Depois da Euforia da IA, Investidores Redescobrem o Valor da Diversificação

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  • A forte concentração dos ganhos bolsistas em empresas ligadas à inteligência artificial tornou os índices globais menos diversificados do que aparentam. Saúde, América Latina e Reino Unido surgem como possíveis contrapesos, embora possam continuar atrás da tecnologia caso o impulso da IA se prolongue.

Questões-Chave

  • As acções associadas à inteligência artificial duplicaram entre Junho de 2025 e Junho de 2026, antes da recente correcção.
  • O factor “momentum” valorizou perto de 200% nos últimos cinco anos, segundo a BlackRock.
  • O MSCI All Country World Index apresentou uma correlação de 0,79 com as acções de IA.
  • O sector da saúde registou uma correlação praticamente nula com a inteligência artificial e negoceia com um desconto de 15% face ao mercado.
  • A América Latina representa apenas 0,8% do MSCI ACWI, embora responda por cerca de 7% do produto interno bruto mundial.
  • Saúde, América Latina e Reino Unido oferecem fontes alternativas de retorno, mas não garantem desempenho superior no curto prazo.

A inteligência artificial não eliminou a importância da diversificação. Pelo contrário, a forte concentração de capitais em empresas tecnológicas e fornecedores de infra-estruturas digitais está a tornar ainda mais relevante a procura por activos cujos resultados dependam de diferentes sectores, regiões e factores económicos.

Num comentário publicado pela Reuters, Helen Jewell observa que o investimento maciço em inteligência artificial impulsionou os lucros empresariais e elevou as cotações das empresas associadas à nova tecnologia. As acções de IA, representadas por um fundo negociado em bolsa da iShares, duplicaram entre Junho de 2025 e Junho de 2026, antes de registarem uma retracção recente.

A mesma análise refere que o factor de investimento conhecido como “momentum” — estratégia que privilegia acções que já apresentam uma trajectória de valorização — ganhou perto de 200% nos últimos cinco anos. Segundo dados da BlackRock citados por Jewell, este desempenho superou o de todos os outros factores de investimento analisados no mesmo período.

Esta concentração dos ganhos criou a impressão de que a diversificação deixou de compensar. Contudo, quanto maior for o número de investidores posicionados nos mesmos activos, mais expostas ficam as carteiras a uma eventual mudança de expectativas sobre receitas, investimentos, margens ou capacidade de monetização da inteligência artificial.

Índices Globais Escondem Uma Concentração Crescente

A aquisição de um índice global é habitualmente apresentada como uma das formas mais simples de diversificar uma carteira. O investidor obtém exposição a centenas ou milhares de empresas distribuídas por diferentes países e sectores.

Todavia, a análise da BlackRock, reproduzida pela Reuters, mostra que essa diversificação pode ser mais aparente do que efectiva.

Com base nos retornos registados ao longo dos últimos 12 meses, o MSCI All Country World Index apresentou uma correlação de 0,79 com as acções ligadas à inteligência artificial e de 0,76 com o factor momentum. Isto significa que os movimentos do índice global estiveram fortemente associados ao desempenho dos activos que lideraram a corrida à IA.

O fenómeno resulta, em grande medida, da forma como os principais índices são construídos. À medida que as maiores empresas tecnológicas valorizam, passam a representar uma parcela crescente do valor total dos índices ponderados pela capitalização bolsista.

Consequentemente, um investidor pode possuir acções de várias empresas e geografias, mas continuar excessivamente dependente das mesmas expectativas sobre investimentos em centros de dados, semicondutores, computação em nuvem e inteligência artificial.

A diversificação pelo número de títulos não corresponde necessariamente à diversificação pelos factores económicos que determinam o seu desempenho.

A Operação Mais Concorrida do Mercado

A posição associada à inteligência artificial tornou-se a mais concorrida desde que a Goldman Sachs acompanha este tipo de exposição, refere Helen Jewell no comentário publicado pela Reuters.

O facto de uma estratégia ser muito procurada não significa que esteja prestes a terminar. As empresas de IA poderão continuar a crescer, aumentar receitas e justificar avaliações elevadas.

