturas, energia, agricultura, mineração e logística. A China possui capital, escala industrial, tecnologia, experiência de construção, capacidade de produção e redes internacionais de comercialização.
Amâncio Gume defende que esta complementaridade seja transformada em parcerias empresariais de longo prazo, com benefícios mútuos e maior integração das empresas moçambicanas nos investimentos chineses.
Na prática, isso implicaria substituir parte das relações tradicionais entre comprador e vendedor por sociedades de produção, unidades de montagem, contratos de fornecimento de longo prazo, centros de assistência técnica, programas de formação e investimentos conjuntos em transformação industrial.
Uma empresa chinesa que importa madeira, minerais, produtos agrícolas ou pescado de Moçambique poderá, por exemplo, investir em processamento, embalagem e controlo de qualidade no País, antes da exportação.
Uma empresa que vende máquinas poderá estabelecer oficinas de manutenção, formar técnicos nacionais e desenvolver fornecedores locais de componentes.
Na construção e nas infra-estruturas, a evolução poderá passar pela participação de empresas moçambicanas na engenharia, gestão de projectos, produção de materiais, manutenção e operação dos activos, em vez de uma concentração exclusiva nas tarefas de menor complexidade.
O objectivo não é reduzir a presença chinesa, mas aumentar o conteúdo produtivo e empresarial moçambicano dentro dessa presença.
O Comércio Cresce Mais Rapidamente Do Que A Capacidade Industrial
O pedido da CTA reflecte uma dificuldade estrutural da economia moçambicana: o crescimento das relações comerciais e dos megaprojectos não tem sido acompanhado, na mesma proporção, pelo desenvolvimento da capacidade industrial nacional.
Moçambique continua a exportar uma parcela significativa dos seus recursos com reduzida transformação, perdendo oportunidades de gerar emprego, conhecimento, receitas fiscais e negócios para fornecedores locais.
A transformação local permite reter uma parcela maior do valor acrescentado. Uma matéria-prima exportada em estado bruto gera, normalmente, menos rendimento interno do que um produto processado, embalado, certificado e comercializado com uma marca.
Contudo, industrializar não significa simplesmente proibir exportações de matérias-primas ou exigir que tudo seja processado localmente.
Uma unidade industrial precisa de energia fiável, transporte, água, financiamento, tecnologia, mão-de-obra qualificada, fornecimento regular de matéria-prima e acesso a mercados. Sem essas condições, a transformação pode tornar-se excessivamente cara ou economicamente inviável.
A política industrial deve, portanto, identificar sectores nos quais Moçambique possui vantagens reais e pode construir escala competitiva.
A CTA aponta oportunidades na agro-indústria, energia, logística, transportes, construção, manufactura, economia digital, comércio e serviços.
Esta diversidade é importante porque a cooperação com a China não precisa de permanecer concentrada nos recursos minerais ou nas grandes obras públicas. Pode abranger processamento alimentar, armazenamento, cadeia de frio, equipamentos agrícolas, energias renováveis, serviços digitais, comércio electrónico e logística regional.
Tarifa Zero Abre A Porta, Mas Não Garante A Entrada
Desde Dezembro de 2024, a China concede a Moçambique tratamento pautal zero para 100% das linhas tarifárias abrangidas pela medida destinada aos países menos desenvolvidos com relações diplomáticas com Pequim.
A abertura representa uma oportunidade relevante para ampliar e diversificar as exportações moçambicanas.
Na ausência de tarifas, produtos agrícolas, pesqueiros, industriais ou minerais processados em Moçambique podem entrar no mercado chinês em condições mais favoráveis.
Mas a tarifa é apenas uma das barreiras ao comércio.
Para chegar efectivamente aos consumidores ou às indústrias chinesas, os produtos precisam de cumprir requisitos sanitários, fitossanitários, técnicos, ambientais, de embalagem, rastreabilidade, volume, preço e regularidade de fornecimento.
Uma empresa pode beneficiar de tarifa zero e, ainda assim, não conseguir exportar porque não possui certificação, laboratório, capacidade de produção ou conhecimento dos canais de distribuição.
A vantagem pautal terá impacto reduzido quando a oferta exportável permanece limitada ou concentrada em produtos primários.
Por essa razão, o desafio deixa de ser apenas negociar acesso ao mercado e passa a ser desenvolver empresas capazes de utilizar esse acesso.
Certificação É Uma Barreira Empresarial E Não Apenas Administrativa
A CTA identifica a ausência de certificação como um dos principais factores que impedem muitas empresas nacionais de aproveitar as oportunidades geradas por investimentos internacionais e megaprojectos.
Segundo Amâncio Gume, várias empresas moçambicanas não conseguem cumprir requisitos exigidos nos mercados internacionais, razão pela qual a organização solicitou apoio às autoridades chinesas e ao Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau para expandir programas de formação e certificação.
A certificação demonstra que uma empresa cumpre normas definidas de qualidade, segurança, gestão, ambiente, higiene, contabilidade ou execução técnica.
