
Crookes Brothers Sai da Murrimo Após Perdas de R300,8 Milhões eAdensa Debate Sobre Competitividade do Investimento em Moçambique
Grupo sul-africano acordou vender por um valor nominal de US$2 a operação de macadâmia que detém no Gurué. Rendimentos agrícolas abaixo das expectativas, queda dos preços internacionais, dívida, complexidade operacional e riscos estruturais e de país pesaram na decisão. O caso surge num contexto em que o sector privado continua a apontar fiscalidade, acesso a divisas, custos de produção, burocracia e previsibilidade regulatória entre os principais constrangimentos ao investimento em Moçambique.
Questões-Chave:
- Crookes Brothers acordou vender 100% da Murrimo Macadamia e Murrimo Farming à AgDevCo por um valor nominal agregado de US$2;
- Operação registou perdas agregadas de R300,8 milhões no exercício terminado em Março de 2026 e acumulou imparidades de R326,7 milhões;
- Cerca de US$5 milhões de dívida e US$500 mil de juros à AgDevCo serão extintos com a concretização da transacção;
- Crookes Brothers aponta rendimentos agrícolas abaixo das expectativas e queda do preço da macadâmia, a par da dívida, complexidade operacional e riscos estruturais e de país;
- CTA identifica escassez de divisas, custos dos combustíveis, dívida do Estado às empresas, burocracia, fiscalidade e infra-estruturas entre os constrangimentos à actividade empresarial;
- Governo reconhece a necessidade de reformas e anunciou medidas dirigidas à agricultura, incluindo IRPC de 10%, tarifas reduzidas de energia e combustíveis e mudanças no acesso à terra.
A decisão da Crookes Brothers de abandonar o seu investimento em macadâmia em Moçambique, depois de perdas acumuladas significativas, coloca novamente no centro do debate as condições de competitividade, rentabilidade e retenção do investimento produtivo no País, particularmente num sector agrícola que o Governo considera estratégico para a transformação estrutural da economia.
O grupo agro-industrial sul-africano acordou vender à instituição britânica de financiamento ao desenvolvimento AgDevCo 100% da Murrimo Macadamia Limitada e da Murrimo Farming Limitada por um valor nominal agregado de apenas US$2.
O preço, apesar do impacto imediato que produz, não traduz isoladamente o valor económico da transacção. A operação permitirá à Crookes Brothers retirar do balanço uma dívida de aproximadamente US$5 milhões, acrescida de cerca de US$500 mil em juros, contraída junto da própria AgDevCo.
Segundo a informação comunicada pela Crookes Brothers aos investidores em Setembro, a conclusão da operação está prevista até 31 de Dezembro de 2026, dependendo ainda das necessárias aprovações regulatórias e relacionadas com investimento estrangeiro em Moçambique.
584 Hectares De Macadâmia No Gurué
A Murrimo Macadamia desenvolve uma exploração agrícola no distrito do Gurué, província da Zambézia, com aproximadamente 584 hectares de pomares de macadâmia, implantados numa área de cerca de 3.193 hectares abrangida por um Direito de Uso e Aproveitamento da Terra de 50 anos, atribuído em Julho de 2012.
A actividade compreende a implantação e manutenção dos pomares, colheita, descasque e secagem na própria exploração, com a produção de macadâmia em casca destinada principalmente aos mercados de exportação.
O investimento inscrevia-se na estratégia de diversificação geográfica e agrícola da Crookes Brothers, grupo com operações agrícolas na África Austral e exposição a culturas como cana-de-açúcar, banana e macadâmia.
Os resultados, contudo, ficaram progressivamente distantes das expectativas.
No exercício terminado em 31 de Março de 2026, a Murrimo Macadamia e a Murrimo Farming registaram uma perda agregada de R300,8 milhões. Os activos líquidos atribuíveis às duas empresas foram avaliados em zero.
