Sidi Ould Tah, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento

AfDB Propõe Nova Arquitectura Financeira Para África Enfrentar Défice Anual de US$ 400 Mil Milhões

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Presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Sidi Ould Tah, considera que a fragmentação institucional e a morosidade dos mecanismos de financiamento estão a limitar a expansão das empresas, a criação de emprego e o investimento produtivo. Nova iniciativa pretende mobilizar capitais africanos, melhorar a partilha de riscos e acelerar o financiamento à economia real.

Questões-Chave:

  • Défice de financiamento: África enfrenta necessidades anuais de financiamento ao desenvolvimento estimadas em US$ 400 mil milhões, segundo o AfDB;
  • Nova arquitectura financeira: Iniciativa NAFAD pretende melhorar a coordenação entre instituições financeiras nacionais, regionais e continentais;
  • Financiamento empresarial: AfDB identifica a morosidade dos processos e a fragmentação institucional como obstáculos ao crescimento das empresas, particularmente das PMEs;
  • Mobilização de capital: AfDB e IFC iniciaram discussões conjuntas com fundos soberanos e investidores institucionais para canalizar recursos de longo prazo à economia produtiva;
  • Reformas e investimento: IFC propõe conselhos nacionais do sector privado para identificar constrangimentos regulatórios e apoiar a implementação de reformas;
  • Dividendo demográfico: Presidente do AfDB alerta que o crescimento da população activa só produzirá benefícios económicos com investimentos em educação, competências e emprego.

África Precisa de Uma Nova Organização do Financiamento ao Desenvolvimento

O Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB, sigla em inglês) apresentou uma proposta de reorganização da arquitectura financeira africana, destinada a melhorar a mobilização de capitais, acelerar o financiamento das empresas e ampliar os recursos disponíveis para o investimento produtivo, num continente que enfrenta necessidades anuais de financiamento ao desenvolvimento estimadas em US$ 400 mil milhões.

A iniciativa, denominada Nova Arquitectura Financeira Africana para o Desenvolvimento (NAFAD), foi apresentada pelo presidente do Grupo AfDB, Sidi Ould Tah, durante a abertura da Africa Financial Summit (AFIS 2026), realizada a 3 de Novembro, em Luanda, Angola.

A proposta parte do reconhecimento de que África dispõe de instituições financeiras, mercados de capitais, fundos de pensões e outros investidores institucionais com recursos significativos, mas continua a enfrentar dificuldades na transformação dessa capacidade financeira em investimentos produtivos, expansão empresarial e criação de emprego.

Segundo Ould Tah, a fragmentação dos mecanismos de financiamento e a reduzida articulação entre instituições constituem factores que limitam a capacidade de resposta às necessidades económicas do continente.

“Para que a força financeira do continente se traduza em poder económico, as instituições financeiras africanas devem acompanhar o ritmo das empresas que servem”, afirmou o presidente do AfDB.

A declaração sintetiza a principal preocupação apresentada pelo dirigente: a existência de um desfasamento entre os processos institucionais de financiamento e os ciclos operacionais das empresas, cujas necessidades de capital são frequentemente determinadas por prazos comerciais mais curtos.

A nova arquitectura pretende criar mecanismos de cooperação entre bancos de desenvolvimento, instituições financeiras nacionais, investidores privados e outros agentes do mercado, permitindo melhorar a distribuição dos riscos e acelerar a canalização de recursos para sectores produtivos.

Défice de US$ 400 Mil Milhões Contrasta Com Recursos Financeiros Disponíveis

A dimensão das necessidades de financiamento constitui um dos principais fundamentos económicos da iniciativa.

Segundo o AfDB, o continente enfrenta um défice anual de financiamento ao desenvolvimento estimado em US$ 400 mil milhões, associado às necessidades de investimento em infra-estruturas, industrialização, energia, agricultura e outros sectores fundamentais para o crescimento económico.

O presidente do AfDB tem igualmente destacado que África dispõe de mais de US$ 4 biliões em poupanças e activos financeiros domésticos, distribuídos por bancos, fundos de pensões, seguradoras, fundos soberanos e outras instituições.

