Natureza Ganha Valor Como Infra-Estrutura Económica Contra Desastres Climáticos

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  • Florestas, mangais, zonas húmidas e espaços verdes começam a ser tratados como activos capazes de reduzir perdas económicas provocadas por cheias, calor extremo e incêndios. Apesar do potencial, apenas 220 mil milhões de dólares foram canalizados globalmente para soluções baseadas na natureza, enquanto as necessidades poderão atingir 571 mil milhões por ano até 2030. Para Moçambique, a experiência da Beira mostra que infra-estrutura verde pode complementar obras convencionais na protecção de cidades e actividades económicas.
Questões-Chave:
  • Os custos directos oficialmente registados de desastres rondam 202 mil milhões de dólares anuais, mas a UNDRR estima que o impacto económico real poderá superar 2,3 biliões quando considerados efeitos indirectos, perdas em cadeia e danos sobre ecossistemas;
  • O investimento mundial em soluções baseadas na natureza atingiu aproximadamente 220 mil milhões de dólares em 2023, perante 7,3 biliões canalizados para actividades consideradas prejudiciais à natureza;
  • O UNEP estima que o financiamento anual das soluções baseadas na natureza terá de aumentar 2,5 vezes, para 571 mil milhões de dólares até 2030, para responder às metas climáticas, de biodiversidade e recuperação de terras;
  • Estudos citados pelo World Resources Institute indicam que cada dólar aplicado em soluções baseadas na natureza pode gerar até oito dólares em benefícios económicos e sociais;
  • Em Moçambique, a recuperação do sistema do Chiveve e de mangais na Beira integrou infra-estrutura verde e convencional, contribuindo para aumentar a protecção contra cheias de cerca de 50 mil pessoas;
  • Um diagnóstico do Banco Mundial divulgado em 2026 recomenda que Moçambique incorpore sistematicamente mangais, zonas húmidas e florestas no planeamento de infra-estruturas para reduzir riscos de cheias, melhorar a gestão da água e limitar futuras perdas económicas;

O debate mundial sobre adaptação climática começa progressivamente a ultrapassar uma visão em que proteger cidades, infra-estruturas e actividades económicas contra fenómenos extremos significa necessariamente construir mais diques, canais, muros, sistemas de drenagem e outras obras de engenharia convencional.

Uma segunda categoria de infra-estrutura começa a ganhar relevância económica: a própria natureza.

Florestas capazes de reter água e reduzir erosão, mangais que absorvem parte da energia das tempestades, zonas húmidas que armazenam grandes volumes de água, solos permeáveis e árvores urbanas que reduzem temperaturas começam a ser avaliados não apenas pelo seu valor ambiental, mas pelos serviços económicos que prestam.

É precisamente esta mudança de perspectiva que Ani Dasgupta, Presidente e CEO do World Resources Institute, propõe numa reflexão recente sobre a intensificação de incêndios, cheias e ondas de calor.

Segundo o WRI, a recuperação dos ecossistemas continua subutilizada como instrumento de protecção, apesar da crescente evidência de que soluções baseadas na natureza podem complementar infra-estruturas convencionais, frequentemente com custos competitivos e benefícios adicionais. 

Desastre Climático É Também Destruição De Capital

A importância económica desta discussão começa pela dimensão das perdas.

As estimativas tradicionalmente utilizadas para calcular o custo dos desastres tendem a contabilizar activos físicos destruídos: habitações, estradas, pontes, empresas, explorações agrícolas e infra-estruturas públicas.

Mas esta metodologia capta apenas parte da factura.

A UNDRR estima que os prejuízos económicos directos oficialmente registados rondem 202 mil milhões de dólares por ano. Quando são considerados efeitos indirectos, impactos em cadeia e perdas relacionadas com os ecossistemas, o verdadeiro custo mundial pode superar 2,3 biliões de dólares anuais

A diferença é economicamente relevante.

Uma inundação não destrói apenas uma estrada. Pode interromper a circulação de mercadorias, reduzir vendas, suspender produção, limitar acesso ao emprego, interromper aulas, afectar turismo e exigir posteriormente recursos públicos para reconstrução.