O risco surge quando um número crescente de investidores detém posições semelhantes e depende das mesmas premissas. Uma desaceleração da procura por capacidade computacional, resultados abaixo das previsões ou dúvidas sobre o retorno dos investimentos pode provocar vendas simultâneas.

A concentração torna-se especialmente relevante num momento em que as maiores empresas tecnológicas estão a aumentar significativamente as despesas com centros de dados, servidores, redes, energia e chips especializados.

O mercado começa, por isso, a distinguir entre a continuidade estrutural da inteligência artificial e a possibilidade de os preços de determinadas acções já incorporarem expectativas demasiado optimistas.

Saúde Recupera a Função Defensiva

Helen Jewell identifica o sector da saúde como a primeira das três alternativas capazes de reduzir a dependência de uma carteira relativamente ao ciclo tecnológico.

Segundo a análise da BlackRock citada pela Reuters, as acções de saúde apresentaram, nos últimos 12 meses, uma correlação de menos 0,06 com as acções de inteligência artificial e de apenas 0,12 com o factor momentum.

Os valores indicam que praticamente não existiu uma relação entre os movimentos do sector da saúde e os das empresas que lideraram a valorização associada à IA. Esta baixa correlação permite que a saúde funcione como possível amortecedor em períodos de correcção tecnológica.

A natureza defensiva do sector resulta da relativa estabilidade da procura. Medicamentos, diagnósticos, tratamentos e cuidados médicos continuam a ser necessários mesmo quando o crescimento económico abranda.

A BlackRock considera que mudanças estruturais, como o envelhecimento da população, a inovação farmacêutica e a expansão das tecnologias médicas, deverão continuar a apoiar os lucros do sector.

Apesar desse perfil, a saúde negoceia actualmente com um desconto de cerca de 15% face ao mercado global. Segundo Jewell, esta situação contrasta com grande parte das últimas três décadas, período em que a consistência dos resultados justificou avaliações normalmente superiores às do mercado.

Nem Todas as Empresas de Saúde São Iguais

O desconto sectorial não significa que todas as empresas de saúde constituam oportunidades equivalentes.

Dados da FactSet e da BlackRock, citados no comentário da Reuters, mostram que a saúde apresentou, no último ano, uma dispersão entre acções superior à de todos os sectores, com excepção da tecnologia.

Esta dispersão significa que os resultados variaram significativamente de empresa para empresa. Algumas beneficiaram da aprovação de novos medicamentos, inovação nos diagnósticos ou aumento da procura. Outras foram penalizadas pela perda de patentes, dificuldades de investigação, pressão regulatória ou aumento dos custos.

A selecção torna-se, assim, determinante.

Helen Jewell defende maior atenção às empresas que incorporam a transformação tecnológica. A utilização conjunta de grandes bases de dados médicos e modelos de inteligência artificial pode acelerar a detecção de doenças, o desenvolvimento de medicamentos e a escolha de tratamentos.

A saúde pode, portanto, funcionar simultaneamente como diversificador e como beneficiária da IA, mesmo que a valorização das empresas tecnológicas directamente associadas à tendência venha a abrandar.

América Latina Continua Fora do Centro dos Capitais

A segunda alternativa indicada por Jewell encontra-se na América Latina.

Segundo a análise da BlackRock, os mercados accionistas da região apresentaram uma correlação reduzida com as acções de inteligência artificial e com o factor momentum, permanecendo largamente afastados da concentração observada nos mercados desenvolvidos.

A América Latina representa apenas 0,8% do MSCI All Country World Index, embora responda por aproximadamente 7% do produto interno bruto mundial. Para a BlackRock, esta diferença entre o peso económico e a representação bolsista poderá diminuir ao longo dos próximos anos.

A reduzida participação da região nos índices internacionais reflecte mercados de capitais menos profundos, menor número de empresas cotadas, riscos políticos, instabilidade regulatória e volatilidade cambial.

Todavia, a baixa representação também significa que uma pequena alteração nas decisões dos investidores globais pode produzir impactos relevantes sobre as bolsas regionais.

