AIE Acelera Libertação de Mais de 20 Milhões de Barris de Gasóleo, Mas Escassez Pode Persistir Até 2027

0
103
  • A Agência Internacional de Energia decidiu antecipar a disponibilização de reservas estratégicas para conter a escalada dos preços dos combustíveis, num mercado condicionado pelos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia. A medida poderá aliviar as dificuldades de abastecimento, embora as restrições estruturais à oferta continuem a ameaçar a inflação e a actividade económica global.
Questões-Chave:
  • A Agência Internacional de Energia (AIE) decidiu acelerar a libertação de mais de 20 milhões de barris de gasóleo, no âmbito da maior operação coordenada de reservas petrolíferas da sua história;
  • Cerca de 330 milhões de barris já foram disponibilizados desde Março, estando prevista a libertação de aproximadamente mais 100 milhões;
  • As perturbações no Médio Oriente e na Rússia reduziram significativamente a oferta internacional de gasóleo, provocando preços historicamente elevados;
  • A AIE antecipa que as dificuldades de abastecimento poderão prolongar-se até 2027, apesar da recuperação prevista da actividade de refinação;
  • Moçambique permanece vulnerável à volatilidade internacional, com o gasóleo a representar a maior parcela da factura nacional de importação de combustíveis.

A Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou, na quinta-feira, 15 de Outubro, a decisão de acelerar a libertação de reservas estratégicas de petróleo e derivados, incluindo mais de 20 milhões de barris de gasóleo, numa intervenção destinada a aliviar as dificuldades de abastecimento e conter a subida dos preços internacionais dos combustíveis.

A decisão foi adoptada pelo Conselho de Administração da organização, que reúne 32 países membros, na sequência do agravamento das perturbações no comércio energético internacional provocadas pela guerra no Médio Oriente e pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

Segundo a Reuters, o anúncio surge num contexto de forte pressão sobre os governos das economias industrializadas, confrontados com preços elevados do gasóleo, aceleração dos custos de transporte e riscos crescentes para a inflação e o poder de compra das famílias.

A intervenção integra a operação extraordinária anunciada em Março de 2026, quando os países membros da AIE assumiram o compromisso de disponibilizar 400 milhões de barris de petróleo e produtos refinados, em resposta à crise desencadeada pelas perturbações no Estreito de Ormuz. 

Reservas Estratégicas: Cerca de 100 Milhões de Barris Ainda Por Libertar

A dimensão da intervenção confirma a gravidade das dificuldades enfrentadas pelo mercado energético internacional.

De acordo com a AIE, aproximadamente 330 milhões de barris foram disponibilizados desde Março, enquanto cerca de 100 milhões permanecem abrangidos pelos compromissos de libertação ainda por executar.

O volume final deverá ultrapassar os 400 milhões de barris inicialmente anunciados, considerando que alguns países já libertaram quantidades superiores às previstas e outros manifestaram disponibilidade para ampliar as respectivas contribuições.

A Espanha, por exemplo, anunciou que disponibilizará 4,4 milhões de barris das suas reservas estratégicas durante Outubro, depois de ter libertado 3,7 milhões dos 11,5 milhões de barris inicialmente comprometidos.

Contudo, a decisão da AIE não corresponde necessariamente à entrada de volumes adicionais relativamente aos compromissos já assumidos. Uma parte importante da intervenção consiste na antecipação das libertações previstas.

Abhishek Kumar, analista da Sparta Commodities, citado pela Reuters, considera que a medida representa um avanço, mas deixa por esclarecer aspectos importantes sobre a quantidade efectiva de oferta adicional que chegará ao mercado.

Esta distinção assume particular importância na avaliação da capacidade da intervenção para influenciar os preços. A antecipação de reservas aumenta a disponibilidade imediata de combustíveis, mas não resolve as restrições de produção, refinação e transporte que condicionam o abastecimento internacional. 

Crise Do Gasóleo Reflecte Perdas de Oferta e Limitações Na Refinação

Os dados divulgados pela AIE no seu relatório mensal de Outubro, publicado a 14 de Outubro, ajudam a compreender a dimensão das dificuldades.

Em Setembro, as exportações globais de gasóleo registaram uma redução homóloga de aproximadamente 700 mil barris por dia, reflectindo sobretudo perdas de 1,3 milhões de barris diários provenientes da Rússia e do Médio Oriente, parcialmente compensadas pelo aumento da oferta noutras regiões.

O impacto nos preços foi particularmente expressivo. Durante Setembro, as cotações internacionais do gasóleo ultrapassaram os US$ 200 por barril em Singapura e atingiram aproximadamente US$ 220 por barril nos mercados europeu e norte-americano.

A recuperação parcial observada posteriormente não eliminou as dificuldades de abastecimento. Segundo a AIE, os preços de referência do gasóleo permanecem próximos do dobro dos níveis anteriores à crise e substancialmente acima das cotações do petróleo bruto.

Esta divergência reflecte limitações da capacidade de refinação e da disponibilidade internacional de produtos acabados. Mesmo quando existe petróleo bruto disponível, as refinarias nem sempre conseguem transformá-lo em gasóleo nas quantidades e localizações exigidas pelo mercado.

A situação é agravada pelo aumento dos custos de transporte marítimo, pelos riscos associados às principais rotas comerciais e pelas perturbações nas infra-estruturas energéticas dos países produtores.

No seu cenário central, a AIE admite uma recuperação da produção das refinarias durante o último trimestre de 2026. Contudo, considera que os défices acumulados ao longo do ano poderão manter o mercado de gasóleo relativamente restrito durante uma parte significativa de 2027. 

