
Comércio Mundial De GNL Bate Recorde E Abre Novo Ciclo De Expansão Da Capacidade
• Relatório da IGU revela que as trocas globais atingiram 580 mil milhões de metros cúbicos em 2025, enquanto novos projectos de liquefacção e regaseificação avançam apesar dos choques geopolíticos.
- O comércio mundial de GNL alcançou o recorde de 580 mil milhões de metros cúbicos em 2025, mais 43 mil milhões do que no ano anterior;
- Os Estados Unidos consolidaram a liderança das exportações, com 150 mil milhões de metros cúbicos, seguidos pelo Qatar e pela Austrália;
- As importações europeias aumentaram 32 mil milhões de metros cúbicos, reflectindo a substituição estrutural do gás russo transportado por gasodutos;
- O comércio mundial de GNL recuou 4% no primeiro semestre de 2026, para 284 mil milhões de metros cúbicos, devido às restrições no Golfo;
- Cerca de 20% da oferta mundial de GNL chegou a ser condicionada pela crise no Estreito de Ormuz;
- Projectos que totalizam 35 milhões de toneladas anuais de liquefacção alcançaram a decisão final de investimento no primeiro semestre de 2026;
- A capacidade mundial de GNL flutuante poderá mais do que duplicar, de 19 milhões para cerca de 40 milhões de toneladas anuais até 2030.
O comércio mundial de gás natural liquefeito atingiu o máximo histórico de 580 mil milhões de metros cúbicos em 2025, consolidando o GNL como o segmento mais dinâmico da indústria mundial do gás e um dos principais instrumentos de segurança energética.
O Global Gas Report 2026, publicado pela União Internacional do Gás (IGU), indica que as trocas internacionais de GNL aumentaram 43 mil milhões de metros cúbicos num único ano, impulsionadas pela procura europeia, pelo crescimento da capacidade exportadora norte-americana e pela necessidade de diversificação das fontes de abastecimento.
A expansão ocorreu num mercado progressivamente marcado pela concorrência entre a Europa e a Ásia, pela centralidade dos Estados Unidos na oferta, pelo reposicionamento do Qatar e pela construção de novas infra-estruturas de liquefacção e regaseificação.
O primeiro semestre de 2026 mostrou, ao mesmo tempo, os limites e a capacidade de adaptação desta indústria. As perturbações no Estreito de Ormuz condicionaram cerca de 20% da oferta mundial, reduziram o comércio e elevaram os preços. Ainda assim, o choque não produziu uma crise sistémica semelhante à observada em 2022.
Estados Unidos Assumem Liderança Das Exportações
Os Estados Unidos foram o maior exportador mundial de GNL em 2025, com vendas de aproximadamente 150 mil milhões de metros cúbicos.
O Qatar ocupou a segunda posição, com 111 mil milhões de metros cúbicos, ultrapassando ligeiramente a Austrália, que exportou 109 mil milhões.
A Rússia surgiu a seguir, com 41 mil milhões de metros cúbicos, seguida pela Malásia, com 39 mil milhões, Nigéria, com 20 mil milhões, Omã, com 16 mil milhões, e Indonésia, com 15 mil milhões.
Quando consideradas conjuntamente as exportações de GNL e os fluxos através de gasodutos, os Estados Unidos também ultrapassaram a Rússia e tornaram-se o maior exportador líquido mundial de gás natural, com 167 mil milhões de metros cúbicos, contra 148 mil milhões da Rússia.
Segundo a IGU, esta alteração reflecte a capacidade dos produtores norte-americanos de preencherem parte do espaço deixado pela redução dos fluxos russos para a Europa.
A entrada em funcionamento e o aumento da produção de projectos como Plaquemines LNG e Corpus Christi Stage 3 contribuíram para expandir a oferta. O terminal Golden Pass realizou a sua primeira exportação em Abril de 2026, acrescentando capacidade num período em que o mercado procurava substituir os volumes provenientes do Golfo.
A expansão consolida os Estados Unidos não apenas como fornecedor, mas como um dos principais centros de formação dos fluxos e preços internacionais de GNL.
Europa Torna-Se Mais Dependente Do GNL
As importações europeias de GNL aumentaram 32 mil milhões de metros cúbicos em 2025. O crescimento ocorreu na maioria dos mercados da região e permitiu compensar o fim do acordo de trânsito de gás russo através da Ucrânia.
Mais de metade do GNL importado pela Europa teve origem nos Estados Unidos, revelando uma mudança estrutural na relação energética entre as duas margens do Atlântico.
