Dólar Sustenta Ganhos Com Mercado A Apostar No Regresso Das Subidas De Juros

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Dólar Sustenta Ganhos Com Mercado A Apostar No Regresso Das Subidas De JurosDólar negoceia próximo de máximos de várias semanas antes da decisão da Reserva Federal, com operadores a anteciparem uma subida de 25 pontos base, enquanto inflação e petróleo empurram a política monetária numa direcção contrária à defendida pelo Presidente Donald Trump

Questões-Chave:
  • Mercado atribui mais de 90% de probabilidade a uma subida de 25 pontos base pela Reserva Federal nesta quarta-feira, que elevaria a taxa dos federal funds para 3,75%-4,00%;
  • Dólar chegou à sessão próximo de máximos de várias semanas frente a algumas das principais moedas, apoiado pela subida das yields e pela expectativa de um eventual novo ciclo de aperto monetário;
  • Donald Trump voltou a defender, nos últimos dias, que os Estados Unidos deveriam ter as taxas de juro mais baixas do mundo e tem pressionado publicamente a Fed por custos de financiamento inferiores;
  • A escalada dos preços da energia e a inflação persistente alteraram rapidamente as expectativas: ainda a 9 de Setembro, a maioria dos economistas consultados pela Reuters antecipava taxas inalteradas até ao final do ano;
  • O mercado espera uma reacção relativamente moderada do dólar se a Fed subir apenas 25 pontos base, uma vez que grande parte do movimento está já incorporada nos preços;
  • O iene enfrenta igualmente uma semana decisiva, com os operadores a atribuírem cerca de 80% de probabilidade a uma subida das taxas pelo Banco do Japão na sexta-feira.

US$ Chega À Decisão Da Fed Com Vantagem

O dólar norte-americano entrou nesta quarta-feira, 16 de Setembro, sustentado pelos ganhos das últimas sessões e próximo de máximos de várias semanas frente a algumas das principais moedas, num mercado que passou rapidamente de discutir a manutenção dos juros para antecipar o possível regresso de uma fase de aperto monetário nos Estados Unidos.

Segundo a Reuters, os mercados atribuíam esta quarta-feira cerca de 93% de probabilidade a uma subida de 25 pontos base pela Reserva Federal. Uma decisão nesse sentido elevaria a taxa dos federal funds do actual intervalo de 3,50%-3,75% para 3,75%-4,00%

A reunião do Federal Open Market Committee termina esta quarta-feira. A Reserva Federal tem prevista a divulgação da decisão às 14h00 de Washington, seguindo-se, às 14h30, a conferência de imprensa do presidente Kevin Warsh. Por se tratar de uma das reuniões trimestrais, serão igualmente publicadas novas projecções económicas. 

Para o mercado Forex, contudo, os 25 pontos base poderão ser menos importantes do que a mensagem que acompanhar a decisão.

A questão passa por perceber se a eventual subida será apresentada como uma resposta pontual à deterioração inflacionária ou como o início de uma sequência de aumentos destinada a impedir que o choque energético se transforme numa nova fase de inflação persistente.

Mercado Já Incorporou Grande Parte Da Subida

Carol Kong, estratega cambial do Commonwealth Bank of Australia, considera que, com uma subida de 25 pontos base praticamente descontada, o dólar deverá receber apenas um impulso moderado caso a Fed confirme a expectativa do mercado.

É a orientação futura que poderá produzir movimentos mais significativos.

Se Kevin Warsh deixar aberta a possibilidade de novos aumentos, os investidores poderão rever em alta a trajectória esperada das taxas e aumentar a procura por activos denominados em US$.

Se, pelo contrário, a Fed subir mas sinalizar pouca disposição para continuar o ciclo, parte dos ganhos recentes poderá ser devolvida.

O cenário mais disruptivo seria uma manutenção inesperada das taxas. O Commonwealth Bank estima que, nesse caso, o dólar poderia recuar mais de 1%.

Petróleo Alterou Rapidamente A Equação Monetária

A velocidade da mudança nas expectativas é particularmente reveladora.

Numa sondagem da Reuters publicada apenas a 9 de Setembro, a maioria dos economistas consultados ainda esperava que a Fed mantivesse as taxas inalteradas nesta reunião e até ao final de 2026. O número de analistas que admitia pelo menos uma subida, contudo, já estava a aumentar. 

Poucos dias depois, os mercados passaram a atribuir mais de 90% de probabilidade a uma subida imediata.

