
Investigação Deve Crescentemente Estar Mais Ligada Aos Desafios Do Desenvolvimento – Salim Valá
- Ministro da Planificação e Desenvolvimento desafia academia a produzir evidência sobre emprego, empreendedorismo e desigualdades de acesso às oportunidades, num país onde quase 80% da população tem menos de 35 anos e a procura por financiamento produtivo supera largamente a capacidade dos instrumentos públicos.
- Quase 80% da população moçambicana tem menos de 35 anos e cerca de metade tem menos de 16;
- Cerca de 75% da população empregada trabalha na agricultura, silvicultura e pesca, enquanto o trabalho por conta própria domina a estrutura do emprego;
- FDEL recebeu 356.663 propostas no primeiro ciclo, mas aprovou 18.721 projectos;
- Jovens representam 65,97% dos projectos financiados, enquanto a participação das mulheres permanece em 42,46%;
- Ministro desafia universidades a avançarem da medição dos fenómenos para a explicação das causas que condicionam inclusão, produtividade e acesso às oportunidades;
- Investigação é apresentada como instrumento para melhorar políticas públicas e também orientar decisões de investimento privado.
Transformar a elevada proporção de jovens na população moçambicana em crescimento, produtividade e emprego exigirá mais do que programas de financiamento ou expansão do acesso à educação. Exigirá investigação capaz de identificar os obstáculos que impedem que capacidade humana, iniciativa económica e recursos públicos se convertam efectivamente em valor.
Foi esta a linha defendida pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, durante as Jornadas Científicas da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, que decorrem entre 14 e 18 de Setembro.
Na intervenção, o governante colocou a demografia no centro do debate, sustentando que a juventude representa simultaneamente uma oportunidade económica e uma responsabilidade para as políticas públicas, universidades, empresas e para os próprios jovens.
A dimensão do desafio é expressiva. Dados das Nações Unidas indicam que quase 80% da população moçambicana tem menos de 35 anos, enquanto aproximadamente metade tem menos de 16. A mesma análise adverte que uma estrutura populacional jovem só se converte em dividendo demográfico quando é acompanhada por investimentos em educação, saúde, competências e oportunidades económicas.
Uma População Jovem Não Produz Automaticamente Um Dividendo
O peso da juventude oferece a Moçambique uma reserva crescente de força de trabalho, consumidores, empreendedores e potenciais inovadores. Mas a vantagem demográfica não resulta simplesmente do número de jovens existentes.
A sua transformação em capacidade produtiva depende das condições em que essa população entra no mercado de trabalho, da qualidade do capital humano e da capacidade da economia para criar actividades de maior produtividade.
É precisamente aí que a estrutura actual revela constrangimentos.
O Inquérito sobre Orçamento Familiar de 2022 mostra que cerca de 75% da população empregada está concentrada na agricultura, silvicultura e pesca, proporção que chega a 89,2% nas zonas rurais. Ao mesmo tempo, 72% da população ocupada trabalha por conta própria sem empregados.
Entre os chefes de agregados familiares, essa proporção sobe para 78,9%.
Os números descrevem uma economia em que grande parte do trabalho existe, mas permanece concentrada em actividades de pequena escala, baixa produtividade e reduzida capacidade de acumulação.
É neste sentido que Valá defendeu que o problema não deve ser interpretado exclusivamente como ausência de emprego ou rendimento, mas também como capacidade humana que ainda encontra dificuldades para se transformar em valor económico reconhecido.
Analfabetismo Continua A Limitar A Transformação Do Capital Humano
A educação acrescenta outra dimensão.
A taxa nacional de analfabetismo situava-se em 38,3%, segundo o IOF 2022, mas alcançava 49,2% entre as mulheres, contra 25,9% entre os homens.
A disparidade ajuda a mostrar por que razão crescimento demográfico, por si só, não garante maior produtividade.
Uma força de trabalho numerosa com reduzido acesso à educação, competências técnicas, tecnologia e financiamento pode permanecer concentrada em actividades de sobrevivência durante longos períodos.
