
Bancos Multilaterais Elevam Financiamento Climático Para Recorde De 163 Mil Milhões De Dólares
- Recursos destinados às economias de rendimento baixo e médio aumentaram 21%, para 103 mil milhões de dólares, com a adaptação a crescer mais rapidamente do que a mitigação. O novo máximo confirma maior capacidade de resposta multilateral, mas a concentração em empréstimos, a insuficiente mobilização privada e a distância face às necessidades africanas mostram que o desafio continua a ser de escala, acesso e execução.
- Os bancos multilaterais comprometeram quase 163 mil milhões de dólares em financiamento climático durante 2025;
- As economias de rendimento baixo e médio receberam 103 mil milhões, dos quais 35 mil milhões para adaptação e 68 mil milhões para mitigação;
- África recebeu cerca de 25,3 mil milhões de dólares, valor ainda reduzido face às necessidades anuais do continente;
- Mais de dois terços do financiamento global foi concedido através de empréstimos de investimento, levantando questões sobre a sustentabilidade da dívida;
- Para Moçambique, a oportunidade dependerá da capacidade de transformar prioridades climáticas em projectos financiáveis, com impacto económico e social mensurável.
Os bancos multilaterais de desenvolvimento elevaram o financiamento climático global para um recorde de quase 163 mil milhões de dólares em 2025, reforçando o seu papel no apoio à transição energética, adaptação às alterações climáticas e construção de economias mais resilientes.
Segundo o Relatório Conjunto de 2025 sobre o Financiamento Climático dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento, publicado esta segunda-feira, 13 de Julho, o volume total aumentou 19% em relação ao ano anterior. Nas economias de rendimento baixo e médio, o crescimento foi ainda mais expressivo: 21%, para 102,6 mil milhões de dólares, contra cerca de 85 mil milhões em 2024.
O resultado coloca as instituições multilaterais no caminho para cumprir as projecções anunciadas na COP29, realizada em Baku, que prevêem a disponibilização anual de 120 mil milhões de dólares para países de rendimento baixo e médio até 2030, incluindo 42 mil milhões destinados à adaptação.
Contudo, o novo máximo não elimina as limitações estruturais do financiamento climático. Os números representam essencialmente compromissos financeiros assumidos pelos bancos, não necessariamente desembolsos integralmente realizados durante 2025. Entre a aprovação, contratação, desembolso e execução de um projecto pode existir um intervalo significativo, particularmente em países com menor capacidade institucional e técnica.
Adaptação Cresce Mais Rapidamente
Dos 102,6 mil milhões de dólares destinados às economias de rendimento baixo e médio, aproximadamente 68 mil milhões financiaram iniciativas de mitigação, enquanto 34,6 mil milhões foram canalizados para adaptação.
O financiamento da adaptação aumentou 31% em relação a 2024, superando o crescimento de 16% registado na mitigação. Esta evolução é particularmente relevante para África e outras regiões vulneráveis, onde as prioridades imediatas passam menos pela redução de emissões históricas e mais pela protecção de pessoas, infra-estruturas, sistemas alimentares e actividades económicas contra choques climáticos.
Apesar do crescimento, a mitigação continua a representar cerca de dois terços do financiamento destinado aos países de rendimento baixo e médio. A adaptação absorveu aproximadamente 34% do total, uma proporção ainda abaixo da paridade frequentemente defendida pelas economias mais expostas às alterações climáticas.
Nas economias de rendimento elevado, a diferença foi substancialmente maior. Dos 59,9 mil milhões de dólares comprometidos, 52,9 mil milhões foram destinados à mitigação e apenas 7,1 mil milhões à adaptação.
A explicação económica para esta diferença reside parcialmente na natureza dos projectos. Iniciativas de energia renovável, mobilidade eléctrica ou eficiência energética podem gerar receitas directamente mensuráveis, tornando-se mais atractivas para investidores e credores. Projectos de adaptação — como diques, sistemas de alerta, drenagem urbana, protecção costeira ou agricultura resiliente — produzem frequentemente benefícios públicos e evitam perdas futuras, mas nem sempre geram fluxos financeiros capazes de remunerar o investimento privado.
Energia E Transportes Dominam A Mitigação
A energia recebeu a maior parcela do financiamento de mitigação em 2025, com 45,4 mil milhões de dólares. Seguiram-se os transportes, com 23,6 mil milhões, as actividades intersectoriais, com 19,5 mil milhões, e a eficiência energética nos edifícios e instalações públicas, com 18,2 mil milhões.
A distribuição mostra que a transição climática está cada vez mais associada à transformação das infra-estruturas económicas. Redes eléctricas, energias renováveis, transportes urbanos, caminhos-de-ferro, edifícios eficientes e sistemas digitais deixaram de ser tratados exclusivamente como políticas ambientais e passaram a integrar estratégias de segurança energética, produtividade e competitividade.
No financiamento da adaptação, as infra-estruturas de energia, transportes e outros activos construídos receberam 13,3 mil milhões de dólares. As intervenções intersectoriais absorveram 11,3 mil milhões e os sistemas de água e saneamento 7,3 mil milhões.
