Dólar Recupera À Espera da Inflação dos EUA e Yen Volta à Zona dos 159 Por Dólar

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  • Moeda norte-americana ganha terreno depois do enfraquecimento provocado pelos dados do emprego, enquanto o Yen devolve quase metade da valorização alcançada após a intervenção conjunta dos Estados Unidos e Japão. Petróleo volta a acrescentar incerteza à trajectória da inflação e dos juros norte-americanos.
Questões-Chave:
  • O índice do dólar avançou cerca de 0,2%, para 99,80 pontos, depois de ter negociado próximo de mínimos de dois meses.
  • O Yen chegou a cair 0,84%, para 159,14 por dólar, na segunda-feira, a maior perda diária em quase cinco meses, e negociava esta terça-feira próximo de 159.
  • A probabilidade implícita de uma subida dos juros da Reserva Federal em Setembro caiu para cerca de 52%, contra 67% há uma semana.
  • O mercado aguarda o CPI de Julho dos Estados Unidos, que será divulgado esta quarta-feira, 12 de Agosto, e poderá voltar a alterar as expectativas sobre a política monetária.
  • A subida do petróleo, com o Brent novamente próximo de 88 dólares por barril, recoloca o risco inflacionista no centro da formação das taxas de câmbio.

Dólar Recupera, Mas Mercado Ainda Não Define Nova Tendência

O dólar norte-americano iniciou a semana a recuperar parte das perdas recentes, num mercado que começa a concentrar praticamente toda a atenção na inflação dos Estados Unidos e nas implicações que os próximos dados poderão ter sobre a trajectória da Reserva Federal.

Na sessão de segunda-feira, o índice dólar, que acompanha o comportamento da moeda norte-americana perante um cabaz das principais divisas, avançou 0,20%, para 99,80 pontos. O euro recuou 0,13%, para 1,1542 dólares.

A recuperação ocorre, porém, depois de uma sequência de factores que retiraram força à perspectiva de um novo aumento dos juros norte-americanos no curto prazo. Os dados do mercado de trabalho divulgados na sexta-feira ficaram significativamente abaixo das expectativas e foram acompanhados por revisões negativas dos números anteriores.

A combinação levou os investidores a reverem as suas expectativas para a reunião de Setembro da Reserva Federal. Segundo dados do mercado de futuros citados pela Reuters, a probabilidade atribuída a uma subida dos juros passou de 67%, uma semana antes, para aproximadamente 52%.

A taxa dos federal funds encontra-se actualmente no intervalo de 3,50% a 3,75%, nível mantido pela Fed desde o início do ano. 

O quadro deixa o dólar numa situação particular: beneficia ainda de taxas de juro relativamente elevadas e da procura associada à incerteza global, mas enfrenta um mercado menos convicto de que a Reserva Federal terá condições para continuar a apertar a política monetária.

Inflação Pode Voltar a Mudar as Apostas Sobre a Fed

A próxima variável capaz de alterar esse equilíbrio chega esta quarta-feira.

O Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos deverá divulgar, às 8h30 de Washington, os dados do Índice de Preços no Consumidor referentes a Julho. 

Mais do que o número isolado da inflação, o mercado estará atento àquilo que os dados poderão dizer sobre a persistência das pressões sobre os preços e, consequentemente, sobre a margem da Reserva Federal para voltar a subir os juros.

A Reuters observa que uma reaceleração da inflação poderá provocar nova revisão das expectativas. Depois do CPI, o mercado receberá ainda os preços no produtor na quinta-feira, formando uma sequência de indicadores particularmente relevante para a definição das expectativas monetárias.

É neste ponto que o petróleo volta a assumir importância cambial.

O Brent regressou esta terça-feira à zona dos 88 dólares por barril, depois de as negociações entre Estados Unidos e Irão sobre um acordo e a reabertura do Estreito de Ormuz terem entrado num impasse. 

Uma permanência prolongada dos preços da energia em níveis elevados poderá dificultar a desaceleração da inflação norte-americana. No mercado cambial, isso tenderia a preservar por mais tempo o diferencial de juros favorável ao dólar.

Yen Devolve Parte Substancial Dos Ganhos da Intervenção

Se o dólar constitui o principal eixo do mercado global, o movimento mais expressivo continua, porém, a ocorrer no Japão.

O Yen caiu 0,84% na segunda-feira, para 159,14 por dólar, naquela que foi a maior desvalorização diária da moeda japonesa em quase cinco meses.

Na manhã desta terça-feira estabilizou próximo de 158,93 por dólar, segundo a Reuters. A moeda já devolveu aproximadamente metade dos ganhos obtidos depois da intervenção conjunta das autoridades japonesas e norte-americanas no mercado cambial. 

