Brent Supera US$ 100 E Abre Novo Ciclo De Pressão Sobre A Economia Mundial

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• Ataques contra petroleiros, instalações energéticas e rotas marítimas elevam o risco de interrupções prolongadas no abastecimento e ameaçam alimentar a inflação global.

Questões-Chave:
  • O Brent mantém-se acima de US$ 100 por barril, depois de acumular uma valorização próxima de 30% desde os mínimos registados no início de Agosto;
  • Ataques envolvendo os Estados Unidos, o Irão e os houthis intensificam os receios de interrupção dos fluxos de petróleo e gás no Golfo e no Mar Vermelho;
  • O Estreito de Ormuz assegura normalmente a passagem de cerca de 20% das remessas mundiais de petróleo e gás natural liquefeito;
  • O prolongamento do conflito poderá elevar os preços dos combustíveis, os custos de transporte e a inflação nas economias importadoras de energia;
  • Países africanos dependentes de importações petrolíferas enfrentam riscos acrescidos para as contas externas, finanças públicas e estabilidade dos preços.

O petróleo Brent ultrapassou a barreira dos US$ 100 por barril pela primeira vez desde Julho, à medida que os ataques contra petroleiros e instalações energéticas no Golfo e no Mar Vermelho aumentaram os receios de uma interrupção mais profunda e prolongada do abastecimento mundial.

Na manhã desta quinta-feira, 10 de Setembro, os futuros do Brent, referência internacional para o mercado petrolífero, eram negociados em torno de US$ 101,10 por barril, enquanto o West Texas Intermediate (WTI), referência norte-americana, avançava para US$ 96,24.

A Reuters indica que o Brent acumulou uma valorização próxima de 30% desde os mínimos atingidos no início de Agosto, num movimento alimentado pelo fracasso das tentativas de estabelecer uma suspensão duradoura das hostilidades entre os Estados Unidos e o Irão.

A escalada devolve ao mercado energético um prémio de risco geopolítico de dimensão elevada e aproxima novamente o petróleo de níveis susceptíveis de pressionar a inflação, o crescimento económico e as decisões de política monetária em várias regiões.

Ataques Contra Petroleiros Elevam Risco De Abastecimento

O agravamento das tensões ocorreu depois de os Estados Unidos anunciarem ataques contra cinco petroleiros iranianos, em resposta a ofensivas atribuídas ao Irão contra meios militares norte-americanos.

O Comando Central dos Estados Unidos afirmou ter destruído quatro petroleiros ligados à Guarda Revolucionária Islâmica do Irão no Golfo de Omã — Kaviz, Charminar, Horizon 1 e Riesco — e atingido um quinto navio, o Derya, nas proximidades da Ilha de Kharg, onde se localiza o principal terminal iraniano de exportação de petróleo.

Segundo as autoridades norte-americanas, as tripulações receberam ordens para abandonar as embarcações antes dos ataques.

Em resposta, a Guarda Revolucionária iraniana declarou ter atacado oito petroleiros e dois navios de guerra norte-americanos no Estreito de Ormuz, além de instalações militares dos Estados Unidos na Jordânia. O Comando Central norte-americano contestou, contudo, a alegação de que dois dos seus navios de guerra teriam sido atingidos.

A agência britânica de Operações de Comércio Marítimo informou igualmente ter recebido relatos de vários navios mercantes afectados pela actividade militar no norte do Golfo Pérsico e no Golfo de Omã.

No Iraque, as autoridades anunciaram ter controlado um incêndio no New Andros, um navio de bandeira panamiana que transportava cerca de dois milhões de barris de óleo combustível quando foi atingido por um drone.

Fluxos Do Golfo Permanecem Condicionados

O confronto está a afectar uma das áreas mais importantes para o comércio energético mundial. Pelo Estreito de Ormuz passa, em condições normais, cerca de um quinto das remessas internacionais de petróleo e gás natural liquefeito.

Qualquer redução substancial ou prolongada do tráfego nesta rota tende, por isso, a produzir efeitos imediatos sobre os preços internacionais, os custos dos seguros marítimos, o valor dos fretes e a disponibilidade de navios para o transporte de energia.