Uma seca não representa apenas menor precipitação. Pode reduzir produção agrícola, rendimento rural, disponibilidade energética e exportações, enquanto aumenta simultaneamente a necessidade de importação de alimentos.

O risco climático transforma-se, desta maneira, em risco fiscal, empresarial e macroeconómico.

Natureza Pode Ser Tratada Como Infra-Estrutura

A abordagem das soluções baseadas na natureza parte de uma lógica relativamente simples.

Se uma zona húmida consegue absorver água que, de outra forma, inundaria uma cidade, essa área está a fornecer um serviço de controlo de cheias.

Se um mangal reduz erosão e o impacto das ondas sobre uma comunidade costeira, está a desempenhar uma função semelhante à de determinadas estruturas físicas de protecção.

Se árvores urbanas reduzem significativamente a temperatura numa zona densamente construída, prestam um serviço que influencia consumo de energia, produtividade laboral e saúde pública.

O WRI cita estudos segundo os quais uma rua arborizada pode apresentar uma sensação térmica até cerca de 7,8 graus Celsius inferior à de uma rua directamente exposta ao sol. Em Medellín, na Colômbia, o programa de corredores verdes introduziu mais de 800 mil árvores e milhões de plantas, contribuindo para reduções de temperatura que chegaram a 10 graus Celsius em algumas áreas. 

Mas a vantagem económica destas intervenções está igualmente nos benefícios múltiplos.

Uma árvore utilizada para reduzir calor pode simultaneamente melhorar qualidade do ar, armazenar carbono e valorizar espaço urbano.

Uma zona húmida restaurada para controlar cheias pode melhorar qualidade da água, criar áreas recreativas, gerar emprego e estimular turismo.

É esta multiplicidade que distingue parte da infra-estrutura natural da engenharia convencional.

Kigali Mostra Que Prevenir Cheias Pode Criar Outra Economia

A experiência de Kigali, no Rwanda, oferece um exemplo desta lógica.

A recuperação de zonas húmidas degradadas deu origem ao Nyandungu Ecotourism Park, uma área que funciona como sistema natural de retenção e filtragem da água que anteriormente contribuía para inundações.

Segundo o WRI, além da função de protecção, o projecto está associado a cerca de quatro mil empregos locais, armazenamento de carbono, melhoria da qualidade do ar e actividade turística. 

O activo natural produz, portanto, diferentes fluxos de valor económico.

Esta característica torna relevante uma discussão sobre a forma como os projectos públicos são avaliados.

Quando uma obra convencional é comparada com uma solução baseada na natureza exclusivamente pelo custo inicial da construção, parte importante dos benefícios económicos pode permanecer fora da análise.

Cada Dólar Pode Produzir Benefícios Múltiplos

O argumento económico das soluções baseadas na natureza tornou-se suficientemente significativo para entrar na discussão internacional sobre investimento e financiamento.

O WRI refere investigação segundo a qual cada dólar investido nestas soluções pode gerar até oito dólares em benefícios

Esses retornos não aparecem necessariamente como receitas financeiras directas.

Podem materializar-se na forma de perdas evitadas, menores despesas de saúde, melhor qualidade da água, produtividade, emprego, protecção de activos, turismo, carbono armazenado ou redução das necessidades futuras de investimento em infra-estruturas.

Esta é precisamente uma das dificuldades do financiamento.

O investidor que paga pela recuperação de um mangal pode não conseguir capturar financeiramente todos os benefícios que esse mangal proporciona à sociedade.

Existe, portanto, uma diferença entre retorno económico e retorno financeiro, que pode justificar participação do Estado, financiamento climático, instrumentos concessionais ou mecanismos capazes de monetizar determinados serviços ambientais.

Mundo Continua A Financiar Mais A Degradação

Apesar da crescente evidência económica, os fluxos financeiros continuam fortemente desequilibrados.

O State of Finance for Nature 2026, do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, estima que aproximadamente 220 mil milhões de dólares foram investidos em soluções baseadas na natureza em 2023.

