Petróleo Fecha Semana Em Forte Queda, Mas Hormuz Mantém O Mercado Longe Da Normalidade

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  • Brent terminou sexta-feira nos US$83,55 e WTI nos US$78,18, depois de uma semana marcada por oscilações bruscas entre expectativas de acordo com o Irão e novos sinais de risco no Estreito de Hormuz. Para a próxima semana, mais do que a OPEP+, será a capacidade de converter diplomacia em barris efectivamente transportados que deverá determinar a direcção do mercado.

Questões-Chave

  • O Brent encerrou sexta-feira nos US$83,55 por barril, enquanto o WTI fechou nos US$78,18, recuperando parte das perdas depois de ambos terem subido na quinta-feira perante novas ameaças à navegação em Hormuz;
  • A Reuters apontou para uma perda semanal superior a 8% no Brent e acima de 7% no WTI, embora a mudança do contrato de referência do Brent tenha ampliado parte da queda aparente no início da semana;
  • A OPEP+ aprovou mais 188 mil barris/dia de capacidade de produção para Setembro, completando a reversão de cortes voluntários de 1,65 milhão de barris/dia, mas as restrições logísticas fazem com que uma parte importante destes aumentos permaneça, por enquanto, mais teórica do que física;
  • Apenas 33 navios atravessaram Hormuz entre segunda e quinta-feira, contra 50 no mesmo período da semana anterior e aproximadamente 130 a 140 numa semana normal antes da guerra;
  • Goldman Sachs considera que, sem um acordo nuclear confirmado ou uma escalada significativa do conflito, o Brent poderá permanecer essencialmente na zona dos US$80–US$90; o Citi elevou a sua previsão média para o terceiro trimestre de US$75 para US$80 por barril;

Uma Semana Em Que A Diplomacia Retirou — E Depois Devolveu — O Prémio Geopolítico

O comportamento do mercado petrolífero na semana encerrada a 7 de Agosto oferece uma demonstração particularmente clara da diferença entre expectativas de oferta e oferta física disponível.

Na segunda-feira, o petróleo caiu violentamente depois de o Presidente norte-americano, Donald Trump, suspender novos ataques contra o Irão e indicar que poderia estar próximo um entendimento capaz de facilitar a circulação pelo Estreito de Hormuz. O Brent perdeu 7%, fechando nos US$83,77, enquanto o WTI recuou 5,1%, para US$80,34. 

Parte da queda do Brent deve, porém, ser interpretada com cautela. A passagem do contrato de Setembro para Outubro como referência principal introduziu um efeito técnico adicional: segundo a Reuters, o contrato de Outubro tinha caído cerca de 4,7% relativamente ao fecho da sexta-feira anterior, diferença inferior aos 7% sugeridos pelo movimento do novo contrato frontal. 

Ainda assim, a mensagem do mercado era inequívoca: os investidores começaram a retirar rapidamente parte do prémio de risco acumulado devido ao conflito.

A inversão chegou quando se tornou evidente que negociar a abertura de Hormuz e normalizar efectivamente o comércio através do estreito são duas coisas diferentes.

Na quinta-feira, o Brent ganhou 3,83%, para US$82,49, enquanto o WTI avançou 2,75%, para US$77,29, depois de surgirem informações de que uma comissão parlamentar iraniana analisava legislação destinada a restringir a passagem de navios norte-americanos, israelitas e de outros países considerados hostis.

Na sexta-feira, o movimento prosseguiu, colocando o Brent nos US$83,55 e o WTI nos US$78,18. 

A semana terminou, portanto, com uma aparente contradição: preços significativamente inferiores aos da sexta-feira anterior, mas fundamentos físicos ainda muito distantes de um mercado normalizado.

Hormuz Continua A Ser O Preço Marginal Do Barril

O dado talvez mais importante da semana não veio dos mercados de futuros, mas do tráfego marítimo.

Segundo dados da Kpler citados pela Reuters, apenas 33 navios atravessaram o Estreito de Hormuz entre segunda e quinta-feira, contra 50 no período comparável da semana anterior. Antes do conflito, entre 130 e 140 navios atravessavam normalmente o estreito por semana. 

Mais significativo ainda, apenas seis petroleiros transportando crude saíram pelo estreito durante esse período.

É aqui que emerge a principal questão para o mercado: um barril produzido mas impossibilitado de chegar ao comprador não é, economicamente, equivalente a um barril disponível no mercado internacional.