Uma das principais razões é a energia.

A intensificação do conflito no Médio Oriente empurrou novamente o Brent para níveis superiores a US$ 100 por barril, agravando receios de que os custos dos combustíveis se transmitam aos preços de transporte, produção e consumo. A Reuters assinala que petróleo elevado e inflação acima da meta são hoje dois dos principais factores por detrás da expectativa de aperto monetário. 

A inflação norte-americana permanece acima da meta de 2% da Fed. E, num ambiente em que o choque energético pode prolongar-se, o banco central enfrenta o risco de que aumentos inicialmente concentrados nos combustíveis contaminem expectativas de preços mais amplas.

Trump Quer Juros Na Direcção Oposta

É precisamente neste ponto que a decisão desta quarta-feira adquire também uma dimensão política.

O Presidente Donald Trump tem reiterado nos últimos dias uma posição praticamente oposta àquela que os mercados esperam da Reserva Federal.

A 13 de Setembro, Trump afirmou que os Estados Unidos deveriam ter as taxas de juro mais baixas do mundo, defendendo custos de financiamento inferiores independentemente dos indicadores que a Fed esteja a considerar na sua avaliação da economia. 

Não foi uma declaração isolada.

A 4 de Setembro, depois de dados mais fortes do mercado de trabalho terem aumentado as expectativas de uma eventual subida dos juros, Trump voltou a pedir reduções e afirmou que poderia interromper relações comerciais com alguns países perante os quais os Estados Unidos registam défices caso a Fed não baixasse as taxas. 

A posição do Presidente parte de uma leitura segundo a qual juros elevados aumentam o custo de financiamento da economia norte-americana e colocam o país em desvantagem perante economias onde as taxas são inferiores.

A Reserva Federal, por seu turno, possui um mandato institucional centrado na estabilidade dos preços e no emprego e toma formalmente as suas decisões de política monetária através do FOMC.

Kevin Hassett, director do Conselho Económico Nacional, reiterou entretanto que Warsh dispõe de independência para tomar as decisões monetárias, apesar da preferência publicamente expressa por Trump por taxas significativamente inferiores. 

Warsh Enfrenta Um Primeiro Grande Teste De Independência

A situação ganha importância adicional porque Kevin Warsh chegou à presidência da Fed por nomeação de Trump e havia sido associado, inicialmente, à expectativa de uma política monetária mais favorável à redução das taxas.

O ambiente económico mudou.

Petróleo acima dos US$ 100, inflação persistente e yields elevadas colocam agora a nova liderança da Reserva Federal perante uma decisão que poderá contrariar directamente as preferências expressas pela Casa Branca.

A Reuters descreve a reunião desta quarta-feira como um importante teste para Warsh, na medida em que o banco central precisa simultaneamente responder aos riscos inflacionários e preservar perante os mercados a percepção de que as decisões continuam ancoradas no mandato e nos dados económicos. 

A questão interessa directamente ao dólar.

Taxas mais altas tendem, em princípio, a aumentar a remuneração relativa dos activos em US$ e favorecer a moeda. Mas a credibilidade da instituição responsável pela política monetária também constitui um activo importante para investidores internacionais.

Por isso, o mercado estará atento não apenas à decisão, mas à forma como Warsh justifica qualquer alteração das taxas.

Credibilidade Da Fed Entra No Preço Do US$

Calvin Tse, responsável pela estratégia norte-americana e economia do BNP Paribas, considera que uma ou mesmo duas subidas poderão não ser suficientes para restaurar integralmente a credibilidade que parte do mercado considera ter sido afectada pela resposta anterior da Fed à inflação.

Isto transforma a comunicação desta quarta-feira numa parte central da decisão.

Se Warsh transmitir a percepção de que a Fed está disposta a continuar o aperto enquanto os indicadores de inflação o justificarem, o mercado poderá passar a incorporar taxas mais elevadas durante mais tempo.

Esse cenário seria potencialmente favorável ao dólar.

Uma mensagem mais prudente, indicando que a subida constitui uma resposta limitada ao choque recente, reduziria o espaço para uma valorização adicional sustentada apenas pelos juros.

Yields Devolvem Suporte À Moeda Norte-Americana

O fortalecimento recente do US$ ocorreu paralelamente à subida das yields das obrigações norte-americanas.

A yield das Treasuries a dez anos aproximou-se de 5%, reflectindo simultaneamente expectativas de taxas mais elevadas, inflação, petróleo e preocupações fiscais. 

