
Seguros Crescem, Mas Cobertura Continua Limitada A 17% Dos Adultos
- O mercado produziu 24,6 mil milhões de Meticais em 2025 e ultrapassou 12,2 mil milhões no primeiro semestre de 2026. A baixa penetração, contudo, limita a capacidade dos seguros para proteger rendimentos, investimentos e infra-estruturas contra riscos climáticos e económicos.
- Apenas 17% da população adulta moçambicana beneficia de algum serviço ou produto de seguro;
- A produção global do sector atingiu 24,6 mil milhões de Meticais em 2025, equivalente a uma penetração de aproximadamente 1,6% do PIB;
- No primeiro semestre de 2026, a produção de seguros ultrapassou 12,2 mil milhões de Meticais;
- O mercado integra 23 seguradoras, uma microseguradora, uma resseguradora e oito entidades gestoras de fundos de pensões;
- O Governo pretende utilizar a digitalização, a inteligência artificial e a ciência de dados para reduzir custos e ampliar a cobertura;
- A integração regional poderá aumentar a capacidade africana de reter riscos, mobilizar poupança e financiar investimentos.
A indústria seguradora moçambicana está a crescer em termos de produção e número de operadores, mas continua distante da maioria da população e aquém da dimensão necessária para desempenhar plenamente a sua função de protecção económica e mobilização de poupança.
Apenas 17% da população adulta beneficia de algum serviço ou produto de seguro, segundo dados apresentados pela primeira-ministra, Benvinda Levi, na abertura da 48.ª Conferência Anual da Organização das Seguradoras da África Oriental e Austral, que decorre em Maputo até 20 de Agosto.
A reduzida cobertura significa que uma parte significativa das famílias e pequenas empresas permanece directamente exposta aos efeitos financeiros de doenças, acidentes, perda de bens, interrupções da actividade económica e eventos climáticos extremos.
Embora a produção global do sector tenha alcançado cerca de 24,6 mil milhões de Meticais em 2025, a taxa de penetração ficou em aproximadamente 1,6% do Produto Interno Bruto. No primeiro semestre de 2026, os prémios ultrapassaram 12,2 mil milhões de Meticais, acima do valor registado no período homólogo.
Os dados revelam expansão nominal, mas também demonstram que o sector ainda possui uma participação reduzida na economia. A produção continua concentrada nos segmentos empresariais, nos seguros obrigatórios e nos consumidores com rendimentos formais e maior acesso ao sistema financeiro.
Crescimento Ainda Não Significa Inclusão
O mercado moçambicano integra actualmente 23 seguradoras, uma microseguradora, uma resseguradora, oito entidades gestoras de fundos de pensões, 201 corretoras e 37 agentes.
A dimensão institucional sugere uma estrutura relativamente diversificada, mas a presença de vários operadores não se traduz automaticamente em maior cobertura territorial e social. O acesso depende do preço dos produtos, da regularidade dos rendimentos, da confiança nas seguradoras, da educação financeira e da capacidade de distribuir seguros fora dos principais centros urbanos.
Para as famílias com rendimentos reduzidos ou irregulares, os produtos convencionais podem apresentar prémios, requisitos documentais e condições contratuais pouco ajustados à sua realidade.
A microsegurança, os seguros agrícolas indexados, os produtos associados a pagamentos móveis e as coberturas flexíveis para trabalhadores informais podem ampliar o mercado. A existência de apenas uma microseguradora mostra, contudo, que este segmento permanece numa fase inicial.
Alargar o acesso significa proteger rendimentos e activos que, para muitas famílias, levaram vários anos a acumular. Sem cobertura, um único evento adverso pode eliminar a poupança, obrigar à venda de bens produtivos ou empurrar o agregado familiar para o endividamento.
Risco Climático Aumenta A Necessidade De Protecção
A exposição de Moçambique a ciclones, cheias e secas torna o desenvolvimento do sector segurador uma componente da resiliência económica.
Os eventos climáticos afectam habitações, agricultura, estradas, escolas, unidades sanitárias, redes de energia e sistemas de abastecimento de água. Quando os activos não estão segurados, os custos de recuperação recaem directamente sobre as famílias, empresas e Orçamento do Estado.
Benvinda Levi considerou que não existe desenvolvimento sustentável sem resiliência, nem resiliência sem uma gestão adequada dos riscos.
A expansão dos investimentos na energia, recursos naturais, agricultura, transportes e infra-estruturas também aumenta a procura potencial por seguros especializados. Grandes projectos exigem coberturas de construção, responsabilidade civil, interrupção de actividade, transporte, riscos ambientais e danos associados a fenómenos naturais.