O exemplo iraquiano é revelador. A SOMO, empresa estatal responsável pela comercialização do petróleo do Iraque, chegou a oferecer descontos próximos de US$30 por barril para Basrah Heavy e Basrah Medium. Mesmo com tamanha diferença de preço, compradores chineses e indianos encontraram dificuldades para contratar navios, dada a relutância dos armadores em atravessar Hormuz. 

A Reliance Industries terá chegado a pagar entre US$23 milhões e US$25 milhões pelo fretamento de um superpetroleiro capaz de transportar dois milhões de barris de crude iraquiano — várias vezes acima dos custos praticados antes da guerra. 

Ou seja, parte do preço actual da energia não está apenas no barril. Está igualmente no risco marítimo, seguro, frete, disponibilidade de navios e capacidade de entregar o produto ao destino.

OPEP+ Aumenta Quotas, Mas Logística Limita O Poder Dos Novos Barris

A outra grande referência da semana foi a decisão da OPEP+.

Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Kuwait, Argélia, Cazaquistão e Omã acordaram aumentar os seus objectivos combinados de produção em cerca de 188 mil barris por dia a partir de Setembro. A decisão completa a reversão gradual de um corte voluntário de 1,65 milhão de barris/dia estabelecido em 2023. 

Em condições normais, um aumento de oferta desta natureza constituiria um factor baixista.

Actualmente, porém, existe um problema: a capacidade autorizada pela OPEP+ não está a converter-se integralmente em petróleo disponível para consumo.

A própria Reuters observa que sucessivos aumentos das quotas ao longo de 2026 tiveram impacto limitado devido às restrições às exportações do Golfo, da Rússia e do Cazaquistão. 

O caso do Cazaquistão acrescentou outra camada de risco esta semana. Ataques com drones reduziram em mais de 20% os carregamentos de Julho através do Caspian Pipeline Consortium, equivalente a aproximadamente 400 mil barris por dia, enquanto os volumes no início de Agosto continuavam abaixo da capacidade habitual. 

O mercado enfrenta, assim, um paradoxo: existe capacidade produtiva potencial, mas uma parte crescente do risco encontra-se entre o campo petrolífero e o consumidor final.

Inventários Transformam O Tempo Numa Variável Económica

A duração do conflito tornou-se tão importante quanto a sua intensidade.

A Agência Internacional de Energia calcula que a oferta mundial recuperou 4,1 milhões de barris/dia em Junho, para 98,8 milhões, mas continuava aproximadamente 9,4 milhões de barris/dia abaixo dos níveis anteriores à guerra.

Simultaneamente, os inventários comerciais têm sido utilizados para compensar a insuficiência dos fluxos físicos.

Embora os inventários globais observados tenham aumentado 21 milhões de barris em Junho, os stocks da OCDE diminuíram 62 milhões de barris, dos quais aproximadamente 44 milhões resultaram de libertações de reservas governamentais. 

Isto altera substancialmente a leitura do mercado.

Quando os inventários são elevados, uma interrupção temporária pode ser absorvida. Quando as reservas comerciais e estratégicas são progressivamente consumidas, cada semana adicional de perturbação aumenta a sensibilidade do preço a qualquer novo incidente.

É precisamente por isso que a descida desta semana não deve ser automaticamente interpretada como sinal de abundância.

Crude Pode Aliviar Antes Dos Produtos Refinados

Existe ainda outra separação que merece atenção: petróleo bruto e combustíveis refinados não constituem exactamente o mesmo mercado.

A IEA observa que as margens de refinação atingiram máximos de quatro anos no início de Julho. Refinarias do Médio Oriente continuam afectadas, a actividade russa foi limitada por ataques e várias unidades asiáticas operaram abaixo da capacidade. 

Isto significa que mesmo uma reabertura relativamente rápida de Hormuz poderia fazer baixar o Brent sem produzir imediatamente a mesma redução nos preços de diesel, gasolina ou jet fuel.

A China está já a reagir. Pequim aumentou novamente as autorizações de exportação de combustíveis refinados para Agosto, esperando-se que o throughput das refinarias chinesas suba entre 200 mil e 300 mil barris/dia relativamente a Julho. 

Esta distinção será particularmente importante para economias importadoras de combustíveis: um Brent mais baixo não garante automaticamente uma redução proporcional da factura energética.

