
Fertilizantes Barateiam No Mundo, Mas África Continua A Pagar Mais Do Dobro
- Ureia caiu para cerca de US$ 390 por tonelada em Agosto, mas permanece entre US$ 854 e US$ 1.024 em importantes mercados da África Oriental e Austral. Diferença de preços aumenta os custos da próxima campanha agrícola numa altura em que um El Niño muito forte ameaça a produção regional.
Questões-Chave:
- Ureia no mercado internacional recuou para cerca de US$ 390 por tonelada em Agosto, regressando a níveis anteriores à actual crise;
- Preços regionais mantêm-se acima de US$ 850 por tonelada na África do Sul, Tanzânia, Malawi e Uganda;
- Uganda regista cerca de US$ 1.024 por tonelada, enquanto Tanzânia se mantém em US$ 933 e Malawi em US$ 909;
- OMM prevê probabilidade próxima de 100% de o El Niño persistir até Fevereiro de 2027 e atingir intensidade muito forte;
- Zâmbia, com colheita de milho próxima de cinco milhões de toneladas, acordou exportar 540 mil toneladas para o Quénia;
- Diferença entre preços mundiais e regionais coloca logística, concorrência e transmissão dos preços no centro do debate sobre segurança alimentar.
Os preços internacionais dos fertilizantes estão a recuar, mas os agricultores de várias economias da África Oriental e Austral continuam a pagar valores superiores ao dobro das referências mundiais, numa altura em que a região se prepara para uma campanha agrícola particularmente exposta aos riscos climáticos.
A ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados na agricultura, caiu para cerca de US$ 390 por tonelada em Agosto, regressando a níveis anteriores à escalada provocada pelas recentes perturbações internacionais.
O movimento foi favorecido pelo aumento das quotas de exportação chinesas e por maior disponibilidade proveniente da Rússia, Nigéria e produtores do Norte de África.
Mas o alívio internacional ainda não se transmitiu na mesma dimensão à região.
Na África do Sul, o preço da ureia situava-se em cerca de US$ 854 por tonelada. Na Tanzânia, o preço regulado permanecia próximo de US$ 933. No Malawi, tinha recuado de US$ 1.145 em Maio para US$ 909 em Agosto, enquanto no Uganda avançava para aproximadamente US$ 1.024 por tonelada.
A diferença coloca uma questão económica relevante para a próxima campanha: se o preço internacional já recuou, por que razão o fertilizante continua tão caro para grande parte dos agricultores africanos?
Preços Regionais Demoram A Acompanhar O Mercado Mundial
O relatório de Agosto do African Market Observatory considera que os preços regionais recuaram muito mais lentamente do que as referências internacionais e permanecem, em vários mercados, acima do dobro do preço mundial.
A diferença sugere que o problema já não se explica apenas pelo custo do produto na origem.
Fretes, armazenagem, financiamento, transporte interno, estrutura dos mercados, margens de distribuição, regimes regulatórios e eficiência da concorrência passam a ter maior peso na formação do preço pago pelo agricultor.
O próprio relatório recomenda maior atenção à transmissão dos preços e às condições de concorrência nos mercados regionais de fertilizantes.
O contraste é particularmente significativo porque o Banco Mundial também registou uma redução de 1,9% no seu índice de fertilizantes em Agosto, confirmando a tendência de alívio no mercado internacional.
A descida global, contudo, não significa que todos os nutrientes estejam a beneficiar da mesma dinâmica. O IFDC observa que a recuperação da oferta chinesa e iraniana ajudou a baixar os preços da ureia, enquanto fertilizantes fosfatados continuam mais pressionados pelos custos elevados das matérias-primas utilizadas na sua produção.
El Niño Aumenta O Custo Económico Da Diferença
A persistência de fertilizantes caros torna-se mais preocupante porque coincide com o desenvolvimento de um El Niño excepcionalmente intenso.
A Organização Meteorológica Mundial considera praticamente certa a persistência do fenómeno até Fevereiro de 2027 e prevê que alcance intensidade muito forte antes de atingir o pico no final deste ano.
Na África Austral, o padrão está historicamente associado a maior risco de precipitação abaixo da média e seca em várias áreas.
Na África Oriental, o impacto é mais heterogéneo, mas inclui riscos de precipitação intensa e inundações em partes da região. O documento do African Market Observatory destaca precisamente esta diferença entre o risco de seca no Sul e de excesso de chuva no Leste.
Para os agricultores, clima adverso e fertilizante caro representam uma combinação difícil.
Se o preço do insumo permanece elevado, produtores podem reduzir a quantidade aplicada por hectare ou deixar parte da área por cultivar. Se simultaneamente as condições climáticas deteriorarem os rendimentos, a produção final pode cair por dois canais diferentes.
Por isso, o acesso ao fertilizante antes da campanha assume uma importância que ultrapassa a própria indústria de insumos.
Passa directamente para a segurança alimentar.
Governos Voltam Aos Subsídios
A pressão já está a produzir respostas de política pública.
O Quénia reduziu recentemente o preço do saco de 50 quilogramas de fertilizante subsidiado de 2.500 para 2.000 shillings quenianos e anunciou igualmente uma comparticipação de 50% no preço das sementes certificadas de milho.
No Uganda, o Governo lançou a distribuição gratuita de 173.913 sacos de fertilizante para agricultores de cadeias consideradas estratégicas, começando por produtores de chá e prevendo posteriormente outros segmentos.
