
Moçambique Considera Parceria Coreana Como Plataforma De Industrialização
- Fórum de negócios realizado em Maputo coloca gás, indústria, infra-estruturas e transferência tecnológica no centro de uma relação económica que Moçambique pretende fazer evoluir da exportação de recursos para a criação de capacidade produtiva, emprego e empresas nacionais.
- Governo e sector privado defendem que a parceria com a Coreia do Sul deve ultrapassar a lógica de investimento concentrado nos grandes projectos extractivos;
- Coral Sul e Coral Norte consolidam a presença coreana no gás e abrem espaço para uma nova fase de cooperação industrial;
- Até 25% do gás produzido pelo Coral Norte poderá ficar disponível para o mercado doméstico, criando espaço para novas utilizações produtivas;
- Governo apresentou projectos em agro-indústria, petroquímica, parques industriais, biocombustíveis e substituição de importações;
- Estrutura comercial bilateral continua fortemente concentrada em combustíveis minerais, evidenciando o desafio de diversificar a relação económica;
Gás Torna-Se O Ponto De Partida Para Uma Relação Mais Industrial
Moçambique pretende utilizar a relação económica com a Coreia do Sul para acelerar a formação de uma base industrial mais ampla, procurando transformar os grandes investimentos no gás, energia e infra-estruturas numa plataforma para transferência tecnológica, desenvolvimento de fornecedores locais, formação de competências e criação de novas actividades produtivas.
Essa foi uma das principais mensagens transmitidas no Korea–Mozambique Business Forum 2026, realizado em Maputo, onde representantes dos Governos, empresas e instituições dos dois países procuraram reposicionar a cooperação bilateral para além da participação coreana nos grandes projectos energéticos.
A relação já possui uma base concreta no sector do gás.
A unidade Coral Sul FLNG, construída pela Samsung Heavy Industries na Coreia do Sul, está instalada na Área 4 da Bacia do Rovuma e iniciou a produção de GNL em 2022, com uma capacidade aproximada de 3,4 milhões de toneladas anuais.
O Coral Norte FLNG deverá ampliar essa presença. O projecto prevê uma capacidade de aproximadamente 3,55 milhões de toneladas de GNL por ano, e o casco da nova unidade foi lançado em Janeiro de 2026 nos estaleiros da Samsung Heavy Industries, na Coreia.
A questão que agora se coloca é até que ponto esta base energética poderá sustentar actividades industriais dentro da economia moçambicana.
CTA Defende Uma Relação Que Vá Além Da Extracção
Para a Confederação das Associações Económicas de Moçambique, a relação com investidores coreanos deve evitar uma concentração excessiva na extracção e exportação de recursos naturais.
Álvaro Massingue, Presidente da CTA, defendeu no fórum uma aproximação mais directa entre empresas dos dois países.
“Nossa ambição deve ir muito além da extração de recursos nacionais. A parceria criada deve aproximar investidores coreanos das empresas moçambicanas, através de transferência tecnológica, desenvolvimento de competências, fornecimento local e investimentos conjuntos.”
A posição coloca o desenvolvimento empresarial nacional no centro da relação económica bilateral.
Mais do que captar investimento externo, a prioridade passa por assegurar que esse capital se traduza em capacidade produtiva, fornecimento local, competências e participação de empresas moçambicanas nas cadeias de valor.
Coral Norte Abre Uma Nova Variável: Gás Para O Mercado Doméstico
O Coral Norte poderá introduzir um elemento adicional neste processo.
Segundo a informação apresentada no documento, o projecto prevê que uma parcela do gás produzido seja disponibilizada para o mercado nacional.
O Instituto Nacional de Petróleo indica que até 25% da produção poderá ser destinada ao mercado doméstico, começando por uma parcela inicial de 10% quando a produção arrancar, prevista para a segunda metade de 2028.
Este elemento pode revelar-se relevante para a estratégia de industrialização.
A disponibilidade de gás no mercado interno poderá criar espaço para novas utilizações industriais, particularmente em actividades intensivas em energia, petroquímica e transformação.
O desafio será fazer com que essa disponibilidade se converta efectivamente em projectos produtivos, numa economia onde o aproveitamento doméstico dos grandes recursos energéticos continua a ser uma questão central da política industrial.
Coreia Procura Projectar A Sua Experiência De Transformação Económica
A Coreia do Sul apresenta-se nesta relação não apenas como fonte de capital, mas também como potencial fornecedora de tecnologia, engenharia e conhecimento industrial.