Um mercado nacional com reduzida capacidade financeira tende, contudo, a transferir uma parcela significativa desses riscos para resseguradoras internacionais. Esta operação é necessária para proteger os balanços das seguradoras, mas também implica saída de prémios e exposição às condições do mercado global de resseguro.
Seguros Também Podem Financiar A Economia
A importância económica dos seguros não se limita ao pagamento de indemnizações. Ao receber prémios antes da ocorrência dos sinistros, as seguradoras acumulam recursos que podem ser investidos em obrigações, acções e outros instrumentos financeiros.
Os fundos de pensões desempenham uma função semelhante, transformando contribuições de longo prazo em capital disponível para investimento. Por possuírem responsabilidades de maturidade prolongada, estas instituições podem constituir investidores adequados para obrigações de infra-estruturas e outros activos de longo prazo.
A dimensão actual do mercado moçambicano limita essa capacidade. Com uma penetração de 1,6%, o volume de poupança mobilizado pelo sector permanece reduzido comparativamente às necessidades de financiamento da economia.
A ampliação da cobertura poderá criar um ciclo em que mais segurados geram maior acumulação de activos, permitindo que as instituições financeiras apoiem o investimento e o desenvolvimento do mercado de capitais.
Para que esse efeito se materialize, serão necessários instrumentos financeiros adequados, regras prudenciais consistentes, transparência e projectos capazes de oferecer retornos compatíveis com as responsabilidades assumidas perante os segurados.
Tecnologia Pode Reduzir Custos De Distribuição
A Primeira-Ministra defendeu o aproveitamento da inteligência artificial, ciência de dados e transformação digital para melhorar a avaliação dos riscos, desenvolver produtos mais ajustados e reduzir custos.
Em Moçambique, os canais digitais podem ajudar as seguradoras a chegar a consumidores que se encontram fora da rede tradicional de agências. A integração com serviços financeiros móveis permite cobrar prémios de reduzido valor, emitir apólices e processar participações através do telefone.
A ciência de dados pode melhorar a definição dos preços, identificar padrões de sinistralidade e viabilizar produtos indexados a indicadores meteorológicos. Na agricultura, por exemplo, uma cobertura pode ser accionada quando a precipitação ou outro indicador ultrapassa um limite previamente definido, reduzindo a necessidade de avaliar individualmente cada perda.
A digitalização introduz, simultaneamente, novos riscos. A utilização de informação pessoal exige regras de protecção de dados, transparência nos modelos de decisão e mecanismos que impeçam práticas discriminatórias. A dependência tecnológica aumenta ainda a exposição a ataques cibernéticos e interrupções dos sistemas.
A redução de custos, por si só, não assegura inclusão. Os produtos precisam de apresentar condições compreensíveis, procedimentos simples e mecanismos de reclamação acessíveis.
Supervisão E Confiança Condicionam A Expansão
A transformação do antigo Instituto de Supervisão de Seguros de Moçambique na Autoridade de Supervisão de Seguros e de Fundos de Pensões procura consolidar a fiscalização prudencial e a protecção dos consumidores.
A confiança é particularmente importante num mercado em que o cliente paga antecipadamente por uma prestação que apenas poderá receber no futuro. Atrasos no pagamento das indemnizações, exclusões pouco compreendidas ou dificuldades na resolução de reclamações podem desencorajar a adesão.
A supervisão precisa de assegurar que as seguradoras mantêm capital suficiente, constituem provisões adequadas e investem os recursos de forma prudente. Deve igualmente acompanhar a conduta comercial e garantir que a inovação digital não enfraquece os direitos dos consumidores.
A Associação Moçambicana de Seguradoras e a recentemente criada Associação Moçambicana de Mulheres em Seguros poderão apoiar a profissionalização, formação e concertação do sector.
Integração Regional Pode Ampliar Capacidade
A cooperação regional foi apresentada como instrumento para aumentar a capacidade africana de reter, gerir e financiar riscos.
Muitos riscos associados a grandes infra-estruturas, energia, catástrofes naturais e transportes ultrapassam a capacidade individual das seguradoras nacionais. A criação de mecanismos regionais de partilha e resseguro pode reduzir a dependência de mercados externos e manter no continente uma parcela maior dos prémios.
A integração também pode facilitar a harmonização de normas, o reconhecimento de operadores e a criação de bases de dados comuns. Os benefícios exigem, porém, supervisores fortes e padrões prudenciais comparáveis, para evitar que o risco seja transferido para jurisdições com menor capacidade de controlo.
O crescimento registado em 2025 e no primeiro semestre de 2026 oferece uma base para a expansão. O principal desafio consiste em converter o aumento dos prémios num acesso mais amplo, levando a protecção para além das grandes empresas, dos seguros obrigatórios e da população formalmente empregada.
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