Em condições normais, maiores rendimentos tornam os títulos norte-americanos mais atractivos relativamente a activos semelhantes noutras moedas, aumentando a procura por dólares.

O efeito, contudo, tem sido parcialmente limitado porque as yields também subiram noutras grandes economias.

A Reuters observa que os mercados cambiais respondem sobretudo aos diferenciais relativos de juros. Quando os rendimentos sobem simultaneamente em vários países, a vantagem adicional proporcionada pelo mercado norte-americano torna-se menos pronunciada.

Euro E Libra Permanecem Próximos De Mínimos Recentes

Na sessão asiática, o Euro negociava próximo de US$ 1,1535, não muito distante do mínimo de um mês de US$ 1,1523 atingido na segunda-feira.

A Libra encontrava-se em torno de US$ 1,3470, próxima do mínimo de seis semanas de US$ 1,3464.

Actualizações posteriores da Reuters colocavam o Euro em cerca de US$ 1,1554 e a Libra em US$ 1,3483, enquanto o índice do dólar recuava ligeiramente para 99,59, num movimento de ajustamento antes da decisão da Fed. 

O dólar australiano mantinha-se próximo de US$ 0,7126, enquanto o dólar neozelandês chegou a US$ 0,5749, mínimo de dois meses.

Yen Enfrenta Dois Bancos Centrais Na Mesma Semana

É no Yen que o calendário desta semana pode produzir uma das disputas monetárias mais interessantes.

A moeda japonesa vinha recuperando terreno graças à combinação entre expectativas de juros mais altos no Japão, intervenção cambial conjunta e repatriamento de capitais por investidores japoneses.

Ainda assim, o dólar chegou a negociar em 155,43 Yen esta quarta-feira, mostrando que a perspectiva de subida dos juros norte-americanos continua a limitar parte da recuperação da moeda japonesa.

Os operadores atribuem cerca de 80% de probabilidade a uma subida dos juros pelo Banco do Japão na sexta-feira e incorporam duas alterações de 25 pontos base até ao final de Janeiro.

O comportamento do USD/JPY dependerá, assim, não simplesmente de saber se ambos os bancos centrais aumentam taxas, mas de qual deles sinaliza maior disposição para continuar.

Se a Fed adoptar uma trajectória mais restritiva e o Banco do Japão mantiver prudência, o diferencial poderá continuar favorável ao US$. Uma Fed mais moderada, combinada com maior determinação do Banco do Japão, abriria espaço para maior valorização do Yen.

Won E Yuan Seguem Dinâmicas Próprias

Algumas moedas asiáticas têm conseguido afastar-se parcialmente do movimento geral do dólar.

O Won sul-coreano valorizou mais de 15% perante o US$ desde finais de Junho, beneficiando do repatriamento de capitais e de lucros gerados pelas grandes empresas de semicondutores do país.

O Yuan chinês, por sua vez, mantém parte significativa dos ganhos acumulados, apesar de a valorização ter perdido intensidade na região dos 6,71 Yuan por dólar.

Estes movimentos demonstram que, mesmo num ambiente de fortalecimento do US$, fluxos domésticos de capitais, intervenção cambial e políticas nacionais podem produzir trajectórias diferentes entre moedas.

Fed, Inflação E Casa Branca Colocam US$ Numa Nova Equação

A principal mudança da semana não reside, portanto, apenas no nível do dólar.

Está na alteração da narrativa que sustentava o mercado.

Ainda recentemente, grande parte da discussão estava centrada em quando a Reserva Federal voltaria a reduzir juros. Agora, petróleo acima dos US$ 100, inflação persistente e yields elevadas levaram investidores a antecipar o regresso das subidas.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca defende exactamente a orientação contrária, com Donald Trump a insistir em taxas mais baixas para apoiar financiamento e competitividade.

Esta quarta-feira coloca essas forças frente a frente.

Para o US$, uma subida de 25 pontos base está amplamente incorporada. O que determinará a próxima etapa será a trajectória que a Fed apresentar para os meses seguintes — e o grau em que os mercados entenderem que essa trajectória responde à inflação e aos fundamentos económicos, independentemente da preferência manifestada pela Administração norte-americana.

É essa combinação entre petróleo, inflação, diferenciais de juros e independência monetária que deverá definir se os ganhos recentes do US$ terminam com a reunião desta quarta-feira ou dão início a uma nova fase do mercado Forex global.