Sunwoo Kim, Director-Geral da KOTRA em Maputo, defendeu que a experiência coreana pode ser utilizada na transformação da base produtiva moçambicana.
“Moçambique tem a energia, enquanto a Coreia tem a experiência. Para Moçambique, o desafio é utilizar recursos como gás natural, minerais e energia como base para criar novas actividades industriais. Para a Coreia, a oportunidade está em levar para esse processo empresas, tecnologia, engenharia e soluções desenvolvidas ao longo de décadas.”
A abordagem reflecte a trajectória económica sul-coreana, construída sobre sucessivas fases de industrialização, desenvolvimento tecnológico e expansão empresarial.
Para Moçambique, o interesse reside em saber até que ponto essa experiência poderá ser traduzida em investimentos com impacto efectivo na estrutura produtiva nacional.
Governo Coloca Substituição De Importações No Centro Do Portfólio Industrial
A Secretária de Estado para a Indústria apresentou aos investidores coreanos um portfólio de projectos orientados para a diversificação produtiva e substituição de importações.
As oportunidades apresentadas abrangem agro-indústria, petroquímica, ciência, tecnologia, transformação industrial, centros de processamento, parques industriais e biocombustíveis.
Foram igualmente destacados parques industriais em Maputo, Inhambane, Zambézia, Sofala e Manica, incluindo oportunidades de desenvolvimento através de modelos de parceria público-privada.
Custódia Paunde sintetizou o objectivo da estratégia:
“O nosso objectivo é diversificar a pauta de exportações, equilibrando a balança comercial através da substituição competitiva de importações.”
A lógica é deslocar parte da política de atracção de investimento para actividades capazes de substituir bens actualmente importados e, simultaneamente, criar novas exportações de maior valor acrescentado.
Cooperação Procura Alargar-Se Para Além Dos Hidrocarbonetos
O fórum procurou também ampliar o mapa sectorial da cooperação.
Energia, transportes, água, desenvolvimento urbano, agricultura, indústria, soluções digitais e tecnologias energéticas foram identificados como áreas com potencial de expansão.
O Embaixador da República da Coreia em Moçambique, Bok-Won Kang, indicou que empresas coreanas já participam em projectos de energia solar, armazenamento de energia, infra-estruturas e outros sectores.
“Devemos agora traduzir esse compromisso em projectos institucionais e concretos.”
A afirmação sintetiza o estágio em que se encontra a relação: existe interesse político e empresarial, mas o objectivo passa agora por transformar essa convergência em novos projectos de investimento e produção.
Comércio Bilateral Continua Fortemente Dependente Dos Combustíveis
A estrutura das trocas comerciais mostra, contudo, o tamanho do desafio.
Em 2025, as exportações de Moçambique para a Coreia do Sul foram estimadas em cerca de US$783 milhões.
Desse total, aproximadamente US$765 milhões correspondiam a combustíveis minerais e produtos derivados.
No sentido inverso, as exportações sul-coreanas para Moçambique rondaram US$105 milhões.
Isto significa que mais de 97% das exportações moçambicanas para aquele mercado estavam associadas a combustíveis minerais e derivados.
A relação comercial cresce, mas continua pouco diversificada.
É precisamente essa concentração que a nova fase da cooperação procura alterar.
Da Energia À Capacidade Produtiva Nacional
O Korea–Mozambique Business Forum deixa, por isso, uma questão económica mais ampla.
O valor da parceria não estará apenas no volume de capital coreano que Moçambique consiga atrair, nem na dimensão dos projectos de GNL construídos com participação de empresas sul-coreanas.
Estará sobretudo na capacidade de utilizar esses investimentos para criar novos sectores industriais, fornecedores nacionais, competências técnicas, emprego, tecnologia e produção local.
Com o Coral Norte já em execução, uma parcela futura de gás potencialmente disponível para o mercado doméstico e um portfólio de projectos industriais colocado diante dos investidores, Moçambique procura agora fazer com que a energia deixe de ser apenas uma exportação e passe a funcionar como insumo de uma economia mais diversificada.
A Coreia do Sul poderá constituir uma das plataformas dessa transformação.
Mas, para a economia moçambicana, a mudança relevante será quando a relação bilateral deixar de ser dominada pelos combustíveis minerais e passar a incluir uma base mais ampla de produção industrial, tecnologia e empresas nacionais integradas nas cadeias de valor.
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