Nos resultados anuais de 2026, a Crookes Brothers reconheceu uma imparidade adicional de R258,8 milhões relacionada com a operação moçambicana. Somada às imparidades anteriores, a redução acumulada do valor do investimento na Murrimo atingiu R326,7 milhões.
A deterioração teve dimensão suficiente para afectar os resultados do próprio grupo. A Crookes Brothers encerrou o exercício com uma perda operacional de R239,5 milhões, depois de ter registado um lucro operacional de R132,5 milhões no exercício anterior, segundo os resultados financeiros divulgados pela empresa.
Produção Abaixo Das Expectativas E Preços Pressionaram Rentabilidade
Os problemas da Murrimo não podem, contudo, ser explicados exclusivamente pelo ambiente de negócios moçambicano.
Na actualização financeira divulgada em Junho, a Crookes Brothers identificou dois factores directamente relacionados com a economia da própria cultura: os rendimentos agrícolas da operação não atingiram os níveis antecipados e os preços da macadâmia caíram para patamares que tornaram o negócio comercialmente insustentável.
A pressão internacional sobre a cultura vinha sendo observada há vários anos. A própria AgDevCo assinalou anteriormente que a redução da procura chinesa tinha provocado uma queda dos preços internacionais da macadâmia, pressionando produtores africanos e aumentando a importância de custos de produção competitivos.
A combinação entre produtividade abaixo das expectativas e preços desfavoráveis reduziu a capacidade da Murrimo de gerar os fluxos necessários para suportar a estrutura operacional e financeira do investimento.
A Crookes Brothers realizou posteriormente uma revisão estratégica, considerando diferentes cenários de preços, financiamento e endividamento.
A conclusão foi que, sob pressupostos conservadores de preços, a Murrimo continuaria a necessitar de apoio financeiro adicional e apresentaria perspectivas limitadas de atingir equilíbrio de caixa no curto prazo.
Mesmo em cenários mais favoráveis, o grupo identificou a dívida, a complexidade operacional e riscos estruturais e associados ao país entre os factores que condicionavam a sustentabilidade do investimento.
US$8 Milhões De Financiamento E Pressão Da Dívida
A estrutura financeira tornou-se outro elemento central.
Em Novembro de 2020, a Crookes Brothers assegurou junto da AgDevCo um empréstimo a dez anos no valor máximo de US$8 milhões para financiar a expansão da operação de macadâmia em Moçambique.
Foram utilizados US$5 milhões da facilidade.
O financiamento previa uma taxa de juro de 8% ao ano e um período inicial de cinco anos sem amortização do capital. Os reembolsos deveriam começar em Dezembro de 2026, através de cinco prestações anuais de US$1,6 milhão, terminando em Dezembro de 2030.
À medida que a rentabilidade da operação se deteriorava, esta estrutura aumentava a pressão financeira. No exercício de 2025/26, a Murrimo entrou em incumprimento de determinados compromissos financeiros associados ao empréstimo.
Quando a venda foi acordada, permaneciam por liquidar US$5 milhões de capital e aproximadamente US$500 mil de juros.
Com a concretização da transacção, a AgDevCo assumirá a operação e a dívida será extinta, permitindo à Crookes Brothers retirar essa exposição das suas demonstrações financeiras.
A instituição comprometeu-se ainda a disponibilizar até US$600 mil para financiar a continuidade das actividades até à conclusão da transacção ou, se necessário, apoiar um processo de encerramento ordenado.
De Expectativa De Lucro À Decisão De Saída
A evolução recente da Murrimo evidencia a rapidez com que as perspectivas do investimento se alteraram.
No relatório referente ao exercício anterior, a Crookes Brothers ainda projectava que a operação pudesse evoluir para a rentabilidade à medida que os pomares amadurecessem e a estrutura de dívida fosse reduzida.
A deterioração subsequente dos resultados, associada ao comportamento dos preços e ao desempenho produtivo, levou o Conselho de Administração a rever a estratégia.
