Linha de produção de garrafas

CDM Vai Viabilizar Indústria Vidreira em Moçambique

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Bruno Tembe revela contactos com o Ministério da Economia e estruturas de projectos especiais da Presidência da República para atrair investimentos na produção nacional de materiais de embalagem. Companhia admite assumir o papel de cliente-âncora de uma futura indústria vidreira, numa altura em que a escassez de divisas condiciona as importações e a capacidade industrial instalada ainda não atingiu o seu potencial máximo.

Questões-Chave:

  • Novos investimentos: CDM trabalha com o Governo para atrair projectos industriais destinados à produção nacional de materiais actualmente importados;
  • Indústria vidreira: Empresa manifesta disponibilidade para funcionar como cliente-âncora de uma unidade de produção de garrafas em Moçambique;
  • Escassez cambial: Bruno Tembe admite que a indisponibilidade de divisas impede a companhia de importar os volumes pretendidos nos prazos necessários;
  • Conteúdo local: Grades de cerveja já são integralmente adquiridas no mercado nacional e a empresa iniciou a compra exclusiva local de cápsulas do tipo pry-off;
  • Investimento industrial: CDM identifica investimentos de US$ 181 milhões em Marracuene, US$ 65 milhões em Nampula e US$ 13 milhões na expansão da fábrica de Maputo;
  • Mercado regional: Novas unidades industriais poderão abastecer a CDM e outros consumidores da África Austral, aproveitando as vantagens logísticas de Moçambique.

Instalações industriais da Cervejas de Moçambique

CDM Negocia Com Governo Novos Investimentos Industriais Para Produzir Garrafas e Reduzir Importações

A Cervejas de Moçambique (CDM) está a trabalhar com o Ministério da Economia e estruturas de projectos especiais da Presidência da República para atrair investimentos industriais destinados à produção local de materiais de embalagem, actualmente adquiridos no exterior. A iniciativa poderá abrir caminho à instalação de uma indústria nacional de garrafas, tendo a CDM como potencial cliente-âncora, numa estratégia orientada para reduzir a dependência de importações, poupar divisas e ampliar a participação da indústria nacional nas cadeias de fornecimento.

A informação foi revelada por Bruno Tembe, Administrador Executivo da CDM, durante uma entrevista ao programa Tema de Fundo, do Semanário Económico, na STV Notícias.

O responsável explicou que a empresa considera existir uma oportunidade para instalar em Moçambique unidades de produção de materiais utilizados pela indústria cervejeira, particularmente garrafas e, potencialmente, outros componentes de embalagem.

Questionado sobre a possibilidade de a CDM viabilizar um investimento numa indústria vidreira nacional, através de compromissos de aquisição da produção, Bruno Tembe respondeu afirmativamente.

“Nós viabilizaríamos, sim, uma empresa que produzisse garrafas”, declarou.

A disponibilidade manifestada pela companhia representa uma possibilidade relevante de articulação entre uma grande unidade industrial e novos investidores interessados em desenvolver capacidade produtiva no país.

No modelo considerado, a existência de um comprador industrial com necessidades regulares de abastecimento poderá contribuir para criar condições comerciais favoráveis à instalação de uma nova unidade fabril.

O administrador confirmou que já decorrem contactos institucionais destinados a explorar essas oportunidades.

“Estamos a fazer um trabalho com o Ministério da Economia e ainda envolvendo projectos especiais da Presidência da República, justamente para usar a Cerveja de Moçambique como âncora para que investimentos possam ocorrer nessa área”, afirmou.

O responsável admitiu a possibilidade de surgirem novidades sobre o processo, embora não tenha identificado investidores, valores de investimento, localização da futura unidade industrial ou calendário de implementação.

Escassez de Divisas Aumenta Importância da Produção Interna

A iniciativa surge num contexto em que as dificuldades de acesso à moeda estrangeira afectam as operações de importação de matérias-primas, equipamentos e materiais necessários ao funcionamento das empresas industriais.

Bruno Tembe reconheceu que a CDM enfrenta constrangimentos cambiais que condicionam a capacidade de adquirir, nos mercados internacionais, os produtos necessários à sua actividade.

“Não conseguimos importar tudo que queremos no tempo em que queremos, na quantidade que queremos, porque não temos disponibilidade de divisa”, afirmou.