O Malawi segue uma estratégia diferente. O país reduziu significativamente o alcance do seu programa de subsídio aos insumos e procura redireccionar recursos para irrigação, investigação, extensão rural e infra-estruturas de mercado.
As três respostas mostram diferentes formas de enfrentar o mesmo problema: como proteger a próxima colheita sem transformar subsídios permanentes numa pressão insustentável sobre os orçamentos públicos.
Milho Mostra A Importância Do Comércio Regional
A resposta não passa apenas pelos fertilizantes.
O relatório chama atenção para o papel crescente do comércio regional na compensação das diferenças de produção entre países.
A Zâmbia deverá colher aproximadamente cinco milhões de toneladas de milho em 2026 e já acordou a exportação de 540 mil toneladas para o Quénia, onde condições climáticas adversas reduziram as perspectivas de produção.
O Quénia projectava um défice de aproximadamente 486 mil toneladas até ao final de Setembro, podendo necessitar de importar mais de 1,5 milhão de toneladas no próximo ano caso a produção continue aquém das necessidades.
A situação ilustra a função económica do comércio regional.
Quando a produção cai num país e aumenta noutro, fronteiras eficientes, logística funcional e regras comerciais previsíveis permitem que excedentes se desloquem para regiões deficitárias.
Quando esse mecanismo falha, uma quebra local de produção transforma-se mais rapidamente em aumento de preços e insegurança alimentar.
Tanzânia Ganha Peso Como Fonte Regional De Milho
A Tanzânia também poderá assumir maior importância no abastecimento regional.
O país registou produção excedentária nos últimos anos e, segundo o African Market Observatory, tem mantido capacidade para exportar mesmo em períodos de choques climáticos mais severos noutras economias.
Em Agosto, os preços do milho em Dar es Salaam tinham descido para cerca de US$ 210 por tonelada, enquanto no sudoeste do país se situavam próximo de US$ 195, abaixo das referências mundiais e compatíveis com expectativas de boa disponibilidade.
Na África Austral, Malawi, África do Sul e Zâmbia apresentavam preços próximos de US$ 220 por tonelada, com a Zâmbia em cerca de US$ 228.
A disponibilidade de milho na Tanzânia e Zâmbia pode, por isso, funcionar como amortecedor regional se a próxima campanha agrícola for afectada pelo El Niño.
Esse efeito dependerá, contudo, da disponibilidade de fertilizantes, funcionamento dos corredores logísticos e ausência de restrições às exportações.
Soja Já Incorpora Expectativas De Colheitas Mais Fracas
O risco climático começa igualmente a reflectir-se na soja.
Os preços internacionais ultrapassaram US$ 480 por tonelada, segundo o relatório, num movimento associado, entre outros factores, às expectativas sobre os efeitos do El Niño na próxima campanha.
Na África do Sul, os preços subiram de aproximadamente US$ 412 em Junho para US$ 500 em Agosto, aproximando-se dos níveis mundiais e zambianos. O African Market Observatory interpreta o movimento como sinal de expectativas de uma colheita significativamente mais fraca no próximo ano.
A evolução da soja é particularmente relevante porque o produto não termina apenas no consumo humano.
É matéria-prima fundamental para ração animal e óleos vegetais, transmitindo rapidamente alterações de preço para cadeias como aves, ovos, carne e processamento alimentar.
Moçambique Também Está Exposto Ao Custo Dos Insumos
A situação regional tem implicações directas para Moçambique.
O país permanece dependente de fertilizantes importados. Dados comerciais do Banco Mundial indicam que, em 2024, Moçambique importou cerca de US$ 179 milhões em fertilizantes, com Rússia, Arábia Saudita, Omã, Emirados Árabes Unidos e Maurícias entre os principais fornecedores.
Só os fertilizantes nitrogenados representaram aproximadamente US$ 123 milhões e 319 mil toneladas naquele ano.
A vulnerabilidade voltou a ficar evidente em 2026. Entre Abril e Junho, um programa emergencial apoiado pelo Banco Mundial distribuiu cerca de oito mil toneladas de NPK e ureia a mais de 160 mil agricultores em seis províncias, segundo o IFDC.
Esta dependência significa que preços internacionais, fretes, disponibilidade regional e funcionamento das rotas de abastecimento podem afectar directamente o custo de produção agrícola nacional.
Queda Mundial Só Produz Efeito Quando Chega À Machamba
O comportamento recente da ureia oferece, portanto, uma leitura mais ampla sobre os mercados agrícolas africanos.
A oferta mundial reagiu.
China ampliou as exportações. Rússia, Nigéria e Norte de África aumentaram disponibilidades. O preço internacional regressou para perto de US$ 390 por tonelada.
Mas, em vários mercados africanos, o agricultor ainda enfrenta preços superiores a US$ 850 — e, em alguns casos, acima dos US$ 1.000.
Esta diferença deixa de ser apenas uma questão de mercado de fertilizantes.
Num contexto de El Niño muito forte, torna-se um problema de produtividade, produção e segurança alimentar.
A próxima campanha dependerá da chuva. Mas dependerá também da capacidade de fazer chegar fertilizantes aos produtores a preços compatíveis com a rentabilidade das culturas e de permitir que excedentes agrícolas circulem entre países quando a produção falhar numa parte da região.
A redução dos preços mundiais é, por isso, apenas a primeira parte da equação.
Para a agricultura africana, o alívio só estará completo quando esse recuo chegar efectivamente ao custo de produzir na machamba.
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