Petróleo Recua Com Sinais de Trégua, Mas Dupla Ameaça Marítima Mantém Risco Elevado

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  • Brent desce para 88,44 dólares e WTI para 82,50 dólares, enquanto os investidores avaliam uma proposta de cessar-fogo entre Washington e Teerão. A ameaça dos Houthis ao transporte marítimo saudita, porém, estende o risco do Estreito de Hormuz ao Bab al-Mandeb, mantendo vulneráveis o abastecimento, os fretes e os preços dos combustíveis.
Questões-Chave:
  • A proposta de um cessar-fogo de dez dias reduziu temporariamente o prémio geopolítico incorporado nas cotações;
  • A ameaça de bloqueio à Arábia Saudita abre uma segunda frente de risco sobre as rotas energéticas do Médio Oriente;
  • A oferta adicional dos Estados Unidos, a libertação de reservas estratégicas e a menor procura chinesa têm impedido uma escalada mais acentuada dos preços;
  • Para Moçambique, a permanência do Brent próximo ou acima de 90 dólares aumenta os riscos sobre a factura de importação, a disponibilidade de divisas, os transportes e a inflação.

Mercado Compra Diplomacia, Mas Ainda Não Compra Paz

Os preços internacionais do petróleo recuaram nesta terça-feira, 21 de Julho, depois de o mercado ter recebido indicações de que mediadores apresentaram aos Estados Unidos da América e ao Irão uma proposta para um cessar-fogo de dez dias.

Pelas 04h15 GMT, os futuros do Brent, referência internacional para o petróleo, caíam 78 cêntimos, ou 0,9%, para 88,44 dólares por barril. O West Texas Intermediate, referência norte-americana, descia igualmente 0,9%, para 82,50 dólares, enquanto o contrato mais activo para entrega em Setembro recuava para 82,07 dólares. 

O movimento aprofundou a descida iniciada nas primeiras horas da sessão, quando o Brent era negociado em torno de 88,87 dólares e o WTI se mantinha próximo de 82,47 dólares. A trajectória mostra um mercado altamente reactivo às informações diplomáticas, embora ainda sustentado por um prémio de risco associado à continuidade dos ataques entre Washington e Teerão.

Segundo a Reuters, um alto responsável iraniano confirmou que Teerão recebeu a proposta dos mediadores, destinada a recuperar o entendimento provisório assinado em 17 de Junho e a criar condições para um acordo mais duradouro. A iniciativa diplomática surgiu, contudo, depois de mais uma noite de ataques norte-americanos contra cidades iranianas e de acções das forças iranianas contra instalações militares dos Estados Unidos na região. 

A descida das cotações não representa, por isso, uma alteração estrutural da situação do mercado. Reflecte sobretudo uma redução temporária da probabilidade atribuída a uma interrupção mais severa do abastecimento.

Na prática, os operadores estão a negociar a diferença entre uma proposta de trégua e a capacidade efectiva das partes de a implementar. Enquanto essa diferença não desaparecer, qualquer notícia sobre novos ataques, navios atingidos ou negociações interrompidas poderá provocar oscilações bruscas.

Do Estreito de Hormuz ao Bab al-Mandeb

A principal mudança introduzida nas últimas sessões é a expansão geográfica do risco energético.

Durante grande parte do conflito, a atenção concentrou-se no Estreito de Hormuz, corredor por onde, antes da guerra, transitava aproximadamente um quinto da oferta mundial de petróleo. A Reuters indica que o tráfego voltou a cair em Julho, depois de uma recuperação parcial em Junho, à medida que os confrontos entre os Estados Unidos e o Irão foram retomados. 

Agora, a ameaça dos Houthis de impor um bloqueio marítimo à Arábia Saudita desloca parte do risco para o Bab al-Mandeb, passagem que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e constitui uma das principais portas de acesso ao Canal do Suez.

A Associated Press refere que cerca de 12% do comércio mundial e aproximadamente um quarto do comércio global de contentores passam normalmente pelo Bab al-Mandeb. O estreito tem apenas cerca de 32 quilómetros de largura em determinados pontos, o que aumenta a sua vulnerabilidade operacional e militar. 

A ameaça é especialmente relevante porque a Arábia Saudita tem utilizado o oleoduto Este-Oeste para transportar petróleo das zonas produtoras do Golfo até ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho, reduzindo a dependência do Estreito de Hormuz. A Rystad Energy estima que cerca de 2,5 milhões de barris diários movimentados através desta alternativa poderão ficar expostos se a ameaça dos Houthis se materializar. 