A declaração evidencia uma das dificuldades enfrentadas por empresas industriais com componentes relevantes da sua cadeia de fornecimento dependentes de aquisições externas.

A indisponibilidade de moeda estrangeira pode provocar atrasos no abastecimento, exigir alterações nos planos de produção e aumentar a complexidade da gestão de existências.

No caso da CDM, a dependência externa abrange determinados materiais de embalagem, incluindo garrafas e latas, cuja produção nacional ainda não responde às necessidades da companhia.

A empresa considera que a instalação de novas unidades industriais poderá reduzir parte dessa dependência, permitindo adquirir determinados materiais em moeda nacional e diminuir as necessidades de importação.

“E a questão não é só de opção ou de patriotismo. Por quê? Porque nós poupamos divisas”, sublinhou Bruno Tembe.

A substituição de importações apresenta, contudo, exigências próprias de viabilidade económica, incluindo escala de produção, disponibilidade de matérias-primas, custos energéticos, capacidade tecnológica e condições de financiamento.

A existência de um grande comprador poderá contribuir para reduzir os riscos comerciais de um investimento, mas não elimina a necessidade de avaliar a competitividade da produção local relativamente às alternativas importadas.

Grades Já São Produzidas Localmente e CDM Avança na Aquisição Interna de Cápsulas

A estratégia de incorporação de fornecedores nacionais já apresenta resultados em determinadas categorias de materiais utilizados pela CDM.

Segundo Bruno Tembe, a totalidade das grades de cerveja adquiridas pela empresa é actualmente produzida em Moçambique.

A companhia iniciou igualmente, em 2026, a aquisição exclusiva no mercado nacional de cápsulas do tipo pry-off, utilizadas em garrafas cuja tampa é removida com um abridor.

O administrador explicou que a empresa continua a importar cápsulas de outros tipos, incluindo as designadas twist, bem como latas e garrafas.

Existem também fornecedores nacionais a trabalhar com a CDM no desenvolvimento de materiais de cartão destinados ao acondicionamento de cervejas comercializadas em latas.

Estas experiências demonstram que a substituição de importações pode ocorrer progressivamente, acompanhando o desenvolvimento das capacidades técnicas e dos padrões de qualidade dos fornecedores.

Segundo Tembe, a incorporação de matérias-primas agrícolas nacionais tem apresentado resultados mais favoráveis do que a integração de produtores locais de determinados materiais industriais.

A diferença está associada à natureza dos bens necessários, às exigências tecnológicas e à capacidade existente no mercado.

A indústria cervejeira exige uma cadeia de fornecimento diversificada, que abrange matérias-primas agrícolas, embalagens, equipamentos, serviços logísticos e produtos auxiliares.

O desenvolvimento de fornecedores nacionais nestas diferentes actividades pode contribuir para ampliar as ligações entre grandes unidades industriais e pequenas e médias empresas.

Uma Nova Indústria Poderá Abastecer Também os Mercados da África Austral

A possibilidade de instalar unidades de produção de materiais de embalagem em Moçambique apresenta, segundo a CDM, uma dimensão regional.

Bruno Tembe considera que a localização geográfica do país, com acesso ao Oceano Índico e proximidade aos mercados da África Austral, constitui uma vantagem potencial para investimentos industriais orientados para o abastecimento regional.

Na sua perspectiva, uma unidade fabril instalada em Moçambique poderá beneficiar das infra-estruturas logísticas disponíveis para importar matérias-primas e distribuir produtos acabados.

O administrador destacou que a futura indústria não teria necessariamente de depender exclusivamente da procura da CDM.

Poderia igualmente abastecer outros operadores económicos da região, criando uma base comercial mais ampla para sustentar os volumes de produção.

Esta possibilidade assume importância para sectores industriais em que a competitividade está associada à escala e à utilização intensiva da capacidade instalada.

O mercado regional poderá proporcionar oportunidades adicionais de comercialização, particularmente no âmbito das relações económicas entre os países da SADC.

Contudo, a concretização destes investimentos exigirá avaliações sobre a procura efectiva, os custos de transporte, a concorrência regional e os requisitos técnicos dos potenciais compradores.

A CDM não anunciou ainda compromissos de investimento ou contratos de fornecimento associados à futura indústria de garrafas.

