Mais Contas, Pouco Crédito: Inclusão Financeira Avança Sem Financiar Plenamente A Economia

0
162
  • Moçambique ampliou em 36% os pontos de acesso a serviços financeiros em 2025, impulsionado pela moeda electrónica, mas o Índice de Inclusão Financeira permaneceu em 36,4 pontos e o crédito à economia recuou para 19% do PIB. Os resultados revelam um sistema mais digital e acessível, porém ainda limitado na conversão de depósitos, contas e transacções em financiamento produtivo, investimento e protecção financeira.
Questões-Chave:
  • Os pontos de acesso cresceram de 353.729 para 482.359, mas 91,9% correspondem a agentes de moeda electrónica;
  • As contas de moeda electrónica atingiram 1.313 por cada mil adultos, enquanto as contas bancárias ficaram em apenas 337 por mil adultos;
  • Os depósitos aumentaram para 51% do PIB, mas o crédito à economia diminuiu para 19%, expondo uma intermediação financeira ainda reduzida;
  • O índice das instituições de moeda electrónica subiu para 45,8 pontos, enquanto o índice do segmento bancário recuou para 28,1;
  • As disparidades territoriais e de género continuam profundas, sobretudo no acesso ao crédito, à banca e aos seguros.

A Inclusão Cresceu Pela Via Do Telemóvel

A inclusão financeira em Moçambique continuou a avançar em 2025, mas fê-lo sobretudo pela expansão da moeda electrónica, e não pelo aprofundamento da banca tradicional ou do crédito à economia.

O Relatório de Inclusão Financeira 2025, divulgado pelo Banco de Moçambique em Julho, mostra que o País passou de 353.729 para 482.359 pontos de acesso a serviços financeiros, um crescimento anual de 36%. A expansão foi determinada principalmente pelos agentes não bancários ligados às instituições de moeda electrónica, que aumentaram 41,8%, para 446.604.

Estes agentes representam agora 91,9% de todos os pontos de acesso financeiro existentes no território nacional. Em sentido contrário, as agências bancárias reduziram-se de 733 para 728, os ATM diminuíram de 1.391 para 1.383 e os terminais POS recuaram 9,2%, para 32.236 unidades.

A transformação é estrutural: o sistema financeiro está a deslocar-se de uma arquitectura baseada em balcões, caixas automáticos e terminais físicos para uma rede descentralizada, suportada por telemóveis e agentes locais.

Esta evolução acompanha a tendência internacional. Segundo a GSMA, os serviços de moeda móvel processaram mais de US$ 2 biliões em transacções durante 2025, com 2,3 mil milhões de contas registadas globalmente. A organização considera que o desafio actual já não se limita à abertura de contas, mas à utilização frequente, segura e economicamente relevante dessas contas. 

Ter Uma Conta Não Significa Estar Financeiramente Incluído

O número de contas de moeda electrónica atingiu 1.313 por cada mil adultos em 2025, contra 1.093 no ano anterior, representando um crescimento de 20%.

O indicador ultrapassa mil porque contabiliza contas, e não necessariamente pessoas diferentes. Um mesmo utilizador pode possuir carteiras em mais de uma instituição. Por isso, o número não deve ser interpretado como significando que 131,3% dos adultos estão financeiramente incluídos.

A introdução do Número Único de Identificação Bancária poderá ajudar a melhorar esta medição. Até ao final de 2025, tinham sido registados 4,1 milhões de identificadores únicos, dos quais 64% pertenciam a homens e apenas 36% a mulheres.

Nas contas bancárias, o avanço foi bastante mais modesto. O número passou de 330 para 337 contas por cada mil adultos, uma subida de apenas 2%. Entre as mulheres, existiam 214 contas por mil adultas, menos de metade das 449 registadas entre os homens.

A diferença entre moeda electrónica e banca tradicional revela que Moçambique está a conseguir reduzir a barreira de entrada no sistema financeiro, mas ainda enfrenta dificuldades em conduzir os utilizadores para produtos mais complexos, como poupança remunerada, crédito, seguros, investimento e financiamento empresarial.

O Índice Ficou Parado Apesar Da Expansão

O Índice de Inclusão Financeira manteve-se em 36,4 pontos em 2025, o mesmo nível do ano anterior, permanecendo na classificação de inclusão moderada.

A estabilidade resulta de movimentos contraditórios. A dimensão de acesso aumentou de 40,1 para 41 pontos e a de uso subiu de 33,9 para 36,8. Porém, a disponibilidade dos serviços caiu de 35,1 para 31,5 pontos, anulando os progressos alcançados nas restantes componentes.

A diferença entre os dois principais segmentos é ainda mais expressiva. O índice das instituições de moeda electrónica avançou de 42,4 para 45,8 pontos, enquanto o da banca recuou de 30,3 para 28,1.