A Europa passou de uma elevada dependência dos gasodutos russos para uma exposição crescente ao mercado mundial de GNL. Esta mudança aumentou a diversidade das fontes de abastecimento, mas também tornou os preços europeus mais sensíveis à procura asiática, à disponibilidade de navios e às condições de produção nos grandes exportadores.
A região revelou, contudo, maior capacidade de absorção dos choques ocorridos em 2026. O relatório indica que o GNL do Qatar representava apenas 3,6% do abastecimento europeu de gás em 2025, limitando o impacto directo da redução das exportações daquele país.
Os terminais de importação, a capacidade de armazenamento e a diversificação construída após a crise energética de 2022 permitiram à Europa responder às novas perturbações com maior flexibilidade.
China Mantém Liderança Apesar Da Queda Das Compras
A China permaneceu como o maior importador mundial de GNL em 2025, com 93 mil milhões de metros cúbicos. As compras, porém, diminuíram dez mil milhões de metros cúbicos, equivalentes a 10%, comparativamente ao ano anterior.
A redução foi influenciada pelo agravamento das tensões comerciais entre Pequim e Washington. A participação norte-americana nas importações chinesas de GNL caiu de 6% em 2024 para apenas 0,4% em 2025.
O crescimento da produção doméstica e das importações através do gasoduto Power of Siberia 1 também proporcionou à China maior margem para reduzir as compras marítimas.
O Japão manteve-se como o segundo maior importador, com 91 mil milhões de metros cúbicos, apesar da retoma de centrais nucleares ter reduzido parte da procura de gás.
A Coreia do Sul importou 67 mil milhões de metros cúbicos, num contexto de aumento da procura de electricidade para refrigeração e de disponibilidade limitada da produção nuclear. A Índia comprou 33 mil milhões, enquanto Taiwan importou 32 mil milhões de metros cúbicos.
Crise No Golfo Retira 20% Da Oferta Mundial
O crescimento registado em 2025 foi interrompido no primeiro semestre de 2026. Segundo a IGU, o comércio mundial de GNL caiu 4%, para 284 mil milhões de metros cúbicos, comparativamente ao período homólogo.
A redução resultou principalmente da crise no no Estreito de Ormuz, que limitou aproximadamente 20% da oferta mundial através de uma combinação de danos físicos nas instalações de exportação, interrupções na produção e restrições à circulação de navios metaneiros.
O Qatar suportou a maior parte do impacto. Em Maio, as suas exportações de GNL caíram 91% em relação ao mesmo mês de 2025, levando a QatarEnergy a declarar força maior sobre os fornecimentos até meados de Junho.
Mais de 80% da redução dos fluxos globais afectou compradores asiáticos, reflectindo a maior exposição da região às cargas provenientes do Golfo.
Em Março, China, Japão e Coreia do Sul registaram conjuntamente uma queda homóloga de 15% nas importações. Os preços elevados levaram ainda os mercados asiáticos emergentes, mais sensíveis ao custo da energia, a reduzirem o consumo ou a recorrerem a combustíveis alternativos.
Preços Sobem Mais De 50%, Mas Ficam Abaixo De 2022
Os preços europeus e asiáticos de GNL iniciaram 2026 entre US$ 10 e US$ 11 por milhão de unidades térmicas britânicas, beneficiando da entrada de nova oferta no mercado.
A crise no Golfo alterou rapidamente esta trajectória. Os preços aumentaram mais de 50% entre Fevereiro e Março.
A referência europeia TTF atingiu uma média de US$ 20,8 por milhão de unidades térmicas britânicas em Março, enquanto o GNL do Nordeste Asiático alcançou US$ 17,8, os valores mensais mais elevados desde a crise energética de 2022.
A volatilidade média do TTF no primeiro semestre de 2026 foi 1,9 vezes superior à registada no período homólogo. No Nordeste Asiático, a volatilidade aumentou 1,5 vezes.
Apesar da dimensão do choque, os preços permaneceram abaixo dos máximos de 2022. Para a IGU, o comportamento do mercado demonstra que os investimentos realizados nos últimos anos em nova produção, liquefacção, terminais de recepção, armazenamento e diversificação aumentaram a capacidade de resposta da indústria.
Nova Oferta Evita Uma Crise Sistémica
Produtores situados fora do Golfo asseguraram grande parte da resposta ao corte das exportações. LNG Canada, Corpus Christi Stage 3 e instalações na Nigéria e Malásia colocaram no mercado cerca de 3,5 milhões de toneladas adicionais em Abril, comparativamente ao mesmo período do ano anterior.