Investimentos Industriais da CDM Identificados em US$ 259 Milhões

A possibilidade de atrair novas unidades industriais surge num contexto de investimentos realizados pela CDM na modernização e expansão da sua própria capacidade produtiva.

Durante a entrevista, Bruno Tembe identificou três grandes investimentos efectuados pela companhia após a privatização de 1995.

A expansão da fábrica de Maputo, com uma nova linha de enchimento, representou um investimento de aproximadamente US$ 13 milhões.

Posteriormente, a empresa investiu US$ 65 milhões na construção de uma unidade fabril em Nampula.

A construção da fábrica de Marracuene representou um investimento adicional de US$ 181 milhões.

Principais investimentos industriais identificados pela CDM

Investimento US$ milhões
Expansão da fábrica de Maputo (nova linha de enchimento)13
Fábrica de Nampula65
Fábrica de Marracuene181
Total259

Fonte: Bruno Tembe, entrevista ao Semanário Económico, Edição 26. Os três investimentos totalizam US$ 259 milhões, não representando necessariamente o investimento histórico total da CDM.

Os investimentos contribuíram para ampliar a capacidade produtiva da empresa e desenvolver novas relações comerciais com fornecedores de matérias-primas, prestadores de serviços e operadores de distribuição.

Bruno Tembe destacou igualmente o papel das unidades industriais na formação de trabalhadores nacionais, incluindo jovens recrutados directamente das instituições de ensino.

Segundo o responsável, a construção da fábrica de Marracuene foi acompanhada por iniciativas de formação de jovens finalistas da Universidade Eduardo Mondlane, que posteriormente tiveram oportunidades de estágio em diferentes unidades industriais do grupo.

A empresa considera que esta abordagem contribuiu para o desenvolvimento de competências técnicas e para a integração de profissionais moçambicanos nas suas estruturas de gestão.

Fábrica de Marracuene Ainda Não Atingiu Capacidade Máxima

Apesar dos investimentos realizados, a CDM reconhece que a sua mais recente unidade industrial ainda não opera na capacidade máxima.

Bruno Tembe explicou que a fábrica de Marracuene, construída com um investimento de US$ 181 milhões, dispõe de capacidade produtiva que poderá ser aproveitada à medida que a procura interna aumente.

A empresa associa as perspectivas de expansão do consumo à evolução da economia nacional, à criação de emprego e ao desenvolvimento dos grandes investimentos previstos no país.

“O maior desafio que nós temos é crescimento em volume. Temos que justificar o investimento que nós fizemos na construção de uma fábrica”, afirmou.

A utilização da capacidade instalada constitui uma variável importante para a eficiência industrial, uma vez que permite distribuir os custos fixos por maiores volumes de produção.

O crescimento das vendas poderá, por isso, contribuir para melhorar a utilização dos investimentos já realizados, embora dependa das condições do mercado e da capacidade de compra dos consumidores.

O administrador reconheceu que a empresa se prepara para aproveitar oportunidades associadas ao desenvolvimento económico, mas destacou que a expansão da procura ainda não permitiu atingir plenamente a capacidade instalada em Marracuene.

Neste contexto, a prioridade imediata da CDM está associada ao crescimento dos volumes de produção e comercialização, antes de uma eventual decisão sobre novas unidades fabris próprias.

Agricultura e Distribuição Alargam Benefícios da Actividade Industrial

A cadeia de valor da CDM estende-se a diferentes actividades económicas, incluindo agricultura, agroprocessamento, transportes, comércio e distribuição.

Segundo Bruno Tembe, a empresa mantém relações com produtores nacionais de milho e mandioca, através de sistemas de fornecimento que envolvem agricultores, unidades de processamento e operadores logísticos.

Estes mecanismos permitem integrar matérias-primas nacionais na actividade industrial e criar oportunidades comerciais para empresas que asseguram o transporte e o processamento dos produtos agrícolas.

A companhia também realiza investimentos no desenvolvimento dos seus canais de distribuição.

Bruno Tembe revelou que, nos últimos cinco anos, a CDM investiu mais de US$ 35 milhões em apoio ao retalho, através de equipamentos, geleiras, mobiliário e outros mecanismos de suporte comercial.