Próxima Semana: Três Cenários Para O Petróleo

Cenário Base — Negociações Continuam, Mas Hormuz Reabre Apenas Parcialmente

Este parece, neste momento, o cenário mais consistente com as informações disponíveis.

Irão e Omã podem continuar a aproximar posições e Washington poderá manter aberta a possibilidade de suspender o bloqueio caso os compromissos sejam cumpridos. Uma fonte norte-americana disse à Reuters que espera um acordo em breve. 

Contudo, permanecem questões fundamentais: quem controla as rotas, que navios poderão circular, quem cobra pelos serviços de passagem e de que forma esses pagamentos podem ser efectuados sem violar sanções norte-americanas e cláusulas de seguros.

O Irão pretende taxas equivalentes a 5%–7% do valor da carga, Omã discute cerca de 3%, enquanto Washington pretende passagem sem taxas

Neste quadro, a volatilidade deverá permanecer elevada.

O intervalo de US$80–US$90 para o Brent, identificado pelo Goldman Sachs enquanto não existir nem um acordo definitivo nem uma escalada decisiva, constitui uma referência razoável para perceber o actual equilíbrio de forças, mais do que uma previsão de preço exacto para cada sessão. 

Cenário De Baixa — Acordo Credível E Navios Começam A Circular

O principal risco baixista não seria simplesmente o anúncio de um acordo.

Seria a sua execução física.

Se dados da Kpler, LSEG e outras plataformas começarem a mostrar crescimento consistente do número de navios a entrar e sair do Golfo, armadores recuperarem confiança e seguros regressarem progressivamente ao mercado, o Brent poderá voltar a testar níveis inferiores aos US$80.

Nesse caso, a atenção deslocar-se-ia rapidamente da escassez corrente para um possível excesso futuro de oferta.

É precisamente essa perspectiva que explica por que razão o Citi mantém uma previsão média de US$70 para o Brent no quarto trimestre, apesar de ter elevado a previsão do terceiro trimestre para US$80. 

A recuperação das exportações do Golfo, combinada com o aumento das quotas da OPEP+, poderia transformar um mercado actualmente limitado pela logística num mercado novamente condicionado pela abundância potencial.

Cenário De Alta — Diplomacia Falha E O Risco Alarga-Se A Mais Rotas

O cenário oposto é igualmente plausível.

Uma ruptura das negociações Irão-Omã, novas restrições legislativas à passagem de navios, ataques contra petroleiros ou infra-estruturas energéticas e uma intensificação das operações dos Houthis no Mar Vermelho poderiam rapidamente devolver o Brent à zona dos US$90 e potencialmente acima dela.

O problema seria amplificado porque Hormuz já não constitui o único ponto vulnerável.

Os desvios de navios em torno de África, as ameaças no Bab el-Mandeb, os ataques à infra-estrutura russa e as dificuldades do CPC criam uma rede de riscos que aumenta simultaneamente o tempo de viagem, os custos de seguro, os fretes e a quantidade de petróleo imobilizada no transporte. (Reuters)

Neste cenário, o mercado deixaria de discutir quando desaparece o prémio geopolítico e regressaria à questão mais problemática: quanto petróleo pode efectivamente chegar ao consumidor.

Para O Mercado, A Próxima Confirmação Virá Dos Navios — Não Dos Comunicados

A principal lição da semana é que o mercado petrolífero entrou numa fase em que declarações políticas podem provocar oscilações de vários dólares por barril, mas são os fluxos físicos que determinarão a tendência sustentável.

Por isso, na semana de 10 a 14 de Agosto, quatro sinais deverão ser observados em conjunto: evolução das negociações Irão-Omã; número efectivo de petroleiros a atravessar Hormuz; comportamento dos inventários norte-americanos; e indicadores de inflação dos Estados Unidos, que poderão influenciar simultaneamente o dólar, as expectativas sobre a Reserva Federal e as perspectivas de procura.

O quadro estrutural permanece assimétrico. Uma normalização bem-sucedida de Hormuz abre espaço para uma descida substancial dos preços porque recoloca milhões de barris no mercado e torna mais relevantes os aumentos da OPEP+. Mas, enquanto essa normalização não for visível no tráfego marítimo, os actuais US$83 do Brent não representam propriamente um regresso à tranquilidade.

Representam, antes, o preço que o mercado está disposto a pagar pela expectativa de que a tranquilidade ainda possa chegar.