A existência destes recursos, contudo, não significa que estejam integralmente disponíveis para financiar projectos de desenvolvimento.

Ould Tah advertiu contra a interpretação dos activos financeiros africanos como uma reserva de liquidez que pode ser livremente mobilizada.

Estes recursos, salientou, possuem diferentes proprietários, obrigações e horizontes de investimento, exigindo instrumentos financeiros compatíveis com as responsabilidades e os perfis de risco de cada instituição.

A distinção assume importância para a estruturação da NAFAD, uma vez que a mobilização de capital de longo prazo exige condições de rentabilidade, segurança e gestão de riscos capazes de atrair investidores institucionais.

Os fundos de pensões, por exemplo, possuem obrigações futuras perante os seus beneficiários, enquanto as seguradoras devem preservar capacidade financeira para responder aos riscos assumidos.

A mobilização destes recursos para infra-estruturas e actividades produtivas exige, por conseguinte, instrumentos de investimento adequados e mecanismos que permitam distribuir os riscos entre diferentes participantes.

A nova arquitectura pretende actuar precisamente nesta dimensão, procurando melhorar a articulação entre instituições, instrumentos financeiros e oportunidades de investimento.

Morosidade do Financiamento Está a Comprometer Oportunidades de Negócio

Uma das críticas mais relevantes apresentadas por Sidi Ould Tah incidiu sobre a diferença entre o funcionamento das instituições financeiras e as necessidades operacionais das empresas.

Segundo o presidente do AfDB, os bancos e as instituições de financiamento ao desenvolvimento trabalham frequentemente com ciclos de aprovação, requisitos administrativos e procedimentos internos que não acompanham a dinâmica dos negócios.

As empresas, por seu turno, dependem de prazos associados à produção, cumprimento de encomendas, disponibilidade de matérias-primas, gestão de tesouraria e retenção de trabalhadores.

Quando o financiamento chega depois do período em que poderia ser utilizado, as oportunidades comerciais podem desaparecer e os investimentos deixar de ser realizados.

Ould Tah considerou que esta incompatibilidade contribui para a perda de oportunidades económicas, particularmente entre pequenas e médias empresas com menor capacidade de suportar atrasos prolongados.

A fragmentação institucional representa um problema adicional.

Na sua avaliação, diferentes instituições podem cumprir individualmente os respectivos mandatos sem que a sua actuação produza resultados económicos coordenados.

As consequências podem traduzir-se em empregos que não chegam a ser criados, agricultores que não conseguem aceder aos mercados e economias que continuam a importar produtos com potencial para serem fabricados localmente.

O presidente do AfDB apelou, por isso, à simplificação dos procedimentos, melhoria da coordenação operacional e desenvolvimento de instrumentos financeiros mais ajustados às necessidades empresariais.

NAFAD Pretende Aproximar Instituições Financeiras e Investimento Produtivo

A Nova Arquitectura Financeira Africana para o Desenvolvimento foi concebida como um quadro de coordenação entre instituições nacionais, regionais e continentais.

A iniciativa assenta nos princípios da subsidiariedade e complementaridade, procurando assegurar que cada instituição actue dentro das suas competências, mas desenvolva mecanismos de colaboração nas áreas em que as respectivas intervenções se cruzam.

O objectivo consiste em melhorar a mobilização de capital, distribuir riscos e fortalecer o financiamento a sectores como agricultura, indústria transformadora, energia e infra-estruturas.

A proposta contempla instrumentos de partilha de risco, garantias financeiras e mecanismos capazes de melhorar as condições de financiamento de projectos considerados economicamente viáveis.

Através desta articulação, o AfDB pretende contribuir para aumentar a participação de capital privado em actividades que exigem investimentos elevados e períodos de recuperação prolongados.

A preparação dos projectos constitui outra componente importante da estratégia.

Em numerosos sectores, a mobilização de financiamento está associada à existência de estudos técnicos, modelos comerciais, estruturas contratuais e mecanismos de mitigação de riscos suficientemente desenvolvidos para permitir decisões de investimento.

A NAFAD pretende melhorar a articulação entre estas diferentes etapas, desde a identificação das oportunidades até à estruturação financeira e implementação dos investimentos.