Preços Elevados Prolongam Riscos Inflacionistas e Custos Empresariais

O comportamento do mercado de gasóleo tem implicações particularmente importantes para a economia mundial, devido à utilização generalizada deste combustível no transporte rodoviário de mercadorias, na agricultura, na indústria, na mineração e em diversas actividades logísticas.

Ao contrário de outros produtos petrolíferos, cuja procura pode responder mais rapidamente a alterações de preços, o consumo de gasóleo apresenta uma elasticidade relativamente reduzida no curto prazo.

As empresas de transporte, os operadores industriais e os produtores agrícolas dispõem frequentemente de poucas alternativas imediatas para substituir o combustível, sendo obrigados a absorver o aumento dos custos ou a transferi-lo, total ou parcialmente, para os preços finais dos bens e serviços.

A AIE estima que a procura mundial de petróleo deverá diminuir, em média, 2,6 milhões de barris por dia em 2026, reflectindo o efeito combinado dos preços elevados, das restrições de disponibilidade e do enfraquecimento da actividade económica.

A redução do consumo, porém, não elimina automaticamente as dificuldades de abastecimento. A persistência de constrangimentos na oferta e a diminuição dos inventários mantêm os mercados vulneráveis a novos episódios de volatilidade.

As perspectivas para 2027 contemplam uma recuperação parcial da procura petrolífera mundial, mas a normalização do mercado de gasóleo continuará condicionada pela reposição da capacidade produtiva, recuperação das exportações e recomposição dos inventários comerciais. 

IEA

Moçambique: Gasóleo Continua a Pesar Na Factura Energética e Nos Custos de Produção

A evolução do mercado internacional de gasóleo assume especial relevância para Moçambique, cuja economia depende largamente da importação de combustíveis refinados.

Dados do Banco de Moçambique indicam que a factura nacional de importação de combustíveis atingiu aproximadamente US$ 1,142 mil milhões em 2025, dos quais US$ 771,6 milhões corresponderam ao gasóleo.

O produto representou, assim, cerca de 68% da despesa nacional com a importação de combustíveis, evidenciando a sua importância na estrutura energética e produtiva do País.

No primeiro trimestre de 2026, as importações de combustíveis totalizaram US$ 236,4 milhões, incluindo US$ 164,9 milhões relativos ao gasóleo, segundo as estatísticas divulgadas pelo banco central. 

A pressão internacional já se reflectiu nos preços internos. Segundo a Autoridade Reguladora de Energia (ARENE), o preço de venda ao público do gasóleo passou de 79,88 para 116,25 meticais por litro, um aumento de aproximadamente 45,5%, em vigor desde 7 de Maio de 2026.

O encarecimento deste combustível afecta directamente as operações de transporte rodoviário, a distribuição de mercadorias, os serviços logísticos, a produção agrícola mecanizada e diferentes actividades industriais.

A subida dos custos operacionais tende a repercutir-se nos preços dos produtos alimentares, materiais de construção e outros bens de consumo, ampliando os riscos inflacionistas e reduzindo as margens de rentabilidade empresarial.

A dependência de importações introduz ainda uma dimensão cambial. O encarecimento dos derivados petrolíferos eleva as necessidades de divisas para financiar as aquisições externas e pode agravar as dificuldades de financiamento das importações, sobretudo em períodos de menor disponibilidade de moeda estrangeira.

Uma descida sustentada das cotações internacionais permitiria aliviar parte destas pressões, embora os benefícios para o mercado doméstico estejam associados à evolução dos custos de aquisição, transporte, câmbio e mecanismos de formação dos preços internos. 

A Intervenção da AIE Alivia o Mercado, Mas Não Elimina os Riscos de 2027

A decisão de acelerar a libertação de reservas estratégicas surge num momento em que o mercado petrolífero enfrenta uma combinação particularmente complexa de riscos geopolíticos, restrições produtivas e perturbações comerciais.

A disponibilização antecipada de gasóleo poderá reduzir dificuldades imediatas de abastecimento e moderar movimentos especulativos nos preços internacionais. A sua eficácia, contudo, estará associada à rapidez das entregas, à distribuição geográfica dos volumes e à evolução da produção de derivados.

A própria AIE reconhece que a recuperação da actividade das refinarias prevista para os próximos meses poderá revelar-se insuficiente para compensar a redução dos inventários acumulada ao longo de 2026.

O relatório de Outubro indica que, mesmo com uma melhoria dos balanços de oferta no início de 2027, a reposição dos stocks deverá ocorrer de forma gradual, mantendo condições relativamente restritivas no mercado internacional de gasóleo.

A duração dos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia, a segurança das rotas marítimas, a recuperação das exportações russas e a evolução das actividades de refinação continuarão a influenciar as perspectivas de preços.

Neste ambiente, países importadores como Moçambique enfrentam a necessidade de gerir simultaneamente os riscos de abastecimento, a volatilidade cambial e a transmissão dos custos energéticos à actividade produtiva.

A intervenção coordenada da AIE oferece uma margem de estabilização no curto prazo. Os seus efeitos mais duradouros estarão associados à recuperação efectiva da oferta internacional de combustíveis, num mercado em que os desequilíbrios acumulados durante 2026 poderão continuar a condicionar os preços, a inflação e o crescimento económico ao longo de 2027.

O.ECONÓMICO
Informação em tempo real
Fique a par.
Esteja à frente.
Acompanhe os principais acontecimentos económicos nacionais, regionais, continentais e internacionais aceda à informações certas e no momento certo e tome as melhores decisões..
◉ CONECTE-SE AO NOSSO WHATSAPP →
Informação que faz a diferença.
O.ECONÓMICO • Informação para decidir melhor