Daniel Hynes, analista do ANZ, considerou que a sucessão de ataques e retaliações indica que os fluxos petrolíferos provenientes do Golfo Pérsico poderão continuar condicionados num horizonte previsível.

O Irão anunciou ainda a intenção de estabelecer uma nova “zona proibida” à navegação, abrangendo áreas do Mar de Omã e do Mar Arábico ao longo da rota de acesso ao Estreito de Ormuz. A medida, caso seja efectivamente aplicada, poderá ampliar a área de risco e introduzir novos constrangimentos à circulação comercial.

Para os operadores, o problema já não reside apenas na disponibilidade física de petróleo. O aumento do risco de ataques eleva os prémios de seguro, prolonga as rotas, encarece os fretes e pode levar algumas transportadoras a suspender temporariamente as operações.

Mar Vermelho Acrescenta Outra Frente De Instabilidade

A tensão estendeu-se também ao Mar Vermelho, onde os houthis, apoiados pelo Irão, intensificaram ataques contra infra-estruturas energéticas e embarcações ligadas à Arábia Saudita.

Segundo informações divulgadas pelas autoridades sauditas, dezenas de drones e mísseis foram lançados contra alvos civis e económicos nas cidades de Abha, Khamis Mushait, Jazan e Najran. Os ataques terão provocado incêndios em várias instalações petrolíferas e causado dezenas de feridos.

A combinação das hostilidades no Golfo com a insegurança no Mar Vermelho coloca simultaneamente sob risco duas das principais zonas de circulação de petróleo e mercadorias do mundo.

Este quadro aumenta a possibilidade de desvios de rotas marítimas e de agravamento dos custos logísticos, com consequências que poderão estender-se para além do sector energético e alcançar os preços dos alimentos, matérias-primas e bens industriais.

Petróleo Mais Caro Reabre Frente Inflacionária

Antes do início do conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão, em Fevereiro, o Brent era negociado em torno de US$ 70 por barril. A subida acima dos US$ 100 representa, assim, um aumento superior a 40% face aos níveis anteriores à guerra.

Caso esta valorização se mantenha, o petróleo poderá tornar-se novamente um dos principais factores de inflação mundial. A energia mais cara reflecte-se directamente nos preços dos combustíveis e da electricidade, mas também aumenta os custos de produção, transporte e distribuição em praticamente todos os sectores da economia.

O impacto poderá ser particularmente relevante para os bancos centrais que vinham a preparar ou aprofundar ciclos de redução das taxas de juro. Uma nova aceleração da inflação associada à energia poderá atrasar essas decisões e manter o custo do financiamento elevado durante mais tempo.

As empresas, por sua vez, enfrentam a possibilidade de compressão das margens, sobretudo nos sectores da aviação, transportes, agricultura, indústria transformadora e logística. Parte desses custos poderá ser transferida para os consumidores, reduzindo o poder de compra das famílias.

Economias Africanas Enfrentam Pressão Sobre Divisas E Orçamento

Para os países africanos importadores líquidos de combustíveis, a permanência do Brent acima de US$ 100 poderá agravar a factura energética, elevar a procura de divisas e deteriorar as contas externas.

O risco é maior nas economias em que os preços domésticos dos combustíveis são administrados ou subsidiados. Nesses casos, os governos poderão ter de escolher entre absorver parte do aumento através do orçamento público ou transferi-lo para os consumidores.

Em Moçambique, a valorização do petróleo internacional poderá aumentar o custo de importação de combustíveis e exercer pressão sobre os preços dos transportes, alimentos e outros bens essenciais. A intensidade do impacto dependerá da duração da crise, da evolução cambial, dos custos logísticos e do mecanismo interno de formação dos preços.

O país poderá beneficiar, indirectamente, de uma valorização internacional do gás natural no médio prazo, devido ao seu potencial exportador. No curto prazo, porém, a exposição aos combustíveis importados significa que uma escalada prolongada tende a produzir mais custos do que ganhos imediatos para a economia.

A trajectória do mercado petrolífero passa agora a depender não apenas dos níveis de produção e procura, mas também da capacidade de manter abertas e operacionais as principais rotas marítimas. Com petroleiros e infra-estruturas energéticas transformados em alvos directos, o risco geopolítico deixa de representar apenas uma expectativa e passa a interferir materialmente no abastecimento mundial.