
Dados Tornam-Se Novo Activo Para Converter Empresas Moçambicanas Em Negócios Financiáveis
- Governo, banca, seguradoras, mercado de capitais e sector privado convergem na necessidade de transformar pagamentos, facturação, identidade e históricos digitais em informação económica capaz de reduzir o risco do crédito. O acesso à tecnologia, contudo, só produzirá inclusão financeira produtiva quando for acompanhado por transparência empresarial, governação, protecção de dados e instrumentos de financiamento de longo prazo.
Questões-Chave
- A digitalização é apresentada como mecanismo para tornar visíveis actividades económicas que produzem e empregam, mas permanecem fora dos sistemas formais de financiamento.
- Pagamentos digitais, facturação electrónica, contas bancárias e carteiras móveis podem criar históricos financeiros para avaliar receitas, custos e capacidade de reembolso.
- Moçambique encerrou 2025 com cerca de 25,4 milhões de contas de moeda electrónica, mas a expansão do acesso ainda precisa de ser convertida em crédito produtivo, poupança e investimento.
- A nova Lei do Sistema Nacional de Pagamentos, o METIX, a identidade digital, a plataforma de pagamentos do Estado e a preparação do Banco de Desenvolvimento integram a nova arquitectura financeira.
- Bancos e mercado de capitais consideram que dados, auditorias, previsibilidade, transparência e governação são determinantes para financiar empresas.
- O sector produtivo defende instrumentos de longo prazo que combinem crédito, garantias, recursos concessionários e capital para financiar cadeias de valor.
Digitalização Passa Do Serviço Financeiro Para A Estratégia Económica
Transformar actividades económicas em activos financiáveis através da digitalização, integração de dados e inovação financeira foi a principal mensagem da quarta edição do Banking, Financial Services and Insurance Mozambique — BFSI Moçambique 2026.
O encontro reuniu representantes do Governo, banca, seguradoras, mercado de capitais e sector privado para discutir uma das maiores limitações ao crescimento das empresas moçambicanas: a existência de negócios economicamente activos, mas sem informação financeira suficientemente estruturada para acederem ao crédito, atraírem investidores ou entrarem no mercado de capitais.
Na abertura do evento, a Ministra das Finanças, Carla Loveira, sustentou que Moçambique dispõe de recursos agrícolas, minerais, turísticos e humanos capazes de sustentar um crescimento mais rápido. O desafio consiste em converter esse potencial em projectos, empresas e fluxos económicos que possam ser reconhecidos, avaliados e financiados pelas instituições.
“Uma parte significativa da actividade económica ocorre no sector informal ou em pequenas empresas que, embora economicamente viáveis, não dispõem de informação financeira suficiente para demonstrar a sua capacidade de gerar rendimentos e reembolsar financiamentos”, afirmou a governante.
A digitalização surge, neste enquadramento, não apenas como modernização tecnológica, mas como infra-estrutura económica. Cada pagamento registado, factura emitida, salário processado, compra efectuada ou transferência recebida pode contribuir para construir um histórico verificável da actividade de uma empresa.
Informação Pode Reduzir O Custo Do Risco
Uma das principais dificuldades do financiamento às micro, pequenas e médias empresas é a assimetria de informação. O empresário conhece o seu negócio, os seus clientes e a capacidade de gerar receitas, mas o banco ou investidor não dispõe necessariamente de informação suficiente para confirmar esse desempenho.
Perante essa incerteza, a instituição financeira tende a exigir garantias elevadas, aplicar um prémio de risco superior, reduzir o montante aprovado ou rejeitar o financiamento.
A digitalização pode reduzir esta distância. Registos de pagamentos, movimentos bancários, vendas electrónicas, compras a fornecedores, cumprimento fiscal e comportamento de reembolso permitem desenvolver modelos de avaliação baseados no fluxo efectivo de caixa da empresa.
O dado transforma-se, assim, num activo económico porque melhora a compreensão do risco. Não substitui automaticamente uma garantia real nem elimina a necessidade de análise financeira, mas pode permitir que uma empresa seja avaliada pelo rendimento que produz e não apenas pelos imóveis ou outros bens que possui.
Esta mudança é particularmente importante numa economia em que a informalidade continua a representar mais de 80% do emprego. Uma grande parte das actividades produtivas permanece fora dos sistemas formais de informação, embora gere rendimento, abasteça mercados e crie postos de trabalho.
Pagamento Digital Pode Criar O Primeiro Balanço Da Pequena Empresa
Para milhares de pequenos negócios, o primeiro passo para construir um perfil financeiro não será necessariamente a elaboração imediata de demonstrações contabilísticas complexas. Poderá começar pela utilização regular de uma conta, carteira móvel, factura electrónica ou plataforma de pagamentos.
