África Mantém Crescimento Robusto Apesar Da Turbulência Global, Mas BAD Alerta Para Défice Anual De Financiamento Superior A 1,3 Biliões De Dólares

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  • Relatório do Banco Africano de Desenvolvimento prevê crescimento de 4,2% em 2026, com 22 economias africanas acima dos 5%, mas alerta para riscos associados às tensões geopolíticas, inflação persistente, vulnerabilidades fiscais e fragmentação financeira global.
Questões-Chave:
  • África deverá crescer 4,2% em 2026, após expansão estimada de 4,4% em 2025, mantendo-se entre as regiões mais dinâmicas do mundo;
  • Banco Africano de Desenvolvimento alerta que o continente enfrenta um défice anual de financiamento ao desenvolvimento superior a 1,3 biliões de dólares;
  • Relatório destaca que 22 economias africanas deverão crescer acima de 5%, impulsionadas por reformas macroeconómicas, preços elevados das commodities e recuperação agrícola;
  • Pressões inflacionistas, tensões no Médio Oriente, custos energéticos elevados e fragmentação geopolítica continuam a representar riscos relevantes para a estabilidade macroeconómica africana;
  • BAD defende mobilização massiva de recursos internos, aprofundamento dos mercados financeiros africanos e maior autonomia financeira do continente.

África deverá manter-se entre as regiões económicas mais dinâmicas do mundo nos próximos anos, mesmo num ambiente internacional marcado pelo agravamento das tensões geopolíticas, perturbações nas cadeias globais de abastecimento e endurecimento das condições financeiras internacionais.

A conclusão consta do African Economic Outlook 2026, divulgado esta terça-feira pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), durante as Reuniões Anuais da instituição, realizadas em Brazzaville, República do Congo. O relatório estima que o continente tenha registado um crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) de 4,4% em 2025 e prevê uma expansão de 4,2% em 2026, antes de uma recuperação para 4,4% em 2027.

Sob o tema “Mobilizing Africa’s Development Financing at Scale in a Fragmented World”, o documento sustenta que África continua a demonstrar “resiliência notável” face aos sucessivos choques globais, embora reconheça que os desafios estruturais permanecem profundos e persistentes.

O BAD refere que o crescimento económico africano em 2025 foi impulsionado por uma combinação de factores, incluindo melhoria da gestão macroeconómica, recuperação da produção agrícola, manutenção de preços elevados das matérias-primas e implementação de reformas estruturais em vários países.

O relatório destaca igualmente que 36 dos 54 países africanos registaram aceleração do crescimento económico em relação a 2024, sendo que 22 economias deverão crescer acima dos 5%, consolidando África como uma das regiões mais dinâmicas da economia mundial.

Tensões No Médio Oriente E Custos Energéticos Agravam Pressões Sobre Economias Africanas

Apesar do quadro relativamente positivo, o BAD alerta que o ambiente económico internacional continua particularmente adverso para as economias africanas.

Segundo o relatório, o impacto das tensões geopolíticas no Médio Oriente, especialmente sobre os preços da energia, fertilizantes e custos logísticos, deverá afectar de forma diferenciada as várias regiões africanas.

A África Oriental deverá continuar a ser a sub-região de crescimento mais rápido do continente, embora a expansão económica deva desacelerar de 6,6% em 2025 para 5,9% em 2026, devido ao aumento dos custos energéticos e das importações.

Na África Austral, o crescimento deverá permanecer moderado, em torno de 2,1% em 2026, pressionado pela fragilidade da actividade mineira, dificuldades agrícolas e custos elevados de energia.

Já a África Central surge como uma das poucas regiões onde o crescimento deverá acelerar, passando de 3,6% para 3,8%, beneficiando dos preços elevados do petróleo.

O relatório refere ainda que a inflação africana deverá permanecer elevada em 10,4% em 2026, apesar de uma desaceleração face aos 13,7% estimados para 2025, reflectindo o impacto persistente dos preços globais da energia e dos alimentos.

BAD Alerta Para Fragilidade Fiscal E Crescente Pressão Da Dívida

Um dos principais alertas do relatório centra-se na crescente vulnerabilidade fiscal das economias africanas.

O BAD refere que o stock total da dívida pública africana aumentou para cerca de 1,9 biliões de dólares em 2024, impulsionado pelas necessidades crescentes de financiamento público e pela deterioração das condições financeiras globais.

Embora a relação dívida/PIB tenha registado uma ligeira melhoria, o serviço da dívida continua a absorver uma parcela crescente das receitas públicas africanas. Segundo o relatório, a proporção das receitas governamentais destinada ao serviço da dívida externa subiu de 23,7% em 2017 para 31% em 2024.

O documento alerta igualmente que o agravamento da fragmentação geopolítica poderá reduzir os fluxos de ajuda oficial ao desenvolvimento, aumentar a volatilidade dos mercados financeiros e intensificar os riscos de saída de capitais dos mercados africanos.

Mobilização De Capital Interno Surge Como Prioridade Estratégica

No centro do relatório está a constatação de que África enfrenta actualmente um défice anual de financiamento ao desenvolvimento superior a 1,3 biliões de dólares para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O BAD sustenta, contudo, que o problema não reside apenas na escassez de recursos, mas sobretudo na limitada capacidade de mobilização, intermediação e utilização eficiente do capital disponível no continente.

Segundo o documento, África poderá desbloquear até 1,43 biliões de dólares anuais adicionais através de reformas orientadas para melhoria da arrecadação fiscal, redução de fluxos financeiros ilícitos, maior eficiência do investimento público, aprofundamento dos mercados de capitais, fortalecimento das parcerias público-privadas e melhor aproveitamento dos recursos naturais.

O relatório refere ainda que investidores institucionais africanos — incluindo fundos de pensões, seguradoras e fundos soberanos — gerem activos estimados em cerca de 4 biliões de dólares, mas menos de 2,7% destes recursos estão actualmente alocados à infraestrutura e sectores produtivos africanos.

BAD Defende Nova Arquitectura Financeira Africana

O documento propõe igualmente uma aceleração dos esforços para consolidar uma nova arquitectura financeira africana, baseada em mercados financeiros mais integrados, sistemas de pagamentos regionais robustos e maior coordenação institucional continental.

Neste contexto, o BAD destaca o papel da New African Financial Architecture for Development (NAFAD), iniciativa que visa mobilizar mais de 4 biliões de dólares existentes no ecossistema financeiro africano.

O relatório menciona também a recente criação da Agência Africana de Notação Financeira, lançada em Janeiro de 2026, como instrumento destinado a reduzir distorções e percepções negativas sobre o risco soberano africano nos mercados internacionais.

No entendimento do BAD, o actual contexto internacional obriga África a repensar profundamente os seus modelos de financiamento do desenvolvimento, reduzindo gradualmente a dependência externa e reforçando a autonomia financeira continental.

“O desafio de África não consiste apenas em fechar lacunas de financiamento, mas também em transformar os seus sistemas financeiros para mobilizar capital em escala, alocá-lo eficientemente e fortalecer a sua capacidade de decisão económica”, refere o relatório.

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