Em contraste, a produção agrícola e alimentar recebeu pouco mais de dois mil milhões de dólares em financiamento de adaptação, apesar de a agricultura constituir uma das actividades mais directamente expostas à seca, inundações, ciclones e alterações nos padrões de precipitação.
A diferença sugere que o financiamento climático continua mais preparado para apoiar grandes infra-estruturas do que sistemas produtivos fragmentados, compostos por pequenos agricultores e empresas de menor dimensão. Estes operadores têm projectos menores, garantias limitadas e custos de preparação proporcionalmente elevados, o que dificulta o acesso aos instrumentos multilaterais convencionais.
O Financiamento Continua Fortemente Assente Em Dívida
A composição dos instrumentos utilizados pelos bancos multilaterais constitui uma das principais questões levantadas pelo relatório.
Os empréstimos de investimento representaram 110,2 mil milhões de dólares, correspondentes a cerca de 68% de todo o financiamento climático concedido em 2025. Os empréstimos associados a reformas e políticas públicas atingiram 17,6 mil milhões, enquanto as garantias totalizaram 11,1 mil milhões.
As subvenções representaram apenas seis mil milhões de dólares. O capital próprio ficou em aproximadamente 2,5 mil milhões e os títulos verdes em 1,4 mil milhões.
A predominância dos empréstimos permite aos bancos multilaterais reciclar capital e financiar um maior número de operações. Todavia, pode limitar o acesso dos países mais endividados, precisamente aqueles que apresentam menor capacidade fiscal para responder a desastres climáticos.
Esta situação cria um paradoxo: os países mais vulneráveis necessitam de mais recursos para adaptação, mas muitos têm pouca margem para assumir nova dívida. Quando o financiamento de infra-estruturas resilientes é concedido predominantemente sob a forma de empréstimo, parte do custo dos danos climáticos globais é transferida para os balanços públicos das economias que menos contribuíram para o problema.
A expansão das subvenções, garantias, seguros contra desastres, instrumentos contingentes e financiamento altamente concessional será, por isso, determinante para evitar que a resposta climática agrave os riscos de sobreendividamento.
Capital Privado Continua Concentrado Nas Economias Mais Ricas
Os bancos multilaterais mobilizaram cerca de 35,2 mil milhões de dólares de co-financiamento climático privado para as economias de rendimento baixo e médio. Nas economias de rendimento elevado, o valor atingiu 80,4 mil milhões.
Isto significa que, embora os países de rendimento baixo e médio tenham recebido cerca de 63% do financiamento climático directo dos bancos multilaterais, captaram apenas aproximadamente 30% do co-financiamento privado reportado.
A diferença reflecte a percepção de risco, a qualidade dos projectos, a disponibilidade de garantias, a dimensão dos mercados financeiros e a previsibilidade regulatória. Para os investidores, não basta que um projecto seja ambientalmente necessário. Deve possuir receitas previsíveis, regras estáveis, capacidade de execução e mecanismos adequados de partilha de risco.
Outro sinal merece atenção. A soma do co-financiamento privado reportado para 2025 situa-se em cerca de 115,5 mil milhões de dólares, abaixo dos 134 mil milhões mobilizados em 2024. Embora o financiamento directo dos bancos multilaterais tenha alcançado um máximo histórico, o mesmo não aconteceu com o capital privado global mobilizado.
A evolução mostra que aumentar os recursos públicos multilaterais não conduz automaticamente a uma expansão proporcional do investimento privado. A capacidade de mobilização depende do desenho dos instrumentos, da preparação dos projectos e das condições económicas nos países receptores.
África Recebe 25,3 Mil Milhões, Mas Necessita De Muito Mais
A África Subsaariana recebeu cerca de 18,4 mil milhões de dólares em financiamento climático dos bancos multilaterais. Considerando também o Norte de África, o total destinado ao continente atingiu aproximadamente 25,3 mil milhões.
O valor representa pouco mais de 15% do financiamento climático global reportado pelos bancos multilaterais.
Embora significativo, o montante permanece reduzido perante a dimensão das necessidades africanas. O Banco Africano de Desenvolvimento estima que o continente necessite de aproximadamente 2,7 biliões de dólares até 2030, equivalentes a cerca de 400 mil milhões por ano, para financiar as suas metas climáticas e de desenvolvimento sustentável.
Os universos não são inteiramente comparáveis, porque as necessidades totais devem ser financiadas por governos, bancos multilaterais, doadores, empresas e investidores. Ainda assim, a diferença evidencia a dimensão da lacuna: o financiamento multilateral destinado a África em 2025 correspondeu a apenas uma pequena fracção das necessidades anuais estimadas.
O continente continua igualmente a receber uma parcela reduzida do financiamento climático mundial, apesar de concentrar vários dos países mais vulneráveis e de contribuir com uma proporção limitada das emissões históricas. Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, África recebe apenas entre 3% e 4% dos fluxos globais de financiamento climático.
Banco Africano Reforça Prioridade Da Adaptação
O Banco Africano de Desenvolvimento reportou 5,93 mil milhões de dólares em financiamento climático durante 2025, equivalentes a 54% do total das suas aprovações.