Helen Jewell destaca que as acções brasileiras e mexicanas continuam a negociar com descontos face às respectivas avaliações históricas, num momento em que vários mercados desenvolvidos apresentam prémios relativamente às médias de longo prazo.

Juros e Matérias-Primas Podem Criar Catalisadores

A evolução das taxas de juro constitui um dos possíveis factores de reavaliação dos mercados latino-americanos.

Eventuais cortes das taxas directoras poderão reduzir o custo do crédito, apoiar o consumo, melhorar as condições financeiras das empresas e estimular o investimento interno.

A região poderá igualmente beneficiar do aumento da procura por matérias-primas associado à electrificação e à construção da infra-estrutura necessária para a inteligência artificial.

Centros de dados, redes eléctricas, sistemas de armazenamento e equipamentos digitais exigem quantidades crescentes de cobre e outros minerais. Economias latino-americanas com forte exposição às matérias-primas poderão beneficiar indirectamente do ciclo tecnológico, mesmo sem possuírem grandes empresas produtoras de modelos de IA.

Esta exposição representa uma ligação de segunda ordem à inteligência artificial: em vez de investir directamente nos criadores da tecnologia, o investidor participa nos sectores que fornecem os recursos físicos necessários à sua expansão.

A Região Mantém Riscos Estruturais

As avaliações reduzidas da América Latina não garantem, contudo, um desempenho superior.

Os mercados da região permanecem expostos a mudanças políticas, instabilidade regulatória, volatilidade cambial, dependência das matérias-primas e alterações nas condições financeiras internacionais.

Uma valorização do dólar ou uma subida dos juros norte-americanos pode provocar saída de capitais, enfraquecimento das moedas e aumento do custo da dívida.

Por outro lado, uma desaceleração da economia mundial poderá reduzir os preços das matérias-primas e penalizar empresas exportadoras.

A América Latina oferece, portanto, baixa correlação e avaliações potencialmente atractivas, mas exige uma selecção rigorosa entre países, sectores e empresas.

Reino Unido Revaloriza a “Velha Economia”

O Reino Unido constitui a terceira alternativa identificada por Helen Jewell.

Segundo a análise da BlackRock publicada pela Reuters, o mercado britânico apresenta uma correlação de apenas 0,26 com as acções de inteligência artificial.

A mesma análise indica que, considerando o retorno total, incluindo dividendos, o índice FTSE 100 superou as acções globais ao longo dos últimos cinco anos, apesar de possuir pouca exposição directa a empresas exclusivamente ligadas à inteligência artificial.

A composição do mercado britânico explica parte deste comportamento. O FTSE 100 possui uma forte presença de empresas financeiras, mineiras, energéticas, farmacêuticas e de bens de consumo.

Durante a fase de domínio das grandes tecnológicas norte-americanas, esta estrutura foi frequentemente considerada uma fragilidade. Num contexto de procura por diversificação, a exposição à chamada “velha economia” pode transformar-se numa vantagem.

Os Sectores Tradicionais Também Podem Ganhar Com a IA

A reduzida exposição directa do Reino Unido à inteligência artificial não significa que as empresas britânicas fiquem excluídas dos benefícios da transformação tecnológica.

Helen Jewell assinala que os bancos podem utilizar a IA para reduzir custos, detectar fraudes, avaliar riscos e automatizar processos.

As empresas mineiras podem beneficiar do aumento da procura por cobre e outros materiais utilizados na electrificação e na expansão dos centros de dados.

As farmacêuticas podem aplicar modelos avançados à investigação, aos diagnósticos e ao desenvolvimento de medicamentos.

As empresas energéticas podem igualmente beneficiar do aumento do consumo de electricidade associado à capacidade computacional.

O mercado britânico oferece, deste modo, uma exposição indirecta à inteligência artificial, baseada nos sectores e recursos necessários para sustentar a infra-estrutura tecnológica.

Estabilidade Política Pode Apoiar a Reavaliação

A estabilidade política é apontada pela análise como um possível catalisador para as acções britânicas.

