Petróleo Acima de US$ 100: Custos Logísticos Redesenham a Formação dos Preços

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A recuperação das exportações do Médio Oriente e a libertação de 100 milhões de barris das reservas de emergência do G7 estão a aliviar as restrições de oferta, mas o Brent permanece acima de US$ 100 por barril. Fretes recorde, seguros mais caros, rotas comerciais mais longas e limitações na capacidade de refinação criaram uma estrutura de custos que mantém elevada a factura energética.

Questões-Chave:

  • Brent negociava nos US$ 101,59 por barril nesta segunda-feira, 5 de Outubro, enquanto o WTI recuava para US$ 90,12;
  • Exportações de crude através do Estreito de Hormuz chegaram a 14,2 milhões de barris por dia no final de Setembro, perto de 80% dos níveis anteriores à guerra;
  • G7 decidiu libertar 100 milhões de barris de crude e diesel das reservas de emergência;
  • Défice global de petróleo caiu de cerca de 4 milhões para 1,6 milhão de barris por dia, segundo a Energy Aspects;
  • Custo diário de um superpetroleiro entre o Médio Oriente e a Ásia ultrapassou US$ 1,2 milhão, contra cerca de US$ 30 mil em Janeiro;
  • Frete representa actualmente cerca de 27% do preço entregue de um barril, comparativamente a aproximadamente 3% anteriormente;
  • Limitações na capacidade de refinação no Médio Oriente e na Rússia acrescentam pressão sobre o diesel e os custos energéticos.

O mercado petrolífero internacional apresenta uma configuração pouco habitual: há mais crude a chegar ao mercado, as reservas estratégicas estão a ser mobilizadas e o défice global de oferta diminuiu significativamente, mas o Brent continua acima dos US$ 100 por barril.

Segundo dados da Reuters, na manhã desta segunda-feira, 5 de Outubro, os futuros do Brent recuavam 0,65%, para US$ 101,59 por barril, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) caía 1,03%, para US$ 90,12.

A descida ocorreu depois de os países do G7 terem acordado libertar 100 milhões de barris de diesel e crude das reservas de emergência e evitar restrições às exportações de energia. A decisão acrescenta oferta ao mercado num momento em que os fluxos provenientes do Médio Oriente também apresentam sinais de recuperação.

Dados de transporte marítimo citados pela Reuters indicam que as exportações de crude da região chegaram a ultrapassar os níveis anteriores à guerra em quatro dos sete dias da última semana de Setembro, apesar dos ataques contra embarcações que atravessam o Estreito de Hormuz.

A evolução da oferta, contudo, explica apenas uma parte da actual formação dos preços. Transporte, seguros, reorganização das rotas comerciais e limitações na capacidade de refinação ganharam peso na estrutura de custos da energia.

Hormuz Recupera Fluxos De 14,2 Milhões De Barris Por Dia

O Estreito de Hormuz permanece no centro da reorganização do comércio petrolífero mundial.

Segundo a Kpler, empresa especializada em dados e análise dos mercados de commodities, os fluxos de crude através da passagem atingiram uma média de 14,2 milhões de barris por dia em 26 de Setembro, equivalente a quase 80% dos níveis anteriores à guerra.

Os volumes efectivos podem ser superiores aos registados imediatamente pelos sistemas de monitorização. Vários petroleiros desligam os sistemas automáticos de identificação durante a travessia do estreito, dificultando a contabilização em tempo real das cargas.

A Arábia Saudita desempenha um papel determinante nesta recuperação. Depois de recorrer ao oleoduto East-West para encaminhar crude até ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho, o país voltou a transportar volumes crescentes através de Hormuz após ataques contra aquela infra-estrutura.

De acordo com a Kpler, as exportações sauditas através do estreito atingiram aproximadamente 3 milhões de barris por dia em Setembro, o nível mais elevado desde o início do conflito, embora ainda representassem cerca de metade dos volumes anteriores à guerra.

Esta recuperação contribuiu para reduzir substancialmente o desequilíbrio físico do mercado. A consultora Energy Aspects estima que o défice global tenha diminuído para aproximadamente 1,6 milhão de barris por dia, depois de ter alcançado cerca de 4 milhões de barris por dia no auge das perturbações, em Maio.

Em condições normais, uma redução desta magnitude exerceria pressão significativa sobre as cotações. O Brent, porém, permanece mais de 40% acima dos níveis anteriores à guerra.

Fretes Ganham Peso Na Formação Do Preço

A logística ajuda a explicar a resistência das cotações.

Durante décadas, a indústria petrolífera desenvolveu uma rede altamente optimizada para transportar grandes quantidades de crude e derivados entre produtores, refinarias e consumidores ao menor custo possível. Os conflitos no Médio Oriente e na Europa de Leste alteraram esta configuração.

Rotas mais longas, escassez de navios disponíveis, operações adicionais de transferência de carga, prémios de seguro elevados e limitações na refinação criaram estrangulamentos em vários pontos da cadeia internacional de energia.

A dimensão do aumento dos custos é expressiva.

Segundo a corretora marítima Poten & Partners, as tarifas para transportar crude do Médio Oriente para a Ásia num Very Large Crude Carrier (VLCC) ultrapassaram recentemente US$ 1,2 milhão por dia. Em Janeiro, o mesmo indicador rondava US$ 30 mil.

