Moçambique possui costa, ilhas, biodiversidade e áreas de conservação capazes de sustentar uma indústria turística de maior dimensão, mas permanece fora do principal benchmark internacional do sector desde 2021; o TTDI 2026 mostra que transformar atractivos em investimento, receitas e emprego exige conectividade, infra-estruturas, serviços, capital humano, ambiente de negócios e capacidade institucional.

Questões-Chave:

  • Índice de Desenvolvimento de Viagens e Turismo 2026 do Fórum Económico Mundial avalia 110 economias através de 17 pilares e 102 indicadores;
  • Moçambique participou no anterior Índice de Competitividade de Viagens e Turismo em 2019, mas ficou fora das edições de 2021, 2024 e 2026;
  • Ausência do País significa falta de cobertura pelo TTDI e não corresponde a uma posição inferior às 110 economias classificadas;
  • Fórum Económico Mundial avalia ambiente de negócios, segurança, capital humano, conectividade, transportes, serviços turísticos, digitalização, recursos naturais e sustentabilidade;
  • Cerca de 92% das economias avaliadas melhoraram entre 2024 e 2026, enquanto a África Subsaariana registou o menor avanço regional, de 1,1%;
  • Turismo mundial alcançou 1,5 mil milhões de chegadas internacionais em 2025 e uma contribuição económica estimada em US$ 11,6 biliões;
  • Para Moçambique, a expansão do sector passa pela conversão dos recursos turísticos em produtos acessíveis, investíveis e integrados nas cadeias nacionais de produção e serviços.

Moçambique reúne algumas das características que poderiam conferir-lhe uma posição privilegiada no turismo internacional. A extensa costa do Índico, os arquipélagos, praias, biodiversidade terrestre e marinha, parques e reservas, património histórico e cultural e destinos como Bazaruto, Quirimbas, Ilha de Moçambique, Gorongosa, Niassa, Maputo e Ponta do Ouro formam uma base turística de reconhecido potencial.

São activos com capacidade para atrair visitantes, investimentos e actividades económicas.

O Índice de Desenvolvimento de Viagens e Turismo 2026 (TTDI), divulgado pelo Fórum Económico Mundial, coloca, porém, uma questão decisiva para economias com estas características: a competitividade turística resulta da capacidade de transformar recursos naturais e culturais em produtos acessíveis, comercializáveis e economicamente sustentáveis.

O novo índice avalia 110 economias através de 17 pilares e 102 indicadores, distribuídos por cinco grandes dimensões: ambiente facilitador; políticas e condições para o turismo; infra-estruturas e serviços; recursos turísticos; e sustentabilidade.

O TTDI avalia as condições que permitem ao turismo crescer, absorver choques e contribuir para o desenvolvimento económico. A metodologia incorpora variáveis relacionadas com ambiente de negócios, segurança, saúde, capital humano, mercado de trabalho, digitalização, abertura internacional, competitividade de preços, transportes, serviços turísticos, recursos naturais e culturais e sustentabilidade.

É precisamente neste mapa internacional da competitividade turística que Moçambique está ausente.

O País integrou o anterior Índice de Competitividade de Viagens e Turismo em 2019, mas ficou de fora quando o Fórum Económico Mundial lançou o TTDI referente a 2021. Permaneceu ausente na edição de 2024 e continua fora da cobertura em 2026.

Ausência Retira Moçambique Do Benchmark Internacional

A leitura deste dado exige precisão.

Moçambique não ocupa a 111.ª posição, nem os resultados permitem colocá-lo abaixo das 110 economias avaliadas. O País simplesmente não está classificado no TTDI 2026.

O Fórum Económico Mundial estabelece requisitos de cobertura relacionados com a participação no Executive Opinion Survey, disponibilidade suficiente de informação para os indicadores e actualidade dos dados. A metodologia determina a exclusão de economias quando determinados limites de informação em falta são ultrapassados.

O relatório não identifica especificamente qual destes critérios explica a ausência de Moçambique.

