BRICS Crescem Em Peso Económico Mas Expansão Torna Consenso Mais Difícil

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  • Cimeira de Nova Deli coloca à prova um bloco que reúne mais de 40% da população mundial, procura ampliar alternativas financeiras ao dólar e enfrenta divergências crescentes sobre a sua função económica e geopolítica.
Questões-Chave:
  • BRICS reúne actualmente mais de 40% da população mundial e quase um quarto da economia global;
  • Expansão iniciada em 2024 ampliou a escala económica e política do grupo, mas tornou mais complexa a formação de consensos;
  • New Development Bank já aprovou 139 projectos avaliados em quase US$43 mil milhões;
  • BRICS Pay, liquidação comercial em moedas nacionais e eventual ligação de moedas digitais procuram reduzir dependência dos sistemas financeiros baseados no dólar;
  • China e Rússia defendem um papel mais geopolítico para o bloco, enquanto Índia e Brasil privilegiam reforma económica e institucional;
  • Divergências internas já impediram a adopção de uma declaração conjunta ao nível dos ministros dos Negócios Estrangeiros;

Bloco Entra Em Nova Fase Com Maior Escala Económica

Os líderes dos BRICS reúnem-se esta semana em Nova Deli num contexto marcado por tensões geopolíticas crescentes, perturbações nos mercados energéticos, constrangimentos no transporte marítimo e maior fragmentação do comércio mundial.

O encontro ocorre num momento em que o bloco apresenta uma dimensão muito superior àquela que tinha quando começou a ganhar forma política.

O acrónimo BRIC foi criado em 2001 por Jim O’Neill, então economista-chefe da Goldman Sachs, para identificar o potencial de crescimento do Brasil, Rússia, Índia e China.

O agrupamento político surgiu posteriormente, em 2009, e passou a BRICS em 2011, com a entrada da África do Sul.

A expansão mais recente alterou substancialmente a composição.

Egipto, Etiópia, Irão e Emirados Árabes Unidos aderiram em 2024. A Indonésia tornou-se membro em 2025. A Arábia Saudita foi igualmente convidada, mas ainda não formalizou a entrada.

O grupo passou, desta forma, a concentrar uma parcela maior da população, dos recursos naturais, da produção energética e dos fluxos comerciais mundiais.

Mais De 40% Da População Mundial E Quase Um Quarto Da Economia Global

A dimensão dos BRICS já lhe confere peso próprio na economia internacional.

Segundo o documento da Reuters, os membros do agrupamento representam actualmente mais de 40% da população mundial e quase um quarto da economia global.

A agenda do grupo encontra-se organizada em três grandes áreas: cooperação política e de segurança, cooperação económica e financeira e intercâmbio entre sociedades.

A presidência é rotativa e os líderes reúnem-se anualmente.

A crescente dimensão coloca o bloco numa posição relevante para influenciar debates sobre comércio, financiamento, sistemas de pagamentos e reforma das instituições multilaterais.

A capacidade efectiva de transformar essa escala em posições comuns depende, contudo, da coordenação entre economias com interesses externos, prioridades domésticas e alinhamentos geopolíticos diferentes.

New Development Bank Torna-Se O Principal Instrumento Económico Do Grupo

O resultado institucional mais concreto dos BRICS é o New Development Bank, criado em 2015.

A instituição foi concebida para financiar projectos de infra-estruturas e desenvolvimento sustentável em mercados emergentes.

Até ao momento, o banco aprovou 139 projectos avaliados em quase US$43 mil milhões, segundo os dados referidos no documento.

O NDB representa uma tentativa de ampliar as fontes de financiamento disponíveis para economias emergentes e criar uma arquitectura financeira com maior participação dos países do Sul Global.

A instituição enfrenta, ao mesmo tempo, os limites impostos pelo próprio sistema financeiro internacional. As novas operações na Rússia foram suspensas devido às sanções, mostrando como o banco continua exposto às regras e restrições que afectam o mercado financeiro global.

Pagamentos Em Moedas Nacionais Ganham Peso Na Agenda

A área financeira tornou-se um dos principais campos de desenvolvimento institucional dos BRICS.

Está em preparação um sistema denominado BRICS Pay, concebido para interligar os sistemas nacionais de pagamentos rápidos e facilitar liquidações transfronteiriças.

A iniciativa pretende permitir transacções entre membros com menor dependência de bancos e infra-estruturas assentes no dólar.

