Crise Energética Devolve Carvão Ao Centro Da Produção Mundial De Electricidade

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Crise Energética Devolve Carvão Ao Centro Da Produção Mundial De Electricidade

• AIE revê em alta a procura global para um recorde de 8,94 mil milhões de toneladas em 2026, à medida que o gás mais caro leva Europa e Ásia a reactivarem capacidade termoeléctrica.

Questões-Chave:
  • A procura mundial de carvão deverá crescer 1,2% e atingir o recorde de 8,94 mil milhões de toneladas em 2026;
  • As restrições às remessas de gás natural liquefeito estão a tornar o carvão mais competitivo na geração de electricidade;
  • A Europa, a China, o Japão e a Coreia do Sul aumentaram o consumo acima das previsões anteriores;
  • A produção mundial deverá recuar cerca de 2%, mantendo-se, ainda assim, acima de nove mil milhões de toneladas;
  • O preço do carvão térmico de Newcastle subiu de US$ 115 por tonelada em Fevereiro para uma média de US$ 139 em Junho;
  • O aumento da procura internacional abre uma conjuntura comercial favorável aos países exportadores, incluindo Moçambique.

A procura mundial de carvão deverá crescer 1,2% em 2026 e atingir o recorde de 8,94 mil milhões de toneladas, contrariando as anteriores previsões de uma ligeira redução do consumo, num momento em que a crise no Médio Oriente está a alterar as opções de abastecimento e geração de electricidade.

A nova projecção consta da actualização semestral do mercado de carvão da Agência Internacional de Energia (AIE), que atribui a revisão ao encarecimento do gás natural, à redução das remessas de gás natural liquefeito e ao aumento da procura de electricidade em várias economias.

Embora praticamente nenhum carregamento de carvão passe pelo Estreito de Ormuz, as restrições à circulação de GNL através daquela rota estão a produzir efeitos indirectos sobre o mercado. O gás mais caro levou países que dispõem simultaneamente de centrais a gás e de capacidade termoeléctrica a carvão a aumentarem a utilização deste último combustível.

A mudança está a elevar o consumo na Europa, China, Japão, Coreia do Sul e noutros mercados, mostrando como a segurança do abastecimento pode alterar, no curto prazo, a composição da matriz energética e retardar a redução da utilização das fontes fósseis.

Gás Mais Caro Torna Carvão Novamente Competitivo

A geração de electricidade representa cerca de dois terços do consumo mundial de carvão. Desta forma, alterações significativas no preço ou na disponibilidade do gás natural produzem efeitos directos sobre a procura deste combustível.

Segundo a AIE, a forte queda das remessas de GNL através do Estreito de Ormuz elevou os preços do gás natural e incentivou uma maior utilização das centrais a carvão que ainda se encontram disponíveis em diversas economias.

O aumento foi particularmente visível no Japão e na Coreia do Sul, países dependentes da importação de energia e com capacidade para substituir parte da geração a gás por carvão. A Europa também registou um consumo superior ao anteriormente previsto.

A procura não está a crescer apenas na produção de electricidade. Na China, os preços elevados do petróleo melhoraram a viabilidade económica da utilização de carvão na produção de produtos químicos, embora várias unidades deste segmento já operassem com níveis elevados de utilização.

A crise está igualmente a levar governos e empresas a reavaliarem as respectivas estratégias energéticas. Em alguns mercados, a prioridade atribuída à segurança do abastecimento está a favorecer o carvão produzido internamente, reduzindo a exposição à volatilidade do gás importado.

El Niño Aumenta Necessidades De Electricidade Na Ásia

A conjuntura geopolítica coincide com a previsão de um fenómeno El Niño particularmente intenso em 2026, que poderá aumentar as temperaturas e as necessidades de refrigeração em algumas das principais economias asiáticas.

A AIE antecipa que a combinação entre maior consumo de electricidade e menor produção hidroeléctrica deverá favorecer a utilização de carvão em países como a Índia e o Vietname.

Esta evolução levou a agência a reverter a projecção publicada em Dezembro de 2025, que apontava para uma ligeira contracção da procura mundial durante o presente ano.

Em 2025, o consumo global já havia aumentado 0,3%, para 8,84 mil milhões de toneladas, estabelecendo um novo máximo. O crescimento ocorreu apesar da redução da geração a carvão na China e na Índia e da queda da produção mundial de aço.

O aumento do consumo nos Estados Unidos, na indústria de níquel da Indonésia e na produção chinesa de produtos químicos compensou as reduções verificadas noutros mercados.

Produção Recua E Estoques Começam A Diminuir

Enquanto a procura deverá aumentar, a produção mundial de carvão poderá diminuir cerca de 2% em 2026. Ainda assim, deverá permanecer acima de nove mil milhões de toneladas pelo terceiro ano consecutivo.