Nos grandes projectos, não basta apresentar um preço competitivo. Os fornecedores precisam de provar que possuem procedimentos de controlo, trabalhadores qualificados, capacidade financeira, seguros, sistemas de segurança e um histórico de cumprimento.
A certificação, no entanto, pode ser dispendiosa para pequenas empresas. Exige consultoria, reorganização interna, documentação, auditorias, formação e renovação periódica.
Um programa de apoio eficaz deve ir além do pagamento de certificados. Precisa de ajudar as empresas a mudar os seus processos, melhorar a gestão, aumentar a produtividade e manter os padrões depois da auditoria.
Caso contrário, a certificação transforma-se num documento formal sem correspondência na capacidade operacional.
O Evento Procura Aproximar Empresas E Projectos
A delegação organizada pelo IPIM integra 29 representantes empresariais de Macau, Hengqin e da China continental, provenientes de sectores como comércio sino-lusófono, infra-estruturas, engenharia, logística, cadeias de abastecimento, comércio electrónico e serviços profissionais.
A missão decorre em Moçambique entre 20 e 25 de Julho e inclui visitas a entidades públicas, associações empresariais, empresas e projectos de turismo e comércio.
O Encontro de Empresários para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa realiza-se nos dias 23 e 24 de Julho, no Centro Cultural Moçambique-China, sob o lema “Investir em Logística e Infra-estruturas: Impulsionando o Motor do Desenvolvimento”.
O evento é co-organizado pela Agência para a Promoção de Investimento e Exportações, pelo Conselho Chinês para a Promoção do Comércio Internacional e pelo IPIM. O programa combina sessões empresariais, apresentação de oportunidades, encontros de negócios, visitas e assinatura de acordos.
A plataforma existe desde 2005 e já realizou 16 edições, reunindo ao longo do tempo milhares de representantes de empresas chinesas e dos países de língua portuguesa.
O desafio será converter os contactos realizados durante o encontro em projectos concretos. Eventos empresariais criam acesso a informação e potenciais parceiros, mas o impacto económico depende do acompanhamento posterior, da preparação de propostas e da capacidade de concluir negócios.
Macau Pode Funcionar Como Plataforma De Intermediação
Macau ocupa uma posição específica na relação entre a China e os países de língua portuguesa.
A região funciona como plataforma institucional, linguística, comercial e financeira para facilitar contactos entre empresas chinesas e mercados lusófonos.
Para Moçambique, essa função pode ser aproveitada não apenas para atrair investidores, mas também para apoiar empresas nacionais interessadas em entrar no mercado chinês.
Serviços de tradução, informação comercial, identificação de distribuidores, apoio regulatório, promoção de produtos e organização de encontros empresariais podem reduzir os custos iniciais da internacionalização.
O papel de Macau poderá ser particularmente relevante para PME que não possuem recursos para manter estruturas próprias na China.
Contudo, a intermediação não deverá criar uma nova dependência. As empresas moçambicanas precisam de desenvolver conhecimento próprio sobre o mercado, negociar contratos de forma informada e proteger os seus interesses comerciais, marcas e propriedade intelectual.
Produção Conjunta Exige Parcerias Mais Equilibradas
A criação de sociedades entre empresas chinesas e moçambicanas pode acelerar a transferência de tecnologia e facilitar o acesso ao financiamento e aos mercados.
Mas uma parceria formal não garante automaticamente uma partilha equilibrada de valor.
As empresas nacionais precisam de participar nas decisões, adquirir competências técnicas e aumentar progressivamente a sua responsabilidade operacional.
Quando o parceiro local se limita a facilitar licenças, relações institucionais ou acesso a terrenos, sem desenvolver capacidade produtiva, o efeito da parceria permanece reduzido.
Os contratos devem prever formação, metas de aquisição local, desenvolvimento de gestores, transferência de processos e mecanismos transparentes de governação empresarial.
A transferência de tecnologia não ocorre apenas através da entrega de máquinas. Exige aprendizagem sobre operação, manutenção, qualidade, inovação, gestão e adaptação dos equipamentos às condições locais.
Também pressupõe tempo. A capacidade industrial é acumulada através da repetição, resolução de problemas e participação directa nos processos produtivos.
A Agenda China-África Já Reconhece A Industrialização
A pretensão apresentada pela CTA está alinhada com a orientação mais ampla da cooperação entre China e África.
O Plano de Acção de Pequim do Fórum de Cooperação China-África prevê apoio ao desenvolvimento de cadeias de valor locais, manufactura e transformação de recursos no continente africano.
A questão central será a forma como esses compromissos gerais são traduzidos em programas e investimentos específicos em Moçambique.
O País poderá propor projectos industriais concretos, com estudos de viabilidade, mercados identificados, disponibilidade de matéria-prima e necessidades claras de tecnologia.
