Ratings ESG Produzem Sinais Divergentes E Exigem Maior Disciplina Financeira

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  • Estudo alerta que as classificações ambientais, sociais e de governação não devem ser tratadas como medidas estáveis do risco ou garantias de melhor desempenho financeiro. Diferenças metodológicas, qualidade desigual dos dados e excessiva agregação podem alterar decisões de investimento, crédito e alocação de capital.
Questões-Chave:
  • Empresas idênticas podem receber classificações ESG significativamente diferentes, consoante o fornecedor, os indicadores e a metodologia utilizados;
  • Um bom nível de divulgação de informação não significa necessariamente melhor desempenho ambiental, social ou de governação;
  • A agregação das componentes ambiental, social e de governação numa única pontuação pode ocultar riscos financeiros materialmente distintos;
  • O chamado prémio verde pode reflectir preferências dos investidores e maior procura, sem representar automaticamente melhor rentabilidade;
  • Bancos e investidores devem avaliar riscos específicos por empresa, activo, sector, localização e horizonte temporal, em vez de dependerem de pontuações agregadas;
  • As limitações dos ratings podem penalizar empresas e economias emergentes com menor capacidade de divulgação, mesmo quando os riscos efectivos não são superiores;

As classificações ambientais, sociais e de governação, conhecidas pela sigla ESG, ganharam influência nas decisões de investimento, concessão de crédito, avaliação empresarial e gestão de risco. Contudo, a sua utilização como se fossem indicadores financeiros estáveis pode conduzir a interpretações erradas e a decisões de capital pouco sustentadas pela realidade económica.

A conclusão é apresentada por Károly Gasteiger no ensaio “ESG Ratings and Financial Markets: Evidence, Measurement Noise and Misinterpretations”, publicado na edição de Junho de 2026 da Financial and Economic Review.

O estudo argumenta que as pontuações ESG não constituem um factor financeiro uniforme. Funcionam antes como sinais de informação afectados pelas metodologias dos fornecedores, fontes de dados, práticas de divulgação das empresas, indicadores seleccionados e critérios utilizados para agregar diferentes dimensões.

Isto significa que duas agências podem analisar a mesma empresa e chegar a conclusões materialmente diferentes, sem que os fundamentos económicos ou operacionais dessa empresa tenham mudado.

ESG Mede Realidade Ou Capacidade De Comunicar?

Uma das principais limitações identificadas pelo estudo está na diferença entre divulgação e desempenho efectivo.

Muitos sistemas ESG atribuem valor significativo à existência de políticas, relatórios, compromissos e mecanismos formais de governação. Uma empresa com capacidade para produzir relatórios detalhados pode, por isso, obter uma classificação favorável.

Porém, a divulgação não demonstra automaticamente que a empresa apresenta melhores resultados ambientais, sociais ou de governação. Uma companhia pode comunicar extensivamente as suas políticas climáticas e, simultaneamente, manter emissões elevadas, riscos laborais ou práticas insuficientes na sua cadeia de fornecimento.

Em sentido inverso, uma empresa com menor capacidade de produção de relatórios pode apresentar resultados operacionais aceitáveis, mas receber uma classificação inferior devido à ausência de informação padronizada.

Segundo Gasteiger, esta diferença transforma o greenwashing num problema que ultrapassa a comunicação empresarial. Quando uma narrativa favorável influencia a classificação sem correspondência nos resultados, surge um risco de qualidade dos dados e de avaliação financeira.

O rating pode passar a medir a sofisticação da comunicação e não necessariamente a exposição real aos riscos ambientais, sociais e de governação.

Uma Pontuação Pode Ocultar Três Realidades Diferentes

A agregação das componentes ambiental, social e de governação numa única pontuação simplifica a comparação entre empresas, mas também elimina informação relevante.

Uma boa classificação de governação pode compensar uma avaliação ambiental desfavorável. Da mesma forma, práticas sociais positivas podem reduzir, no indicador agregado, o peso de riscos climáticos ou operacionais com consequências financeiras específicas.

Esta compensação matemática não significa que o risco tenha desaparecido. Para um banco exposto a uma empresa agrícola, a escassez de água pode ser mais relevante do que a pontuação ESG total. Para o financiamento de uma mina, terão maior importância os riscos ambientais, comunitários, regulatórios, energéticos e de encerramento.

No caso de uma empresa de serviços digitais, os factores mais materiais poderão estar relacionados com governação de dados, segurança informática, condições laborais e práticas concorrenciais.