A redução é explicada, em grande medida, pela queda da produção chinesa após um acidente ocorrido numa mina da província de Shanxi, em Maio. As autoridades intensificaram as inspecções de segurança, levando a produção de Junho e Julho a recuar cerca de 10% em termos homólogos.

A China responde por mais de metade da produção mundial de carvão. Qualquer alteração significativa na sua oferta interna influencia os preços, as importações e o equilíbrio do mercado internacional.

A AIE prevê uma recuperação dos volumes chineses até ao final do ano, impulsionada pela procura e pelas preocupações relacionadas com a segurança energética. Para 2027, a produção mundial poderá aumentar ligeiramente, acompanhando a normalização da actividade mineira no país.

Na Índia, a oferta deverá crescer mais de 1%, enquanto os Estados Unidos poderão registar uma redução de 3%. A produção indonésia deverá continuar a diminuir, depois de o excesso de oferta ter pressionado os preços em 2025.

Com a aproximação entre os níveis de produção e consumo, os elevados stocks acumulados nos últimos anos deverão começar a diminuir, tornando o mercado mais sensível a novas perturbações da oferta.

Comércio Internacional Recupera Com Procura Asiática

O comércio mundial de carvão contraiu-se em 2025, após alcançar um máximo histórico, devido à redução estrutural das importações do Japão, Coreia do Sul, Taiwan e União Europeia.

A diminuição das compras chinesas também retirou ao mercado o principal factor que, nos anos anteriores, havia compensado a queda da procura noutros grandes importadores.

Em 2026, porém, a substituição do gás pelo carvão no Japão e na Coreia do Sul, conjugada com a menor produção doméstica chinesa, está a elevar a procura no mercado internacional.

A AIE reviu, por isso, em alta a sua previsão para o comércio mundial, sobretudo no segmento do carvão térmico. A redução da oferta da Indonésia coloca os produtores australianos numa posição favorável para preencher parte da procura adicional, ao mesmo tempo que proporciona algum alívio aos exportadores russos.

Para 2027, o comércio poderá voltar a diminuir se os fluxos de GNL recuperarem e os preços do gás regressarem a níveis próximos dos registados antes do conflito.

Preços Recuperam Mas Permanecem Abaixo Dos Máximos De 2022

A procura adicional, a menor oferta e as perturbações geopolíticas contribuíram para uma recuperação dos preços do carvão ao longo do primeiro semestre.

O preço do carvão térmico FOB Newcastle atingiu US$ 115 por tonelada em Fevereiro, 7% acima do nível de Dezembro de 2025. Em Junho, a média subiu para US$ 139 por tonelada, antes de recuar ligeiramente para US$ 131 em Agosto.

Apesar da valorização, os preços continuam muito abaixo dos máximos registados durante a crise energética de 2022, quando ultrapassaram US$ 400 por tonelada.

Além do encarecimento do gás, a evolução dos preços reflecte restrições às exportações e incertezas regulatórias na Indonésia, problemas de produção na China e interrupções na mina de Cerrejón, na Colômbia.

Moçambique Pode Beneficiar Da Procura, Mas Enfrenta Desafios Logísticos

A recuperação do comércio internacional e dos preços cria uma conjuntura potencialmente favorável para Moçambique, produtor e exportador de carvão térmico e metalúrgico através da província de Tete.

Uma procura externa mais elevada poderá aumentar as receitas de exportação, melhorar a entrada de divisas e estimular a utilização das infra-estruturas ferroviárias e portuárias associadas ao escoamento do carvão.

Os ganhos dependerão, porém, da capacidade de produção, da eficiência dos corredores logísticos, dos custos de transporte e da evolução da procura nos mercados asiáticos. A qualidade do carvão exportado e a disponibilidade de capacidade ferroviária e portuária também serão determinantes para aproveitar o actual ciclo.

A valorização representa igualmente uma oportunidade para aumentar as receitas fiscais e as ligações entre a mineração, os transportes, a manutenção industrial e os fornecedores nacionais. O aproveitamento económico da conjuntura exigirá que o crescimento das exportações produza maior incorporação de conteúdo local e efeitos sobre a economia doméstica.

No plano estrutural, a recuperação do carvão não elimina a tendência de transição para fontes energéticas de menor intensidade carbónica. Evidencia, contudo, que a segurança energética, a disponibilidade de infra-estruturas e os preços relativos continuam a determinar as decisões dos países, sobretudo quando os mercados de petróleo e gás enfrentam perturbações simultâneas.

A evolução de 2027 dependerá, em grande medida, da normalização das remessas de GNL. Caso os fluxos recuperem e os preços do gás diminuam, a AIE prevê uma queda de 0,4% na procura mundial de carvão, para 8,91 mil milhões de toneladas. Se as restrições persistirem, o consumo poderá estabelecer um novo máximo.