Quando uma pequena empresa recebe pagamentos exclusivamente em numerário, a sua facturação real torna-se difícil de verificar. O negócio pode vender todos os dias e ainda assim apresentar-se ao banco sem histórico mensurável.
Ao receber digitalmente, a empresa começa a criar uma sequência de transacções que pode ajudar a estimar o volume de vendas, a sazonalidade do rendimento, a regularidade dos clientes e a capacidade de assumir prestações.
Dados do Banco de Moçambique indicam que o País terminou 2025 com aproximadamente 25,4 milhões de contas de moeda electrónica, representando um crescimento anual de 6%. O número total de pontos de acesso aos serviços financeiros aumentou 6,8%, impulsionado sobretudo pelos agentes de moeda electrónica, agentes bancários e operadores de microcrédito.
Estes indicadores mostram que a infra-estrutura de acesso está a crescer. Mas o número de contas não corresponde necessariamente ao número de utilizadores únicos, uma vez que uma pessoa pode possuir várias carteiras móveis. Também não demonstra, isoladamente, que os recursos estejam a financiar produção, equipamentos, exportações ou crescimento empresarial.
A próxima etapa consiste em converter conectividade financeira em capacidade económica.
Inclusão Financeira Precisa De Tornar-se Produtiva
A Directora Executiva da FSDMoç, Esselina Macome, defendeu no BFSI que a tecnologia só ganha relevância económica quando amplia oportunidades para cidadãos e empresas.
“A tecnologia só tem verdadeiro sentido quando amplia oportunidades. O financiamento só cumpre a sua missão quando desbloqueia potencial”, afirmou, acrescentando que a confiança nos dados, instituições, sistemas de pagamento e regulação constitui o capital mais importante da nova arquitectura financeira.
A posição aproxima-se da noção de inclusão financeira produtiva defendida pelo sector privado. A abertura de contas e a expansão dos agentes são condições importantes, mas não suficientes para transformar a economia.
Uma conta utilizada apenas para receber e levantar imediatamente dinheiro possui um efeito diferente de uma conta que permite poupar, contratar seguro, pagar fornecedores, receber clientes, aceder a crédito e construir um histórico empresarial.
O vice-presidente do Pelouro de Política Fiscal da Confederação das Associações Económicas de Moçambique, Egas Daniel, considerou que numerosas actividades geram riqueza e emprego, mas permanecem invisíveis para o sistema financeiro formal.
“Os dados tornam-se um activo estratégico porque permitem avaliar o risco com maior precisão, desenvolver produtos financeiros mais adequados e alargar o acesso ao crédito”, observou.
A inclusão produtiva implica, portanto, que o sistema financeiro consiga distinguir uma actividade informal ocasional de um negócio com procura regular, potencial de crescimento e capacidade de reembolso.
Nova Lei Procura Acompanhar Um Sistema Mais Digital
A transformação discutida no BFSI coincide com mudanças importantes na infra-estrutura e regulação dos pagamentos em Moçambique.
A Lei n.º 15/2026, de 2 de Julho, aprovou a nova Lei do Sistema Nacional de Pagamentos, substituindo o regime que vigorava desde 2008. O novo quadro reforça os poderes de fiscalização e supervisão do Banco de Moçambique e procura acompanhar a expansão das tecnologias, instituições de moeda electrónica e novos prestadores de serviços financeiros.
O Banco Central criou também o Sistema de Pagamentos Instantâneos de Moçambique, designado METIX. A plataforma permite pagamentos electrónicos de retalho durante 24 horas, incluindo fins-de-semana e feriados, com disponibilização imediata dos fundos ao beneficiário.
O METIX integra um processo mais amplo que inclui a interoperabilidade entre bancos e instituições de moeda electrónica, a compensação electrónica e o sistema de transferências e liquidação interbancária em tempo real.
Para empresas, uma infra-estrutura de pagamentos mais rápida pode melhorar a tesouraria, reduzir o tempo de cobrança e facilitar a circulação de recursos entre clientes, fornecedores e instituições públicas.
Contudo, os benefícios dependerão dos custos cobrados, da cobertura das redes, da qualidade da conectividade, da segurança tecnológica e da capacidade de os pequenos negócios utilizarem as plataformas.
Administração Fiscal Procura Capturar Transacções, Não Apenas Contribuintes
A Ministra das Finanças enquadrou a digitalização igualmente no esforço de alargar a base fiscal e tornar a tributação mais equilibrada.
“Não se pretende cobrar mais a quem já paga, mas assegurar que todos paguem de forma justa através da melhor captura das transacções financeiras digitais”, declarou Carla Loveira.
