Euro Cai Para Menos de US$ 1,14 Sob Pressão da Energia e do Risco Político Europeu

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  • Moeda única perde cerca de 2% em Setembro depois de se aproximar de US$ 1,20 em Agosto. Gás acima de €80/MWh, petróleo em torno de US$ 107, aumento do risco soberano francês e fortalecimento do dólar alteram o equilíbrio cambial entre as duas margens do Atlântico.
Questões-Chave:
  • Euro recuou cerca de 2% em Setembro, negociando em torno de US$ 1,137;
  • Gás europeu ultrapassou €80/MWh, máximo desde finais de 2022;
  • Brent voltou a superar US$ 106 por barril, aumentando a factura energética europeia;
  • Spread entre as obrigações francesas e alemãs a dez anos ultrapassou 110 pontos base;
  • Fed elevou a taxa de referência para 3,75%-4,00%, reforçando o suporte ao dólar;
  • BCE aumentou as taxas em 25 pontos base e colocou a facilidade permanente de depósito em 2,50%;
  • Mercado cambial passa a avaliar simultaneamente energia, crescimento, inflação, juros e risco político europeu.

O euro encerra Setembro sob uma combinação de pressões que está a alterar rapidamente a trajectória da moeda europeia frente ao dólar. Depois de se aproximar de US$ 1,20 em Agosto, a moeda única perdeu cerca de 2% durante o mês e caiu para níveis ligeiramente inferiores a US$ 1,14, próximos dos mínimos do ano.

Segundo a Reuters, o euro era negociado esta terça-feira em torno de US$ 1,137, num mercado dominado pelo choque energético provocado pelo conflito no Médio Oriente, fortalecimento do dólar e aumento da percepção de risco político e fiscal em algumas das principais economias europeias.

A inversão é significativa porque ocorre depois de o euro ter valorizado cerca de 13% contra o dólar no ano passado.

O movimento revela uma alteração das forças que sustentavam a moeda europeia. A economia da Zona Euro tem apresentado maior resistência do que inicialmente esperado e o Banco Central Europeu voltou a aumentar as taxas de juro. Estes factores oferecem suporte à moeda. Energia mais cara, risco soberano e maior remuneração dos activos norte-americanos estão, entretanto, a actuar na direcção contrária.

Energia Volta a Penalizar a Europa

A principal alteração ocorreu nos mercados energéticos.

Os preços europeus do gás natural ultrapassaram €80 por megawatt-hora em Setembro, atingindo o nível mais elevado desde finais de 2022, segundo dados citados pela Reuters.

A subida está associada às perturbações no transporte de LNG através do Estreito de Ormuz provocadas pelo conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irão.

Ao mesmo tempo, o petróleo regressou a níveis superiores a US$ 100. O Brent para Novembro avançou esta terça-feira para US$ 106,99 por barril.

A combinação de petróleo e gás caros afecta a Europa através de uma característica estrutural da sua economia: a elevada dependência de importações energéticas.

Quando os preços internacionais sobem, empresas e consumidores europeus precisam de mobilizar maior quantidade de euros para adquirir energia denominada predominantemente em dólares. A factura externa aumenta, os custos de produção sobem e parte do rendimento disponível é transferida para os produtores internacionais de energia.

Este mecanismo pode deteriorar os termos de troca europeus e reduzir o suporte fundamental da moeda.

Choque Energético Volta a Testar a Indústria Europeia

O impacto cambial acompanha uma pressão directa sobre a competitividade industrial.

Sectores intensivos em energia — química, fertilizantes, siderurgia, vidro, cerâmica, papel e outros segmentos industriais — enfrentam custos de produção superiores quando gás e electricidade aumentam.

A experiência da crise energética iniciada em 2022 mostrou a sensibilidade da indústria europeia a esta variável.

A diferença actual está na capacidade demonstrada pela economia da Zona Euro para resistir ao novo choque.

O BCE reviu em Setembro a previsão de crescimento para 0,9% em 2026, 1,4% em 2027 e 1,5% em 2028, reconhecendo um desempenho económico superior ao anteriormente antecipado.

A instituição identifica melhoria da manufactura, aumento do investimento e maior procura por serviços entre os factores que sustentam a actividade.

