
Agro-Negócio em Risco: CTA Alerta para Efeitos Devastadores da Escassez de Divisas
Questões-Chave:
- Sector do agro-negócio depende fortemente da importação de insumos, como fertilizantes e aditivos alimentares;
- Indústrias transformadoras operam abaixo da capacidade e enfrentam risco de paralisação;
- Pequenos agricultores vêem os custos de produção disparar e a pobreza rural agravar-se;
- CTA defende criação urgente de banco agrícola e prioridade no acesso cambial ao agro-negócio;
- Estagnação cambial e falta de incentivos colocam em risco metas de industrialização e exportação.
A crise cambial em Moçambique está a atingir em cheio o sector do agro-negócio, afectando desde grandes agro-indústrias até aos pequenos produtores rurais. A Confederação das Associações Económicas (CTA) alerta para o risco de colapso produtivo e defende a criação urgente de um banco agrícola e políticas de prioridade cambial. A situação é descrita como “um grito de socorro” pelo sector privado.
“O sector privado está a pedir que se resolva este problema de divisas o mais rapidamente possível, porque estamos a pôr em causa a produção nacional”, afirmou Yacob Latif, Presidente do Pelouro do Agro-Negócio da CTA, em entrevista ao programa Semanário Económico. Segundo o empresário, a escassez de moeda estrangeira está a inviabilizar a importação de insumos fundamentais, desde fertilizantes e pesticidas a maquinaria e aditivos industriais.
Os impactos são visíveis em toda a cadeia de valor. Indústrias de agro-processamento operam abaixo da sua capacidade e algumas enfrentam risco real de paralisação. “Sem insumos, a produção cai; com produção reduzida, há menos exportações; com menos exportações, entram menos divisas, e assim entramos num ciclo vicioso”, alertou Latif.
De acordo com dados da CTA e de instituições internacionais como a FAO e o Banco Mundial, a falta de insumos pode reduzir a produtividade do milho em até 50% por hectare. O aumento dos custos logísticos e a escassez de combustíveis agravam ainda mais o quadro. “Os custos estão a inflacionar. Tudo está mais caro e o consumidor vai pagar mais”, acrescentou.
Para os pequenos agricultores, a crise assume contornos dramáticos. O acesso aos fertilizantes tornou-se proibitivo, a renda rural está a degradar-se e o acesso ao crédito tornou-se mais difícil devido à percepção de risco pelas instituições bancárias. Com cerca de 70% da população moçambicana a viver no meio rural, o impacto social da crise é profundo.
Apesar da estabilidade cambial dos últimos quatro anos — um facto raríssimo no contexto africano —, os custos internos aumentaram, enquanto os preços no mercado internacional recuaram, comprimindo as margens de lucro dos exportadores. “Parece que estamos a ganhar, mas na verdade estamos a perder. O lucro das empresas tem vindo a cair”, sublinhou Latif.
A CTA propõe a adopção de um sistema de câmbio duplo, à semelhança da Argentina, que distingue entre o câmbio geral e um câmbio especial para exportadores agrícolas. Além disso, recomenda-se a criação de um banco agrícola de raiz, com mandato específico para financiar o agro-negócio. “Os bancos comerciais alegam não ter divisas. Precisamos de instituições que nos compreendam e financiem de acordo com a sazonalidade da produção agrícola.”
A confederação empresarial está também a trabalhar em propostas estratégicas, que incluem o apoio à produção local de insumos, parcerias público-privadas para financiar o sector, e a criação de um regime de prioridades cambiais. “Sem soluções, o sector entra em colapso. E sem agro-negócio, não há segurança alimentar nem estabilidade social”, alertou.
Por fim, Yacob Latif considera que a entrada de Moçambique na Zona de Comércio Livre Continental Africana representa uma oportunidade — mas apenas se o país estiver preparado. “Temos de nos especializar, escolher produtos competitivos, e investir nas cadeias de valor locais. Só assim vamos transformar o agro-negócio numa alavanca de crescimento e exportação.”
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