• Energia, transporte, seguros e financiamento mais caros atingem com maior intensidade as pequenas empresas, sobretudo nas economias em desenvolvimento. Mesmo quando o comércio recupera, a perda de fornecedores de menor dimensão pode tornar as cadeias produtivas mais concentradas, menos inclusivas e menos resilientes.

Questões-Chave:
  • As micro, pequenas e médias empresas representam 90% dos negócios, 70% do emprego e 50% do PIB mundial;
  • Pequenas empresas das economias em desenvolvimento gastam, em alguns casos, até 4,2% das vendas com electricidade;
  • O cumprimento dos requisitos de importação custa, em média, 19,4% do valor importado pelas pequenas empresas dos países em desenvolvimento;
  • Quase metade das pequenas empresas das economias em desenvolvimento considera o acesso ao financiamento um obstáculo;
  • As taxas de juro médias suportadas pelas PMEs dos países em desenvolvimento atingiram 15,8%, contra 6,3% nas economias desenvolvidas;
  • A UNCTAD recomenda crédito de curto prazo, serviços logísticos acessíveis e acompanhamento da permanência das PMEs nas cadeias de valor.

Recuperação Do Comércio Pode Esconder Exclusão Empresarial

As perturbações nas principais rotas comerciais e energéticas podem afastar pequenas e médias empresas das cadeias de valor, mesmo quando os volumes globais de comércio começam a recuperar.

O alerta consta do relatório Smaller Firms, Greater Risks, divulgado a 8 de Setembro pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), que analisa os efeitos das perturbações no Estreito de Ormuz sobre as empresas de menor dimensão.

A instituição identifica o risco de um “efeito de exclusão”: perante a subida simultânea dos preços da energia, fretes, seguros e financiamento, as PMEs podem perder contratos, reduzir a produção, adiar investimentos ou encerrar as actividades.

Quando as condições comerciais melhoram, as grandes empresas conseguem recuperar mais rapidamente e ocupar o espaço deixado pelas unidades de menor dimensão. O comércio pode, assim, voltar a crescer, mas com menos participantes, maior concentração empresarial e menor distribuição dos rendimentos.

Para a UNCTAD, a resiliência não deve ser medida apenas pela recuperação do valor das exportações e importações. É necessário avaliar quantas empresas conseguiram manter fornecedores, clientes, produção e acesso ao financiamento durante e depois do choque.

PMEs Sustentam Emprego E Diversificação

As micro, pequenas e médias empresas representam cerca de 90% dos negócios existentes no mundo, asseguram aproximadamente 70% do emprego e contribuem com metade do Produto Interno Bruto global, segundo dados da UNCTAD baseados na Organização Internacional do Trabalho.

Além do peso directo no emprego, estas empresas fornecem bens e serviços a grandes companhias, ligam produtores locais aos mercados e desempenham um papel importante na inovação e na diversificação económica.

A saída de PMEs das cadeias de abastecimento reduz a base de fornecedores, aumenta a dependência de um número limitado de grandes operadores e enfraquece a capacidade de as economias responderem a novos choques.

O impacto estende-se às famílias e aos territórios onde estas empresas operam. A redução da actividade traduz-se em desemprego, queda do rendimento familiar e aumento da vulnerabilidade social.

Nas economias em desenvolvimento, onde uma parte significativa do emprego depende de empresas pequenas e informais, o efeito pode ser mais intenso e prolongado.

Energia Representa Maior Peso Nas Pequenas Empresas

A UNCTAD conclui que as pequenas empresas das economias em desenvolvimento são mais vulneráveis aos aumentos das tarifas de electricidade.

Entre 2023 e 2025, três em cada quatro pequenas empresas dos países em desenvolvimento gastaram mais de 0,9% das vendas anuais com electricidade. Para uma em cada quatro, este encargo ultrapassou 4,2% das vendas.

Nas grandes empresas das mesmas economias, os custos situaram-se entre 1,1% e 3,7% das vendas. Embora o limite inferior seja ligeiramente superior, as pequenas empresas apresentam maior exposição nos níveis mais elevados da distribuição.

Nas economias desenvolvidas, a diferença é menos acentuada. Os custos de electricidade das pequenas empresas variaram, em geral, entre 0,6% e 2,8% das vendas, contra um intervalo de 0,6% a 2,6% nas empresas de maior dimensão.

Os dados resultam de uma amostra de 20.727 empresas industriais distribuídas por 114 economias em desenvolvimento e 43 economias desenvolvidas.

A diferença decorre, em parte, da capacidade das grandes empresas para negociar contratos de fornecimento, investir em eficiência energética, instalar geração própria e distribuir os custos fixos por volumes superiores de produção.

As PMEs dispõem de menor margem para absorver aumentos. Quando a electricidade encarece, têm de reduzir a margem, aumentar preços ou diminuir a produção.

Importar Custa Quase Um Quinto Do Valor Dos Produtos

Os custos associados ao cumprimento dos requisitos de importação constituem outra desvantagem relevante.

Nas economias em desenvolvimento, as pequenas empresas gastam, em média, o equivalente a 19,4% do valor dos produtos directamente importados com taxas alfandegárias, outros pagamentos obrigatórios, despachantes e transitários.

Nas empresas médias, o custo corresponde a 17,5% do valor importado, enquanto nas grandes empresas se situa em 14,7%.

Nos países desenvolvidos, os mesmos encargos representam 8,3% para as pequenas empresas, 7,8% para as médias e 7,6% para as grandes.

Uma pequena empresa de uma economia em desenvolvimento suporta, portanto, custos de conformidade equivalentes a mais do dobro dos observados numa empresa de dimensão semelhante num país desenvolvido.

Esta diferença reduz a competitividade antes mesmo de serem considerados o preço de aquisição dos produtos, os fretes internacionais, o seguro, o transporte interno e o financiamento da operação.

Os resultados baseiam-se numa amostra de 90.120 empresas distribuídas por 157 economias.

Fretes E Seguros Aumentam Necessidade De Capital

As perturbações nas rotas marítimas podem obrigar os navios a adoptar trajectos mais longos, aumentar os tempos de trânsito e elevar os prémios de seguro.

Para uma PME, estes movimentos produzem uma necessidade adicional de fundo de maneio. A empresa paga ao fornecedor e suporta os custos logísticos, mas tem de esperar mais tempo pela chegada da mercadoria, pela venda e pelo recebimento do cliente.

O prolongamento do ciclo financeiro significa que mais capital fica imobilizado em mercadorias em trânsito e inventários. Quando o crédito é escasso ou caro, a empresa pode não conseguir financiar o intervalo entre o pagamento e a realização da receita.

As grandes empresas possuem maior capacidade para acumular inventários, diversificar fornecedores, negociar prazos e mobilizar linhas de crédito. As pequenas empresas, muitas vezes dependentes de um único fornecedor, banco ou mercado, enfrentam menor capacidade de adaptação.

É esta diferença que transforma um choque inicialmente logístico numa barreira à permanência das PMEs no comércio.

Financiamento É Obstáculo Para Quase Metade Das Pequenas Empresas

O acesso ao financiamento constitui um dos principais factores de exclusão.

Nas economias em desenvolvimento, 48% das pequenas empresas consideram o financiamento.