Dólar Recupera Com Petróleo Acima De US$ 90 E Risco Geopolítico No Comando Dos Mercados

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  • Depois de terminar a semana anterior ligeiramente pressionada pela moderação da inflação norte-americana, a moeda dos Estados Unidos inicia esta segunda-feira em alta. O agravamento do conflito entre Washington e Teerão, a valorização do petróleo e a procura de activos de refúgio voltaram a favorecer o dólar, embora as expectativas de manutenção das taxas pela Reserva Federal limitem, para já, a dimensão do movimento.
Questões-Chave:
  • O dólar terminou a semana anterior em queda moderada, depois de indicadores de inflação dos Estados Unidos terem reduzido as apostas numa subida imediata das taxas de juro;
  • Na abertura desta segunda-feira, o índice do dólar avançou para 100,84 pontos, enquanto o Brent ultrapassou US$ 90 por barril;
  • Os mercados atribuem uma probabilidade de 85,6% à manutenção das taxas pela Reserva Federal na reunião de 28 e 29 de Julho;
  • A reunião do Banco Central Europeu, a inflação japonesa e a evolução do conflito no Médio Oriente deverão determinar a direcção do mercado ao longo da semana.

Inflação Mais Branda Travou O Dólar No Fecho Semanal

A moeda norte-americana terminou a última semana com uma desvalorização moderada, reflectindo sobretudo a divulgação de indicadores de inflação abaixo das expectativas nos Estados Unidos. Os dados reduziram a percepção de que a Reserva Federal teria necessidade de voltar a aumentar imediatamente as taxas de juro.

Na sexta-feira, os contratos de futuros atribuíam uma probabilidade de apenas 14% a um aumento das taxas na reunião de Julho, contra cerca de 25% uma semana antes. O euro encaminhou-se para uma valorização semanal próxima de 0,2%, negociando em torno de US$ 1,143, enquanto o dólar permanecia próximo de 162,4 yen, perto do nível mais elevado em cerca de quatro décadas. 

A descida semanal do dólar não representou, contudo, uma mudança definitiva de tendência. A procura de segurança provocada pelo agravamento das hostilidades no Médio Oriente ajudou a limitar as perdas da moeda, num contexto em que os investidores continuaram a evitar posições excessivamente expostas ao risco.

O mercado chegou, assim, ao final da semana dividido entre a moderação da inflação norte-americana, que tende a enfraquecer o dólar, e a persistência dos riscos geopolíticos e energéticos, que favorece a procura da moeda enquanto activo de refúgio.

Abertura De Segunda-Feira Inverte Parte Das Perdas

Nas primeiras negociações asiáticas desta segunda-feira, 20 de Julho, o dólar avançou 0,1% face ao yen, para 162,48, atingindo o nível mais elevado desde 9 de Julho. O índice do dólar, que mede o desempenho da moeda norte-americana contra um cabaz de seis divisas, subiu igualmente 0,1%, para 100,84 pontos.

O euro recuou 0,1%, para US$ 1,1426, enquanto a libra permaneceu praticamente inalterada em US$ 1,3445. O dólar australiano desceu para US$ 0,6975 e o dólar neozelandês caiu para US$ 0,5833, reflectindo a redução da procura de moedas mais sensíveis ao crescimento mundial e à disposição dos investidores para assumir risco. 

A leitura da Westpac citada pela Reuters aponta para um mercado cambial relativamente contido, com o dólar globalmente estável, mas com o dólar australiano mais pressionado. Para além do Médio Oriente, as preocupações em torno das avaliações das empresas de semicondutores contribuíram para fragilizar o sentimento dos investidores.

Este elemento não é, isoladamente, suficiente para determinar a direcção do mercado FOREX, mas reforça uma conjuntura caracterizada pela redução do apetite por risco. Quando os investidores se tornam mais defensivos, as moedas ligadas ao comércio mundial, às matérias-primas e ao crescimento asiático tendem a apresentar um desempenho inferior ao dólar.