O mercado enfrenta, assim, um risco de “duplo estrangulamento”: limitações no Golfo Pérsico e ameaças no acesso ao Mar Vermelho.

Mesmo sem um bloqueio efectivo, a deterioração da segurança marítima pode elevar os prémios de seguro, os custos de fretamento e as exigências de protecção dos navios. As companhias podem ainda optar por rotas mais longas em torno do Cabo da Boa Esperança, acrescentando milhares de quilómetros às viagens e aumentando o consumo de combustível, o tempo de entrega e o custo final das mercadorias.

Para economias africanas importadoras de combustíveis, este efeito logístico pode ser quase tão importante quanto a própria cotação do crude. O preço do petróleo pode estabilizar, mas o custo do produto entregue continuar a subir por causa dos fretes, dos seguros e das disrupções nas refinarias.

Por Que o Brent Ainda Não Disparou Para 150 Dólares

A resistência das cotações a uma escalada ainda maior tem surpreendido parte dos analistas.

Quando o conflito começou, no final de Fevereiro, algumas previsões apontavam para valores entre 150 e 200 dólares por barril caso o Estreito de Hormuz permanecesse fechado. O Brent atingiu um máximo próximo de 126 dólares, abaixo do recorde histórico de 147 dólares registado em 2008, e chegou a recuar para aproximadamente 70 dólares no início de Julho. 

Esta contenção resulta de vários factores.

O primeiro é a evolução da procura chinesa. A China, maior importador mundial de petróleo, reduziu as compras de crude para o nível mais baixo em quase uma década até Junho, num contexto de menor actividade petroquímica, redução das exportações de combustíveis e crescente utilização de veículos eléctricos em segmentos como os táxis urbanos. 

O segundo factor é o aumento da produção norte-americana. A produção de petróleo dos Estados Unidos atingiu um recorde de 13,93 milhões de barris diários em Abril, ajudando a substituir parte dos volumes perdidos no Médio Oriente. 

O terceiro elemento foi a libertação coordenada de reservas estratégicas. Em Março, os países membros da Agência Internacional de Energia disponibilizaram 400 milhões de barris de reservas de emergência, a maior operação do género alguma vez organizada pela instituição. 

Finalmente, a reabertura parcial das rotas através de Hormuz em Junho permitiu que petróleo acumulado em navios e depósitos chegasse ao mercado. Segundo a Agência Internacional de Energia, as exportações totais do Golfo aumentaram 6,5 milhões de barris diários em Junho, para 16,1 milhões, embora permanecessem abaixo da média pré-guerra de 24 milhões de barris por dia. 

Estes mecanismos criaram uma almofada temporária. Não eliminaram, porém, o défice estrutural provocado pelo conflito.

Crude Mais Disponível, Combustíveis Ainda Apertados

Uma das características mais importantes do actual mercado é a diferença entre a disponibilidade de petróleo bruto e a oferta de produtos refinados.

A Agência Internacional de Energia calcula que a oferta global aumentou 4,1 milhões de barris diários em Junho, atingindo 98,8 milhões de barris por dia. Apesar dessa recuperação, a produção permaneceu 9,4 milhões de barris diários abaixo dos níveis anteriores à guerra. 

Ao mesmo tempo, a actividade das refinarias continua limitada. As refinarias exportadoras do Golfo ainda não recuperaram plenamente, instalações russas foram afectadas por ataques e várias unidades asiáticas permanecem a operar abaixo da capacidade normal.

A AIE estima que a actividade global de refinação poderá cair 2,4 milhões de barris diários em 2026. As margens de refinação e os diferenciais de produtos atingiram, no início de Julho, os níveis mais elevados em quatro anos. 

Isto significa que a descida do Brent não se transmite necessariamente, de forma automática ou proporcional, aos preços do diesel, do combustível de aviação, do gás de petróleo liquefeito ou da gasolina.

Os inventários também oferecem uma protecção limitada. As reservas observadas de petróleo aumentaram 21 milhões de barris em Junho, a primeira subida em quatro meses, mas esse crescimento resultou sobretudo de volumes ainda transportados por mar. Os stocks terrestres continuaram a diminuir, incluindo uma redução de 62 milhões de barris nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. 

A composição dos inventários importa tanto quanto o seu volume total. Petróleo armazenado em navios, sujeito a atrasos logísticos e riscos de segurança, não oferece a mesma estabilidade que produtos refinados disponíveis junto dos principais centros consumidores.

Trégua, Escalada ou Conflito Prolongado

Nas próximas sessões, o mercado deverá mover-se entre três possibilidades.

