
Reino Unido Reforça Conservação Comunitária Com £2 Milhões Para A BIOFUND
• Novo financiamento procura ligar protecção da biodiversidade, geração de rendimentos e participação das comunidades, num momento em que Moçambique tenta transformar o seu capital natural numa componente mais estruturante do desenvolvimento económico.
- O Governo britânico disponibiliza £2 milhões, cerca de US$2,6 milhões, através de uma nova parceria com a BIOFUND;
- Os recursos vão apoiar a conservação liderada pelas comunidades, os meios de subsistência e mecanismos de financiamento sustentável da biodiversidade;
- O programa deverá actuar em quatro paisagens prioritárias nas províncias de Niassa, Zambézia, Tete e Maputo, entre 2026 e 2028;
- O financiamento integra um pacote britânico mais amplo de £8 milhões destinado à conservação, à economia azul e ao reforço da resiliência costeira em Moçambique;
- A nova parceria reforça uma mudança de abordagem: conservar a biodiversidade criando, simultaneamente, oportunidades económicas para as populações que dependem directamente dos recursos naturais.
O Governo do Reino Unido vai disponibilizar £2 milhões, equivalentes a aproximadamente US$2,6 milhões, para apoiar a conservação da biodiversidade em Moçambique através de uma nova parceria com a Fundação para a Conservação da Biodiversidade, BIOFUND.
O financiamento será orientado sobretudo para iniciativas de conservação comunitária e para o desenvolvimento de mecanismos de financiamento sustentável destinados a garantir recursos de longo prazo para a protecção dos ecossistemas. A abordagem pretende colocar as comunidades locais no centro da gestão dos recursos naturais e criar benefícios económicos associados à conservação.
A parceria foi formalizada no âmbito do lançamento do Programa de Conservação Comunitária e Investimento, CCIP, assinado entre a BIOFUND e o Governo britânico, através do Foreign, Commonwealth & Development Office, FCDO, a 14 de Setembro, em Maputo.
O programa deverá decorrer entre 2026 e 2028 e actuar em quatro paisagens prioritárias: Chipanje Chetu, em Niassa; Monte Mabu, na Zambézia; Zumbo, em Tete; e Mwai, na Província de Maputo. A implementação será coordenada pela BIOFUND em articulação com a Administração Nacional das Áreas de Conservação, ANAC, organizações nacionais e locais e estruturas comunitárias.
Conservação Passa A Ser Também Uma Questão De Rendimento
O elemento central da iniciativa é a tentativa de ultrapassar uma abordagem em que a conservação é tratada exclusivamente como protecção ambiental.
O financiamento britânico pretende associar conservação, gestão comunitária e criação de oportunidades económicas.
A lógica parte de uma premissa simples: populações que vivem dentro ou nas proximidades de ecossistemas de elevado valor ambiental são simultaneamente agentes essenciais para a sua preservação e utilizadores directos dos recursos naturais.
Sem alternativas económicas sustentáveis, a pressão sobre florestas, fauna, recursos pesqueiros e outros activos naturais tende a permanecer elevada.
O documento que sustenta a iniciativa refere precisamente que o objectivo é transformar a conservação numa fonte concreta de benefícios sociais e económicos, colocando as populações locais no centro da estratégia.
Trata-se, portanto, de tentar alterar a relação entre comunidade e conservação.
Em vez de apresentar a preservação dos recursos apenas como restrição à sua utilização, o modelo procura criar incentivos económicos para que a conservação se torne ela própria geradora de rendimento.
£2 Milhões Integram Pacote Britânico De £8 Milhões
O apoio à BIOFUND insere-se num compromisso britânico mais amplo com conservação e economia azul em Moçambique.
Durante a visita a Maputo da Representante Especial do Reino Unido para a Natureza, Ruth Davis, foi anunciado um conjunto de novos investimentos no valor de £8 milhões, correspondente a aproximadamente €9,3 milhões.
Deste montante, £2 milhões destinam-se à parceria com a BIOFUND, enquanto até £6 milhões adicionais deverão financiar a COAST Facility até 2030, através do Blue Planet Fund britânico.