O resultado confirma que as instituições de moeda electrónica se tornaram o principal motor de inclusão financeira do País. Contudo, também revela a fragilidade de um modelo excessivamente dependente de um único canal: quando a inclusão se concentra em transferências e levantamentos, sem evoluir para pagamentos comerciais, poupança, crédito e seguros, o impacto económico permanece limitado.

Transferir Dinheiro Ainda Prevalece Sobre Pagar

A composição das operações de moeda electrónica oferece uma leitura particularmente importante.

As transferências aumentaram de 41% para 48% do volume das transacções entre 2024 e 2025. Em contrapartida, a participação dos levantamentos caiu de 19% para 16% e a dos pagamentos diminuiu de 11% para apenas 8%.

Isto significa que a moeda electrónica está a ser progressivamente utilizada para movimentar recursos entre pessoas, mas ainda não se consolidou como instrumento quotidiano de pagamento nos estabelecimentos comerciais.

O problema não está apenas do lado dos consumidores. Um estudo do Banco Mundial realizado junto de mais de dois mil comerciantes em cinco províncias de Moçambique concluiu que 22% ainda não aceitavam pagamentos digitais. Entre os obstáculos identificados estavam os custos das transacções, a instabilidade da conectividade, a falta de procura dos clientes, o receio de fraudes e a percepção de que as contas empresariais são mais complexas ou dispendiosas. 

Esta evidência ajuda a explicar por que razão a abertura de contas cresce mais rapidamente do que os pagamentos. Sem uma rede comercial ampla, interoperável e acessível, muitos utilizadores recebem dinheiro digitalmente, mas continuam obrigados a convertê-lo em numerário para efectuar as suas despesas.

Poupança Cresce, Mas Não Se Converte Em Crédito

O dado mais crítico do relatório encontra-se na relação entre depósitos e financiamento à economia.

Os depósitos bancários aumentaram três pontos percentuais, alcançando 51% do PIB em 2025. A poupança por cada mil adultos cresceu 5%, para aproximadamente 40 milhões de meticais.

No mesmo período, o crédito à economia diminuiu de 20% para 19% do PIB. O financiamento por cada mil adultos permaneceu estagnado em cerca de 15 milhões de meticais.

Em termos aproximados, o volume do crédito representa apenas 37% do valor dos depósitos quando ambos são comparados como proporção do PIB. Embora esta relação não seja, isoladamente, uma medida completa da eficiência bancária, sinaliza que uma parcela elevada da poupança mobilizada não está a ser transformada em financiamento à actividade económica.

A redução do crédito ocorre num contexto macroeconómico já caracterizado por crescimento fraco e condições de financiamento difíceis. O Fundo Monetário Internacional assinalou, na consulta do Artigo IV concluída em Fevereiro de 2026, que o crescimento fora do sector mineiro deverá continuar modesto, em torno de 2%, reflectindo, entre outros factores, a fraca expansão do crédito. 

Assim, o problema de inclusão financeira deixa de ser apenas o acesso à conta. Passa a ser também a capacidade do sistema para financiar agricultura, comércio, indústria, habitação, empreendedorismo e pequenas e médias empresas.

Acesso Expande-se, Mas O Financiamento Continua Concentrado

A distribuição territorial do crédito continua profundamente desigual.

Maputo — agregando cidade e província — registou crédito equivalente a 50% do seu PIB regional. Em Manica, a proporção foi de apenas 6%, enquanto Nampula, Sofala e Cabo Delgado se situaram em 7%.

Nos depósitos, a concentração é ainda mais expressiva. Maputo alcançou depósitos equivalentes a 147% do PIB regional, comparativamente a 29% em Sofala, 21% em Nampula e apenas 5% em Niassa.

O padrão sugere que a liquidez, a actividade empresarial formal, os rendimentos e a capacidade de financiamento continuam concentrados na região de Maputo. Embora os agentes de moeda electrónica estejam a expandir o acesso nas províncias, esta presença ainda não está a produzir uma convergência comparável no crédito e na intermediação financeira.

A expansão da rede digital reduz a distância física entre as pessoas e o sistema financeiro, mas não elimina outras barreiras: informalidade, baixos rendimentos, falta de garantias, ausência de registos empresariais, custos de financiamento, risco de crédito e limitada literacia financeira.

Mulheres Avançam No Digital, Mas Continuam Atrás No Crédito

O crescimento das contas de moeda electrónica foi mais acelerado entre as mulheres. O número aumentou 24%, de 924 para 1.144 contas por mil adultas. Entre os homens, o crescimento foi de 22%, para 1.502 contas.

Esta evolução reduziu parcialmente a diferença de género no acesso digital. A GSMA também observou que a disparidade de género na posse de contas de moeda móvel em Moçambique diminuiu nos últimos anos. 

Contudo, o avanço nas carteiras electrónicas ainda não se reflecte de forma proporcional no crédito. Entre as operações de particulares com informação de género disponível, as mulheres representaram apenas 34% do crédito em 2025, contra 66% dos homens.