Uma trégua verificável, acompanhada pela retoma consistente do tráfego em Hormuz e pela redução das ameaças no Bab al-Mandeb, retiraria parte importante do prémio geopolítico. Nesse cenário, o mercado voltaria a concentrar-se na procura chinesa, no aumento da oferta dos produtores não pertencentes à OPEP+ e na possibilidade de um excedente em 2027.

A AIE prevê uma queda de aproximadamente um milhão de barris diários na procura mundial de petróleo em 2026, seguida por uma recuperação de dois milhões de barris diários em 2027. A projecção depende, contudo, de uma redução rápida das hostilidades. 

Um segundo cenário seria a continuação do conflito nos níveis actuais, com ataques intermitentes e negociações recorrentes. Este quadro manteria o Brent provavelmente sujeito a oscilações amplas, sem necessariamente produzir uma subida contínua. Os investidores continuariam a comprar e vender petróleo com base em manchetes, e não apenas nos fundamentos tradicionais da oferta e da procura.

O terceiro cenário, de maior risco, envolveria ataques coordenados contra infra-estruturas petrolíferas, refinarias, oleodutos ou navios, combinados com interrupções simultâneas em Hormuz e no Bab al-Mandeb. Nesse caso, o mercado deixaria de avaliar apenas a quantidade de crude disponível e passaria a precificar a capacidade efectiva de o transportar, refinar e entregar.

A divulgação dos próximos dados de inventários dos Estados Unidos, prevista pela Administração de Informação Energética para 22 de Julho, poderá oferecer uma indicação adicional sobre a capacidade do mercado norte-americano de absorver a actual volatilidade. 

O Canal de Transmissão Para Moçambique

Para Moçambique, a actual volatilidade internacional representa um risco macroeconómico e empresarial directo.

O País importa a maior parte dos combustíveis que consome e depende de disponibilidade regular de divisas para financiar essas compras. Segundo o Fundo Monetário Internacional, os combustíveis representam cerca de 14% das importações totais moçambicanas. 

Uma subida persistente dos preços internacionais aumenta a factura de importação, pressiona a procura por dólares, reduz a margem de manobra das empresas importadoras e pode agravar os custos de transporte, produção agrícola, logística, construção, pesca e distribuição comercial.

Num exercício de sensibilidade publicado no relatório de consultas do Artigo IV, o FMI estimou que um choque adverso nos preços dos combustíveis poderia ampliar o défice da conta corrente de Moçambique em 2,8% do Produto Interno Bruto no conjunto de 2026 e 2027, caso não existisse uma resposta compensatória. 

O choque pode também transmitir-se à inflação por várias vias. O aumento dos combustíveis encarece directamente o transporte de passageiros e mercadorias. Em seguida, eleva o custo dos alimentos transportados das zonas de produção para os centros urbanos, dos materiais de construção e dos serviços que dependem de geradores ou equipamentos movidos a diesel.

Além disso, eventuais atrasos no ajustamento dos preços domésticos não eliminam o custo económico. Apenas transferem o encargo para outros participantes, incluindo importadores, distribuidores, Estado, sistema financeiro ou fornecedores que tenham de acumular créditos e margens negativas.

Para as empresas, o actual contexto recomenda maior atenção à gestão de tesouraria, à contratação de transporte, aos prazos de entrega e à exposição cambial. Sectores com elevada intensidade energética devem considerar cenários em que a cotação internacional desça, mas os custos logísticos e os prémios de seguro permaneçam elevados.

A Geopolítica Passa a Determinar o Preço Entregue

A descida desta terça-feira não significa que o mercado petrolífero tenha ultrapassado o risco geopolítico. Significa apenas que, nesta sessão, os investidores atribuíram maior peso à possibilidade de uma trégua do que à probabilidade de uma interrupção imediata e generalizada da oferta.

O equilíbrio continua frágil.

A oferta adicional dos Estados Unidos, as reservas estratégicas e a menor procura chinesa têm funcionado como estabilizadores. Contudo, os inventários terrestres estão pressionados, a capacidade de refinação permanece condicionada e duas das rotas marítimas mais importantes do mundo encontram-se simultaneamente expostas.

O Brent abaixo de 90 dólares poderá, portanto, revelar-se um alívio temporário, e não uma nova tendência consolidada. A variável decisiva deixou de ser apenas quanto petróleo existe no mercado. Passou a ser quanto desse petróleo consegue atravessar os estreitos, chegar às refinarias e ser entregue aos consumidores a um custo economicamente sustentável.