
Standard Bank Antecipa Ajustamento Macroeconómico Inevitável em 2027 e Crescimento de Apenas 2,3%
Economista-chefe Fáusio Mussá alerta que a consolidação fiscal, uma maior flexibilidade cambial e reformas estruturais serão necessárias para recuperar a estabilidade económica, independentemente de um novo programa com o FMI. Banco prevê crescimento inferior ao ritmo populacional e admite expansão económica de dois dígitos a partir do último trimestre de 2028, impulsionada pelos projectos de GNL, mas sem benefícios fiscais e sociais imediatos.
Questões-Chave:
- Ajustamento macroeconómico: Standard Bank considera inevitável a adopção de medidas de consolidação fiscal e reformas estruturais em 2027, com ou sem financiamento do FMI;
- Crescimento económico: Banco projecta expansão do PIB de 2,3% em 2027, abaixo do crescimento populacional estimado em 2,7%;
- Dívida pública: Sustentabilidade das finanças públicas e condições de financiamento do Estado continuam a representar desafios centrais para a estabilidade macroeconómica;
- Mercado cambial: Escassez de divisas condiciona a actividade empresarial e o investimento, levando o economista-chefe a defender maior flexibilidade cambial;
- Gás natural: Projectos de GNL poderão impulsionar taxas de crescimento de dois dígitos a partir do último trimestre de 2028, segundo as perspectivas do Banco;
- Crescimento inclusivo: Expansão associada ao gás não deverá produzir imediatamente aumentos substanciais de receitas fiscais ou emprego.
Standard Bank Considera Inevitável Ajustamento Macroeconómico em 2027
O Standard Bank antecipa que Moçambique enfrentará um período de ajustamento macroeconómico em 2027, marcado pela necessidade de consolidação fiscal, maior flexibilidade cambial e reformas estruturais, num contexto de pressões sobre a dívida pública, escassez de moeda estrangeira e recuperação moderada da actividade económica. A instituição prevê um crescimento de apenas 2,3% para o próximo ano, inferior ao ritmo de expansão populacional, estimado em 2,7%, apontando para a continuidade das dificuldades de melhoria do rendimento médio e das condições de vida.
As perspectivas foram apresentadas pelo economista-chefe do Standard Bank, Fáusio Mussá, durante a 23.ª edição do Economic Briefing, realizada na quinta-feira, 5 de Novembro, em Maputo, subordinada ao tema «Moçambique num Ponto de Inflexão: Reformas, Estabilidade Macroeconómica e Condições para o Crescimento».
A análise coloca a sustentabilidade das finanças públicas entre os principais desafios da economia moçambicana, num momento em que o Estado enfrenta restrições de financiamento e as empresas continuam a reportar dificuldades relacionadas com a disponibilidade de divisas.
“Com ou sem um programa de financiamento com o Fundo Monetário Internacional, um ajustamento macroeconómico é inevitável”, afirmou Fáusio Mussá.
A declaração aponta para a necessidade de medidas de correcção dos desequilíbrios económicos, independentemente da eventual negociação de um novo programa financeiro com o FMI.
Segundo a avaliação apresentada, a consolidação fiscal constitui uma condição importante para melhorar a estabilidade macroeconómica e recuperar condições de financiamento mais favoráveis.
A instituição considera igualmente que as reformas deverão contribuir para criar um ambiente mais favorável ao investimento privado, particularmente nas actividades económicas não directamente associadas à exploração de recursos naturais.
Economia Deverá Crescer Abaixo do Ritmo Populacional em 2027
Uma das conclusões mais relevantes do Economic Briefing prende-se com a diferença entre o crescimento económico projectado e a evolução demográfica.
De acordo com o Standard Bank, o Produto Interno Bruto deverá registar uma expansão real de aproximadamente 2,3% em 2027, enquanto a população crescerá a um ritmo estimado de 2,7%.
Perspectivas para 2027 — Standard Bank
| Indicador | 2027 |
|---|---|
| Crescimento do PIB | 2,3% |
| Crescimento populacional | 2,7% |
| Diferença entre as taxas | −0,4 pp |
Fonte: Standard Bank, 23.º Economic Briefing, 5 de Novembro de 2026. Projecções, não resultados realizados.