Petróleo Recoloca A Inflação No Centro Do Mercado

O principal factor por detrás da recuperação do dólar é a subida do petróleo. Os futuros do Brent avançaram 3,3% na abertura asiática, para US$ 90,97 por barril, depois de os Estados Unidos anunciarem uma nova noite de ataques contra o Irão e de se intensificarem as preocupações com o trânsito de navios no Estreito de Ormuz. 

O impacto do petróleo sobre o mercado cambial ocorre através de diferentes canais. Em primeiro lugar, o risco de interrupção do abastecimento energético aumenta a procura de dólares e de títulos do Tesouro norte-americano. Em segundo lugar, a subida dos combustíveis ameaça prolongar a inflação, obrigando os bancos centrais a manter políticas monetárias restritivas durante mais tempo.

O choque energético tende ainda a penalizar mais directamente as economias importadoras de petróleo. A Zona Euro, o Japão e várias economias asiáticas enfrentam riscos acrescidos sobre os custos de produção, a balança comercial e o rendimento disponível das famílias.

Os Estados Unidos também são afectados pela subida dos combustíveis, mas a sua maior capacidade de produção energética e a dimensão do seu mercado financeiro ajudam a preservar a atractividade relativa do dólar em períodos de instabilidade global.

Fed Deve Manter Taxas, Mas Debate Está Longe De Encerrado

Os mercados continuam a antecipar que a Reserva Federal manterá as taxas inalteradas na reunião de 28 e 29 de Julho. Segundo a ferramenta FedWatch do CME Group, a probabilidade implícita de manutenção subiu para 85,6%, comparativamente a 61,5% há um mês. A própria Reserva Federal confirma que a próxima reunião do Comité Federal de Mercado Aberto decorrerá durante aqueles dois dias. 

Esta expectativa de pausa não significa, porém, que o ciclo de aperto monetário esteja encerrado. Os contratos de futuros incorporam cerca de 29 pontos base de aumentos até ao final do ano, sinalizando que o mercado admite pelo menos uma nova subida caso a inflação volte a acelerar.

A presidente da Reserva Federal de Cleveland, Beth Hammack, defendeu na sexta-feira que as taxas poderão precisar de subir para conter pressões inflacionistas persistentes. A posição junta-se a um tom mais restritivo entre vários responsáveis da instituição e antecipa uma reunião potencialmente marcada por divergências internas.

Para o dólar, esta combinação é relativamente favorável. Uma pausa em Julho limita uma valorização muito rápida da moeda, mas a manutenção da possibilidade de aumentos posteriores preserva o diferencial de juros entre os Estados Unidos e outras economias.

O elemento decisivo será a forma como a Fed distinguirá entre inflação temporariamente impulsionada pela energia e pressões mais generalizadas sobre os preços. Quanto mais prolongada for a subida do petróleo, maior será o risco de transmissão aos transportes, alimentos, indústria e serviços.

BCE Enfrenta O Dilema Entre Inflação E Crescimento

A atenção dos investidores deverá voltar-se igualmente para o Banco Central Europeu, cuja reunião de política monetária decorre na quarta e quinta-feira, 22 e 23 de Julho. A conferência de imprensa está marcada para quinta-feira. 

O BCE aumentou as taxas em 25 pontos base na sua reunião de Junho, justificando a decisão com a necessidade de impedir que o choque energético se transformasse em inflação mais persistente. As actas revelam, contudo, que a instituição pretende manter uma abordagem dependente dos dados, sem se comprometer antecipadamente com uma sequência de aumentos. 

Para o euro, a comunicação do BCE poderá ser mais importante do que a decisão propriamente dita. Uma mensagem firme sobre a necessidade de novos aumentos apoiaria a moeda única, sobretudo se a instituição demonstrar maior preocupação com a inflação do que com o crescimento.

Por outro lado, o euro poderá enfraquecer caso o BCE enfatize os riscos económicos decorrentes do aumento da energia. A Zona Euro enfrenta uma situação delicada: o petróleo mais caro pressiona a inflação, mas também reduz o consumo e aumenta os custos da indústria.

Este dilema limita o espaço para uma valorização sustentada do euro, mesmo que as taxas permaneçam elevadas.

Yen Aproxima-se Novamente Da Zona De Intervenção

O yen continua a representar um dos focos de maior tensão no mercado cambial. A cotação de 162,48 yen por dólar coloca a moeda japonesa muito próxima do mínimo de 162,84 atingido no início do mês, o nível mais fraco em aproximadamente 40 anos. 

