
Tabaco Reforça Peso Nas Exportações Com 258 Milhões USD, Apesar Da Queda Na Produção
Receitas externas crescem 16% em 2025, mas redução da produção e saída da BAT expõem fragilidades estruturais do sector
- Exportações de tabaco atingem 258,3 milhões USD em 2025, um crescimento de 16%;
- Produção nacional recua para 72.380 toneladas, reflectindo constrangimentos estruturais;
- Saída da British American Tobacco pressiona receitas fiscais e cadeia produtiva;
- Sector permanece concentrado em dois grandes operadores;
- Moçambique mantém posição relevante no contexto africano e global.
Crescimento das exportações contrasta com recuo produtivo
O sector do tabaco voltou a afirmar-se como uma das principais culturas de rendimento da economia moçambicana, com as exportações a registarem um crescimento expressivo de 16% em 2025, ao atingirem 258,3 milhões de dólares norte-americanos. O desempenho confirma o peso estrutural do tabaco na balança comercial, num contexto em que o país continua a depender de um conjunto restrito de produtos primários para geração de divisas.
Este resultado compara com os 217,2 milhões de dólares registados em 2024 e os 154,2 milhões em 2023, evidenciando uma trajectória de recuperação e expansão das receitas externas associadas ao sector.
Contudo, esta dinâmica positiva do lado das exportações ocorre em simultâneo com um recuo significativo da produção, revelando uma dissociação que merece leitura aprofundada.
Produção em queda evidencia constrangimentos estruturais
Apesar do aumento das receitas, a produção nacional de tabaco deverá situar-se em 72.380 toneladas em 2025, uma redução face às 92.343 toneladas registadas no ano anterior. Esta evolução reflecte limitações ao nível da capacidade produtiva, da estrutura do sector e das condições de investimento.
Dados da execução orçamental indicam igualmente que o valor global da produção caiu 4,1%, fixando-se em 7.255 milhões de meticais, abaixo dos 7.567 milhões registados em 2024.
Esta trajectória descendente da produção levanta questões sobre a sustentabilidade do sector no médio prazo, sobretudo num contexto em que a expansão das exportações pode estar mais associada a factores de preço e procura externa do que a ganhos efectivos de volume.
Saída da BAT e concentração do sector aumentam vulnerabilidades
Um dos factores críticos que ajuda a explicar a actual dinâmica do sector é a saída da British American Tobacco (BAT) do país, com relocalização das suas operações para a África do Sul. O Executivo já havia alertado para o impacto desta decisão nas receitas fiscais e na estrutura da cadeia de valor do tabaco.
Actualmente, o sector encontra-se fortemente concentrado em duas empresas — Mozambique Leaf Tobacco e Sociedade Agrícola de Tabaco — o que limita a concorrência, reduz a resiliência e aumenta a exposição a choques específicos.
A concentração empresarial, combinada com a redução da produção, pode comprometer a capacidade do país em sustentar o crescimento das exportações no futuro.
Posicionamento relevante no contexto africano e global
Apesar dos desafios internos, Moçambique mantém uma posição relevante no panorama internacional do tabaco. Um relatório da Organização Mundial da Saúde indica que o país possui a oitava maior área de cultivo de tabaco a nível mundial, com cerca de 91.469 hectares.
No contexto africano, ocupa a terceira posição, atrás do Zimbabwe e do Malawi, dois dos maiores produtores do continente. Ao nível da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), apenas o Brasil e Moçambique integram o grupo dos 50 maiores produtores globais.
Este posicionamento reforça a importância estratégica do sector, não apenas como fonte de exportações, mas também como instrumento de inserção nos mercados internacionais.
Pressões globais e dilemas de política pública
O sector do tabaco enfrenta, no entanto, um ambiente internacional cada vez mais adverso. Historicamente associado a propriedades medicinais, o tabaco é hoje alvo de crescentes restrições e críticas a nível global, sobretudo devido aos seus impactos na saúde pública.
Esta realidade coloca desafios adicionais às políticas públicas nacionais, que terão de equilibrar a necessidade de geração de receitas e emprego com as pressões internacionais para a redução do consumo e produção.
O dilema é claro: como preservar o valor económico do sector num contexto de crescente estigmatização global e transformação das cadeias de valor agrícolas?
Entre resiliência externa e fragilidade interna
A evolução recente do sector do tabaco em Moçambique ilustra uma dualidade marcante: por um lado, a capacidade de gerar receitas externas em crescimento; por outro, fragilidades estruturais ao nível da produção, da organização do sector e da sustentabilidade futura.
O desempenho de 2025, embora positivo em termos de exportações, não deve ocultar os sinais de alerta que emergem da base produtiva.
A questão central que se coloca é se o país conseguirá transformar este crescimento conjuntural num processo sustentado, ou se continuará dependente de factores externos e vulnerável a choques estruturais.
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