Esta resiliência constitui uma das principais linhas de defesa do euro.

BCE Sobe Juros Para Conter Nova Pressão Inflacionista

O choque energético também alterou a trajectória da política monetária europeia.

Em 10 de Setembro, o Banco Central Europeu aumentou as três principais taxas de referência em 25 pontos base, elevando a facilidade permanente de depósito para 2,50%, a taxa das operações principais de refinanciamento para 2,65% e a facilidade permanente de cedência de liquidez para 2,90%.

A decisão foi justificada pela persistência das pressões inflacionistas associadas ao conflito no Médio Oriente.

As novas projecções do BCE apontam para inflação média de 3,0% em 2026, 2,5% em 2027 e 2,1% em 2028.

Na segunda-feira, Christine Lagarde voltou a sublinhar perante o Parlamento Europeu que a subida actual da inflação resulta principalmente dos preços do petróleo e do gás e não, nesta fase, de uma espiral interna entre salários e preços.

Esta distinção explica a preferência do BCE por uma abordagem gradual.

Taxas europeias mais elevadas oferecem suporte ao euro porque aumentam a remuneração dos activos denominados na moeda única. O efeito cambial, contudo, precisa de ser comparado com o que está a acontecer nos Estados Unidos.

Fed Reforça Vantagem do Dólar

A Reserva Federal norte-americana também voltou a aumentar os juros.

Em 16 de Setembro, a Fed elevou a taxa dos federal funds em 25 pontos base, colocando o intervalo de referência em 3,75%-4,00%.

A autoridade monetária justificou a decisão pela persistência da inflação e pela resistência da actividade económica norte-americana.

O resultado é um diferencial relevante frente à Zona Euro.

A facilidade de depósito do BCE está em 2,50%, enquanto a taxa de referência norte-americana se situa entre 3,75% e 4,00%. Esta diferença aumenta a atractividade relativa de activos denominados em dólares.

O movimento tem sido reforçado pela subida das yields dos Treasuries. Os rendimentos da dívida pública norte-americana atingiram máximos de vários anos, ampliando a remuneração disponível para investidores internacionais.

O índice do dólar avançou para cerca de 101,27, próximo do máximo de dois meses, e acumulava aproximadamente 1,8% de valorização em Setembro, segundo a Reuters.

O EUR/USD está, portanto, a reflectir simultaneamente a fraqueza relativa introduzida pelo choque energético europeu e a força proveniente das taxas de juro e yields norte-americanas.

França Acrescenta Prémio de Risco ao Euro

A energia explica apenas parte da pressão.

O mercado também está a incorporar maior risco político e fiscal europeu, particularmente em França.

O diferencial entre as yields das obrigações francesas e alemãs a dez anos ultrapassou 110 pontos base, um indicador acompanhado pelos investidores para medir o prémio de risco atribuído à dívida francesa.

A Alemanha funciona como referência de menor risco dentro da Zona Euro. Quando o spread francês aumenta, o mercado está a exigir remuneração adicional para financiar Paris.

Segundo estrategas cambiais do Bank of America, cada aumento adicional de dez pontos base neste diferencial estaria associado, nas actuais condições de mercado, a uma queda aproximada de 0,4% no EUR/USD.

A preocupação decorre da combinação entre dívida pública elevada, dificuldades na consolidação orçamental e fragmentação política antes das eleições presidenciais francesas de 2027.

A Alemanha também introduz incerteza política. O Governo de Friedrich Merz enfrenta pressão depois dos recentes resultados eleitorais estaduais, num contexto em que reformas económicas e fiscais permanecem no centro da agenda.

Para o mercado cambial, estes desenvolvimentos acrescentam um prémio político à avaliação do euro.

US$ 1,12 Surge Entre os Cenários do Mercado

O comportamento futuro da moeda começa a produzir divergências entre os analistas.

Kaspar Hense, gestor sénior de carteira da RBC BlueBay Asset Management, considera que preços do gás europeu entre €85 e €100/MWh poderiam criar condições para o euro recuar para cerca de US$ 1,12.

O cenário reflecte essencialmente a deterioração dos termos de troca e o impacto de energia persistentemente cara sobre crescimento e inflação.

O ING mantém, entretanto, uma previsão de US$ 1,16 por euro no final do ano.