O facto objectivo é que o País permanece fora de um dos principais instrumentos internacionais utilizados para comparar as condições de desenvolvimento da actividade turística.

A questão possui relevância económica e institucional. Governos, empresas, investidores, consultoras e instituições financeiras recorrem a benchmarks internacionais para observar mercados, identificar fragilidades e acompanhar mudanças nas condições competitivas.

A ausência reduz a disponibilidade de uma referência internacional comparável sobre Moçambique precisamente numa altura em que o País procura ampliar a contribuição económica do turismo.

Zimbabwe Regressou Ao Índice

A experiência regional mostra que a ausência pode ser revertida.

O Zimbabwe, tal como Moçambique, integrou a edição de 2019 e ficou posteriormente fora do TTDI 2021. O país regressou à cobertura em 2024, enquanto Moçambique permaneceu ausente.

O caso coloca uma questão institucional relevante para o sector turístico nacional: que condições estatísticas, participação nos instrumentos internacionais e articulação entre instituições precisam de ser asseguradas para permitir o regresso de Moçambique ao índice?

A disponibilidade de informação consistente tem implicações que ultrapassam a elaboração de rankings. Dados permitem identificar tendências, avaliar políticas, comparar resultados, apoiar decisões empresariais e fornecer aos investidores uma leitura mais clara sobre a evolução de um mercado.

A capacidade de medir a competitividade constitui, neste sentido, parte da própria capacidade de a gerir.

Recursos Naturais Representam Uma Parte Da Equação

A estrutura do TTDI ajuda a compreender por que razão possuir praias, biodiversidade e património cultural não produz automaticamente uma indústria turística competitiva.

Os Recursos Naturais constituem um dos 17 pilares avaliados.

O turista precisa de conseguir chegar ao destino e deslocar-se com facilidade, encontrar ligações aéreas, aeroportos e estradas funcionais, transportes, alojamento e restauração adequados, comunicações e serviços financeiros e digitais, além de condições de segurança, assistência sanitária, operadores turísticos e profissionais qualificados.

É a articulação entre estes elementos que transforma um recurso natural ou cultural num produto turístico acessível e comercializável.

Do lado do investimento, hotéis, resorts, lodges, restaurantes, operadores e empresas de transporte precisam de condições para aplicar capital, contratar trabalhadores, obter licenças, adquirir bens e serviços, operar com previsibilidade e recuperar o investimento realizado.

O recurso turístico constitui, assim, o ponto de partida de uma cadeia económica muito mais extensa.

Turismo Mundial Alcança US$ 11,6 Biliões

A dimensão desta economia continua a crescer.

As chegadas internacionais atingiram 1,5 mil milhões em 2025, segundo dados apresentados pelo Fórum Económico Mundial, representando um crescimento de 5% relativamente a 2024 e de 4,4% face a 2019.

A contribuição económica total das viagens e turismo, considerando efeitos directos, indirectos e induzidos, alcançou aproximadamente US$ 11,6 biliões, estabelecendo também um máximo histórico.

O crescimento coloca a capacidade de capturar valor no centro das estratégias turísticas.

E a competição está a aumentar.

Entre 2024 e 2026, 101 das 110 economias avaliadas, equivalentes a 92% do total, melhoraram a sua pontuação no TTDI. A média global avançou 2,1%, o ritmo mais elevado desde 2019.

O Japão lidera a classificação de 2026, seguido pelos Estados Unidos, Espanha, Austrália, França, Alemanha, Reino Unido, China, Suíça e Itália.

A composição do topo do índice evidencia a importância das condições estruturais. Recursos naturais e culturais ganham maior capacidade de geração de valor quando estão associados a infra-estruturas, conectividade, serviços, tecnologia, competências e instituições capazes de sustentar a actividade turística.

África Subsaariana Avança 1,1%

Todas as regiões abrangidas pelo índice melhoraram entre 2024 e 2026, embora a ritmos distintos.