Em vez de esperar apenas que investidores apresentem iniciativas, as instituições públicas e empresariais podem preparar carteiras de projectos em sectores prioritários.
Uma abordagem orientada por projectos facilita a negociação de financiamento, parcerias e incentivos, ao mesmo tempo que permite avaliar antecipadamente o impacto sobre empregos, exportações e desenvolvimento regional.
Financiamento E Escala Continuam A Condicionar As PME
Mesmo quando conseguem certificação, muitas PME enfrentam dificuldades para responder a grandes contratos.
Um fornecedor pode receber uma encomenda e não possuir capital para comprar matérias-primas, contratar trabalhadores ou adquirir equipamento antes do pagamento.
Os bancos podem exigir garantias que a empresa não possui, enquanto os compradores internacionais esperam volumes e prazos que ultrapassam a sua capacidade.
A integração das PME nas cadeias chinesas requer mecanismos financeiros ligados a contratos e ordens de compra.
Soluções possíveis incluem garantias parciais, financiamento de fornecedores, adiantamentos contratuais, fundos de desenvolvimento industrial e sistemas de pagamento que reduzam as necessidades de capital circulante.
Outra opção é a formação de consórcios empresariais. Várias PME podem combinar capacidade produtiva, equipamento e conhecimento para executar contratos que seriam demasiado grandes para uma empresa isolada.
Estes modelos exigem governação clara e confiança entre os participantes, mas podem permitir que empresas nacionais alcancem a escala solicitada pelos investidores.
O Conteúdo Nacional Deve Ser Medido Por Resultados
A evolução da relação com a China poderá ser acompanhada através de indicadores concretos.
Um primeiro indicador será o aumento das exportações moçambicanas de produtos transformados, comparativamente às matérias-primas.
Outro será o número e o valor dos contratos executados por empresas nacionais nos investimentos chineses.
A criação de fábricas, oficinas, centros logísticos e unidades de assistência técnica também deverá ser observada, assim como o número de trabalhadores formados para funções técnicas e de gestão.
A qualidade das parcerias pode ser medida pela capacidade das empresas moçambicanas de continuar a produzir, inovar e exportar mesmo depois de terminar um contrato ou projecto específico.
O volume comercial continuará a ser relevante, mas deverá ser interpretado juntamente com a composição das trocas.
Uma relação que cresce através de mais importações e exportação de produtos primários pode aumentar a actividade económica sem alterar significativamente a estrutura produtiva.
Uma relação baseada em investimento industrial, conhecimento e fornecedores nacionais tem maior probabilidade de gerar efeitos duradouros.
Uma Nova Etapa Depende Também De Moçambique
A defesa de uma cooperação mais produtiva não coloca todas as responsabilidades sobre a China.
As empresas e instituições moçambicanas precisam de melhorar a preparação dos projectos, o ambiente de negócios, a previsibilidade regulatória e a capacidade de execução.
Atrasos administrativos, mudanças frequentes de regras, dificuldades de acesso à terra, energia pouco fiável e limitações logísticas podem reduzir a atractividade de investimentos industriais.
As empresas nacionais, por seu lado, precisam de reforçar a contabilidade, a governação, a transparência, a qualidade e a disciplina contratual.
Um investidor interessado em produzir localmente avaliará não apenas o custo do trabalho ou a disponibilidade de recursos, mas também a consistência do fornecimento, a estabilidade das regras e a capacidade dos parceiros.
A mensagem da CTA representa, por isso, simultaneamente uma reivindicação e um compromisso.
Ao pedir maior participação na cooperação com a China, o sector privado nacional assume igualmente a responsabilidade de se preparar para contratos mais exigentes, melhorar os seus padrões e investir em capacidade.
De Uma Relação De Fluxos Para Uma Relação De Capacidades
A relação entre Moçambique e China já possui escala comercial, enquadramento político e uma presença significativa em infra-estruturas, energia, construção e fornecimento de equipamentos.
A etapa seguinte poderá ser definida pela qualidade das capacidades que essa relação ajuda a construir dentro de Moçambique.
A tarifa zero oferece acesso ao mercado. O capital chinês oferece capacidade de investimento. A tecnologia e experiência industrial podem acelerar a produção. Os recursos e a localização moçambicanos criam uma base para negócios regionais e internacionais.
Mas estes elementos apenas produzirão uma mudança estrutural quando forem articulados através de empresas competitivas, instituições eficazes e projectos economicamente sustentáveis.
O apelo dos empresários coloca uma escolha clara: continuar a expandir uma relação baseada sobretudo na circulação de mercadorias ou utilizá-la para construir uma base produtiva mais diversificada.
A evolução pretendida não será demonstrada apenas por novos memorandos ou pelo aumento das estatísticas comerciais. Será visível quando mais produtos exportados para a China forem transformados em Moçambique, quando mais empresas nacionais fornecerem grandes projectos e quando a cooperação deixar conhecimento, tecnologia e capacidade industrial permanentemente instalados no País.
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