O novo sistema integrado da administração tributária, a facturação electrónica, a identidade digital, a Plataforma de Pagamentos do Estado e a interoperabilidade dos serviços públicos podem aumentar a capacidade de acompanhar transacções e reduzir processos manuais.
A melhoria da informação pode ajudar o Estado a identificar actividade económica, simplificar declarações, reduzir perdas de receita e diminuir o custo administrativo do cumprimento fiscal.
Existe, porém, um equilíbrio delicado. Caso a entrada no sistema digital seja percebida exclusivamente como um mecanismo de cobrança, pequenos operadores poderão resistir à formalização ou regressar ao numerário.
A política pública precisará demonstrar que a formalização também proporciona benefícios: acesso a mercados públicos e privados, financiamento, protecção jurídica, seguros, programas de apoio e possibilidade de crescimento.
A digitalização fiscal será mais eficaz quando substituir burocracia e custos de contexto, em vez de apenas acrescentar novas obrigações aos mesmos contribuintes.
Banca Quer Previsibilidade, Não Apenas Mais Dados
Para os bancos, a quantidade de informação disponível não resolve automaticamente o problema do financiamento. Os dados precisam de ser consistentes, verificáveis, actualizados e capazes de explicar o funcionamento da empresa.
Devan Manmoandas, membro da Comissão Executiva do Moza Banco, defendeu que uma melhor compreensão do risco aumenta a capacidade de financiar.
“Quanto melhor compreendermos o risco, maior é a nossa capacidade de financiar. Os dados deixaram de ser um vocabulário tecnológico para se tornarem transformação económica, porque reduzem as assimetrias de informação e permitem conquistar confiança”, afirmou.
Um histórico digital pode revelar receitas, mas o banco continuará a analisar margens, endividamento, exposição cambial, gestão, mercado e capacidade de a empresa suportar períodos adversos.
A previsibilidade inclui igualmente o ambiente económico. Alterações frequentes de regras, atrasos de pagamento, escassez de divisas, dificuldades contratuais ou oscilações acentuadas da procura aumentam o risco mesmo quando a empresa mantém bons registos.
Por isso, a bancabilidade resulta da combinação entre informação empresarial e condições institucionais. A digitalização pode reduzir o risco informacional, mas não elimina riscos macroeconómicos, jurídicos, sectoriais ou de governação.
Mercado De Capitais Exige Empresas Preparadas Para Ser Observadas
A Bolsa de Valores de Moçambique considera que a falta de transparência e governação continua a limitar o acesso das pequenas e médias empresas ao mercado de capitais.
Alcino Muchaque, administrador de Operações da BVM, defendeu que as empresas precisam de ser preparadas para captar investimento através da banca ou da bolsa.
“Quando falamos do mercado de capitais, confiança, transparência, governação e capacitação continuam a ser determinantes”, afirmou.
O mercado de capitais oferece possibilidades de financiamento através de acções, obrigações e outros instrumentos. Diferentemente de um empréstimo bancário tradicional, pressupõe maior divulgação de informação e prestação de contas aos investidores.
Empresas familiares ou de gestão muito centralizada podem considerar estas exigências excessivas. Todavia, a abertura da informação é precisamente o mecanismo que permite a investidores externos avaliar o risco e confiar os seus recursos à empresa.
A preparação das PME para o mercado de capitais requer contabilidade organizada, auditorias, separação entre património empresarial e pessoal, conselhos de administração funcionais, informação sobre beneficiários efectivos e planos de negócio consistentes.
Sem estas condições, a existência de uma bolsa ou de novos instrumentos financeiros não cria automaticamente empresas elegíveis para os utilizar.
Banco De Desenvolvimento Enfrenta O Desafio Da Adicionalidade
O pacote de reformas apresentado no BFSI inclui a preparação do Banco de Desenvolvimento de Moçambique, concebido para apoiar investimentos produtivos e disponibilizar financiamento de longo prazo.
O Governo realizou, desde 2025, um processo nacional de auscultação sobre a criação da instituição. Em Fevereiro de 2026, foi estabelecido um mecanismo técnico para preparar os instrumentos necessários à criação e operacionalização do banco. Isso significa que o projecto se encontra em fase de estruturação e não deve ainda ser tratado como uma instituição plenamente operacional.
A relevância de um banco de desenvolvimento não estará apenas no volume de crédito concedido, mas na adicionalidade: financiar áreas em que o mercado comercial não oferece prazos, riscos ou montantes compatíveis com os projectos economicamente necessários.
Agricultura, agro-indústria, logística, energia, habitação, infra-estruturas e transformação industrial exigem frequentemente financiamentos de longo prazo. Os bancos comerciais, por dependerem em grande medida de depósitos de menor maturidade, enfrentam limitações para conceder crédito por períodos extensos.
