
Escassez De Divisas Aprofunda Constrangimentos Sobre Empresas E Economia – CIP
- Estudo do Centro de Integridade Pública conclui que a economia moçambicana permanece estruturalmente vulnerável à escassez persistente de moeda estrangeira, com impactos sobre crescimento económico, inflação, dívida pública, importações e actividade do sector privado. Organização defende reforço da produção interna, industrialização e aumento da capacidade exportadora.
- CIP defende reforço da produção interna para reduzir dependência de importações e pressão cambial;
- Estudo conclui que a economia moçambicana permanece estruturalmente vulnerável à escassez de divisas e flutuações cambiais;
- Empresas reportaram redução de cerca de 40% da capacidade de importação devido à dificuldade de acesso à moeda estrangeira;
- Mais de 500 empresas terão encerrado actividades, com impacto directo sobre mais de 15 mil postos de trabalho;
- CIP recomenda diversificação económica, industrialização, modernização agrícola e melhoria da gestão da dívida externa.
A persistente escassez de divisas e a crescente pressão cambial continuam a revelar limitações estruturais da economia moçambicana, num contexto em que o acesso à moeda estrangeira se tornou um dos principais constrangimentos à actividade empresarial, ao investimento privado e à estabilidade macroeconómica.
A conclusão consta de um estudo apresentado esta terça-feira, em Maputo, pelo Centro de Integridade Pública (CIP), intitulado “Impactos Macro-Fiscais Associados à Escassez de Divisas e Taxa de Câmbio: O Caso de Moçambique (1990-2024)”.
Segundo a economista e pesquisadora do CIP, Teresa Bueno, a actual vulnerabilidade cambial da economia moçambicana exige reformas estruturais orientadas para o fortalecimento da produção interna, diversificação económica e aumento da capacidade exportadora do País.
“Recomendamos o reforço da produção interna como tentativa de redução da dependência de importações”, afirmou a pesquisadora durante a apresentação dos resultados do estudo.
O estudo sustenta que a escassez persistente de divisas, conjugada com as limitações estruturais da economia, tem vindo a afectar de forma transversal o crescimento económico, o comportamento das importações, a inflação, a sustentabilidade fiscal e a dinâmica da dívida pública.
De acordo com a investigação, baseada em séries temporais entre 1990 e 2024, a economia nacional permanece “estruturalmente vulnerável à escassez persistente de moeda estrangeira e às flutuações da taxa de câmbio”.
Pressão Cambial E Divergência Entre Mercado Oficial E Paralelo
Um dos elementos destacados pelo estudo é a aparente estabilidade da taxa de câmbio oficial desde 2021, considerada desalinhada das condições reais do mercado cambial.
Segundo os dados apresentados pelo CIP, entre 2024 e 2026 verificou-se uma inversão nas vendas líquidas de divisas, passando de saldos positivos para valores negativos, numa trajectória que evidencia maior pressão sobre a disponibilidade de moeda estrangeira no mercado nacional.
O estudo cita igualmente dados segundo os quais a taxa de câmbio oficial apresenta um diferencial de aproximadamente 15% em relação ao mercado paralelo.
A pesquisadora Teresa Bueno afirmou que a persistente escassez de divisas e a aparente estabilidade da taxa de câmbio oficial continuam desalinhadas das condições reais do mercado, agravando a vulnerabilidade macroeconómica do País.
Os resultados econométricos do estudo mostram ainda que a depreciação cambial possui impactos estatisticamente significativos sobre variáveis macroeconómicas críticas, incluindo crescimento económico, inflação e dívida pública.
Sector Privado Sob Pressão E Encerramento De Empresas
O estudo do CIP dedica igualmente atenção aos impactos da escassez de divisas sobre o sector privado e o bem-estar das famílias.
Segundo os dados recolhidos através de entrevistas realizadas junto de empresas e associações empresariais entre Fevereiro e Abril de 2026, companhias dependentes de matérias-primas importadas reportaram uma redução de cerca de 40% da capacidade de importação e das suas actividades operacionais devido às dificuldades de acesso à moeda estrangeira.
A investigação aponta ainda que mais de 500 empresas encerraram actividades, situação que terá provocado a perda directa de mais de 15 mil postos de trabalho.
Além disso, o estudo identifica efeitos adicionais sobre a economia, incluindo diminuição da produção e do investimento, redução do rendimento dos agregados familiares, queda do consumo agregado, impactos negativos sobre o crescimento económico e arrecadação fiscal, bem como agravamento da pobreza e do mal-estar social.
Industrialização E Capacidade Exportadora No Centro Das Recomendações
Perante este quadro, o CIP defende um conjunto de reformas orientadas para reduzir a dependência estrutural da economia moçambicana em relação às importações e reforçar a capacidade de geração interna de divisas.
Entre as principais recomendações apresentadas estão a promoção da diversificação económica, industrialização e aumento da capacidade exportadora.
O estudo recomenda igualmente investimentos em infra-estruturas produtivas, particularmente nos sectores de energia e transportes, considerados fundamentais para elevar a competitividade da economia nacional.
A modernização agrícola, investimento em capital humano, melhoria do ambiente de negócios e aperfeiçoamento da gestão cambial também surgem entre as prioridades identificadas pelo CIP.
No domínio fiscal, a organização alerta para a necessidade de melhorar a gestão da dívida externa e reforçar a sustentabilidade das finanças públicas, tendo em conta a elevada exposição do País ao endividamento em moeda estrangeira.
Segundo o estudo, a depreciação cambial tende a agravar significativamente o peso da dívida pública, sobretudo num contexto de elevada dependência de financiamento externo.
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