A diferença demonstra que a inclusão feminina ocorre primeiro nos serviços transaccionais de baixo custo, mas enfrenta maiores obstáculos quando envolve avaliação de risco, garantias, rendimento formal e acesso a montantes capazes de financiar negócios ou activos.

A inclusão digital das mulheres será economicamente transformadora apenas quando evoluir para maior capacidade de poupança, obtenção de crédito, contratação de seguros e participação no investimento.

Microcrédito Cresce, Mas Exige Supervisão

O número de operadores de microcrédito aumentou 22%, de 2.818 para 3.426, enquanto as organizações de poupança e empréstimo passaram de 15 para 17 e os microbancos cresceram igualmente de 15 para 17.

Esta expansão pode aproximar o financiamento dos microempreendedores, trabalhadores informais e pequenos negócios que não conseguem cumprir os critérios da banca convencional.

Porém, um aumento rápido do número de operadores exige supervisão proporcional. O crédito de pequena escala pode promover rendimento e actividade empresarial, mas também pode gerar sobreendividamento, práticas abusivas, encargos pouco transparentes e deterioração da confiança quando não acompanhado por mecanismos eficazes de protecção do consumidor.

O crescimento do sector deverá, por isso, ser avaliado não apenas pelo número de operadores, mas pela qualidade do crédito concedido, custos efectivos, sustentabilidade dos mutuários e contribuição para actividades produtivas.

Seguros Continuam Fora Do Alcance Da Maioria

O mercado segurador cresceu 3,5% em 2025, mas continua fortemente concentrado nos produtos tradicionais e na cidade de Maputo.

Os prémios brutos emitidos atingiram cerca de 24,7 mil milhões de meticais no seguro convencional, correspondendo a 98,8% do mercado. O microsseguro representou somente 1,2%, com aproximadamente 295,7 milhões de meticais.

O baixo peso do microsseguro é particularmente relevante num País exposto a ciclones, cheias, secas, doenças, perdas agrícolas e choques de rendimento. A ausência de seguros acessíveis obriga famílias e pequenos negócios a absorver directamente as perdas, vender activos ou recorrer a endividamento informal sempre que ocorre um choque.

A inclusão financeira, portanto, não deve ser medida apenas pela capacidade de efectuar transferências. Deve incluir a possibilidade de proteger rendimentos, colheitas, habitação, saúde e actividade empresarial.

Mercado De Capitais Cresce, Mas Liquidez Recua

A capitalização da Bolsa de Valores de Moçambique aumentou cerca de 5%, atingindo 221,9 mil milhões de meticais, equivalentes a 30,9% do PIB.

Contudo, o volume de negócios caiu 29%, de 34,5 mil milhões para 24,6 mil milhões de meticais. A evolução indica que o valor dos activos cotados aumentou, mas a negociação efectiva perdeu dinamismo.

Para que o mercado de capitais contribua mais amplamente para a inclusão financeira, será necessário alargar o número de investidores, aumentar a diversidade dos instrumentos e criar condições para que mais empresas, incluindo PME estruturadas, utilizem a bolsa como alternativa ao crédito bancário.

Da Infra-Estrutura Digital À Inclusão Económica

A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031 identifica como prioridades a expansão do acesso, o aumento do uso, a literacia financeira e a protecção do consumidor. O relatório refere igualmente iniciativas associadas às finanças verdes, identificação civil, interoperabilidade, cibersegurança, Open Banking, Open Finance e Sandbox Regulatório.

Existem, entretanto, referências divergentes no documento sobre o grau de implementação da Estratégia. O sumário executivo e o capítulo de monitoria indicam que as 39 acções se encontram em curso, enquanto a introdução refere 32 iniciativas em execução. Na secção de perspectivas, o relatório menciona 85% das iniciativas globais e 88% das acções programadas para 2025.

A divergência não invalida os resultados do relatório, mas recomenda uma harmonização metodológica nas próximas edições, distinguindo claramente acções previstas para todo o horizonte da Estratégia, acções programadas para cada ano, actividades iniciadas e medidas efectivamente concluídas.

A principal mensagem do relatório é clara: Moçambique construiu uma rede financeira mais ampla, digital e próxima da população, mas ainda não converteu plenamente essa expansão em intermediação, financiamento produtivo e resiliência económica.

A próxima fase da inclusão financeira não poderá ser avaliada apenas pelo número de agentes ou contas. Terá de ser medida pela capacidade de as famílias pouparem com segurança, os comerciantes receberem pagamentos digitais, as mulheres obterem crédito, as PME financiarem investimento, os agricultores protegerem a produção e as regiões menos servidas participarem efectivamente no crescimento económico.

O País já expandiu a porta de entrada. O desafio decisivo é transformar acesso financeiro em capacidade económica.