Esta diferença implica que a produção económica total deverá aumentar a um ritmo inferior ao da população, traduzindo-se, se as previsões se confirmarem, numa ligeira redução do PIB real por habitante.
Em termos aproximados, a combinação destas duas taxas corresponde a uma contracção de 0,4% no PIB real per capita em 2027.
A evolução evidencia a dimensão do desafio enfrentado por uma economia que necessita de criar emprego e aumentar os rendimentos de uma população em crescimento.
Embora o PIB possa apresentar uma trajectória positiva, a expansão projectada revela-se insuficiente para assegurar uma melhoria generalizada do rendimento médio.
Na avaliação apresentada pelo Standard Bank, este desempenho limita igualmente a capacidade de produzir avanços significativos na redução da pobreza e na absorção de novos trabalhadores pelo mercado de emprego.
A perspectiva contrasta com as necessidades de crescimento de uma economia caracterizada por uma população jovem e por elevadas exigências de investimento em capital humano, infra-estruturas e actividades produtivas.
Dívida Pública e Consolidação Fiscal Constituem Desafios Centrais
A sustentabilidade das finanças públicas ocupa uma posição determinante na avaliação do Standard Bank sobre as perspectivas económicas para 2027.
Fáusio Mussá identificou as pressões sobre a dívida pública como um dos principais riscos à estabilidade macroeconómica, defendendo avanços na consolidação fiscal para melhorar as condições de financiamento do Estado.
A avaliação encontra correspondência nas conclusões do FMI divulgadas em Fevereiro de 2026, no âmbito da consulta do Artigo IV.
Nesse exercício, o Fundo considerou que a dívida pública moçambicana se encontrava numa trajectória insustentável sob as políticas então vigentes, destacando a necessidade de um ajustamento fiscal credível, melhoria da gestão da dívida e maior disciplina na utilização dos recursos públicos.
Fonte: FMI, consulta do Artigo IV, Fevereiro de 2026.
O FMI identificou ainda dificuldades crescentes de financiamento do Estado e riscos associados à dependência de instrumentos de dívida interna de curto prazo.
A persistência de necessidades elevadas de financiamento público constitui um factor de risco para a economia, particularmente quando os recursos disponíveis no sistema financeiro são direccionados para o financiamento do Estado em detrimento do crédito ao sector privado.
O relatório do Fundo observou que a expansão do endividamento público junto da banca doméstica pode limitar o financiamento disponível para empresas, afectando a actividade económica e o investimento.
Fonte: FMI, consulta do Artigo IV, Fevereiro de 2026.
Neste contexto, a consolidação fiscal apresenta implicações que ultrapassam as contas públicas, afectando igualmente as condições monetárias, o funcionamento do sistema financeiro e a capacidade de investimento empresarial.
O Standard Bank considera que as reformas deverão contribuir para recuperar a confiança e criar condições para um crescimento económico mais sustentável.
A instituição não apresentou, na informação divulgada sobre o encontro, um programa detalhado de medidas fiscais, nem quantificou a dimensão do ajustamento que considera necessário em 2027.
Escassez de Divisas Exige Maior Flexibilidade Cambial
A disponibilidade de moeda estrangeira constitui outro dos principais constrangimentos identificados pelo economista-chefe do Standard Bank.
Segundo Fáusio Mussá, as dificuldades existentes no mercado cambial afectam a actividade económica e o investimento, particularmente nas empresas que operam fora do sector dos recursos naturais.
O economista defendeu uma maior flexibilidade cambial como parte das medidas necessárias para restabelecer melhores condições de funcionamento da economia.
A questão reveste-se de particular importância para as empresas que dependem de importações de matérias-primas, equipamentos, produtos intermédios e serviços adquiridos no exterior.
A escassez de divisas pode provocar atrasos no abastecimento, aumentar os custos de transacção e comprometer decisões de investimento, afectando a capacidade produtiva das empresas.