O Banco de Desenvolvimento poderá preencher parte desta lacuna através de linhas concessionárias, garantias, financiamento misto e mobilização de capital privado.
Para evitar distorções, a instituição precisará de uma governação robusta, critérios económicos transparentes, gestão profissional do risco e protecção contra decisões de crédito determinadas por influência política.
Sector Produtivo Pede Arquitectura Financeira Mais Completa
Representantes do sector produtivo defenderam que a dificuldade não se resolve apenas com um aumento genérico do crédito bancário.
Dirceu Ismael de Melo, representante da João Ferreira dos Santos, resumiu o desafio como uma questão de arquitectura financeira e de transformação das cadeias produtivas em activos financiáveis.
A agro-indústria, por exemplo, reúne produtores, fornecedores de sementes, transportadores, armazenistas, processadores e compradores. Financiar isoladamente um único interveniente pode não produzir resultados quando os restantes elos continuam sem capital, tecnologia ou mercado.
Uma arquitectura financeira para cadeias de valor pode combinar crédito bancário, garantias públicas ou multilaterais, seguros agrícolas, contratos de compra, recursos concessionários e capital próprio.
Esta combinação distribui riscos entre diferentes instituições e permite que cada instrumento financie a componente para a qual está mais preparado.
Harold Paka, vogal do Conselho de Gestão da AMECON, chamou atenção para a falta de transparência de algumas empresas, questionando quem estaria disposto a investir num negócio que não conhece. Defendeu a melhoria da governação corporativa, auditorias financeiras e diversificação das fontes de financiamento.
Dados Criam Oportunidades, Mas Também Novos Riscos
A utilização de transacções digitais na avaliação de crédito levanta questões relacionadas com protecção de dados, cibersegurança, discriminação algorítmica e consentimento dos clientes.
Um modelo pode interpretar pagamentos regulares como sinal de estabilidade financeira. Mas também pode excluir negócios sazonais, produtores rurais ou empresas que operam em zonas com cobertura digital limitada.
A ausência de um histórico não significa necessariamente falta de viabilidade. Pode reflectir dificuldades de conectividade, literacia digital, custos de utilização ou preferência dos clientes pelo numerário.
Por isso, os dados digitais devem complementar, e não substituir integralmente, a análise empresarial e o conhecimento das condições locais.
A expansão do sistema também aumenta o valor económico das bases de dados e, consequentemente, o interesse de agentes envolvidos em fraude e ataques cibernéticos. A confiança defendida pelos participantes do BFSI dependerá da capacidade de proteger informações, resolver reclamações e responsabilizar instituições em caso de utilização indevida.
Empresas Precisam De Organizar A Sua Identidade Económica
A mensagem prática do BFSI para as empresas moçambicanas é que a capacidade de produzir já não será suficiente para captar financiamento.
Uma empresa que pretenda aceder ao crédito ou investimento precisará de demonstrar quem são os proprietários, quanto vende, quem compra, quais são os custos, que dívidas possui e como utiliza os recursos recebidos.
A conta bancária empresarial, a facturação regular, os registos de inventário, o cumprimento fiscal e a separação entre as finanças do negócio e as do proprietário passam a integrar a identidade económica da empresa.
Esta organização não deve ser vista apenas como exigência do banco. Permite ao próprio empresário compreender quais produtos geram melhores margens, quanto capital circulante necessita e onde se concentram os maiores riscos.
A digitalização pode tornar esta informação mais acessível e reduzir os custos de preparação. Mas o seu valor dependerá da qualidade dos registos e da disciplina de gestão.
Da Conta Digital À Empresa Investível
O BFSI Moçambique 2026 colocou em evidência uma transição necessária: sair de uma inclusão financeira medida sobretudo pelo número de contas e avançar para uma inclusão avaliada pela capacidade de financiar produção, emprego, inovação e crescimento empresarial.
Moçambique já possui uma base crescente de utilizadores de moeda electrónica e está a modernizar os sistemas de pagamentos. A nova legislação, o METIX, a identidade digital, a facturação electrónica, a plataforma de pagamentos públicos e o futuro Banco de Desenvolvimento podem criar uma infra-estrutura mais integrada.
Mas nenhuma destas reformas produzirá, isoladamente, empresas financiáveis.
A transformação dependerá da convergência entre tecnologia, transparência, literacia financeira, governação corporativa, protecção de dados e oferta de instrumentos adequados às necessidades do sector produtivo.
Os dados podem tornar visível uma empresa anteriormente desconhecida pelo sistema financeiro. A confiança determinará se essa visibilidade se converte em financiamento. E a produtividade decidirá se o financiamento se transforma em crescimento sustentável.
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