TotalEnergies Procura Investidor Para Unidade Integrada de Produção De Biodiesel

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• TotalEnergies procura investidor para financiar, construir, deter e operar uma unidade de biodiesel B100 com capacidade de cinco mil toneladas por ano. Projecto terá o Mozambique LNG como comprador principal e deverá integrar mais de três mil agricultores.

Questões-Chave:
  • A TotalEnergies lançou uma manifestação de interesse para uma unidade de biodiesel de coco no distrito de Palma;
  • O investidor assumirá o financiamento, concepção, construção, propriedade e operação da fábrica;
  • A unidade terá capacidade nominal aproximada de cinco mil toneladas de biodiesel B100 por ano;
  • A Mozambique LNG deverá comprar a produção através de um contrato de longo prazo na modalidade take-or-pay;
  • A cadeia de fornecimento prevê integrar mais de três mil agricultores e cerca de 440 mil novas mudas de coqueiro;
  • O operador deverá gerir centros de recolha, extracção do óleo, refinação, subprodutos e assistência técnica aos produtores;
  • As manifestações de interesse devem ser submetidas até às 17 horas de 15 de Outubro de 2026.

Coco De Palma Entra Na Cadeia Energética Do Mozambique LNG

 

A TotalEnergies EP Mozambique Area 1 lançou uma manifestação de interesse para seleccionar empresas ou consórcios capazes de financiar, conceber, construir, deter e operar uma unidade integrada de produção de biodiesel de coco no distrito de Palma, província de Cabo Delgado.

O projecto será desenvolvido através do modelo Finance-Build-Own-Operate, no qual o investidor assume o financiamento, construção, propriedade e exploração comercial da unidade.

A capacidade nominal prevista é de aproximadamente cinco mil toneladas por ano de biodiesel B100, um combustível composto integralmente por matéria-prima renovável, sem mistura com diesel de origem fóssil.

A unidade ficará instalada numa área específica em Palma, fora da zona vedada do projecto Mozambique LNG e reservada para este investimento agro-industrial.

O concurso abrange igualmente a infra-estrutura necessária para extrair óleo vegetal, refinar o biodiesel, receber a matéria-prima dos agricultores e comercializar os subprodutos do processamento do coco.

Mozambique LNG Será Comprador Principal

Um dos elementos economicamente mais relevantes da oportunidade é a previsão de o Mozambique LNG funcionar como comprador principal do biodiesel produzido.

O fornecimento deverá ser assegurado através de um contrato de aquisição de longo prazo na modalidade take-or-pay. Neste modelo, o comprador compromete-se a adquirir uma quantidade acordada ou a efectuar o pagamento correspondente, mesmo quando não recebe a totalidade do produto.

O mecanismo reduz o risco de procura para o investidor e proporciona maior previsibilidade das receitas, condição importante para mobilizar financiamento para a construção da fábrica.

A existência de um comprador industrial de grande dimensão diferencia o projecto de várias iniciativas de biocombustíveis que começaram pela instalação da capacidade produtiva sem um mercado previamente assegurado.

O contrato de compra não elimina, contudo, os restantes riscos. O operador terá de garantir matéria-prima suficiente, qualidade do óleo, continuidade da produção, custos competitivos e cumprimento das especificações exigidas pelo Mozambique LNG.

Produção Será Integrada Desde O Campo Até Ao Combustível

A manifestação de interesse não procura apenas uma empresa para construir a fábrica. O investidor seleccionado deverá gerir uma cadeia verticalmente integrada, desde a aquisição do coco até à entrega do biodiesel.

O âmbito inclui financiamento, engenharia, construção, propriedade e operação da unidade, incluindo instalações para extracção do óleo vegetal e refinação do combustível.

A empresa deverá também gerir centros de recolha de matéria-prima e redes de agregadores, adquirindo coco de pequenos produtores em condições consideradas justas e certificadas.

Caberá ainda ao operador produzir e entregar biodiesel de acordo com os padrões técnicos aprovados pelo comprador, prestar assistência aos agricultores e assegurar o cumprimento da legislação moçambicana e das normas de saúde, segurança, ambiente, ética e combate à corrupção da TotalEnergies.

A integração procura reduzir os problemas de coordenação que normalmente afectam cadeias agrícolas fragmentadas, nas quais produção, transporte, processamento e comercialização são geridos por entidades diferentes.

