
Moçambique Pede Desbloqueio De Fundos Climáticos Para Acelerar Irrigação
- Governo defende maior acesso ao financiamento internacional para construir e reabilitar sistemas de regadio, num país exposto a secas, cheias e ciclones. A nova Plataforma de Irrigação de Moçambique pretende articular infra-estruturas, tecnologia, financiamento e apoio aos produtores.
Questões-Chave
- O Ministério da Agricultura pede apoio dos parceiros para facilitar o acesso de Moçambique aos fundos climáticos.
- Governo reconhece limitações de financiamento para expandir e reabilitar sistemas de irrigação.
- A definição do modelo de irrigação deverá considerar as necessidades da agricultura familiar e dos projectos de média e larga escala.
- Plataforma de Irrigação de Moçambique surge para promover uma agricultura mais resiliente e elevar a produção alimentar.
- Produção agrícola cresceu 15,7% na campanha 2024/2025, para mais de 352,2 milhões de toneladas, segundo dados do Ministério da Agricultura.
Moçambique quer transformar o acesso à irrigação num dos pilares da resposta estrutural aos choques climáticos que continuam a afectar a produção agrícola nacional. Para tal, o Governo apelou aos parceiros de cooperação para ajudarem o país a desbloquear recursos dos fundos internacionais de financiamento climático, considerados essenciais para construir, reabilitar e expandir sistemas de regadio.
O apelo foi feito pelo ministro da Agricultura, Roberto Albino, durante o lançamento da Plataforma de Irrigação de Moçambique, em Maputo. O governante reconheceu que a escassez de recursos financeiros continua a limitar a capacidade do Estado e do sector privado de avançarem com os investimentos necessários para reduzir a dependência da agricultura em relação às chuvas.
“Aos parceiros de cooperação, em particular, encontrem caminho para nos apoiar neste grande dilema que temos de recursos financeiros”, afirmou o ministro, defendendo que os fundos climáticos ainda permanecem de difícil acesso para Moçambique.
Da Agricultura Dependente Da Chuva À Produção Mais Resiliente
A preocupação surge num contexto em que o país continua particularmente vulnerável à variabilidade climática. Secas prolongadas, cheias e ciclones tropicais têm afectado de forma recorrente as zonas de produção agrícola, comprometendo colheitas, rendimentos das famílias rurais e a estabilidade da oferta alimentar.
A irrigação é vista pelo Executivo como uma alternativa para assegurar maior previsibilidade produtiva, permitindo que os agricultores reduzam a exposição aos períodos de escassez de chuva e possam planear melhor os ciclos de produção.
Roberto Albino defendeu, por isso, a necessidade de investir em fontes de água que não dependam directamente da precipitação. Mas advertiu que esta transição exige soluções financeiras compatíveis com os elevados custos de instalação, operação e manutenção dos sistemas de irrigação.
O debate, acrescentou, deve também responder a uma questão central: que modelo de irrigação deve ser priorizado? A resposta terá de equilibrar o apoio à agricultura familiar, que concentra uma parte expressiva da produção alimentar e do emprego rural, com a criação de condições para projectos de média e larga escala capazes de mobilizar investimento, tecnologia e cadeias de valor.
Financiamento É O Principal Gargalo
O ministro reconheceu que Moçambique enfrenta limitações financeiras para executar novos projectos e recuperar infra-estruturas de regadio já existentes. Neste quadro, apelou a uma reflexão conjunta entre Governo, parceiros de desenvolvimento, financiadores e sector privado sobre formas mais eficazes de estruturar investimentos no sector.
A questão não se resume à disponibilização de recursos. Exige também decisões claras sobre as prioridades de investimento, os territórios a beneficiar, o tipo de tecnologia a adoptar, os mecanismos de partilha de risco e a sustentabilidade económica dos sistemas depois da fase inicial de financiamento.
O Governo defende que o sector privado deve ter um papel relevante neste processo. Mas, para que tal aconteça, será necessário encontrar modelos que tornem a irrigação economicamente viável, particularmente para produtores de menor dimensão, que dificilmente conseguem suportar isoladamente os custos de equipamentos, energia, captação de água e manutenção.
A demora na execução de projectos financiados por parceiros de cooperação foi igualmente apontada como uma preocupação. Segundo o ministro, a aceleração da implementação deve tornar-se uma prioridade, para que os benefícios cheguem às comunidades dentro de prazos compatíveis com a urgência das suas necessidades produtivas.
Uma Plataforma Para Coordenar Soluções
A Plataforma de Irrigação de Moçambique foi lançada com o propósito de criar um espaço de diálogo e coordenação em torno dos principais desafios do sector. O objectivo é combinar infra-estruturas, financiamento, apoio técnico aos agricultores e soluções tecnológicas adequadas para fortalecer a resiliência agrícola e ampliar a produção de alimentos.
A iniciativa procura, assim, posicionar a irrigação não apenas como uma infra-estrutura de apoio à agricultura, mas como uma ferramenta de segurança alimentar, adaptação climática, dinamização económica rural e redução da vulnerabilidade das famílias produtoras.
A urgência desta agenda é reforçada pelo peso da agricultura na economia e na subsistência de milhões de moçambicanos. Apesar dos impactos climáticos, a produção agrícola nacional registou um crescimento de 15,7% na campanha 2024/2025, superando 352,2 milhões de toneladas, contra cerca de 304,5 milhões de toneladas na campanha anterior, segundo dados do Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas citados pela Lusa.
O desafio será transformar este crescimento pontual numa trajectória mais previsível e sustentável. Para isso, o reforço da irrigação terá de ser acompanhado por melhor acesso a financiamento, assistência técnica, sementes, mercados, logística, energia e mecanismos de seguro agrícola.
Mais do que uma resposta às secas, a irrigação poderá tornar-se uma das infra-estruturas decisivas para permitir que Moçambique produza com maior estabilidade, reduza a vulnerabilidade às alterações climáticas e avance para uma agricultura mais competitiva e inclusiva.
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