Essa segunda componente estará concentrada em pesca sustentável, restauração de mangais e reforço da resiliência climática das comunidades costeiras.
O pacote amplia, assim, o alcance da cooperação para além das áreas terrestres de conservação e aproxima-a de uma agenda mais abrangente que inclui oceanos, zonas costeiras, pesca, biodiversidade e adaptação climática.
BIOFUND Consolida Papel Como Plataforma De Financiamento
A escolha da BIOFUND como mecanismo de implementação não ocorre isoladamente.
A instituição vem consolidando-se como uma das principais estruturas de mobilização e gestão de financiamento destinado à conservação em Moçambique.
Em 2025, a BIOFUND desembolsou mais de US$12,2 milhões para 23 Áreas de Conservação, através de 35 projectos, enquanto o seu fundo de investimento, Endowment Fund, alcançou cerca de US$69,5 milhões.
Cumulativamente, até ao final de 2025, a instituição havia mobilizado mais de US$144 milhões em fundos canalizados para projectos e beneficiários, dos quais cerca de US$56 milhões já tinham sido desembolsados desde 2016.
O modelo de financiamento da BIOFUND procura reduzir um dos principais problemas da conservação: a dependência de projectos financiados durante períodos limitados.
A instituição gere fundos de investimento de longo prazo, recursos canalizados por terceiros e fundos de gestão directa de projectos. No caso dos fundos de Endowment, apenas os rendimentos gerados pelo capital são utilizados, mantendo-se o capital principal investido.
É precisamente essa arquitectura que permite colocar a discussão sobre biodiversidade numa perspectiva de sustentabilidade financeira.
Financiar A Conservação Para Além Dos Projectos
Historicamente, uma das vulnerabilidades dos programas ambientais em países em desenvolvimento tem sido a dependência de ciclos de financiamento externo.
Um projecto recebe recursos durante três, quatro ou cinco anos, financia actividades, técnicos, fiscalização e iniciativas comunitárias e, quando termina, surge novamente a necessidade de encontrar um novo financiador.
O novo apoio britânico procura contribuir para uma abordagem diferente.
O documento de base indica que o financiamento pretende apoiar mecanismos sustentáveis capazes de assegurar recursos de longo prazo para a protecção dos ecossistemas, reduzindo a dependência de intervenções pontuais.
Esta orientação coincide com a estratégia mais ampla da BIOFUND, que identifica como potenciais fontes de financiamento mecanismos como investimento privado, compensações de biodiversidade, conversão de dívida, pagamentos por serviços ambientais, mercados de carbono e instrumentos ligados às economias verde e azul.
A conservação começa, assim, a aproximar-se progressivamente dos mercados de capitais, da fiscalidade ambiental e dos novos instrumentos internacionais de financiamento climático e da natureza.
Economia Da Natureza Pode Valer Até US$1,5 Mil Milhões Por Ano
A dimensão económica desta discussão é significativa.
Estimativas divulgadas pela BIOFUND apontam que a chamada economia da natureza em Moçambique poderá representar entre 20% e 25% da economia rural, com um valor anual situado entre US$1 mil milhão e US$1,5 mil milhões.
Este valor inclui actividades cuja viabilidade depende directamente da qualidade dos ecossistemas, como turismo de natureza, agricultura, pesca, produtos florestais e diversos serviços ambientais.
Apesar disso, o valor económico dos ecossistemas continua pouco reflectido nos processos tradicionais de planeamento, investimento e decisão empresarial.
Essa situação cria um paradoxo.
Moçambique possui uma base significativa de capital natural, mas grande parte desse património ainda não é contabilizada da mesma forma que infra-estruturas, recursos minerais ou outros activos produtivos.
A consequência é que a degradação ambiental pode parecer economicamente barata no curto prazo, mesmo quando destrói activos capazes de produzir rendimento durante décadas.
Comunidades Tornam-Se Parte Do Modelo Económico
A centralidade atribuída às comunidades pelo novo programa procura igualmente responder a um problema de incentivos.