No mesmo período, cerca de 7,3 biliões de dólares foram canalizados para actividades consideradas prejudiciais aos ecossistemas.

Por cada dólar direccionado à protecção ou recuperação da natureza, aproximadamente 30 dólares financiaram actividades que contribuem para a sua degradação.

O UNEP calcula que o investimento anual em soluções baseadas na natureza terá de aumentar cerca de 2,5 vezes, para 571 mil milhões de dólares até 2030, para que o mundo possa cumprir os objectivos relacionados com clima, biodiversidade e recuperação de terras.

Esse montante corresponde a aproximadamente 0,5% do PIB mundial. 

A questão deixa, assim, de ser apenas ambiental.

Passa a ser também uma questão de alocação de capital.

Infra-Estrutura Verde Não Substitui Todo O Betão

A ascensão das soluções baseadas na natureza não implica abandonar a engenharia convencional.

Diques, canais, barragens, sistemas de drenagem, estradas resilientes e outras infra-estruturas físicas continuarão indispensáveis.

A evolução mais relevante está na combinação de ambas.

Em vez de decidir entre “verde” ou “cinzento”, cidades e governos começam a explorar soluções verde-cinza, em que ecossistemas naturais e engenharia convencional funcionam conjuntamente.

Um canal pode transportar água enquanto uma zona húmida reduz o volume que chega ao sistema.

Um dique pode proteger determinado território enquanto mangais reduzem a energia das ondas antes de estas atingirem a estrutura.

Esta combinação pode diminuir custos, ampliar capacidade de adaptação e produzir benefícios ambientais adicionais.

Beira Já Oferece Uma Experiência Moçambicana

Moçambique possui precisamente um dos exemplos africanos frequentemente referenciados nesta matéria.

Na cidade da Beira, a recuperação do rio Chiveve combinou reabilitação da capacidade natural de drenagem, recuperação de mangais e construção de infra-estruturas convencionais.

Segundo o Banco Mundial, o projecto aumentou a protecção contra inundações de aproximadamente 50 mil pessoas, combinando recuperação comunitária de mangais com uma estrutura de controlo das marés que regula a entrada e saída da água no Chiveve. 

A experiência é particularmente significativa porque a Beira representa um importante centro económico, logístico e portuário.

Reduzir o risco de inundação numa cidade com estas características não protege apenas residências.

Protege mobilidade, comércio, empresas, serviços públicos e activos cuja interrupção pode produzir efeitos económicos muito para além da própria cidade.

Moçambique Tem Uma Economia Profundamente Dependente Da Água

A relevância desta abordagem aumenta quando considerada a estrutura económica nacional.

Um diagnóstico sobre segurança hídrica de Moçambique divulgado pelo Banco Mundial em Julho de 2026 estima que 56% do valor acrescentado bruto, 90,4% das exportações de mercadorias e 84% do emprego estejam associados a sectores directamente dependentes da água.

Agricultura, energia, pesca, indústria, logística e diferentes actividades económicas dependem da disponibilidade e gestão deste recurso.

O mesmo relatório caracteriza Moçambique como um País que, apesar de possuir recursos hídricos abundantes, enfrenta uma forma de escassez económica de água, associada a deficiências de infra-estruturas, investimento e capacidade institucional.

Neste quadro, cheias e secas não constituem apenas fenómenos ambientais.

São choques sobre sectores que representam grande parte da produção, emprego e exportações do País.

Mangais E Zonas Húmidas Podem Entrar No Planeamento Económico

O Banco Mundial recomenda que Moçambique incorpore sistematicamente soluções baseadas na natureza no planeamento dos investimentos em água e resiliência.

Entre as opções identificadas estão a recuperação de mangais, zonas húmidas, planícies inundáveis e florestas nas bacias hidrográficas, com funções que incluem retenção de cheias, purificação da água, controlo de sedimentação e armazenamento natural.

A recomendação representa uma mudança importante na forma de olhar para estes ecossistemas.

Um mangal deixa de ser apenas uma área a conservar por razões ambientais.

Passa igualmente a ser um activo de protecção costeira.