Helen Jewell recorda que o Reino Unido atravessou uma década marcada por seis primeiros-ministros, negociações relacionadas com o Brexit, choques inflacionistas e incerteza económica.

Uma maior previsibilidade política poderá aumentar a confiança dos investidores, estimular a procura doméstica por acções britânicas e reforçar o interesse já demonstrado por investidores estrangeiros.

Todavia, avaliações reduzidas podem manter-se durante longos períodos quando não existem catalisadores suficientemente fortes. Um mercado barato não se transforma automaticamente num mercado em valorização.

Diversificar Pode Penalizar o Retorno Imediato

O principal risco da estratégia está no horizonte temporal.

A inteligência artificial pode continuar a liderar os mercados. Os investimentos em centros de dados, semicondutores, software e computação em nuvem podem gerar receitas e lucros suficientes para sustentar novas valorizações.

Nesse cenário, saúde, América Latina e Reino Unido poderão continuar a apresentar desempenhos inferiores, apesar de oferecerem maior protecção contra uma eventual correcção.

A própria Helen Jewell reconhece que existem poucos catalisadores claros para que estas três alternativas superem as acções ligadas à IA no curto prazo.

Este é o custo da diversificação. Uma carteira distribuída por diferentes fontes de risco dificilmente acompanha integralmente a estratégia vencedora enquanto a tendência se mantém.

O seu objectivo não é superar o mercado em todos os períodos, mas evitar que todo o património dependa de uma única previsão.

A Correcção dos Semicondutores Deixa Um Aviso

O comentário publicado pela Reuters assinala que o índice norte-americano de semicondutores já registou uma retracção durante Julho.

A queda não confirma o fim do ciclo de inteligência artificial. Mostra, porém, que as avaliações podem reagir rapidamente a mudanças nas expectativas sobre investimentos, procura ou capacidade de geração de receitas.

As grandes empresas tecnológicas estão a aumentar os investimentos físicos, pressionando o fluxo de caixa livre e elevando a necessidade de demonstrar retornos financeiros.

Se a monetização ocorrer abaixo do esperado, os investidores poderão questionar a dimensão dos investimentos realizados durante a expansão.

A possibilidade de sobreinvestimento constitui, por isso, uma das principais razões para procurar activos com menor ligação à tendência dominante.

Diversificar É Separar Fontes de Retorno

A principal mensagem da análise não é substituir completamente a tecnologia por saúde, América Latina ou Reino Unido.

É reconhecer que uma carteira verdadeiramente diversificada deve depender de diferentes fontes de receitas, avaliações, moedas, taxas de juro e ciclos económicos.

Uma fabricante norte-americana de semicondutores, uma empresa asiática de equipamentos digitais e uma plataforma europeia podem estar localizadas em regiões distintas, mas continuar dependentes da mesma expansão da inteligência artificial.

Em sentido contrário, uma farmacêutica britânica, um banco brasileiro e uma empresa mineira latino-americana podem reagir a factores económicos bastante diferentes.

A diversificação moderna exige, por isso, olhar para além da localização geográfica e do número de títulos presentes numa carteira.

A IA Não Eliminou a Diversificação — Tornou-a Mais Necessária

A inteligência artificial continua a representar uma das mais importantes transformações económicas e empresariais da actualidade.

Contudo, a concentração crescente dos índices, a popularidade das mesmas posições e o volume dos investimentos aumentam o risco de que carteiras aparentemente diferentes reajam da mesma forma perante uma surpresa negativa.

A leitura de Helen Jewell, apoiada em dados da BlackRock, Goldman Sachs, FactSet e MSCI, mostra que saúde, América Latina e Reino Unido podem oferecer fontes alternativas de retorno e reduzir a dependência do ciclo tecnológico.

Nenhuma destas opções garante desempenho superior. A sua função é outra: proteger a carteira contra a possibilidade de a narrativa dominante perder força.

A diversificação tende a parecer menos necessária quando todos os activos associados à mesma história continuam a subir. Torna-se indispensável quando o mercado descobre que diferentes investimentos estavam, afinal, expostos ao mesmo risco.