
Chapo Defende Na ONU Que África Retenha Mais Valor Dos Seus Recursos
Presidente coloca industrialização, conteúdo local, integração regional e reforma da arquitectura financeira internacional entre os eixos para converter recursos naturais em investimento, emprego e capacidade produtiva
- Moçambique pretende acrescentar valor aos recursos naturais, modernizar a agricultura e acelerar a industrialização;
- Presidente defende parcerias de longo prazo capazes de criar capacidade nacional, conteúdo local e emprego;
- África continua a reter uma parcela reduzida do valor económico gerado pelos recursos que fornece à economia mundial;
- Moçambique reclama financiamento internacional mais previsível e acessível e soluções sustentáveis para a dívida;
- Integração regional, energia, logística, digitalização e transferência de tecnologia surgem como componentes da estratégia de transformação económica.
O Presidente da República, Daniel Chapo, colocou a transformação interna dos recursos naturais e a retenção de uma parcela maior do valor gerado em África no centro da mensagem económica apresentada por Moçambique na 81.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.
Na intervenção de 23 de Setembro, o Chefe do Estado defendeu uma mudança do modelo assente predominantemente na extracção e exportação de matérias-primas para uma economia baseada em transformação, industrialização, criação de capacidades nacionais e integração em cadeias de valor regionais e internacionais.
A abordagem insere-se numa discussão que tem ganho peso no continente. A Comissão Económica das Nações Unidas para África tem defendido ao longo de 2026 que a abundância de minerais, energia e recursos agrícolas produzirá efeitos económicos mais amplos quando acompanhada de processamento local, indústria, tecnologia e integração produtiva regional.
Recursos Naturais Entram Numa Agenda De Transformação Produtiva
No discurso, Chapo enquadrou a exploração dos recursos dentro de uma estratégia económica mais abrangente.
No quadro do Plano Quinquenal do Governo 2025-2029 e da Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044, o Presidente afirmou que Moçambique pretende acrescentar valor aos recursos naturais, modernizar a agricultura, promover a industrialização, expandir o acesso à energia e investir em infra-estruturas, educação, saúde, ciência e economia digital.
A formulação estabelece uma ligação directa entre recursos naturais e diversificação económica.
O objectivo apresentado é utilizar sectores como gás, mineração, agricultura e energia para estimular outras actividades económicas, ampliar receitas e desenvolver capital humano, reduzindo a dependência de uma estrutura produtiva concentrada na extracção e exportação de produtos com limitado processamento doméstico.
Este debate tem especial relevância para Moçambique, num período marcado pela expansão dos projectos de LNG, desenvolvimento de grafite e outros minerais, investimentos energéticos e procura de maior integração das empresas nacionais nas respectivas cadeias de fornecimento.
África Procura Capturar Uma Parcela Maior Das Cadeias De Valor
A dimensão continental foi particularmente explícita.
Chapo afirmou que África permanece rica em recursos, mas retém uma parcela limitada do valor económico que estes geram, defendendo a passagem da extracção para a transformação, das transacções para parcerias e da exportação de recursos para cadeias de valor nacionais e regionais.
O diagnóstico coincide com uma das principais discussões económicas actualmente em curso no continente.
Segundo a Comissão Económica das Nações Unidas para África, o continente concentra aproximadamente 30% das reservas mundiais de minerais críticos, mas captura menos de 5% do valor acrescentado associado a essas cadeias. A instituição considera que processamento, fabricação e integração regional podem aumentar significativamente a parcela de valor retida pelos países produtores.
Para a África Austral, o assunto ganhou uma dimensão adicional com iniciativas da SADC destinadas a desenvolver cadeias regionais de minerais utilizados na transição energética. Moçambique integra uma iniciativa de cinco anos que abrange igualmente República Democrática do Congo, Namíbia, África do Sul, Zâmbia e Zimbabwe.
Conteúdo Local E Capacidade Nacional Entram Na Política De Investimento
Na apresentação da posição moçambicana, o investimento estrangeiro foi associado à criação de capacidade produtiva doméstica.
O Presidente identificou a localização de Moçambique no Oceano Índico, os corredores logísticos e os recursos agrícolas, energéticos e minerais como activos para transformar o país numa plataforma de investimento e integração regional.
Nesse quadro, afirmou que o país procura parcerias de longo prazo que desenvolvam capacidades nacionais, promovam conteúdo local, respeitem o ambiente e criem emprego, particularmente para jovens e mulheres.
A formulação introduz um critério adicional na avaliação económica dos grandes investimentos.
O volume de capital mobilizado permanece relevante, mas o impacto sobre a economia dependerá igualmente da profundidade dos encadeamentos com fornecedores nacionais, da formação de trabalhadores, da transferência de tecnologia e da possibilidade de empresas moçambicanas avançarem para actividades de maior complexidade.
A própria União Africana coloca valor acrescentado, desenvolvimento de conteúdo local e integração nas cadeias globais entre os instrumentos destinados a alterar a posição tradicional do continente como fornecedor de matérias-primas.