Mais De Três Mil Agricultores Ligados À Cadeia

O projecto assenta numa iniciativa agrícola que já envolve mais de três mil pequenos produtores e a plantação de mais de 440 mil novas mudas de coqueiro.

Os agricultores recebem mudas, sementes para culturas alimentares, assistência técnica e apoio fitossanitário. O modelo prevê o cultivo conjunto de coqueiros e produtos alimentares, procurando conciliar a produção energética com o rendimento agrícola e a segurança alimentar.

As primeiras mudas foram plantadas em 2025. O calendário anteriormente divulgado apontava para aproximadamente 110 mil plantas em 2025, 126 mil em 2026 e 205 mil em 2027.

As novas árvores deverão juntar-se a cerca de 200 mil coqueiros já existentes na região. Foram seleccionadas variedades com maior resistência ao amarelecimento letal, doença que afectou significativamente a produção de coco em vários países da África Oriental.

A escala da plantação é decisiva porque a fábrica só poderá operar regularmente se receber quantidades suficientes de coco ao longo do ano.

Como os coqueiros necessitam de vários anos para atingir níveis comerciais de produção, a coordenação entre o calendário agrícola e a entrada em funcionamento da unidade será um dos principais desafios do investidor.

Capacidade De Cinco Mil Toneladas Inicia Substituição De Importações

Na primeira fase, a produção anual de aproximadamente cinco mil toneladas deverá abastecer as operações do Mozambique LNG, substituindo parte do diesel importado.

Esta substituição poderá reduzir a exposição do projecto aos preços internacionais dos combustíveis e criar procura doméstica para uma nova cadeia agro-industrial.

A dimensão inicial foi concebida para testar a viabilidade agronómica, industrial e comercial do modelo antes de uma possível expansão para outros compradores.

Caso a unidade consiga produzir de forma regular e competitiva, o biodiesel poderá ser fornecido a empresas de transportes, mineração, construção e outras operações industriais que procuram reduzir emissões ou substituir combustíveis importados.

A evolução para estes mercados dependerá do custo de produção, do preço do diesel convencional, da disponibilidade de matéria-prima e do enquadramento fiscal e regulatório dos biocombustíveis em Moçambique.

Subprodutos Criam Receitas Complementares

O processamento do coco deverá produzir, além do biodiesel, materiais com potencial de comercialização, incluindo carvão activado, briquetes e farinha ou bagaço de copra.

O aproveitamento destes subprodutos pode melhorar a rentabilidade da unidade, reduzir resíduos e diversificar as fontes de receita.

O carvão activado possui aplicações no tratamento de água, filtragem industrial, mineração e processos ambientais. As briquetes podem ser utilizadas como combustível sólido, enquanto o bagaço resultante da extracção do óleo pode ter aproveitamento na alimentação animal, dependendo da qualidade e certificação.

A valorização integral do coco permite aumentar o rendimento obtido por cada tonelada processada e reduzir a dependência exclusiva do preço do biodiesel.

Para a economia local, esta diversidade pode gerar negócios adicionais em embalagem, transporte, armazenagem, manutenção, distribuição e fornecimento de serviços técnicos.

Investidor Assume Riscos Para Além Da Construção

O modelo Finance-Build-Own-Operate transfere para o investidor a responsabilidade de mobilizar capital e manter a unidade em funcionamento.

Diferentemente de uma empreitada convencional, na qual uma empresa constrói a fábrica e a entrega ao proprietário, o vencedor deverá conservar a propriedade e recuperar o investimento através das receitas operacionais.

A viabilidade dependerá da relação entre o preço estabelecido no contrato de compra, o volume garantido pelo Mozambique LNG, o custo de aquisição do coco, a produtividade da fábrica e o valor dos subprodutos.

O investidor também terá de gerir riscos agrícolas que não estão presentes numa unidade industrial convencional: variações climáticas, pragas, doenças, dispersão dos produtores e flutuações na oferta de matéria-prima.

O contrato take-or-pay reduz o risco da procura, mas o risco de fornecimento continuará concentrado na capacidade de produzir e recolher coco suficiente para cumprir as entregas.

Preço Ao Agricultor Será Uma Variável Central

A manifestação de interesse estabelece que a matéria-prima deverá ser adquirida aos produtores locais em condições justas e certificadas.

O preço pago pelo coco terá de equilibrar três objectivos: proporcionar rendimento atractivo aos agricultores, manter o custo do biodiesel competitivo e evitar que a procura industrial reduza a disponibilidade de coco para alimentação ou outras actividades.