Uma zona húmida passa de terreno aparentemente disponível para urbanização para uma infra-estrutura natural com determinada capacidade de retenção de água.

Uma floresta numa bacia hidrográfica passa a ter valor relacionado com qualidade da água, erosão e estabilidade do sistema hidrológico.

Destruir Natureza Pode Criar Passivos Futuros

Esta abordagem altera também a análise económica da urbanização.

Quando uma zona húmida é aterrada para permitir construção, o valor criado pelo novo empreendimento é normalmente contabilizado.

O serviço de retenção de água que desapareceu raramente recebe o mesmo tratamento.

Se posteriormente forem necessários canais, sistemas de bombeamento ou outras infra-estruturas para controlar inundações provocadas pela perda daquela capacidade natural, surge um custo futuro que pode recair sobre o Estado ou os residentes.

Há, neste sentido, uma externalidade económica.

O benefício privado da ocupação de um ecossistema pode produzir um custo público de adaptação.

Incorporar o valor económico dos serviços ambientais no planeamento pode permitir decisões mais completas sobre onde construir, onde preservar e que combinação de infra-estruturas utilizar.

Natureza Pode Tornar-Se Parte Da Gestão Fiscal Do Risco

Existe ainda uma implicação para as finanças públicas.

A despesa com prevenção compete frequentemente com necessidades imediatas de educação, saúde, estradas e protecção social.

Já a reconstrução depois de um desastre torna-se inevitável.

Esta assimetria tende a favorecer respostas posteriores ao choque em detrimento do investimento preventivo.

Contudo, quando os efeitos indirectos dos desastres são incorporados, a prevenção pode apresentar uma racionalidade financeira muito diferente.

O diagnóstico do Banco Mundial para Moçambique recomenda, inclusivamente, tornar mais visíveis os custos contingentes associados a desastres para fortalecer a justificação económica de investimentos preventivos em segurança hídrica.

A recuperação de ecossistemas pode, nessa perspectiva, funcionar como uma espécie de cobertura física contra futuros choques orçamentais.

Carbono Pode Acrescentar Uma Fonte De Receita

Outro elemento emergente é a possibilidade de monetização de determinados benefícios ambientais.

O Banco Mundial identifica, entre as oportunidades para Moçambique, a possibilidade de algumas soluções baseadas na natureza gerarem créditos de carbono associados à conservação ou recuperação de ecossistemas.

Esta hipótese deve ser tratada com critérios rigorosos de medição, adicionalidade e integridade ambiental.

Mas demonstra que determinados activos naturais podem começar a produzir fluxos financeiros para além dos benefícios económicos indirectos.

Mangais, em particular, combinam protecção costeira, biodiversidade, suporte à pesca e capacidade de armazenamento de carbono.

Num país com uma extensa costa e forte exposição a ciclones, esta combinação merece atenção económica.

De Custo Ambiental A Activo Produtivo

A reflexão do WRI aponta, no fundo, para uma mudança na forma como governos, empresas e investidores classificam a natureza.

Durante décadas, protecção ambiental foi frequentemente tratada como um custo a suportar em troca da preservação dos ecossistemas.

A intensificação dos riscos climáticos está a mostrar uma equação diferente.

Ecossistemas saudáveis podem reduzir perdas, proteger investimentos, diminuir custos de adaptação, gerar emprego, sustentar actividades económicas e produzir serviços que, caso desapareçam, terão frequentemente de ser substituídos por infra-estruturas construídas.

Isso transforma conservação e recuperação numa forma de investimento em capital natural.

Para Moçambique, a experiência da Beira demonstra que esta abordagem já não é apenas conceptual.

O passo seguinte será incorporá-la com maior sistematicidade no planeamento urbano, hídrico, costeiro e de infra-estruturas.

Num país onde cheias, ciclones e secas representam riscos recorrentes para a economia, proteger mangais, zonas húmidas, florestas e sistemas naturais pode deixar de ser visto apenas como política ambiental.

Pode constituir política de infra-estruturas, gestão do risco económico e protecção do investimento.

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