A pontuação agregada pode, assim, aproximar empresas que enfrentam riscos completamente diferentes ou afastar companhias com exposições económicas semelhantes.

O problema torna-se mais acentuado quando cada agência adopta um conjunto diferente de indicadores, fontes de informação e limites de análise.

Divergência Entre Agências Cria Risco De Modelo

Estudos internacionais citados pelo autor mostram que a divergência entre classificações ESG resulta principalmente de diferenças no que é medido e na forma como os indicadores são construídos, e não apenas dos pesos atribuídos às componentes ambiental, social e de governação.

Berg e outros investigadores demonstraram, em 2022, que diferentes fornecedores podem atribuir avaliações significativamente distintas à mesma empresa.

Esta divergência tem consequências financeiras. Um fundo pode incluir determinada companhia por considerar que apresenta um rating ESG elevado, enquanto outro fundo, utilizando um fornecedor diferente, pode excluí-la.

O mesmo pode ocorrer no sector bancário. Duas instituições que aplicam regras aparentemente semelhantes podem chegar a avaliações opostas sobre o risco do mesmo cliente, simplesmente porque utilizam bases de dados ou metodologias diferentes.

A divergência transforma-se, deste modo, em risco de modelo. Uma alteração do fornecedor, da metodologia ou do indicador pode modificar a composição de uma carteira, os limites de exposição e as necessidades de capital sem qualquer mudança nos fundamentos das empresas avaliadas.

Alterações Metodológicas Podem Criar Falsas Tendências

As pontuações ESG também são instáveis ao longo do tempo. Uma melhoria ou deterioração do rating nem sempre resulta de alterações no comportamento da empresa.

O fornecedor pode modificar a metodologia, incorporar novas fontes de informação, alterar os indicadores ou redefinir os critérios de avaliação. Estas mudanças quebram a comparabilidade histórica.

Uma empresa pode aparentar ter melhorado o seu desempenho ESG quando, na realidade, foi a metodologia que passou a atribuir menor importância a determinados riscos. O contrário também pode acontecer.

Para investidores e bancos, esta instabilidade dificulta a realização de testes históricos, a comparação entre períodos e a construção de modelos de risco.

As séries ESG não devem, por isso, ser tratadas como indicadores financeiros convencionais sem a identificação das alterações metodológicas ocorridas durante o período analisado.

Emissões Indirectas Podem Alterar Classificações Sectoriais

A definição do perímetro de análise é particularmente importante na avaliação das emissões de gases com efeito de estufa.

As emissões de Âmbito 1 resultam directamente das operações da empresa. As de Âmbito 2 estão associadas à energia adquirida. As de Âmbito 3 abrangem fornecedores, transportes, viagens, utilização dos produtos e outras componentes da cadeia de valor.

O Âmbito 3 é frequentemente baseado em estimativas ou excluído das avaliações devido à dificuldade de recolha de dados. Contudo, a sua omissão pode alterar significativamente a posição relativa das empresas e dos sectores.

Uma empresa com emissões directas reduzidas pode depender de fornecedores altamente intensivos em carbono. Se a análise considerar apenas as operações próprias, o seu risco ambiental pode ser subestimado.

Para países integrados nas cadeias globais de matérias-primas, esta questão assume particular importância. Parte das emissões associadas aos produtos consumidos nas economias desenvolvidas ocorre nos países produtores, transportadores e processadores.

Uma avaliação limitada às empresas finais pode, portanto, distribuir de forma incompleta os riscos e responsabilidades ao longo da cadeia.

“Prémio Verde” Não Significa Maior Rentabilidade

Outra interpretação contestada pelo estudo é a ideia de que títulos e fundos classificados como sustentáveis proporcionam automaticamente melhor desempenho financeiro.

As obrigações verdes podem negociar com rendimentos inferiores e preços superiores aos de títulos convencionais comparáveis. Esta diferença, designada greenium ou prémio verde, pode resultar da maior procura por parte de investidores que valorizam objectivos ambientais.

O rendimento inferior beneficia o emitente, que obtém financiamento a um custo potencialmente mais baixo. Para o investidor, porém, representa uma remuneração menor, desde que os restantes factores de risco sejam semelhantes.

O prémio verde não constitui, assim, prova automática de desempenho superior. Pode reflectir preferências dos investidores, limites regulamentares, políticas institucionais ou escassez relativa de activos sustentáveis.

