CFM Avança Com Duplicação Da Linha De Ressano Garcia Para Reforçar Corredor De Maputo

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Investimento estimado em 160 milhões de dólares deverá elevar a capacidade ferroviária num dos principais eixos logísticos de Moçambique, numa altura em que o país procura combinar expansão da carga, competitividade regional e maior resiliência climática das infra-estruturas.

Questões-Chave:
  • CFM prevê conhecer até Julho o empreiteiro da segunda fase da duplicação da Linha de Ressano Garcia;
  • Projecto está avaliado em cerca de 160 milhões de dólares e visa reforçar o Corredor de Maputo;
  • Primeira fase já elevou a capacidade da linha de cerca de 13 milhões para 24 milhões de toneladas por ano;
  • Cheias no sul do país paralisaram a Linha do Limpopo durante cerca de três meses, com perdas estimadas em 12 milhões de dólares;
  • Transporte ferroviário de passageiros quase duplicou no primeiro trimestre, enquanto a carga movimentada cresceu 14,9%.

Um Corredor Estratégico Para A Competitividade Nacional

A Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique prepara-se para avançar com a segunda fase da duplicação da Linha de Ressano Garcia, uma das infra-estruturas ferroviárias mais relevantes para a economia nacional e para a integração logística com a África do Sul. Segundo informação divulgada pelo CFM e reportada pela Lusa, o empreiteiro responsável pela obra deverá ser conhecido até Julho, abrindo caminho para um investimento estimado em cerca de 160 milhões de dólares.

A intervenção visa reforçar a capacidade de transporte ferroviário e melhorar a fluidez de mercadorias ao longo do Corredor de Maputo, eixo essencial para o escoamento de carga regional, ligação aos portos e sustentação da competitividade logística do país. A Linha de Ressano Garcia funciona como uma das principais portas ferroviárias de ligação entre Moçambique e a economia sul-africana, com impacto directo sobre o comércio, a indústria, a mineração, a energia e os serviços portuários.

A primeira fase do projecto já permitiu elevar a capacidade da linha de cerca de 13 milhões para 24 milhões de toneladas por ano, um salto operacional que confirma o papel da ferrovia como instrumento de redução de custos logísticos, descongestionamento rodoviário e melhoria da eficiência no transporte de mercadorias.

Ferrovia Ganha Centralidade Na Estratégia Logística

O avanço da segunda fase ocorre num momento em que Moçambique procura reposicionar o sector ferroviário como eixo estruturante da competitividade económica. A discussão em torno do novo regulamento de acesso ao exercício da actividade ferroviária, promovida pelo Ministério dos Transportes e Logística, insere-se nessa tentativa de modernizar o sector, melhorar a eficiência operacional e abrir espaço para maior dinamismo no sistema ferro-portuário.

Neste contexto, a duplicação da Linha de Ressano Garcia não é apenas uma obra de infra-estrutura. É uma decisão estratégica com implicações sobre a capacidade do país de captar carga regional, aumentar receitas logísticas, melhorar a previsibilidade do transporte e reforçar a posição do Porto de Maputo na cadeia regional de comércio.

Para uma economia como a moçambicana, marcada por corredores de desenvolvimento que servem simultaneamente o mercado interno e países do hinterland, a ferrovia tem uma função económica crítica. Quanto maior for a capacidade de transporte por via férrea, menor tende a ser a pressão sobre as estradas, mais competitivo se torna o custo de movimentação de carga e maior é a capacidade de atrair fluxos comerciais de longo prazo.

Expansão Com Resiliência: A Lição Das Cheias

O avanço do projecto acontece, porém, num contexto desafiante. As cheias que afectaram o sul do país provocaram a paralisação da Linha do Limpopo durante cerca de três meses, causando perdas estimadas em 12 milhões de dólares e afectando a circulação de cerca de 130 comboios, de acordo com informação divulgada pelo CFM.

