
Capital Chinês Adquire 70% Dos Activos De Grafite Da Triton Em Moçambique
- Operação avaliada em 17 milhões de dólares australianos, equivalente a cerca de 9,6 milhões de euros, coloca a NQM Gold no controlo maioritário das empresas Kwe Kwe Graphite e Grafex. Os activos incluem o projecto de Ancuabe e interesses associados a Nicanda Hill, Nicanda West e Cobra Plains, em Cabo Delgado.
- A NQM Gold adquiriu 70% das empresas Kwe Kwe Graphite e Grafex, que concentram os activos moçambicanos de grafite da Triton Minerals;
- A operação foi acordada por 17 milhões de dólares australianos, equivalente a aproximadamente 9,6 milhões de euros;
- A Triton recebeu os últimos 5,5 milhões de dólares australianos e mantém uma participação de 30% nos activos;
- A transacção abrange o projecto de Ancuabe e interesses associados a Nicanda Hill, Nicanda West e à concessão mineira de Cobra Plains;
- O acordo de resolução assinado a 18 de Agosto encerrou o diferendo contratual e determinou a desistência dos processos judiciais;
- Moçambique produziu 28.018 toneladas de grafite no primeiro trimestre de 2026, quase o dobro das 14.814 toneladas inicialmente projectadas para todo o ano.
A NQM Gold 2 Pty Ltd, subsidiária da chinesa Shandong Yulong Gold, concluiu a aquisição de 70% dos activos de grafite da australiana Triton Minerals em Moçambique, numa operação avaliada em 17 milhões de dólares australianos, equivalente a cerca de 9,6 milhões de euros.
Com a transacção, a NQM passa a deter a participação maioritária nas empresas moçambicanas Kwe Kwe Graphite e Grafex, que concentram os principais activos da Triton no norte do País. A empresa australiana conserva os restantes 30%, mantendo exposição ao desenvolvimento e à eventual entrada em produção dos projectos.
Os activos incluem o projecto de grafite de Ancuabe, em Cabo Delgado, 70% dos interesses em propriedade intelectual e testemunhos de sondagem associados aos projectos Nicanda Hill e Nicanda West, bem como 70% da concessão mineira de Cobra Plains.
A conclusão encerra um processo iniciado em 2024 e marcado por sucessivos adiamentos, incumprimentos de pagamentos e uma disputa judicial na Austrália.
Último Pagamento Permite Concluir Transacção
A operação foi originalmente estruturada através de três pagamentos. O primeiro, de 2,55 milhões de dólares australianos, foi efectuado em Julho de 2024. Seguiram-se pagamentos adicionais associados às etapas de pré-conclusão e conclusão definitiva da venda.
No dia 20 de Agosto de 2026, a Triton comunicou à Australian Securities Exchange que recebeu 5,5 milhões de dólares australianos da NQM, correspondentes ao montante final que permanecia pendente no âmbito do acordo de compra e venda.
O pagamento criou as condições financeiras para a conclusão efectiva da operação e para a desistência do processo judicial instaurado no Supremo Tribunal da Austrália Ocidental.
A transferência das acções representativas de 70% da Kwe Kwe Graphite e da Grafex já tinha sido concretizada, mas estava condicionada à liquidação do montante em falta. Caso o pagamento não ocorresse dentro do prazo acordado, a Triton teria o direito de exigir a devolução imediata da participação à Triton Minerals Management e à Triton United.
Com a recepção dos 5,5 milhões de dólares australianos, essa possibilidade deixou de constituir o cenário central e a NQM consolidou a posição maioritária nas duas empresas moçambicanas.
Acordo Encerra Diferendo Entre As Partes
A conclusão foi antecedida pela assinatura, em 18 de Agosto, de um acordo de resolução e exoneração de responsabilidades entre a Triton, a NQM Gold, a Triton Minerals Management e a Triton United.
Segundo o comunicado submetido pela Triton à bolsa australiana, o instrumento estabeleceu a resolução de todos os diferendos ligados ao acordo de compra e venda, definiu a conclusão da transacção e determinou a desistência, por consentimento mútuo, dos processos judiciais sem imputação de custas.
A Triton aceitou igualmente indemnizar a NQM por qualquer Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas que resulte directamente do perdão das dívidas da Kwe Kwe Graphite e da Grafex à empresa australiana. A responsabilidade foi limitada a 850 mil dólares australianos.
O diferendo resultou de atrasos na conclusão da operação e na liquidação das parcelas acordadas. Depois de emitir notificações formais de incumprimento, a Triton procurou obter judicialmente a execução do contrato e o pagamento dos montantes devidos.
A solução negociada permite agora substituir o conflito contratual por uma estrutura accionista conjunta, na qual a NQM controla 70% e a Triton participa com 30%.
Ancuabe Constitui Principal Activo Da Operação
O projecto de Ancuabe constitui o activo central da transacção. Localizado em Cabo Delgado, foi concebido para produzir concentrado de grafite de elevada qualidade destinado a aplicações industriais e à cadeia internacional de baterias.