A fraqueza do yen resulta principalmente do diferencial entre os juros norte-americanos e japoneses. Apesar do processo gradual de normalização monetária promovido pelo Banco do Japão, os rendimentos disponíveis no Japão continuam inferiores aos dos Estados Unidos, incentivando operações financiadas em yen e aplicadas em activos de maior retorno.

Os dados da inflação japonesa, previstos para sexta-feira, deverão ser determinantes. Uma leitura inferior às expectativas poderá reduzir as apostas numa nova subida das taxas pelo Banco do Japão e empurrar o dólar acima de 162,84 yen.

Uma inflação mais elevada poderá produzir o efeito contrário, aumentando a probabilidade de aperto monetário na reunião do Banco do Japão marcada para 30 e 31 de Julho

A proximidade de níveis historicamente sensíveis aumenta também o risco de intervenção das autoridades japonesas. Qualquer venda directa de dólares pelo Ministério das Finanças poderia provocar uma recuperação rápida do yen, ainda que o efeito duradouro dependesse de uma redução efectiva do diferencial de juros.

Três Cenários Para A Presente Semana

No cenário-base, o dólar deverá permanecer relativamente firme, mas sem uma trajectória linear de valorização. A Fed deverá continuar a sinalizar uma pausa em Julho, enquanto o BCE poderá adoptar uma comunicação cautelosa. Neste quadro, o euro tenderá a oscilar próximo dos níveis actuais, enquanto o dólar-yen continuará a testar os máximos recentes.

Num cenário de agravamento do conflito entre os Estados Unidos e o Irão, acompanhado por novas limitações ao trânsito no Estreito de Ormuz, o Brent poderá consolidar-se acima de US$ 90. A procura de segurança favoreceria o dólar e penalizaria o euro, o yen, as moedas asiáticas e as divisas mais expostas ao crescimento mundial.

Neste cenário, a inflação voltaria a dominar as expectativas de política monetária, fortalecendo as previsões de aumentos posteriores das taxas norte-americanas. O dólar poderia beneficiar simultaneamente da procura defensiva e da perspectiva de rendimentos mais elevados.

Num terceiro cenário, uma redução das tensões geopolíticas e uma correcção do petróleo devolveriam protagonismo aos dados de inflação mais moderados. O mercado reduziria as expectativas de novos aumentos pela Fed, criando espaço para uma recuperação do euro, da libra e das moedas australiana e neozelandesa.

Pressões Externas Mantêm Riscos Para Moçambique

Para Moçambique, a combinação entre petróleo acima de US$ 90 e dólar internacionalmente firme aumenta os riscos sobre a factura de importação de combustíveis, equipamentos, matérias-primas e bens de consumo.

Na última referência disponível no Banco de Moçambique, a taxa média de câmbio situava-se em 63,91 meticais por dólar, considerando os valores de compra e venda de 16 de Julho. A estabilidade nominal do metical reduz a transmissão cambial directa, mas não impede que o aumento do preço internacional do petróleo seja incorporado nos custos de importação, transporte e distribuição. 

Para empresas com pagamentos externos, dívida denominada em dólares ou elevada dependência de produtos importados, a conjuntura recomenda maior disciplina na gestão de tesouraria e da exposição cambial. A antecipação de pagamentos, a negociação de prazos e a protecção de margens tornam-se mais relevantes num ambiente em que pequenas alterações geopolíticas podem provocar movimentos rápidos no petróleo e nas moedas.

A semana começa, deste modo, com uma vantagem táctica para o dólar, mas não com uma direcção totalmente consolidada. A geopolítica e a energia sustentam a moeda norte-americana; a moderação da inflação e a elevada probabilidade de pausa da Fed limitam a sua valorização.

O equilíbrio poderá ser alterado pela decisão do BCE, pelos dados do Japão e, sobretudo, pela evolução do conflito no Médio Oriente. Enquanto estes factores permanecerem em aberto, o mercado FOREX continuará sujeito a oscilações rápidas e a uma elevada sensibilidade às notícias.