Em Junho de 2026, o grupo decidiu abandonar o segmento da macadâmia e concentrar capital e capacidade de gestão nas operações de cana-de-açúcar e banana, onde considera possuir vantagens competitivas mais consolidadas.
A empresa deixou de disponibilizar financiamento à Murrimo a partir de Janeiro de 2026.
Crookes Brothers e AgDevCo procuraram ainda encontrar um comprador externo para o investimento, mas, segundo a informação comunicada ao mercado, não foi possível identificar um investidor adequado. A transferência da operação para a própria credora acabou por ser considerada a solução mais favorável aos interesses do grupo e dos seus accionistas.
Caso Murrimo Surge Num Ambiente Empresarial Ainda Pressionado
Os factores específicos da Murrimo não eliminam, entretanto, uma segunda dimensão do caso: a decisão acontece num período em que empresas e organizações empresariais continuam a reportar dificuldades significativas na operação e expansão dos investimentos em Moçambique.
Os dados mais recentes da Confederação das Associações Económicas de Moçambique mostram uma recuperação ainda limitada da actividade empresarial.
Segundo o Índice de Robustez Empresarial apresentado pela CTA em Setembro, o desempenho das empresas aumentou de 26% no primeiro trimestre para 27% no segundo trimestre de 2026.
O ambiente macroeconómico melhorou de 55% para 58%, enquanto os prejuízos médios por unidade produzida diminuíram de 522 para 483 Meticais.
A CTA considera, contudo, que a evolução não significa que os problemas estruturais tenham sido ultrapassados.
Entre os principais constrangimentos identificados pela organização encontram-se as restrições no mercado cambial, que afectam a importação de matérias-primas e equipamentos, dívidas do Estado ao sector privado, degradação das infra-estruturas rodoviárias, burocracia e aumento dos custos dos combustíveis, com efeitos sobre agricultura, indústria e transportes.
Agricultura Confrontada Com Custos, Financiamento E Fiscalidade
As preocupações tornam-se particularmente relevantes quando observadas especificamente no sector agrícola.
Num encontro realizado em Maio entre a CTA e o Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, o sector privado identificou dificuldades de acesso ao financiamento e aos mercados, baixa produtividade, custos elevados, infra-estruturas deficientes, alterações climáticas, entraves administrativos e fiscais, dificuldades no acesso à terra e escassez de divisas entre os factores que limitam investimento e competitividade.
A fiscalidade ocupa uma posição importante nesta discussão.
A CTA propôs a extensão e consolidação da taxa reduzida de 10% do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas para a agricultura, em contraposição à taxa geral de 32%.
Na ocasião, o Ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Albino, informou que o Governo estava a trabalhar para tornar permanente a taxa de 10% aplicada à agricultura, então de natureza temporária.
O tratamento do IVA constitui outro ponto de preocupação.
Segundo a CTA, várias empresas agrícolas suportam IVA na compra de equipamentos e factores de produção sem conseguirem recuperar efectivamente esses montantes, convertendo o imposto num custo adicional para actividades caracterizadas por ciclos produtivos longos e necessidades elevadas de capital.
O sector privado tem igualmente defendido linhas de crédito de longo prazo, garantias públicas, seguros adaptados aos ciclos agrícolas e intervenções destinadas a reduzir os custos de electricidade e combustíveis.
Previsibilidade Regulatória Entra Na Equação Do Investimento
As preocupações ultrapassam a agricultura.
No diálogo entre Governo e sector privado realizado em Julho, a CTA voltou a chamar atenção para custos de conformidade e complexidade administrativa associados a alterações no IVA, IRPC, IRPS, ISPC e ICE.
A organização empresarial defendeu maior previsibilidade e segurança jurídica, harmonização institucional na aplicação dos benefícios fiscais, consultas mais abrangentes antes da aprovação de novos diplomas e avaliações do impacto das medidas regulatórias sobre as empresas.