A Ásia-Pacífico registou um avanço médio de 3,6%, enquanto o Médio Oriente e Norte de África cresceram 2,5%. Europa e Eurásia avançaram 1,8% e as Américas 1,6%.

A África Subsaariana registou uma melhoria de 1,1%, o crescimento mais baixo entre as regiões avaliadas.

Os progressos regionais concentraram-se particularmente na preparação digital, prioridade atribuída ao turismo e recursos culturais.

A velocidade relativa assume especial importância num mercado internacional. Quando diferentes destinos competem pelo mesmo visitante e pelo mesmo capital, os ganhos de competitividade precisam de ser observados também em relação à evolução dos concorrentes.

Um viajante interessado em praia, natureza, safari ou património cultural pode comparar destinos em diferentes continentes antes de escolher onde gastar.

Os investidores realizam um exercício semelhante. A decisão de construir um resort, desenvolver um circuito turístico ou financiar uma infra-estrutura considera risco, retorno, conectividade, custos operacionais, fiscalidade, previsibilidade, dimensão da procura e qualidade das infra-estruturas em diferentes mercados.

Conectividade Converte Geografia Em Acesso

Para Moçambique, a relação entre geografia e acessibilidade constitui uma variável determinante.

O TTDI dedica pilares específicos à Infra-estrutura de Transporte Aéreo e à Infra-estrutura Terrestre e Portuária, reconhecendo o peso da conectividade na competitividade dos destinos.

No turismo, a distância económica é determinada pelo tempo necessário para chegar ao destino, frequência das ligações, preço da viagem e previsibilidade dos transportes.

Um destino geograficamente próximo de um mercado emissor pode permanecer comercialmente distante quando existem poucos voos, tarifas elevadas ou ligações deficientes. Uma conectividade eficiente produz o efeito inverso, aproximando mercados separados por milhares de quilómetros.

Para destinos dispersos ao longo de um território extenso como Moçambique, esta dimensão torna-se particularmente relevante. A capacidade de combinar transporte internacional com ligações domésticas eficientes influencia custos, duração das estadias, circulação entre destinos e viabilidade dos investimentos turísticos.

Digitalização Começa Antes Da Viagem

O TTDI 2026 revela igualmente uma transformação estrutural na relação entre turismo e tecnologia: 91% das economias avaliadas melhoraram no pilar de preparação para tecnologias de informação e comunicação.

A experiência turística tornou-se profundamente digital e começa, em muitos casos, antes da própria viagem. O visitante pesquisa destinos, compara preços, consulta vídeos e avaliações, escolhe alojamento, efectua reservas e pagamentos e utiliza ferramentas digitais para organizar a deslocação e orientar-se durante a estadia.

Depois da viagem, fotografias, vídeos, comentários e avaliações partilhados nas plataformas passam a influenciar as decisões de outros potenciais visitantes.

A inteligência artificial está a aprofundar esta transformação, alterando a forma como viajantes descobrem destinos, constroem itinerários, comparam alternativas e tomam decisões.

A competitividade turística passa, desta forma, pela capacidade de os destinos estarem presentes e serem facilmente encontrados, avaliados, reservados e pagos no ecossistema digital global.

Cada Turista Activa Uma Cadeia De Valor

A relevância económica do turismo também se manifesta através das actividades que a despesa dos visitantes consegue mobilizar.

Um hotel contrata trabalhadores e serviços de transporte, consome energia, compra alimentos, bebidas, mobiliário e equipamentos e necessita de manutenção, segurança, telecomunicações, serviços financeiros, tecnologia e entretenimento. Quando uma parcela significativa destes bens e serviços é fornecida por empresas nacionais, a despesa turística circula pela economia e gera rendimento em vários sectores.

É neste processo que o turismo pode contribuir para a transformação económica.

A agricultura e a pesca podem fornecer hotéis e restaurantes; a indústria pode produzir mobiliário, alimentos processados, bebidas e outros equipamentos; empresas de transportes movimentam visitantes e mercadorias; serviços financeiros processam pagamentos e financiam investimentos; pequenas e médias empresas podem integrar diferentes níveis da cadeia de fornecimento.