Uma população que suporta os custos da conservação mas recebe poucos benefícios económicos terá menos incentivos para proteger determinado ecossistema.
Quando, pelo contrário, a conservação gera emprego, actividades económicas, turismo, cadeias de fornecimento, rendimento comunitário ou acesso a financiamento, a protecção do recurso passa a possuir valor económico directamente perceptível.
Experiências recentes mostram a escala potencial deste tipo de intervenção.
Um programa de conservação executado entre 2023 e 2026 pela BIOFUND e ANAC, com apoio da Suécia, trabalhou com 25 comunidades e beneficiou mais de 11 mil pessoas, além de apoiar cinco Áreas de Conservação.
O novo programa britânico procura dar continuidade a esta orientação, mas com maior enfoque explícito na relação entre conservação comunitária e oportunidades económicas.
Do Custo Ambiental Ao Activo Económico
O desafio de fundo é transformar a percepção da biodiversidade.
Durante muito tempo, conservação e desenvolvimento foram apresentados como objectivos concorrentes: proteger significaria limitar exploração económica; desenvolver significaria aceitar determinado nível de degradação ambiental.
A evolução das políticas de financiamento climático e da natureza começa a alterar essa visão.
Ecossistemas preservados fornecem água, protegem costas, armazenam carbono, sustentam pesca e agricultura, reduzem vulnerabilidade a eventos climáticos extremos e suportam actividades turísticas.
São, portanto, activos económicos.
A dificuldade consiste em criar mecanismos capazes de atribuir valor financeiro a estes serviços sem transformar conservação numa actividade que exclua as próprias populações que dependem dos recursos.
É nesta fronteira que programas como o agora financiado pelo Reino Unido ganham relevância.
O Desafio Passa Da Mobilização Para A Sustentabilidade
Os £2 milhões representam um reforço importante, mas não resolvem sozinhos o problema estrutural do financiamento da conservação em Moçambique.
A questão fundamental será a capacidade de utilizar estes recursos para construir modelos que continuem a funcionar depois do término do programa.
Isso passa por desenvolver fontes próprias e recorrentes de receita, atrair capital privado, criar actividades económicas associadas aos ecossistemas e tornar as comunidades beneficiárias directas do valor produzido pela conservação.
O sucesso não poderá, portanto, ser medido apenas pelo montante desembolsado ou pelas áreas protegidas.
Terá igualmente de ser medido pela capacidade de gerar rendimento, emprego, resiliência económica e financiamento permanente sem reduzir o capital natural que sustenta essas actividades.
O novo apoio britânico coloca precisamente esta questão no centro da agenda: se a biodiversidade é um activo económico, a conservação precisa de deixar de depender exclusivamente de financiamento temporário e passar a gerar condições para financiar a sua própria continuidade.
Recuperação De Terras Pode Converter Degradação Em Activos Económicos
19 de Agosto, 2026
Mais notícias
-
XVIII CASP: Tudo Au Point
20 de Junho, 2023 -
Moçambique e Brasil selam cooperação estratégica para certificação digital
13 de Fevereiro, 2026
Sobre Nós
O Económico assegura a sua eficácia mediante a consolidação de uma marca única e distinta, cujo valor é a sua capacidade de gerar e disseminar conteúdos informativos e formativos de especialidade económica em termos tais que estes se traduzem em mais-valias para quem recebe, acompanha e absorve as informações veiculadas nos diferentes meios do projecto. Portanto, o Económico apresenta valências importantes para os objectivos institucionais e de negócios das empresas.
últimas notícias
-
OOpenAI Expõe Falhas De Segurança E Reabre Debate Sobre Quem Deve Controlar A IA
17 de Setembro, 2026 -
HCB Assegura Caudal Ecológico Durante Paragem Para Manutenção No Songo
17 de Setembro, 2026
Mais Acessados
-
Governo admite nova operadora para a Mozal após suspensão das operações
14 de Março, 2026