A situação cambial foi igualmente analisada pelo FMI, que, na consulta de Fevereiro, considerou necessária uma maior flexibilidade da taxa de câmbio, articulada com medidas de consolidação fiscal, para apoiar o ajustamento da economia às condições externas.
Fonte: FMI, consulta do Artigo IV, Fevereiro de 2026.
Contudo, uma eventual alteração do regime cambial exige considerar os seus efeitos sobre os preços internos, os custos de importação e as obrigações financeiras denominadas em moeda estrangeira.
A avaliação do Standard Bank aponta para a necessidade de tratar os desequilíbrios fiscais e cambiais de forma articulada, evitando que medidas isoladas produzam resultados limitados.
A informação divulgada não especifica, entretanto, qualquer trajectória cambial projectada para 2027, nem apresenta uma estimativa de eventual desvalorização do metical.
GNL Poderá Impulsionar Crescimento de Dois Dígitos a Partir do Final de 2028
Apesar das perspectivas de crescimento moderado no curto prazo, o Standard Bank identifica nos projectos de Gás Natural Liquefeito (GNL), localizados na Bacia do Rovuma, um potencial importante de aceleração da actividade económica no médio prazo.
Fáusio Mussá considera que o avanço destes empreendimentos poderá impulsionar a economia moçambicana para taxas de crescimento de dois dígitos a partir do último trimestre de 2028.
A projecção reflecte o peso económico dos grandes projectos de gás e a possibilidade de a intensificação da actividade associada aos investimentos produzir uma aceleração expressiva do PIB.
Contudo, o economista alertou que este crescimento poderá apresentar efeitos limitados, no curto prazo, sobre as receitas públicas e a criação de emprego.
A expansão da produção e do investimento em sectores de elevada intensidade de capital nem sempre se traduz, de forma imediata, em aumentos proporcionais do emprego ou do rendimento das famílias.
Da mesma forma, os benefícios fiscais associados aos grandes projectos podem ocorrer em períodos diferentes das fases de construção, entrada em operação e expansão da produção.
A análise do Standard Bank distingue, por isso, a aceleração potencial do PIB dos efeitos mais amplos sobre a economia nacional.
A previsão de taxas de dois dígitos refere-se a uma possibilidade a partir do último trimestre de 2028, não constituindo uma previsão de crescimento anual de dois dígitos para todo esse exercício.
Também não corresponde a uma garantia de entrada simultânea em produção de todos os projectos de GNL.
Crescimento Associado ao Gás Poderá Não Produzir Benefícios Sociais Imediatos
A perspectiva de aceleração económica associada ao GNL foi acompanhada por um alerta sobre a necessidade de desenvolver condições para um crescimento mais inclusivo.
Fáusio Mussá considera que os grandes investimentos energéticos poderão contribuir significativamente para os indicadores macroeconómicos, mas os seus benefícios para a população exigirão medidas adicionais.
“As sementes para esse crescimento mais inclusivo ainda precisam de ser lançadas. Pode ser que no próximo ano haja reformas nessa direcção”, afirmou.
A declaração destaca a importância das reformas estruturais para fortalecer a capacidade de participação da economia nacional nos ciclos de investimento associados aos recursos naturais.
O desenvolvimento de fornecedores, a criação de competências profissionais, a expansão do crédito ao sector privado e a melhoria das condições de investimento constituem dimensões relevantes para ampliar os efeitos económicos dos grandes projectos.
O Standard Bank considera que o país necessita de fortalecer a diversificação económica, permitindo que o crescimento associado ao gás seja acompanhado por maior actividade produtiva noutros sectores.
A agricultura, a indústria transformadora e os serviços constituem áreas em que a expansão empresarial poderá contribuir para gerar oportunidades de emprego e rendimento.
A distinção apresentada pelo economista-chefe evidencia um dos desafios estruturais da economia moçambicana: assegurar que o crescimento do PIB seja acompanhado por melhorias mais amplas na actividade económica e nas condições de vida.
Riscos Internacionais Podem Manter Pressão Sobre Combustíveis e Alimentos
No enquadramento internacional, o Standard Bank antecipa a continuidade das tensões geopolíticas e dos conflitos como factores relevantes para a evolução da economia mundial.