Corredores, Energia E Mercados Regionais Ganham Peso
A integração económica regional constitui outro eixo da estratégia apresentada.
Chapo argumentou que mercados maiores permitem criar economias de escala, integrar cadeias produtivas, estimular inovação e aumentar a atractividade do investimento. Em Moçambique, associou esta orientação aos interconectores eléctricos com países vizinhos e aos postos fronteiriços de paragem única.
A leitura económica é particularmente relevante para um país cuja posição geográfica permite ligar vários Estados do interior da África Austral aos mercados internacionais através dos corredores de Maputo, Beira e Nacala.
Energia, portos, ferrovias, estradas e facilitação fronteiriça deixam, neste enquadramento, de funcionar apenas como infra-estruturas nacionais e passam a constituir componentes de cadeias produtivas regionais.
A Comissão Económica das Nações Unidas para África tem igualmente defendido que industrialização e comércio intra-africano são elementos complementares, porque mercados regionais maiores podem viabilizar investimentos industriais que individualmente seriam limitados pela dimensão dos mercados domésticos.
Financiamento Internacional Surge Como Restrição À Transformação
A intervenção levou também para a Assembleia Geral uma das restrições centrais enfrentadas pelas economias africanas: o custo do financiamento.
Chapo defendeu uma arquitectura financeira internacional mais justa, financiamento previsível e acessível e soluções sustentáveis para a dívida. Sustentou igualmente que o acesso ao financiamento concessional deve considerar vulnerabilidades estruturais dos países e não apenas os respectivos níveis de rendimento.
O tema acompanha uma preocupação mais ampla da ONU. Na abertura do debate da 81.ª Assembleia Geral, a presidência da organização destacou dívida, financiamento do desenvolvimento e reforma da arquitectura financeira internacional entre as áreas que exigem maior resposta colectiva.
A dimensão do problema é significativa. O Secretário-Geral das Nações Unidas estimou este ano que África enfrenta um défice anual de financiamento para o desenvolvimento que pode atingir US$ 1,6 biliões.
Para economias como Moçambique, condições de financiamento internacional mais favoráveis podem determinar a velocidade de execução de infra-estruturas, energia, agricultura, logística e projectos de transformação produtiva.
Clima Acrescenta Pressão Sobre Investimento E Finanças Públicas
O financiamento climático foi integrado nesta mesma agenda.
O Presidente referiu que eventos climáticos extremos provocam perdas humanas, deslocações, destruição de culturas e danos em infra-estruturas, defendendo maior financiamento para adaptação, acesso simplificado aos fundos climáticos, operacionalização dos mecanismos de perdas e danos e investimento em sistemas de alerta prévio e infra-estruturas resilientes.
Chapo chamou igualmente atenção para a possibilidade de ocorrência de El Niño, com potenciais impactos sobre o centro e sul de Moçambique, particularmente através de seca, insegurança alimentar e redução dos meios de subsistência.
O argumento económico subjacente é que a vulnerabilidade climática afecta simultaneamente produção, investimento público, dívida, segurança alimentar e crescimento, aumentando a necessidade de instrumentos financeiros capazes de absorver choques sem comprometer recursos destinados ao desenvolvimento.
África Quer Participar Também Na Economia Digital
Chapo defendeu que África deixe de ocupar predominantemente a posição de fornecedora dos minerais que sustentam os grandes centros mundiais de inovação e avance para uma participação mais activa na economia digital, através de investimentos em conectividade, capacidade computacional, investigação científica, formação, transferência de tecnologia e governação ética da inteligência artificial.
Esta posição liga duas das principais cadeias económicas emergentes: minerais críticos e economia digital.
Materiais como grafite, lítio, cobre, níquel e terras raras estão a ganhar importância para baterias, centros de dados, redes eléctricas e outras infra-estruturas tecnológicas. Para os países produtores, a discussão desloca-se progressivamente para a participação em processamento, fabricação e serviços associados.
A ECA tem alertado que a exportação predominante de minerais em estado bruto pode reproduzir modelos económicos de baixo valor acrescentado, enquanto investimentos em transformação local e cadeias regionais podem ampliar emprego, competências e receitas.
Da Extracção À Capacidade Produtiva
A componente económica do discurso de Moçambique na 81.ª Assembleia Geral converge, assim, num eixo: utilizar recursos, investimento e integração regional para alargar a capacidade produtiva nacional.
A proposta apresentada combina transformação dos recursos naturais, agricultura, industrialização, energia, infra-estruturas, capital humano, digitalização e reforma do financiamento internacional. A execução desta agenda exige que os grandes investimentos previstos nos sectores energético e mineiro se traduzam em encadeamentos internos mais densos, empresas nacionais mais competitivas e actividades de maior valor acrescentado.
No plano africano, a mesma discussão está a ganhar expressão institucional. A agenda de industrialização da União Africana, a Zona de Comércio Livre Continental Africana e as iniciativas recentes da SADC para minerais estratégicos apontam para um objectivo comum: aumentar a parcela do valor económico criada e retida no continente antes de os seus recursos entrarem nos mercados globais.
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