O custo diário aumentou, assim, cerca de 40 vezes.

Consequentemente, o frete, que anteriormente representava aproximadamente 3% do preço entregue de um barril, passou a representar cerca de 27%.

Esta alteração significa que a cotação internacional do crude explica uma parcela menor do custo económico total da energia entregue ao comprador. Distância entre produtor e consumidor, disponibilidade de navios, risco das rotas utilizadas e prémios de seguro assumiram uma influência significativamente superior.

Novas Rotas Absorvem Capacidade De Transporte

A reorganização dos fluxos está igualmente a consumir mais capacidade marítima.

Segundo a análise da Reuters, determinadas operações no Golfo passaram a exigir vários navios para movimentar crude através de Hormuz até ao Golfo de Omã, onde as cargas podem ser transferidas antes de seguirem para os compradores asiáticos.

Paralelamente, compradores asiáticos estão a adquirir mais crude proveniente da Bacia do Atlântico. As distâncias superiores prolongam o período durante o qual cada petroleiro permanece ocupado e reduzem a disponibilidade global de embarcações.

Surge daí uma dinâmica particularmente relevante para a evolução das cotações: uma recuperação adicional das exportações através de Hormuz pode aumentar, numa primeira fase, a pressão sobre os fretes, colocando volumes adicionais numa rede logística que continua condicionada.

O aumento da disponibilidade física de petróleo pode, portanto, coexistir com custos elevados de entrega.

Refinação Mantém Pressão Sobre Diesel E Crude

A capacidade de transformar crude em combustíveis constitui outra restrição importante.

A Reuters assinala que instalações de refinação no Médio Oriente foram afectadas pelo conflito, enquanto ataques ucranianos contra refinarias russas reduziram capacidade adicional. O impacto é particularmente relevante no mercado de diesel, combustível utilizado extensivamente na indústria, agricultura, transporte e manufactura.

A libertação de diesel das reservas estratégicas do G7 pode proporcionar algum alívio imediato, mas não repõe a capacidade industrial perdida.

Existe ainda uma pressão sobre determinadas qualidades de petróleo. As refinarias competem por crude médio com maior teor de enxofre, adequado à obtenção de rendimentos superiores de diesel. Parte significativa desses barris encontra-se no Médio Oriente e na Rússia, precisamente as regiões onde persistem perturbações relevantes.

Forma-se, assim, um mecanismo de transmissão entre capacidade industrial e preços: limitações na refinação pressionam o diesel; preços elevados do diesel aumentam a procura pelas qualidades de crude adequadas à sua produção; e essa procura contribui para sustentar as cotações do petróleo.

G7 Coloca 100 Milhões De Barris No Mercado

A decisão do G7 de colocar 100 milhões de barris de crude e diesel provenientes das reservas de emergência procura aliviar as pressões imediatas sobre o mercado.

Segundo a Reuters, o anúncio contribuiu para a descida das cotações nesta segunda-feira, compensando parcialmente o prémio associado ao risco de interrupção das exportações do Golfo. A recuperação dos volumes provenientes da Arábia Saudita reforçou esse movimento.

Persistem, contudo, factores de instabilidade.

Analistas do ING assinalam que o Brent permanece acima dos US$ 100 devido às tensões geopolíticas e ao aumento dos ataques contra embarcações comerciais no Golfo.

A Saudi Aramco reduziu, entretanto, os preços do crude destinado à Ásia para Novembro para mínimos de seis anos, numa decisão que acrescenta outro sinal de ajustamento das condições de oferta.

A OPEP+ adiou igualmente a revisão destinada a estabelecer as quotas de produção dos seus membros para 2027. Segundo fontes próximas do processo citadas pela Reuters, a guerra afectou projectos de expansão da capacidade no Médio Oriente e tornou mais incertas as estimativas sobre o potencial futuro de produção.

Economias Importadoras Enfrentam Custos Adicionais

A nova configuração tem implicações importantes para as economias dependentes da importação de combustíveis.

Uma descida da cotação internacional do crude pode deixar de produzir, com a mesma intensidade e velocidade, uma redução equivalente no custo de importação. Frete, seguros, disponibilidade de navios, localização das refinarias e características dos produtos transportados passaram a representar uma parcela superior da factura.

Para economias africanas importadoras líquidas de produtos petrolíferos, esta estrutura pode prolongar pressões sobre os custos de transporte, produção agrícola, indústria e logística, com possíveis efeitos sobre os preços internos.

O comportamento do petróleo nas próximas semanas será influenciado pela evolução de duas variáveis centrais. A primeira é a disponibilidade física de crude, que apresenta sinais de recuperação. A segunda reside na capacidade do sistema internacional de transportar, segurar e refinar esses barris a custos próximos dos padrões anteriores às actuais perturbações.

Os dados disponíveis mostram que o equilíbrio entre oferta e procura de crude deixou de explicar sozinho a trajectória dos preços. A logística e a capacidade de transformação industrial ganharam peso suficiente para manter a energia cara mesmo num mercado onde a disponibilidade física de petróleo começa a melhorar.