A instituição destacou particularmente a situação no Médio Oriente, considerando que os riscos associados à oferta de combustíveis e fertilizantes poderão continuar a influenciar os preços internacionais.
A persistência destes constrangimentos poderá igualmente afectar os preços dos alimentos e os níveis de inflação.
Para economias dependentes da importação de combustíveis, fertilizantes e determinados bens alimentares, as oscilações dos mercados internacionais constituem factores importantes para os custos de produção e o poder de compra.
Apesar dos riscos existentes, o Standard Bank projecta que o crescimento económico mundial se mantenha relativamente resiliente, situando-se entre 3% e 3,4%.
A instituição reconhece, contudo, a possibilidade de desaceleração, particularmente caso se intensifiquem as tensões geopolíticas ou ocorram novos choques sobre os preços das matérias-primas.
O cenário internacional acrescenta, assim, factores de incerteza às perspectivas de recuperação económica de Moçambique, particularmente nas componentes de inflação, abastecimento e custos de produção.
Standard Bank Apela à Cooperação Para Enfrentar Desafios Económicos
Na abertura do encontro, o administrador-delegado interino do Standard Bank, Agnaldo Mavera, destacou a importância do diálogo entre os diferentes intervenientes económicos para identificar soluções e melhorar a qualidade das decisões.
Segundo Mavera, o Economic Briefing constitui uma plataforma de partilha de conhecimento e análise, destinada a apoiar empresas, investidores e outros agentes económicos na compreensão dos riscos e oportunidades.
“Da nossa parte, queremos participar neste diálogo com sentido de responsabilidade e foco em soluções. É esse o propósito deste Economic Briefing: ajudar-nos a compreender melhor os riscos, identificar oportunidades e tomar decisões mais informadas”, afirmou.
O responsável considerou que a actividade do Standard Bank compreende também o acompanhamento dos desafios enfrentados pelos clientes e o apoio às respectivas decisões de investimento e crescimento.
A 23.ª edição do encontro reuniu representantes do Governo, instituições financeiras, corpo diplomático, associações empresariais, clientes e parceiros do Banco.
O painel de debate contou com a participação de Alfredo Mutombene, Director Nacional de Análises Fiscais e Financeiras do Ministério das Finanças, e Olamide Harrison, Representante Residente do FMI em Moçambique.
As discussões incidiram sobre as reformas fiscais, a sustentabilidade das finanças públicas e as condições necessárias para estimular um novo ciclo de investimento.
Entre o Ajustamento de 2027 e o Potencial de Crescimento do Gás
As perspectivas apresentadas pelo Standard Bank estabelecem dois horizontes distintos para a economia moçambicana.
No curto prazo, 2027 apresenta-se como um período de ajustamento macroeconómico, marcado pela necessidade de enfrentar os desequilíbrios fiscais e cambiais e melhorar as condições de financiamento.
A projecção de crescimento de 2,3%, abaixo da expansão populacional estimada, evidencia as dificuldades de recuperação do rendimento médio e de criação de oportunidades económicas suficientes para responder às necessidades do país.
No médio prazo, os projectos de GNL poderão introduzir uma aceleração expressiva da actividade económica, com possibilidade de crescimento de dois dígitos a partir do último trimestre de 2028.
Contudo, a análise de Fáusio Mussá destaca que a expansão associada ao gás poderá não proporcionar, de imediato, um aumento significativo do emprego ou das receitas do Estado.
A combinação destes dois cenários atribui particular importância às reformas estruturais, à consolidação fiscal e à melhoria das condições de investimento privado.
O diagnóstico apresentado aproxima-se das preocupações identificadas pelo FMI sobre a sustentabilidade da dívida pública e a necessidade de corrigir os desequilíbrios macroeconómicos.
A mensagem central do Economic Briefing é que a recuperação da estabilidade económica exige decisões de política fiscal e cambial no curto prazo, enquanto a capacidade de transformar o futuro crescimento associado ao GNL em desenvolvimento mais abrangente requer reformas que estimulem a diversificação produtiva, o investimento e o emprego.
