No âmbito da AFIS 2026, o AfDB organizou uma sessão dedicada à aplicação da nova arquitectura à economia real, com particular atenção à mobilização de capital, preparação de projectos e aceleração da sua implementação.

Fonte: Banco Africano de Desenvolvimento (afdb.org).

AfDB e IFC Avançam Com Discussões Para Mobilizar Fundos Soberanos

A cooperação entre instituições financeiras internacionais e africanas constitui uma componente central da nova estratégia.

Durante a cimeira, Makhtar Diop, director-geral da Corporação Financeira Internacional (IFC), revelou que a instituição está a desenvolver iniciativas conjuntas com o AfDB, o Afreximbank e o Banco de Desenvolvimento da África Austral (DBSA).

Entre os trabalhos em curso encontram-se discussões conjuntas entre o AfDB, a IFC, fundos soberanos africanos e investidores institucionais, destinadas a mobilizar recursos de longo prazo para actividades produtivas.

Estas iniciativas procuram ampliar a participação de investidores com capacidade para financiar projectos de maior dimensão, particularmente nos sectores de infra-estruturas e desenvolvimento empresarial.

A utilização de instrumentos de mitigação de risco poderá desempenhar um papel relevante na atracção destes recursos.

A IFC e os bancos de desenvolvimento podem contribuir para melhorar a estruturação dos investimentos, disponibilizar financiamento complementar e desenvolver mecanismos que reduzam determinados riscos assumidos pelos investidores privados.

Contudo, as discussões anunciadas não correspondem ainda a compromissos financeiros concretos.

O AfDB e a IFC não divulgaram, nesta ocasião, montantes específicos de capital mobilizado através das negociações com fundos soberanos.

IFC Propõe Conselhos Nacionais do Sector Privado Para Acelerar Reformas

Outra proposta apresentada durante a cimeira diz respeito à criação de conselhos nacionais do sector privado, destinados a identificar constrangimentos ao investimento e apoiar os governos na implementação de reformas económicas.

A iniciativa foi avançada por Makhtar Diop, que considera necessário estabelecer mecanismos permanentes de diálogo entre empresários, instituições financeiras e autoridades públicas.

Os conselhos poderão contribuir para identificar obstáculos regulatórios, dificuldades administrativas e reformas necessárias à melhoria do ambiente de negócios.

A proposta procura aproximar as decisões de política económica das necessidades concretas das empresas, particularmente nos sectores em que a complexidade dos procedimentos limita o investimento.

A criação destes mecanismos poderá igualmente melhorar a articulação entre financiamento ao desenvolvimento e reformas institucionais, permitindo que os recursos mobilizados sejam acompanhados por condições mais favoráveis à implementação dos projectos.

A proposta encontra-se, entretanto, numa fase de discussão, não tendo sido anunciados compromissos de criação destes órgãos em países específicos.

Angola Destaca Papel das Instituições Financeiras na Transformação Económica

O Ministro de Estado para a Coordenação Económica de Angola, José de Lima Massano, destacou a importância de fortalecer a capacidade das instituições financeiras africanas para mobilizar recursos e apoiar o desenvolvimento económico.

Segundo o governante, a transformação económica exige sistemas financeiros mais profundos, eficientes e capazes de responder às necessidades de investimento.

“As instituições são multiplicadoras de capital, catalisadoras do investimento e parceiros fundamentais da transformação económica”, afirmou Massano, referindo-se às instituições financeiras multilaterais africanas.

O responsável destacou igualmente a necessidade de melhorar a articulação entre as instituições de financiamento ao desenvolvimento e os sistemas financeiros nacionais.

Esta dimensão assume relevância para a mobilização de poupanças domésticas e a sua transformação em financiamento de actividades produtivas.

A existência de instituições financeiras sólidas constitui uma condição importante, mas a sua contribuição económica está também associada à capacidade de canalizar recursos para empresas e projectos que gerem actividade, rendimento e emprego.

A realização da AFIS 2026 em Luanda, nos dias 3 e 4 de Novembro, reuniu responsáveis de instituições financeiras, governos, bancos de desenvolvimento e investidores, num debate dedicado à transformação da capacidade financeira do continente em investimento produtivo.