Quanto maior for a participação da produção nacional, maior tende a ser o efeito multiplicador da actividade turística.

Quando uma parcela elevada dos bens e serviços utilizados precisa de ser importada, parte do rendimento gerado pelo turismo regressa ao exterior através dessas aquisições.

A capacidade de desenvolver fornecedores nacionais torna-se, por isso, uma componente da estratégia de crescimento do sector.

Fragilidades Podem Identificar Mercados Por Desenvolver

A leitura económica das condições de competitividade também permite identificar oportunidades de investimento.

Uma oferta insuficiente de alojamento pode abrir espaço para hotéis e lodges, enquanto limitações de conectividade podem sustentar novas rotas e serviços de transporte. Défices de competências podem estimular investimento em formação profissional e uma digitalização ainda limitada pode criar oportunidades para plataformas de reservas, pagamentos e outros serviços tecnológicos.

Cadeias locais pouco desenvolvidas podem, por sua vez, criar mercados para agricultura, pesca, restauração, logística e pequenas empresas fornecedoras.

Neste sentido, o diagnóstico da competitividade turística possui duas funções complementares: identifica os factores que restringem o crescimento e permite localizar actividades onde existe espaço económico para novo capital.

A oportunidade efectiva dependerá da existência de procura, escala potencial e condições de retorno compatíveis com o risco assumido pelos investidores.

Da Promoção Do Destino À Construção Da Economia Turística

Promover um destino cria visibilidade e desperta interesse. Construir uma economia turística exige que essa visibilidade seja acompanhada por condições que permitam ao visitante chegar, permanecer, consumir, circular e regressar, enquanto as empresas encontram espaço para investir e crescer.

Os 17 pilares do TTDI captam precisamente esta interdependência.

Ambiente de negócios, segurança, saúde, capital humano, digitalização, prioridade atribuída ao sector, abertura internacional, competitividade de preços, transportes, infra-estruturas, serviços turísticos, recursos naturais e culturais e sustentabilidade integram a arquitectura económica que sustenta um destino.

Para Moçambique, a ambição de elevar a contribuição do turismo para a economia coloca esta arquitectura no centro da política sectorial.

A agenda envolve simultaneamente conectividade, investimento, qualificação profissional, serviços, infra-estruturas, digitalização, desenvolvimento empresarial, sustentabilidade e integração das cadeias locais.

O regresso aos instrumentos internacionais de benchmarking acrescentaria uma dimensão importante: permitiria medir estas condições, acompanhar a sua evolução e comparar o País com economias que disputam visitantes e investimento nos mesmos segmentos.

Ter Paraísos Não Basta

O TTDI 2026 deixa uma mensagem particularmente relevante para economias dotadas de importantes recursos turísticos.

O activo natural cria a possibilidade de desenvolvimento do sector. A transformação dessa possibilidade numa indústria resulta da qualidade da cadeia de infra-estruturas, transportes, alojamento, serviços, tecnologia, financiamento, competências e instituições construída à sua volta.

O processo continua depois da chegada do visitante. A contribuição do turismo para o desenvolvimento aumenta quando a despesa realizada durante a estadia circula pela economia nacional, compra bens e serviços produzidos localmente, remunera trabalhadores, integra pequenas e médias empresas nas cadeias de fornecimento e estimula novos investimentos.

Moçambique possui uma parte essencial desta equação: activos capazes de despertar o desejo de viajar.

A oportunidade económica reside na capacidade de os transformar em destinos acessíveis e competitivos, capazes de atrair investimento, aumentar a permanência e a despesa dos visitantes e estabelecer ligações cada vez mais fortes com a produção nacional.

Num mercado que alcançou 1,5 mil milhões de chegadas internacionais em 2025 e em que 92% das economias avaliadas continuam a melhorar as condições de competitividade, os recursos naturais oferecem uma vantagem inicial.

A criação de valor determina a dimensão económica que essa vantagem consegue alcançar.