No final de Julho, o Yen tinha atingido cerca de 163,99 por dólar, o nível mais fraco em quatro décadas, levando Tóquio e Washington a entrarem conjuntamente no mercado para comprar a moeda japonesa. A intervenção chegou a conduzir o câmbio até aproximadamente 155,20 por dólar nos primeiros dias de Agosto. 

A dimensão da operação foi suficiente para modificar rapidamente o posicionamento dos investidores.

Dados da Commodity Futures Trading Commission citados pela Reuters mostram que as posições especulativas líquidas vendidas em Yen diminuíram em 8,865 mil milhões de dólares, para apenas 3,604 mil milhões de dólares, na semana terminada a 4 de Agosto. Foi a maior redução absoluta das apostas contra a moeda japonesa desde Março de 2014.

A recuperação posterior do dólar/Yen para a zona de 159 mostra, todavia, que uma intervenção cambial consegue modificar rapidamente a posição dos investidores, mas não elimina necessariamente os factores económicos que originaram o desequilíbrio.

Diferencial de Juros Continua a Condicionar o Yen

No centro da fragilidade estrutural do Yen permanece o diferencial entre as taxas de juro do Japão e dos Estados Unidos.

O Financial Times observa que, enquanto a taxa de referência do Banco do Japão permanece em 1%, os juros norte-americanos encontram-se entre 3,50% e 3,75%, mantendo um incentivo significativo para que investidores obtenham financiamento em Yen e procurem activos denominados em moedas com maior remuneração. 

É a lógica conhecida nos mercados como carry trade: enquanto o diferencial de juros permanecer suficientemente amplo, haverá uma força económica que tende a favorecer a venda de Yen e a procura de activos com maior rendimento no exterior.

Por essa razão, o debate começa progressivamente a deslocar-se da intervenção cambial para o Banco do Japão.

O Financial Times refere que alguns analistas admitem uma nova subida dos juros japoneses ainda este ano. Uma alteração mais pronunciada da política monetária japonesa reduziria o diferencial perante os Estados Unidos e poderia proporcionar à moeda um suporte mais estrutural do que sucessivas operações de intervenção. 

Euro Mantém-se Próximo de 1,15 Dólares

No mercado europeu, o euro apresentou movimentos relativamente contidos. A moeda única caiu 0,13% na segunda-feira, para 1,1542 dólares, acompanhando a recuperação do dólar.

O comportamento sugere que, neste momento, a dinâmica euro/dólar está menos associada a novos factores específicos da Zona Euro e mais às alterações das expectativas sobre a Reserva Federal.

Uma inflação norte-americana abaixo das previsões aumentaria a possibilidade de o mercado retirar parte das apostas numa subida de juros, criando condições para um dólar mais fraco e maior valorização do euro. Um indicador de inflação persistentemente elevado produziria, em princípio, o movimento inverso.

Austrália Mantém Juros Em 4,35%

Na Ásia-Pacífico, a outra decisão monetária relevante desta terça-feira veio da Austrália.

O Reserve Bank of Australia manteve a sua taxa directora em 4,35%, confirmando uma decisão amplamente antecipada pelo mercado. 

O dólar australiano tinha negociado próximo de 0,7057 dólares norte-americanos antes da decisão, um máximo de cerca de oito semanas, num contexto em que os investidores continuam igualmente atentos à inflação e ao impacto dos preços energéticos sobre a política monetária australiana. 

Inflação, Petróleo e Juros Voltam a Convergir no Câmbio

A configuração do mercado cambial internacional nesta terça-feira apresenta, assim, três forças que começam novamente a convergir.

A primeira é a inflação norte-americana, que poderá redefinir já esta quarta-feira as probabilidades atribuídas a uma nova subida dos juros da Fed.

A segunda é o petróleo. A subida do Brent para perto dos 88 dólares recoloca a energia como possível obstáculo à desaceleração da inflação, numa altura em que o mercado começava a reduzir as expectativas de maior aperto monetário.

A terceira é o Yen, cuja rápida perda de parte dos ganhos obtidos após a intervenção EUA–Japão evidencia a importância que os diferenciais de juros continuam a exercer sobre os fluxos cambiais internacionais.

O resultado é um dólar que recupera, mas cuja trajectória permanece aberta. O indicador de inflação de Julho poderá determinar se a actual valorização se transforma num movimento mais consistente ou se o mercado volta a privilegiar a perspectiva de uma Reserva Federal menos inclinada a aumentar novamente os juros.

Para economias como Moçambique, onde o dólar permanece central na facturação das importações de combustíveis, equipamentos e diversos bens intermédios, a combinação entre dólar internacional, petróleo e taxas de juro norte-americanas continua a constituir uma variável externa relevante para os custos de importação, inflação e condições financeiras.

A actualização desta manhã torna o Yen e a eficácia da intervenção cambial um segundo eixo analítico particularmente forte, sem retirar ao dólar a primazia editorial. O CPI norte-americano de quarta-feira, 12 de Agosto, será o próximo grande catalisador.