Os membros também estudam a eventual ligação entre moedas digitais emitidas por bancos centrais e ampliam gradualmente o uso de moedas nacionais no comércio bilateral.

Estas iniciativas indicam uma orientação clara: aumentar a autonomia financeira do grupo e diversificar os mecanismos utilizados para pagamentos internacionais.

O desenvolvimento desses instrumentos poderá ganhar maior relevância à medida que crescem as tensões comerciais, financeiras e geopolíticas entre grandes economias.

Expansão Amplia Influência E Complica Coordenação

A mesma expansão que aumentou o peso dos BRICS tornou a coordenação interna mais exigente.

Os membros divergem sobre a função central do agrupamento.

Rússia e China tendem a considerar os BRICS como um contrapeso ao Ocidente.

Índia e Brasil privilegiam uma abordagem mais orientada para cooperação económica, reforma das instituições internacionais e aumento da representação das economias emergentes.

Esta diferença de prioridades interfere directamente no processo de decisão.

O grupo funciona por consenso, o que significa que posições divergentes podem limitar a adopção de decisões comuns.

A expansão de 2024 aprofundou essa complexidade ao incorporar países com interesses de política externa bastante diferentes.

Divergências Internas Chegam À Política Externa

A actual conjuntura torna estas diferenças mais visíveis.

A Índia procura alcançar uma declaração conjunta durante a cimeira de Nova Deli, num ambiente em que Irão e Emirados Árabes Unidos se encontram em posições distintas relativamente ao conflito entre Estados Unidos e Irão.

Segundo a Reuters, diferenças desta natureza já impediram uma declaração conjunta durante a reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos BRICS realizada em Maio, também em Nova Deli.

O episódio mostra a dificuldade crescente de transformar diversidade política em posições comuns.

Quanto maior se torna o grupo, maior é a variedade de interesses representados dentro do processo de decisão.

Relação Com O Ocidente Continua A Condicionar A Percepção Externa

A leitura dos BRICS pelas economias ocidentais permanece marcada por prudência.

Segundo a Reuters, vários países reconhecem que o bloco pode alterar gradualmente o equilíbrio do poder económico e geopolítico internacional.

A relação com os Estados Unidos tornou-se particularmente tensa. O Presidente Donald Trump já classificou os BRICS como “anti-Americanos”, colocando a expansão do grupo e as iniciativas financeiras alternativas ao dólar dentro de uma disputa mais ampla sobre influência global.

Esta percepção aumenta a pressão sobre os membros que pretendem preservar relações económicas próximas com os Estados Unidos e outras economias ocidentais.

A Índia e o Brasil encontram-se especialmente expostos a este equilíbrio, dado o interesse em ampliar a influência dos BRICS sem transformar o agrupamento numa aliança política rígida contra o Ocidente.

Escala Económica Precisa De Se Converter Em Capacidade Institucional

A evolução dos BRICS mostra duas tendências simultâneas.

O grupo ganhou dimensão económica, populacional e política, criou instrumentos próprios de financiamento e avança com mecanismos de pagamentos que procuram reduzir a dependência das estruturas tradicionais.

A coordenação interna tornou-se mais complexa à medida que novos membros introduziram prioridades, alianças e interesses distintos.

A próxima fase dependerá da capacidade de transformar escala em instituições operacionais, financiamento efectivo, facilitação comercial e mecanismos de pagamentos com utilização concreta.

O New Development Bank e o BRICS Pay oferecem os instrumentos mais visíveis dessa estratégia.

A eficácia dessas estruturas determinará o peso económico real do bloco num sistema internacional cada vez mais fragmentado.

Nova Deli Coloca À Prova A Capacidade De Decisão Do Bloco

A cimeira desta semana constitui, por isso, um teste relevante à actual arquitectura dos BRICS.

A questão central está na capacidade dos membros de produzir posições comuns num grupo que cresceu rapidamente e passou a reunir economias com objectivos externos muito diferentes.

A obtenção de consensos sobre financiamento, comércio e mecanismos de pagamentos fortalecerá a dimensão económica do agrupamento.

Divergências persistentes em matéria geopolítica poderão limitar a velocidade das decisões e reduzir a capacidade de converter peso demográfico e económico em influência institucional.

Os BRICS entram, assim, numa fase em que o tamanho do bloco já está estabelecido; a variável decisiva passa a ser a sua capacidade de coordenação.

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