O impacto das cheias expôs uma dimensão crítica da agenda de infra-estruturas: já não basta expandir capacidade; é igualmente necessário assegurar resiliência climática. A vulnerabilidade das linhas férreas a eventos extremos representa risco directo para receitas, cadeias de abastecimento, circulação de passageiros, transporte de mercadorias e confiança dos operadores económicos.

Esta realidade reforça a necessidade de projectos ferroviários desenhados com maior capacidade de resposta a eventos climáticos, incluindo drenagem, protecção de taludes, manutenção preventiva, sistemas de monitoria e planos de contingência operacional. A duplicação de Ressano Garcia ganha, por isso, uma leitura dupla: aumenta capacidade logística, mas também deve servir como oportunidade para incorporar padrões mais robustos de segurança e resiliência.

Passageiros Recuperam, Carga Cresce

Os dados recentes mostram sinais de recuperação do transporte ferroviário em Moçambique. Segundo informação do Ministério dos Transportes e Logística, o movimento de passageiros na rede ferroviária praticamente duplicou no primeiro trimestre de 2026, atingindo 151,4 mil passageiros, contra 77,3 mil no mesmo período do ano anterior. Este desempenho reflecte a recuperação face aos efeitos das manifestações pós-eleitorais de 2025 e ocorre apesar do impacto das cheias.

No transporte de mercadorias, foram movimentadas 3,6 milhões de toneladas de carga diversa nos primeiros três meses do ano, o que representa um crescimento de 14,9% face ao mesmo período de 2025 e corresponde a quase 20% da meta anual. Estes números confirmam que a ferrovia continua a ser um activo essencial para o funcionamento da economia, sobretudo num país cuja competitividade depende fortemente da eficiência dos corredores logísticos.

Ainda assim, os prejuízos registados pelo CFM no mesmo período, estimados em 47 milhões de dólares, resultantes de cargas não transportadas e da destruição de infra-estruturas e equipamentos devido às cheias, mostram que o sector enfrenta simultaneamente oportunidades de crescimento e riscos operacionais relevantes.

Investimento Até 2030 E Pressão Da Procura

A duplicação da Linha de Ressano Garcia enquadra-se numa agenda mais ampla de reforço da capacidade ferroviária nacional. O Governo já havia indicado a intenção de investir quase 190 milhões de euros até 2030 na duplicação de linhas ferroviárias, aquisição de carruagens, locomotivas e vagões, com o objectivo de reforçar o transporte de passageiros e de mercadorias.

As estimativas incluem a conclusão da duplicação dos restantes quilómetros da linha de Ressano Garcia, a aquisição de mais de 30 carruagens para transporte de passageiros, 250 vagões para responder à crescente procura associada ao transporte de minerais e pelo menos 15 locomotivas de linha.

Esta agenda responde a uma pressão estrutural: a procura por transporte ferroviário tende a crescer à medida que aumentam os projectos mineiros, energéticos, industriais e logísticos servidos pelos corredores nacionais. A capacidade ferroviária passa, assim, a ser um factor determinante para que Moçambique transforme a sua localização geográfica em vantagem económica efectiva.

O Desafio É Transformar Capacidade Em Competitividade

A segunda fase da duplicação da Linha de Ressano Garcia representa uma oportunidade relevante para elevar o desempenho do Corredor de Maputo e reforçar a posição de Moçambique como plataforma logística regional. Mas o impacto económico do investimento dependerá de mais do que a execução física da obra.

Será necessário assegurar eficiência operacional, manutenção adequada, gestão coordenada entre ferrovia e porto, integração com os operadores privados, previsibilidade regulatória e capacidade de resposta a choques climáticos. Sem estes elementos, o aumento da capacidade instalada poderá não se traduzir integralmente em ganhos de competitividade.

O projecto surge, por isso, como teste à capacidade do país de alinhar infra-estrutura, política pública, gestão empresarial e resiliência climática. Se bem executada, a duplicação da Linha de Ressano Garcia poderá não apenas aumentar o volume de carga transportada, mas também reduzir custos logísticos, melhorar a integração regional e reforçar o papel da ferrovia como motor da transformação económica de Moçambique.