Bancos Centrais Preparam Redução Da Exposição Ao Dólar Pela Primeira Vez

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  • Inquérito da OMFIF revela que, na próxima década, haverá mais bancos centrais a planear reduzir as suas reservas em dólares do que a aumentá-las. Ouro, outras moedas de reserva e inteligência artificial ganham protagonismo nas novas estratégias de gestão de activos públicos.

Questões-Chave

  • Pela primeira vez, mais bancos centrais prevêem reduzir do que aumentar a alocação ao dólar na próxima década.
  • Cerca de 79% dos bancos centrais e 60% dos fundos públicos inquiridos consideram que o sistema monetário global caminha para uma configuração multipolar.
  • O ouro consolida-se como activo prioritário, com 30% líquidos dos inquiridos a preverem reforçar a sua posição nos próximos um a dois anos.
  • O euro e o renminbi continuam a atrair interesse, mas enfrentam limitações estruturais como alternativas de reserva.
  • Mais de dois terços dos bancos centrais planeiam ampliar o uso de inteligência artificial, sobretudo em análise de dados e operações internas.

Os bancos centrais de todo o mundo estão a reconsiderar, de forma cada vez mais clara, o peso do dólar norte-americano nas suas reservas internacionais. Pela primeira vez, há mais instituições a prever uma redução da sua exposição à moeda dos Estados Unidos do que um aumento, no horizonte dos próximos dez anos.

A conclusão resulta de um inquérito da Official Monetary and Financial Institutions Forum (OMFIF), divulgado esta terça-feira, que abrangeu 90 bancos centrais, fundos soberanos e fundos públicos de pensões, responsáveis colectivamente pela gestão de cerca de 10 biliões de dólares em activos.

A mudança não significa que o dólar esteja prestes a perder o seu papel central no sistema financeiro internacional. Pelo contrário, a moeda norte-americana continua sem uma alternativa plenamente comparável em liquidez, profundidade de mercado e capacidade de absorver grandes volumes de reservas. Mas revela que as instituições públicas estão a procurar reduzir riscos de concentração, num contexto marcado por incerteza política nos Estados Unidos, tensões geopolíticas e volatilidade persistente nos mercados globais.

Um Sistema Monetário Cada Vez Mais Multipolar

O inquérito indica que 79% dos bancos centrais e 60% dos fundos públicos consideram que o sistema monetário global está em transição para uma configuração mais multipolar.

Esta percepção traduz uma mudança gradual, e não uma ruptura imediata. O dólar permanece a principal moeda de reserva e, segundo a Reuters, registava uma valorização de cerca de 3% desde o início do ano, apoiado por taxas de juro mais elevadas nos Estados Unidos, procura por activos norte-americanos e movimentos de procura por segurança associados à guerra entre os Estados Unidos e o Irão.

Ainda assim, o reforço do risco político e geopolítico associado à moeda norte-americana tem levado os gestores de reservas a explorar uma distribuição mais diversificada dos seus activos.

Moedas fora do grupo tradicional das principais divisas de reserva começam a ganhar maior espaço nas estratégias de alocação. A coroa norueguesa e o dólar neozelandês, por exemplo, surgem entre as moedas que têm atraído interesse adicional dos bancos centrais, a par de uma maior atenção à libra esterlina.

O euro e o renminbi chinês mantêm igualmente perspectivas de reforço nas reservas, embora os próprios inquiridos reconheçam a existência de desafios estruturais que limitam a sua capacidade de se afirmarem como substitutos integrais do dólar.

Ouro Ganha Espaço Como Activo Estratégico

Se a diversificação cambial avança de forma gradual, o ouro emerge como o activo com maior procura imediata entre os bancos centrais.

O inquérito da OMFIF mostra que 82% dos bancos centrais já detêm ouro nas suas reservas e que, numa base líquida, 30% dos participantes prevêem aumentar a sua exposição ao metal precioso nos próximos um a dois anos.

A tendência confirma a crescente importância do ouro como instrumento de preservação de valor, diversificação e protecção contra riscos geopolíticos e monetários. Numa altura em que as reservas internacionais são chamadas a responder a choques cambiais, financeiros ou políticos, o metal volta a ocupar um lugar central na estratégia dos gestores públicos.

O reforço das reservas em ouro também reflecte uma procura por activos que não dependem directamente das decisões de política monetária ou das condições económicas de uma única jurisdição. Ainda assim, a opção pelo metal não elimina os desafios relacionados com volatilidade de preço, custos de armazenamento e menor liquidez comparativamente aos principais títulos soberanos internacionais.

Inteligência Artificial Entra Na Gestão Das Reservas

O inquérito revela ainda que a transformação das estratégias de reserva não se limita à composição dos activos. A tecnologia, em especial a inteligência artificial, começa a assumir um papel mais relevante nas operações dos bancos centrais e fundos públicos.

Mais de dois terços dos bancos centrais inquiridos tencionam aumentar a integração de soluções de inteligência artificial no curto prazo. A utilização actual concentra-se, sobretudo, na análise de dados e em funções administrativas e operacionais internas.

Existe, porém, uma diferença assinalável entre economias avançadas e mercados emergentes. Enquanto mais de 89% dos bancos centrais em economias desenvolvidas já utilizam inteligência artificial, essa proporção desce para 44% entre as instituições dos mercados emergentes.

A diferença evidencia um novo desafio para os países em desenvolvimento: assegurar que a modernização tecnológica das instituições financeiras acompanhe a crescente complexidade dos mercados, sem agravar assimetrias de capacidade, dados e recursos humanos especializados.

Mercados Emergentes Recuperam Atracção

A procura de diversificação também está a beneficiar os mercados emergentes. Entre os fundos públicos abrangidos pelo inquérito, 38% planeiam aumentar a exposição a economias emergentes, acima dos 27% registados no levantamento anterior.

Em sentido contrário, o interesse em elevar a exposição a mercados desenvolvidos recuou de 47% para 25%. Os Estados Unidos e a China continuam a destacar-se entre os destinos mais atractivos, em parte devido à dinâmica de investimento ligada à expansão da inteligência artificial.

Para os mercados emergentes, a tendência pode abrir espaço para maior captação de capital institucional internacional. Mas a oportunidade dependerá da capacidade de cada país em assegurar estabilidade macroeconómica, mercados financeiros funcionais, previsibilidade regulatória e instrumentos adequados para receber investimentos de longo prazo.

A leitura central do inquérito é clara: o dólar continuará a desempenhar um papel dominante, mas já não será visto de forma tão isolada como eixo exclusivo da gestão de reservas. Ouro, moedas alternativas, activos reais, mercados emergentes e novas tecnologias passam a integrar uma resposta mais ampla a um ambiente internacional em que a volatilidade deixou de ser uma excepção e se tornou parte estrutural da tomada de decisão.