O desafio colocado à política económica passa, portanto, pela capacidade de deslocar progressivamente essa população para actividades com maior produtividade e rendimento.
Na agricultura, isso significa combinar formação, mecanização, acesso à terra, crédito, tecnologias adaptadas, extensão rural e mercados, criando condições para que uma parcela maior da produção passe da subsistência para estruturas comercialmente sustentáveis.
FDEL Revela Uma Procura Muito Superior À Capacidade De Financiamento
O Fundo de Desenvolvimento Económico Local surge, neste quadro, como um indicador concreto da dimensão da procura por oportunidades económicas.
No primeiro ciclo, referente a 2025, foram submetidas 356.663 propostas de projectos. O número de projectos aprovados ficou em 18.721 e 18.562 chegaram posteriormente à fase de financiamento, segundo os dados mais recentes disponibilizados pelo FDEL. Foram ainda reportados 43.044 empregos criados.
A diferença entre candidaturas e projectos financiados é particularmente expressiva.
Menos de uma em cada vinte propostas apresentadas conseguiu chegar à aprovação, não necessariamente por ausência de iniciativa económica, mas também porque a procura financeira excedeu largamente os recursos disponíveis.
O Ministério da Planificação e Desenvolvimento refere que os 356.663 projectos submetidos no primeiro ciclo representaram necessidades muito superiores ao envelope inicialmente disponível. A mesma fonte aponta 18.562 projectos financiados, 43.044 empregos criados e um alcance de 112.405 moçambicanos.
Para Valá, estes números revelam que existe no país uma base de iniciativa económica significativamente superior à capacidade de financiamento directo do Estado.
Jovens Ultrapassam Meta, Mulheres Permanecem Abaixo De Metade
A composição dos beneficiários permite igualmente identificar diferenças que, segundo o ministro, precisam de maior investigação.
O FDEL tinha estabelecido como referência uma orientação significativa dos recursos para a juventude. Os dados mais recentes apresentados pelo Ministério da Planificação e Desenvolvimento mostram que os jovens representam 65,97% dos projectos financiados.
A participação das mulheres situa-se, entretanto, em 42,46%.
É nesta diferença que Valá colocou um dos exemplos mais directos da utilidade das Ciências Sociais e Humanas para a formulação de políticas públicas.
Conhecer a proporção de mulheres que acede ao financiamento permite medir o fenómeno. Mas compreender por que razão a participação continua abaixo da dos homens exige investigar factores como acesso a activos, garantias, informação, redes empresariais, distribuição do trabalho familiar, capacidade financeira e normas sociais.
Na sua intervenção, sintetizou a diferença entre medição e investigação numa ideia central: contar quantos jovens e mulheres participaram produz estatística; compreender os mecanismos que explicam resultados diferentes exige ciência social.
O Governo criou entretanto o Fundo de Empoderamento Económico da Mulher — ProMulher, apresentado como instrumento desenvolvido a partir das experiências e lições da implementação do FDEL.
Universidade É Chamada A Explicar O Que Os Indicadores Não Mostram
A intervenção colocou, assim, uma responsabilidade concreta sobre a investigação universitária.
Indicadores permitem ao Estado saber quantos cidadãos tiveram acesso a determinado programa, onde os recursos foram aplicados ou qual foi a taxa de execução. Mas não explicam necessariamente por que determinadas políticas funcionam melhor num território do que noutro, por que alguns grupos respondem mais rapidamente aos incentivos ou que factores impedem determinados beneficiários de transformar financiamento em negócios sustentáveis.
São perguntas que exigem investigação qualitativa, análise institucional, economia, sociologia, antropologia, geografia, demografia e outras disciplinas das Ciências Sociais e Humanas.
Essa capacidade de explicação ganha importância à medida que a política pública se torna mais orientada para resultados.
O próprio Ministério da Planificação e Desenvolvimento tem defendido que a qualidade da evidência disponível será cada vez mais determinante para melhorar a planificação, monitoria e avaliação das políticas públicas.
Metas De Desenvolvimento Exigem Capacidade Para Executar
Valá relacionou igualmente o debate sobre juventude e conhecimento com os grandes instrumentos de planificação nacional.
A Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 e o Programa Quinquenal do Governo 2025–2029 estabelecem metas de longo prazo para transformação económica, capital humano, infra-estruturas, acesso a serviços básicos e melhoria do ambiente de negócios. Os dois instrumentos constam do quadro oficial de planificação do Ministério da Planificação e Desenvolvimento.
A execução dessas metas dependerá, contudo, de técnicos, empreendedores, investigadores, gestores, trabalhadores qualificados e instituições capazes de converter investimentos em resultados.
É nesse ponto que o peso da população jovem deixa de ser apenas uma característica demográfica.
Passa a determinar a capacidade futura do país para construir e operar infra-estruturas, desenvolver empresas, introduzir tecnologia, melhorar serviços públicos e ampliar a base produtiva.
Investigação Também Pode Orientar O Capital Privado
O valor económico da investigação universitária não se limita ao desenho das políticas públicas.
Empresas também tomam decisões a partir da compreensão de mudanças sociais, padrões de consumo, mobilidade populacional, rendimento, comportamento dos consumidores e transformação dos territórios.
Dados estatísticos podem indicar que o consumo está a crescer numa determinada região. A investigação pode ajudar a explicar quem está a consumir, porquê, que necessidades permanecem insatisfeitas e que tipo de investimento poderá responder a essa procura.
Essa passagem do dado para a interpretação transforma conhecimento académico em informação economicamente utilizável.
Para uma economia que procura atrair investimento e desenvolver novos mercados, universidades podem assumir um papel mais próximo da decisão empresarial, produzindo estudos sobre consumidores, cadeias de valor, emprego, produtividade, urbanização e dinâmica territorial.
Ciências Sociais Ganham Espaço Na Agenda Da Produtividade
A intervenção afastou, desta forma, uma visão das Ciências Sociais e Humanas limitada à interpretação dos fenómenos depois de estes ocorrerem.
A capacidade de compreender comportamento, instituições, incentivos e relações sociais pode influenciar directamente a eficácia de políticas económicas.
Uma estrada pode ser tecnicamente bem construída e ainda assim não produzir os resultados esperados se não estiver ligada às dinâmicas económicas dos territórios.
Um fundo pode disponibilizar recursos e permanecer menos acessível a determinados grupos.
Uma tecnologia pode estar disponível e não ser adoptada.
Uma política de emprego pode oferecer formação sem responder às competências procuradas pelas empresas.
São diferenças que a engenharia, a tecnologia e as ciências exactas, isoladamente, não conseguem explicar.
O desenvolvimento exige, por isso, combinação entre capacidade técnica para construir soluções e conhecimento social para compreender como pessoas, empresas e instituições respondem a essas soluções.
Da Juventude Demográfica À Juventude Produtiva
Moçambique deverá permanecer durante muitos anos entre os países com populações mais jovens.
Essa estrutura poderá ampliar a força de trabalho e o mercado interno, mas também aumentará anualmente a procura por escolas, formação, emprego, habitação, financiamento e oportunidades empresariais.
A diferença entre estas duas trajectórias será determinada pela velocidade com que o país conseguir transformar jovens em trabalhadores qualificados, empreendedores, investigadores, técnicos e criadores de empresas.
É neste contexto que as Jornadas Científicas deixam de ser apenas um espaço de apresentação de trabalhos académicos.
Para Valá, devem também produzir perguntas capazes de melhorar a compreensão sobre aquilo que ainda limita a transformação económica do país, testar políticas existentes e gerar evidência para novas decisões.
A mensagem dirigida aos estudantes concentrou-se precisamente nessa responsabilidade: questionar o que parece evidente, investigar o que ainda não está explicado e transformar conhecimento em alternativas aplicáveis.
Num país em que quase oito em cada dez habitantes têm menos de 35 anos, a dimensão da juventude já está estabelecida.
O desafio económico passa agora por aumentar a produtividade, as competências e as oportunidades capazes de transformar esse peso demográfico em capacidade efectiva de desenvolvimento.
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