A expansão dos fundos ESG também pode concentrar fluxos em determinados activos, elevar os preços e gerar ganhos durante um período. Mas esses movimentos podem ser revertidos quando o sentimento, a regulação ou as preferências dos investidores se alteram.

ESG Pode Reduzir O Custo De Capital, Mas Não Em Todos Os Casos

O estudo não rejeita a relevância financeira dos factores ESG. Determinadas práticas ambientais, sociais ou de governação podem reduzir riscos operacionais, jurídicos, reputacionais e regulatórios.

Empresas com menor exposição a acidentes ambientais, conflitos laborais, fraudes ou tecnologias intensivas em carbono podem apresentar menor probabilidade de perdas futuras. Esta diferença pode traduzir-se num custo de capital inferior.

Contudo, a relação depende do sector, do horizonte temporal, do risco analisado e da qualidade da informação disponível.

Uma variável ambiental pode ser financeiramente material para uma empresa mineira, mas ter relevância limitada para uma companhia de consultoria. Um factor de governação pode ser determinante num banco, enquanto um risco físico relacionado com cheias ou secas poderá dominar a avaliação de uma empresa agrícola.

A relevância do ESG aparece, portanto, através de canais específicos de risco e não de uma pontuação universal.

Bancos Devem Partir Da Exposição Financeira

No sector bancário, a utilização prudente de informação ESG deve começar pela identificação da forma como cada risco pode afectar o cliente, o activo financiado, as garantias, a carteira e a posição de capital da instituição.

Os riscos ambientais, sociais e de governação podem manifestar-se através do incumprimento do crédito, desvalorização de garantias, interrupção da actividade, custos regulatórios, perda de mercado, danos reputacionais ou concentração sectorial.

A análise deve ser realizada ao nível da exposição concreta. Um banco precisa de saber onde se encontra o activo, que actividade financia, quais as tecnologias utilizadas, como a empresa gera receitas e de que forma mudanças regulatórias ou climáticas podem alterar a sua capacidade de pagamento.

Uma classificação ESG externa pode complementar esta análise, mas não deve substituí-la.

Gasteiger defende que as instituições precisam de documentar a fonte dos dados, a metodologia, as limitações, os pressupostos e a função atribuída aos ratings dentro do processo de decisão.

A média de várias classificações também não resolve automaticamente o problema. Combinar indicadores construídos com metodologias diferentes pode apenas produzir uma nova pontuação sem significado económico claramente definido.

Economias Emergentes Enfrentam Risco De Penalização

As limitações dos ratings ESG têm implicações particulares para África e outras economias emergentes.

Empresas de grande dimensão estabelecidas nos mercados desenvolvidos dispõem normalmente de equipas, sistemas e recursos para produzir relatórios detalhados, responder a questionários internacionais e contratar consultores especializados.

Muitas empresas africanas, sobretudo PME, não possuem a mesma capacidade. A ausência de informação pode ser interpretada pelos modelos como risco elevado, ainda que resulte de limitações de reporte e não de pior desempenho efectivo.

Esta diferença pode aumentar o custo de capital, reduzir o acesso a fundos internacionais e excluir empresas de cadeias de fornecimento ou carteiras de investimento.

Para Moçambique, a resposta não deve consistir em rejeitar os critérios ESG, mas em desenvolver sistemas credíveis e proporcionais de recolha, verificação e divulgação de informação.

Instituições financeiras, reguladores e empresas precisam de distinguir ausência de dados, risco efectivamente identificado e incapacidade temporária de reporte. Tratar estas três situações como equivalentes pode direccionar o capital para empresas com melhor comunicação, e não necessariamente para aquelas com melhor desempenho.

ESG Precisa De Dados, Processos E Controlo

A principal conclusão do estudo é que os riscos ESG são financeiramente relevantes, mas os ratings agregados não constituem uma verdade objectiva nem uma promessa de rentabilidade.

Antes de utilizar uma classificação, investidores e bancos devem responder a questões essenciais: o que está a ser medido, qual é a fonte dos dados, que dimensão ESG está em causa, qual é o canal financeiro, que período é considerado e qual é o grau de incerteza metodológica.

Sem esta disciplina, o ESG pode transformar-se numa narrativa que orienta investimentos e crédito sem uma relação suficientemente demonstrada com o risco económico.

Quando utilizado com avaliação de materialidade, dados por exposição, análise sectorial, cenários e governação interna, pode funcionar como uma fonte útil de informação. O seu valor não está numa pontuação isolada, mas na capacidade de identificar riscos que os indicadores financeiros tradicionais podem ainda não ter incorporado.

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