A previsibilidade assume relevância económica porque decisões de investimento de longo prazo — sobretudo na agricultura, onde os activos levam vários anos até atingirem plena capacidade produtiva — são construídas sobre pressupostos relativos à fiscalidade, financiamento, custos dos factores, acesso aos mercados e estabilidade das regras.
Alterações frequentes ou custos inesperados aumentam o prémio de risco exigido pelos investidores e podem alterar a relação entre retorno esperado e capital investido.
O caso Murrimo ilustra também essa sensibilidade. Um investimento agrícola de maturação longa enfrenta simultaneamente risco de preço, produtividade, clima, financiamento, logística, moeda e regulação. Quando vários desses riscos se materializam em simultâneo, a rentabilidade esperada pode deteriorar-se rapidamente.
Governo Anuncia Reformas Para Reduzir Custos E Aumentar Competitividade
O Governo reconhece a persistência destes constrangimentos e tem anunciado medidas destinadas a melhorar as condições de investimento.
No diálogo com o sector privado realizado em Julho, o Executivo apontou como prioridades a redução dos custos de transacção, aumento da eficiência administrativa, simplificação de procedimentos, digitalização dos serviços públicos e reforço da previsibilidade regulatória.
Durante a XXI Conferência Anual do Sector Privado, o Governo apresentou igualmente um conjunto de reformas dirigidas à agricultura.
O Ministro Roberto Albino indicou como prioridades o investimento em irrigação através de parcerias com o sector privado, reforma fundiária, recuperação de terras ociosas e aprovação da nova Lei de Terras.
No domínio fiscal e dos custos de produção, anunciou a aplicação de IRPC de 10% à agricultura, tarifas reduzidas de energia e combustíveis e mudanças destinadas a introduzir maior equidade fiscal nas transacções entre produtores, agro-processadores e comerciantes.
O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, enquadrou, por sua vez, o agronegócio como um dos sectores prioritários para acelerar a industrialização, no quadro do pilar de transformação estrutural da Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044.
A questão desloca-se, assim, progressivamente para o ritmo, alcance e execução das reformas anunciadas.
Atrair Capital E Criar Condições Para A Sua Permanência
A experiência da Murrimo coloca uma dimensão adicional na discussão sobre investimento em Moçambique.
A política de investimento é frequentemente observada através do volume de capital novo mobilizado, número de projectos aprovados ou dimensão dos compromissos anunciados. A permanência dos investidores já instalados, a capacidade de reinvestimento, expansão e geração sustentável de retornos constituem igualmente indicadores relevantes da qualidade do ambiente económico.
Neste sentido, o caso Murrimo deve ser interpretado com cautela.
Os dados disponíveis mostram que a operação sofreu directamente com rendimentos agrícolas abaixo das expectativas, queda dos preços da macadâmia e uma estrutura financeira que se tornou difícil de sustentar. Estes factores são suficientemente relevantes para impedir que a decisão da Crookes Brothers seja apresentada simplesmente como consequência do ambiente de negócios moçambicano.
Ao mesmo tempo, a própria empresa incluiu riscos estruturais e de país entre os factores considerados na sua revisão estratégica, enquanto as organizações empresariais continuam a identificar constrangimentos de natureza fiscal, cambial, financeira, administrativa, logística e regulatória.
A combinação das duas dimensões transforma o episódio num caso relevante para a política económica.
Para uma economia que pretende fazer da agricultura, agroindústria e investimento privado pilares da transformação estrutural, será importante observar não só a capacidade de atrair novos projectos, mas também as condições que determinam a sobrevivência, rentabilidade e expansão dos investimentos existentes.
Os próximos meses permitirão observar a implementação das reformas anunciadas pelo Governo e a sua tradução em custos de operação, acesso ao financiamento, previsibilidade regulatória, liquidez empresarial e confiança dos investidores.
A experiência da Murrimo deixa, entretanto, uma questão económica concreta para o debate sobre o ambiente de negócios: que condições precisa Moçambique de assegurar para que o investimento produtivo instalado consiga permanecer, reinvestir e crescer?