Dividendo Demográfico Exige Investimento em Educação e Emprego

O presidente do AfDB abordou igualmente a relação entre a expansão da população africana em idade activa e a capacidade das economias para gerar oportunidades produtivas.

Sidi Ould Tah advertiu que o dividendo demográfico não deve ser considerado um benefício económico automaticamente assegurado pelo crescimento populacional.

“Temos de conquistá-lo”, afirmou, ao destacar a necessidade de investimentos em educação, desenvolvimento de competências e criação de emprego produtivo.

A observação reflecte a preocupação com a capacidade das economias africanas para absorver o crescimento da população activa e transformar o seu potencial em maior produtividade.

Segundo o dirigente, a expansão da força de trabalho constitui uma oportunidade económica que exige empresas capazes de investir, crescer e contratar trabalhadores.

A disponibilidade de financiamento assume, neste contexto, uma importância directa para o desenvolvimento empresarial.

Sem mecanismos de financiamento adequados, a capacidade das empresas para expandir a produção e criar emprego pode permanecer limitada, reduzindo os benefícios económicos associados à evolução demográfica.

A nova arquitectura financeira pretende contribuir para superar parte destes constrangimentos através de uma maior canalização de capital para actividades produtivas.

AfDB Anuncia Simplificação dos Seus Próprios Procedimentos

Para acompanhar as orientações da NAFAD, o Banco Africano de Desenvolvimento anunciou medidas de simplificação e modernização dos seus procedimentos internos.

Segundo Sidi Ould Tah, a instituição está a rever os processos de financiamento para melhorar a transparência, a previsibilidade e a clareza das responsabilidades.

As mudanças pretendem assegurar que os clientes conheçam antecipadamente os requisitos necessários, as entidades responsáveis por cada etapa e os prazos esperados para a tomada de decisões.

A iniciativa responde às críticas relativas à morosidade dos mecanismos institucionais de financiamento e à necessidade de melhorar a capacidade de resposta aos projectos.

O presidente do AfDB considerou que a instituição deve ser avaliada pelos resultados concretos que consegue proporcionar, tanto na implementação dos investimentos como na melhoria das condições de vida das populações.

Esta orientação estabelece uma ligação entre eficiência administrativa, execução financeira e resultados económicos.

A simplificação dos processos poderá melhorar as condições de acesso ao financiamento, embora os efeitos efectivos das reformas dependam da sua implementação e dos procedimentos específicos que venham a ser alterados.

Nova Arquitectura Financeira Procura Transformar Capital Africano em Crescimento Económico

A proposta apresentada pelo Banco Africano de Desenvolvimento representa uma tentativa de responder a um dos principais desequilíbrios financeiros do continente: a coexistência de recursos financeiros significativos com necessidades elevadas de investimento produtivo.

A NAFAD pretende melhorar a forma como as instituições coordenam as suas intervenções, mobilizam poupanças, distribuem riscos e disponibilizam financiamento às empresas.

O envolvimento da IFC, do Afreximbank, do DBSA e de investidores institucionais poderá contribuir para desenvolver mecanismos de financiamento mais diversificados, particularmente para projectos que exigem capital de longo prazo.

As propostas apresentadas incluem igualmente intervenções sobre o funcionamento das instituições, preparação de projectos e melhoria das relações entre o sector privado e as autoridades públicas.

O défice anual de financiamento estimado em US$ 400 mil milhões demonstra a dimensão das necessidades de desenvolvimento africanas, mas a sua redução exige combinar mobilização de capital, preparação de investimentos e capacidade institucional de implementação.

A eficácia da nova arquitectura poderá ser acompanhada através de indicadores como o volume de capital privado mobilizado, a redução dos prazos de financiamento, o número de projectos financiados e a expansão dos investimentos em sectores produtivos.

A abordagem apresentada em Luanda atribui, assim, maior importância à coordenação do sistema financeiro e à capacidade das instituições para responder às exigências da actividade empresarial.

O principal compromisso anunciado consiste em aproximar os recursos disponíveis das oportunidades de investimento, criando condições para que as instituições financeiras africanas desempenhem um papel mais activo na expansão da economia real.