Os terminais norte-americanos também elevaram a utilização da capacidade. Em Março, operaram, em termos agregados, a aproximadamente 119% da capacidade nominal, aproveitando os preços mais altos e a procura por fontes alternativas.
A disponibilidade de novos volumes, juntamente com a redução da procura em mercados sensíveis aos preços e o recurso aos stocks, evitou que a perturbação se transformasse numa crise energética semelhante à de 2022.
A IGU sustenta que esta resistência não ocorreu de forma automática. Foi resultado dos investimentos realizados desde a crise anterior na diversificação do abastecimento, capacidade de GNL, armazenamento e flexibilidade contratual.
O episódio confirma, contudo, que a concentração das exportações em determinadas rotas marítimas permanece um risco central para a segurança energética mundial.
Investidores Mantêm Confiança No Crescimento De Longo Prazo
Apesar da contracção do comércio no primeiro semestre de 2026, as decisões de investimento indicam que a indústria continua a antecipar uma expansão estrutural da procura.
Em 2025, projectos que totalizam 67 milhões de toneladas anuais de nova capacidade de liquefacção alcançaram a decisão final de investimento. No mesmo período, foram aprovados terminais de regaseificação com capacidade conjunta de 51 milhões de toneladas anuais.
Nos primeiros seis meses de 2026, avançaram projectos adicionais correspondentes a 35 milhões de toneladas anuais de liquefacção e 25 milhões de toneladas de regaseificação.
A dimensão das decisões confirma que a queda actual é interpretada pela indústria como uma perturbação conjuntural, e não como uma alteração da trajectória de longo prazo.
O relatório alerta, porém, que uma parte significativa da nova capacidade será necessária apenas para compensar o declínio natural da produção existente. A resposta ao crescimento futuro exigirá investimentos adicionais em exploração, produção, transporte, liquefacção, armazenamento e recepção.
GNL Flutuante Cria Nova Geração De Exportadores
Uma das tendências mais relevantes identificadas pela IGU é a expansão das unidades flutuantes de liquefacção, conhecidas como FLNG.
Estas instalações processam, liquefazem, armazenam e transferem o gás directamente no mar, permitindo aproveitar reservas remotas ou de menor dimensão sem a construção imediata de grandes complexos industriais em terra.
O mundo possui actualmente nove unidades FLNG em operação, com capacidade conjunta de 19 milhões de toneladas anuais.
Incluindo os projectos planeados e em construção, a capacidade mundial poderá mais do que duplicar, atingindo aproximadamente 40 milhões de toneladas anuais até 2030.
A IGU considera que as soluções flutuantes podem reduzir as necessidades de infra-estruturas, encurtar o período entre a decisão de investimento e o início da produção e permitir o aproveitamento de recursos anteriormente considerados economicamente inacessíveis.
África ocupa um lugar relevante nesta expansão. A Eni utiliza esta tecnologia para comercializar reservas offshore no Congo e em Moçambique. Os dois países integram um conjunto de três unidades africanas em operação, enquanto uma quarta instalação, com capacidade anual de 3,6 milhões de toneladas, se encontra em construção.
O relatório aponta os projectos africanos como demonstração da viabilidade do modelo FLNG em regiões com infra-estruturas limitadas, permitindo o surgimento de novos exportadores no mercado mundial.
GNL Consolida Papel Na Segurança Energética
As principais tendências reunidas pela IGU revelam uma indústria em crescimento, mas simultaneamente exposta a riscos geopolíticos, comerciais e financeiros.
Os Estados Unidos ganham peso na oferta, a Europa aumenta a dependência das importações marítimas e a Ásia continua a dominar a procura. As tecnologias flutuantes alargam a produção a novas geografias, enquanto a expansão dos terminais de regaseificação aumenta o número de mercados com acesso ao combustível.
O desempenho de 2026 mostrou que o mercado dispõe de maior capacidade para absorver interrupções do que em 2022. Demonstrou também que o preço continua a determinar quem consegue permanecer no mercado durante os períodos de escassez.
Para as economias emergentes, particularmente em África e na Ásia, o crescimento da capacidade física não garante, por si só, acesso ao gás. A disponibilidade de financiamento, contratos de longo prazo, infra-estruturas internas e capacidade de pagamento continuará a definir a distribuição efectiva do GNL.
O novo ciclo da indústria será, deste modo, marcado por uma dupla corrida: entre produtores, para colocar nova capacidade no mercado, e entre compradores, para assegurar volumes estáveis, diversificados e economicamente acessíveis.
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