Estes investimentos destinam-se a melhorar a capacidade operacional dos estabelecimentos e as condições de distribuição dos produtos.

O responsável considera que a expansão da actividade industrial gera oportunidades económicas em diferentes etapas da cadeia de valor, desde os produtores agrícolas até aos operadores comerciais que abastecem os consumidores finais.

A integração destas actividades representa uma componente relevante da contribuição económica da indústria transformadora, particularmente quando cria relações comerciais duradouras com empresas nacionais.

Sector Cervejeiro Representa Cerca de 2% do PIB, Segundo a CDM

A dimensão económica da indústria cervejeira foi igualmente destacada por Bruno Tembe, que apresentou estimativas sobre a contribuição do sector para a produção nacional, o emprego e as receitas fiscais.

Segundo o administrador, o sector cervejeiro representa aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto de Moçambique.

A respectiva cadeia de valor contribuiria com cerca de 1,1% do emprego total e 5,8% das receitas fiscais do Estado.

Contribuição estimada do sector cervejeiro

Indicador Peso estimado
Produto Interno Bruto2%
Emprego1,1%
Receitas fiscais5,8%

Fonte: Estimativas apresentadas por Bruno Tembe na entrevista. Indicadores referentes ao sector cervejeiro e à cadeia de valor, não exclusivamente às operações directas da CDM.

Estes valores evidenciam, segundo a empresa, a importância das ligações económicas associadas à produção, distribuição e comercialização de cerveja.

Mercado de Capitais e Participação Nacional no Investimento Industrial

A entrevista permitiu igualmente recuperar um aspecto relevante da estrutura empresarial da CDM: a participação de investidores moçambicanos no seu capital social.

Bruno Tembe recordou que, em 2001, o Estado promoveu a disponibilização de 28 milhões de acções da companhia, criando condições para uma maior participação de investidores nacionais.

Segundo o administrador, a CDM aproxima-se actualmente dos quatro mil accionistas moçambicanos, entre pequenos e médios investidores.

O responsável destacou que os accionistas dispõem de direitos de participação nas assembleias gerais e nas decisões societárias, de acordo com as disposições estatutárias aplicáveis.

A experiência foi apresentada como um exemplo da participação de investidores nacionais no capital de uma grande unidade industrial.

A ligação entre mercado de capitais e financiamento empresarial constitui uma dimensão importante do processo de industrialização, uma vez que permite diversificar as fontes de financiamento e ampliar a base de investidores.

No caso da CDM, a participação de accionistas moçambicanos representa também uma componente da sua integração na economia nacional.

Substituição de Importações Abre Perspectivas Para Novas Cadeias Industriais

A disponibilidade da CDM para apoiar a viabilização de uma futura indústria de garrafas representa uma oportunidade de desenvolvimento de novas actividades industriais associadas às necessidades de grandes empresas estabelecidas em Moçambique.

A existência de um potencial comprador de referência poderá facilitar a avaliação comercial do investimento e proporcionar maior previsibilidade à procura de determinados produtos.

A produção local de materiais de embalagem poderia contribuir para reduzir importações, desenvolver fornecedores nacionais e criar oportunidades de emprego e investimento.

A experiência da CDM na incorporação de grades e cápsulas produzidas localmente demonstra que a substituição de determinados bens importados pode ocorrer mediante o desenvolvimento de capacidades industriais adequadas.

Os projectos actualmente em discussão com o Governo encontram-se, porém, numa fase anterior à confirmação de investimentos concretos.

A viabilidade de uma indústria de garrafas exigirá estudos sobre escala de produção, custos energéticos, matérias-primas, financiamento, tecnologias disponíveis e mercados de destino.

A possibilidade de abastecer consumidores da África Austral poderá ampliar a base comercial do projecto, mas dependerá das condições de competitividade e da procura regional.

A principal novidade revelada por Bruno Tembe é a existência de contactos entre a CDM e entidades governamentais para atrair investimentos industriais que utilizem a companhia como cliente-âncora.

A iniciativa introduz uma perspectiva concreta de articulação entre grandes empresas, substituição de importações e desenvolvimento de fornecedores, num contexto em que a disponibilidade de divisas e a expansão da capacidade produtiva nacional constituem preocupações importantes da economia moçambicana.