Um preço baixo poderá desincentivar a produção e comprometer o abastecimento. Um preço excessivamente elevado pode tornar o combustível menos competitivo face ao diesel importado.

Contratos transparentes, critérios de qualidade, pesagem certificada e pagamentos previsíveis serão necessários para construir confiança entre agricultores, agregadores e operador industrial.

A assistência técnica também deverá contribuir para elevar a produtividade por árvore, reduzir perdas e melhorar a qualidade da matéria-prima, permitindo aumentar o rendimento do produtor sem depender apenas de preços mais elevados.

Segurança Alimentar Integra O Modelo Agrícola

A associação do coqueiro a culturas alimentares procura evitar que a produção de energia substitua áreas destinadas ao abastecimento das comunidades.

Os produtores poderão cultivar alimentos entre os coqueiros durante as fases iniciais e ao longo do ciclo produtivo, utilizando um modelo agro-florestal que combina diferentes espécies na mesma área.

A eficácia desta abordagem dependerá do acesso à água, sementes, extensão rural, controlo de pragas e funcionamento dos mercados locais.

A produção conjunta de alimentos e energia pode diversificar as receitas das famílias e reduzir o risco de depender de uma única cultura. Também permite que os agricultores obtenham rendimento enquanto aguardam a maturação dos coqueiros.

O acompanhamento deverá medir não apenas o número de árvores plantadas, mas também a taxa de sobrevivência, produtividade, rendimento agrícola e evolução da disponibilidade de alimentos.

Oportunidade Exige Experiência Técnica E Financeira

As empresas interessadas deverão estar registadas no portal de fornecedores do Mozambique LNG e apresentar documentação societária, fiscal e comercial actualizada.

Os requisitos incluem histórico de desempenho em matéria de segurança, estatutos da sociedade, certidão de registo comercial emitida há menos de 90 dias, licença de actividade e comprovativos de registo fiscal.

Os concorrentes terão ainda de demonstrar experiência em projectos semelhantes de biocombustíveis, apresentar carteira de trabalhos executados e indicar a capacidade e localização das instalações em que participaram.

A TotalEnergies solicita também qualificações do pessoal e uma proposta de organização para a execução do projecto.

Quando a manifestação for apresentada por um consórcio, deverá ser anexado um acordo de associação que estabeleça os termos da parceria, duração e forma de participação de cada membro.

Concurso Não Garante Convite Para A Fase Seguinte

As manifestações de interesse devem ser remetidas por correio electrónico, com o assunto “Coconut Biodiesel Production Facility – Palma”, até às 17 horas de 15 de Outubro de 2026.

Após a recepção, a TotalEnergies poderá seleccionar empresas para uma fase adicional de pré-qualificação.

A entrega da manifestação não garante o convite para o concurso principal. O processo inicial servirá para avaliar a capacidade técnica, financeira, operacional e de segurança dos potenciais investidores.

Informações comerciais e técnicas mais detalhadas serão disponibilizadas apenas às empresas que ultrapassarem as fases seguintes.

A estrutura indica que o projecto ainda se encontra numa etapa de selecção do investidor e definição da solução final, pelo que o valor de investimento e o calendário definitivo da fábrica ainda não foram divulgados.

Palma Pode Ganhar Uma Base Agro-Industrial Duradoura

O projecto distingue-se das oportunidades temporárias associadas à construção do complexo de gás porque procura criar uma actividade agrícola e industrial capaz de continuar a operar durante toda a fase de exploração do Mozambique LNG.

A procura garantida pode permitir que agricultores, transportadores, agregadores e prestadores de serviços façam investimentos com maior previsibilidade.

A fábrica também poderá constituir um activo económico para além do projecto de gás, desde que alcance produtividade, qualidade e custos que permitam conquistar outros mercados.

O impacto dependerá do valor efectivamente retido em Palma: rendimento pago aos agricultores, empregos permanentes, empresas locais contratadas, impostos recolhidos e competências transferidas.

O especialista em desenvolvimento de cadeias de valor, Virgílio Tamele, ouvido pelo O.Económico sobre o assaunto, afirmou que se a cadeia conseguir combinar produção agrícola, processamento, mercado garantido e aproveitamento dos subprodutos, o investimento poderá transformar o coco num novo segmento industrial de Cabo Delgado.

“Mais do que fornecer combustível ao Mozambique LNG, criará uma ligação produtiva entre um grande projecto energético e a economia rural da região”. Ajustou.