A Triton já tinha obtido a licença ambiental para o empreendimento, uma das condições necessárias para a progressão em direcção à fase de desenvolvimento. A entrada da NQM foi apresentada pela empresa australiana como uma alternativa para mobilizar capacidade financeira e acelerar a comercialização dos recursos.
Os interesses em Nicanda Hill, Nicanda West e Cobra Plains alargam a dimensão estratégica do portefólio. A própria Triton descreve Nicanda Hill como um depósito de grafite e vanádio com recursos estimados em aproximadamente 1,4 mil milhões de toneladas de minério, com um teor médio de 11,1% de carbono grafítico total.
A aquisição oferece à NQM acesso a recursos minerais com potencial de longa duração e coloca o grupo chinês numa posição relevante num dos principais países produtores de grafite natural.
Para a Triton, a alienação parcial gera liquidez imediata e reduz a necessidade de financiar integralmente o desenvolvimento dos projectos, ao mesmo tempo que preserva uma participação de 30% nos activos.
Produção Nacional Supera Previsões
A operação ocorre numa fase de recuperação da produção moçambicana de grafite. Dados oficiais citados pela Lusa indicam que o País produziu 28.018 toneladas no primeiro trimestre de 2026.
O volume é quase duas vezes superior às 14.814 toneladas inicialmente previstas para todo o ano e corresponde a uma execução de 189% face à meta definida para os primeiros três meses.
O desempenho foi associado à estabilidade operacional do principal produtor nacional e à entrada em actividade de uma nova empresa na província do Niassa.
A recuperação contrasta com a instabilidade observada nos anos anteriores. A produção atingiu cerca de 165,9 mil toneladas em 2022, caiu para 97,3 mil toneladas em 2023 e recuou para aproximadamente 34,9 mil toneladas em 2024, devido à paralisação e interrupção de diferentes operações mineiras.
Em 2025, a produção recuperou para 67.078 toneladas, apesar de não ter sido registada actividade no primeiro trimestre, na sequência da suspensão das operações da mina de Balama.
A entrada da NQM nos activos da Triton poderá acrescentar uma nova base de produção ao sector, caso o novo accionista avance com o financiamento, a construção e a entrada em funcionamento do projecto de Ancuabe.
Capital Chinês Amplia Presença Na Grafite Moçambicana
A aquisição acontece depois da entrada em funcionamento, no início de 2026, de uma unidade chinesa de mineração e processamento de grafite no distrito de Nipepe, província do Niassa.
A unidade, operada pela DH Mining, tem capacidade anunciada de 200 mil toneladas por ano e resultou de um investimento acumulado de aproximadamente 200 milhões de dólares. Segundo informações divulgadas durante a inauguração, emprega actualmente 890 trabalhadores, podendo chegar a dois mil na segunda fase.
Com a aquisição dos activos da Triton, o capital chinês amplia a presença tanto em Niassa como em Cabo Delgado, duas províncias que concentram uma parcela significativa dos recursos nacionais de grafite.
A tendência reflecte o posicionamento global da China na cadeia deste mineral. O país domina uma parte considerável da extracção, refinação e produção de materiais utilizados nos ânodos das baterias de veículos eléctricos e sistemas de armazenamento de energia.
O controlo de recursos em Moçambique permite aos grupos chineses diversificar as fontes de abastecimento, assegurar matéria-prima para a indústria de baterias e integrar os activos moçambicanos em cadeias produtivas de escala internacional.
Processamento Local Define Alcance Económico
A mudança accionista não significa, por si só, que Ancuabe entrará imediatamente em produção. O desenvolvimento exigirá decisões finais de investimento, financiamento, construção de infra-estruturas, equipamento, energia, logística, segurança e acesso a compradores internacionais.
Para Moçambique, o alcance económico da operação será determinado pela capacidade de converter a entrada de capital num projecto operacional, com processamento local, emprego, receitas fiscais, contratação de fornecedores nacionais e formação de mão-de-obra.
A nova legislação mineira estabelece uma participação mínima do Estado de 15%, gratuita e não diluível, nos projectos mineiros e orienta o sector para o processamento local dos minerais. Ainda permanece por clarificar como determinadas disposições serão aplicadas aos empreendimentos abrangidos por acordos e licenças anteriores.
Neste contexto, a estrutura accionista da Kwe Kwe Graphite e da Grafex poderá ter de ser articulada com o novo quadro regulatório, sobretudo no que se refere à participação pública, ao processamento e às condições de exportação.
O grafite é indispensável à produção de ânodos para baterias e assume importância crescente na mobilidade eléctrica, no armazenamento de energia e em várias aplicações industriais. Porém, a maior parcela do valor não está na simples extracção do minério, mas nas fases de purificação, transformação e produção de materiais activos.
A entrada da NQM cria condições para retomar o desenvolvimento de Ancuabe. Para a economia nacional, a oportunidade consiste em fazer com que a nova fase avance além da transferência de propriedade e se traduza numa cadeia produtiva com maior incorporação de valor dentro de Moçambique.
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