Francesco Pesole, estrategista cambial do banco, considera que uma subida do petróleo para aproximadamente US$ 115 por barril acrescentaria pressão sobre a moeda devido aos efeitos sobre o crescimento europeu.

A permanência de uma política monetária restritiva por parte do BCE poderia limitar a intensidade da desvalorização.

O mercado está, assim, a negociar duas forças concorrentes: energia e risco político pressionam o euro; juros mais elevados e resistência da economia oferecem suporte.

EUR/USD Torna-se Termómetro da Divergência Transatlântica

O EUR/USD funciona actualmente como uma síntese das diferenças económicas entre Estados Unidos e Zona Euro.

Nos Estados Unidos, crescimento robusto, inflação elevada, aumento das taxas da Fed e yields superiores a 5% em segmentos do mercado de Treasuries estão a aumentar a remuneração dos activos em dólares.

Na Europa, a actividade económica tem resistido, mas o novo choque energético afecta uma economia estruturalmente dependente de importações de petróleo e gás.

Esta assimetria ajuda a explicar por que uma subida dos preços energéticos pode fortalecer o dólar ao mesmo tempo que enfraquece o euro.

O dólar beneficia ainda da sua função de activo de refúgio em períodos de maior incerteza geopolítica.

A mesma crise produz, portanto, efeitos diferentes nas duas moedas.

Euro Mais Fraco Produz Efeitos Mistos na Economia Europeia

A desvalorização da moeda não produz exclusivamente efeitos negativos.

Um euro mais fraco torna produtos europeus relativamente mais baratos para compradores que operam em dólares, favorecendo algumas exportações e receitas externas das empresas.

O efeito oposto ocorre nas importações.

Petróleo, LNG e várias matérias-primas negociadas internacionalmente em dólares tornam-se mais caros em euros, amplificando o impacto doméstico da subida das commodities.

A combinação entre moeda mais fraca e energia mais cara cria um mecanismo de inflação importada.

Para o BCE, esta transmissão aumenta a complexidade da política monetária: taxas superiores podem apoiar o euro e conter inflação, mas também encarecem crédito e investimento numa economia que continua a crescer a ritmo moderado.

África Também Acompanha a Relação Euro-Dólar

A evolução do EUR/USD possui consequências fora das duas maiores áreas monetárias envolvidas.

Economias africanas mantêm relações comerciais, financeiras e de investimento com a Europa enquanto grande parte das commodities, combustíveis e dívida internacional continua denominada em dólares.

Alterações significativas entre as duas moedas podem, por isso, afectar custos de importação, receitas de exportação, financiamento e avaliação de contratos.

Para Moçambique, esta relação também é relevante.

A União Europeia permanece entre os principais parceiros económicos do País, enquanto combustíveis, matérias-primas e vários compromissos financeiros internacionais possuem exposição ao dólar.

Um dólar mais forte pode aumentar o custo em moeda local de determinadas importações e obrigações externas. Um euro mais fraco pode alterar simultaneamente a competitividade das exportações destinadas ao mercado europeu e o custo relativo de bens importados daquela região.

O efeito final varia segundo a moeda de facturação de cada transacção.

Energia Passa a Definir o Próximo Movimento do Euro

O comportamento do euro nas próximas semanas será determinado por uma combinação particularmente exigente de variáveis.

O mercado acompanhará os preços do gás europeu, petróleo, segurança das rotas energéticas do Médio Oriente, inflação, decisões do BCE e da Fed, yields norte-americanas e evolução do risco político francês.

O ponto de partida mudou significativamente em apenas algumas semanas: de uma moeda que se aproximava de US$ 1,20 em Agosto para um euro abaixo de US$ 1,14 no final de Setembro.

A economia europeia continua a apresentar resistência e o BCE mantém uma orientação monetária restritiva. O choque energético voltou, entretanto, a expor uma vulnerabilidade estrutural da região.

Com gás acima de €80/MWh, Brent próximo de US$ 107 e o diferencial entre a dívida francesa e alemã acima de 110 pontos base, o euro entra no último trimestre confrontado simultaneamente com energia cara, maior prémio de risco europeu e um dólar apoiado por juros e yields elevados nos Estados Unidos.

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