A adaptação representou aproximadamente 58% da carteira climática da instituição, uma composição que reflecte as prioridades do continente. O Banco superou igualmente o compromisso de mobilizar 25 mil milhões de dólares entre 2020 e 2025, alcançando cerca de 25,5 mil milhões.
A maior concentração em adaptação diferencia o Banco Africano de parte das restantes instituições multilaterais. Para o continente, financiar sistemas de irrigação, infra-estruturas resistentes, protecção costeira, gestão de água, seguros agrícolas e sistemas de alerta pode produzir retornos económicos tão importantes quanto instalar nova capacidade energética.
A adaptação deve ser entendida como investimento produtivo. Uma estrada resistente a inundações evita interrupções no comércio; um sistema de irrigação protege o rendimento agrícola; uma rede de alerta reduz perdas humanas e materiais; e uma cidade com drenagem adequada preserva empresas, habitações e infra-estruturas públicas.
Recorde Global Abre Uma Janela Para Moçambique
Para Moçambique, o aumento dos recursos multilaterais cria uma oportunidade estratégica. O País encontra-se entre as economias mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas e enfrenta riscos recorrentes associados a ciclones, cheias, secas, erosão costeira e alterações nos padrões de produção agrícola.
O Banco Mundial estima que, num cenário climático adverso e sem transformação estrutural significativa, as alterações climáticas poderão aumentar a pobreza em cinco pontos percentuais até 2050, empurrando mais 1,6 milhão de pessoas para a pobreza.
A Contribuição Nacionalmente Determinada provisória de Moçambique para o período 2026-2035 coloca a adaptação como prioridade e reconhece que a implementação da agenda climática nacional permanece fortemente dependente de financiamento, tecnologia e apoio internacional.
O documento estrutura a adaptação em seis áreas: agricultura, florestas e economia azul; saúde; água e saneamento; infra-estruturas; educação; e sistemas de alerta e protecção social. Prevê igualmente a elaboração de um plano operacional e de investimento para transformar os compromissos em intervenções executáveis.
A existência de prioridades nacionais, contudo, não garante acesso automático aos recursos. Os bancos multilaterais financiam projectos preparados, avaliados e capazes de demonstrar resultados económicos, sociais e climáticos.
Moçambique terá, por isso, de reforçar a capacidade de preparar estudos de viabilidade, quantificar perdas evitadas, desenvolver modelos financeiros, definir entidades responsáveis e assegurar processos transparentes de contratação e execução.
Preparar Projectos Será Tão Importante Quanto Mobilizar Recursos
A nova escala do financiamento climático favorece países que consigam converter estratégias nacionais em carteiras de projectos prontas para investimento.
Para Moçambique, isso significa identificar intervenções prioritárias nos corredores económicos, cidades costeiras, bacias hidrográficas e zonas agrícolas vulneráveis. Significa também agregar projectos de pequena dimensão para reduzir custos de transacção e torná-los atractivos para instituições multilaterais e investidores.
O financiamento misto poderá desempenhar um papel decisivo. Subvenções podem financiar estudos e assistência técnica; recursos concessionais podem suportar infra-estruturas públicas; garantias podem reduzir o risco privado; e capital comercial pode entrar nas componentes geradoras de receitas.
No sector agrícola, por exemplo, um programa climático pode combinar irrigação pública, financiamento a produtores, seguros indexados ao clima, armazenamento, energia solar e contratos com agro-indústrias. Em vez de financiar activos isolados, o modelo cria uma cadeia de valor resiliente e economicamente sustentável.
O mesmo princípio aplica-se às cidades. Drenagem, gestão de resíduos, transportes públicos e energia distribuída podem ser integrados em plataformas urbanas capazes de mobilizar diferentes fontes de financiamento.
Do Volume Financeiro Ao Impacto Económico
O recorde de 163 mil milhões de dólares confirma que os bancos multilaterais estão a aumentar a escala da resposta climática. Mostra também uma aproximação antecipada às metas projectadas para 2030.
Mas o sucesso não poderá ser medido apenas pelo volume de compromissos anunciados. Será necessário acompanhar quanto foi efectivamente desembolsado, onde os recursos foram aplicados, que riscos foram reduzidos e quais os benefícios gerados para populações, empresas e economias.
Para África, o principal desafio continua a ser transformar vulnerabilidade em prioridade financeira efectiva. Para Moçambique, a questão consiste em construir uma carteira de projectos capaz de competir pelos recursos, mobilizar capital complementar e integrar a adaptação nos investimentos produtivos.
O financiamento climático torna-se, assim, mais do que uma agenda ambiental. Passa a constituir uma fonte de recursos para proteger infra-estruturas, fortalecer a agricultura, garantir segurança hídrica, ampliar energia limpa, criar empregos e reduzir a vulnerabilidade das empresas.
O novo recorde amplia a oportunidade. A capacidade institucional, a qualidade dos projectos e a disciplina de execução determinarão quem conseguirá transformá-la em crescimento resiliente.
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